Quem é
Marcela é a pastora de que os cabreiros falam no capítulo XII da Primeira Parte: filha do lavrador Guilherme, órfã de pai e mãe, rica, criada com muito recato por um tio sacerdote, que não quis casá-la sem o consentimento dela. Um dia amanheceu vestida de pastora, apesar do tio e do povoado inteiro, e passou a andar pelos ermos com um rebanho, seguida por rapazes ricos, fidalgos e lavradores que se vestiram de pastor para cortejá-la. Um deles, Grisóstomo, estudante de Salamanca, morre, e dizem que de amores por ela. Marcela só aparece em pessoa no capítulo XIV da Primeira Parte, sobre a rocha onde se cava a sepultura, e o que faz ali é defender-se em voz alta diante de todos, sem esperar resposta. Quer viver em solidão; teme ser obrigada a amar por ser bela; sabe que a beleza lhe foi dada de graça pelo céu e que não pode ser culpada por ela; e se engana, talvez, ao supor que a razão que ela diz ter bastará contra a aldeia, que já escolheu para a lápide de Grisóstomo o epitáfio que a culpa. Passa pelo livro em três capítulos e fica nele como a figura em que o romance põe a liberdade que Dom Quixote só sabia louvar no passado.
Trajetória
No capítulo XII da Primeira Parte ela ainda não aparece, e a narração é de quem a conta. Pedro, um cabreiro, narra a Dom Quixote quem era Grisóstomo e quem é a pastora. Faz questão de defendê-la, e quem a defende é o mesmo cabreiro que vai condená-la:
Y no se piense que porque Marcela se puso en aquella libertad y vida tan suelta y de tan poco o de ningún recogimiento, que por eso ha dado indicio, ni por semejas, que venga en menoscabo de su honestidad y recato, e não se pense que, por Marcela ter-se posto naquela liberdade e vida tão solta, e de tão pouco ou nenhum recolhimento, ela tenha dado por isso indício, nem de longe, que venha em menoscabo de sua honestidade e recato.
Marcela saiu ao campo e não deu a ninguém a menor esperança. Da honra, nem a aldeia que tudo murmura tem o que dizer. O que sobra é o efeito que ela produz, e a culpa que lhe imputam não é de vício, é de altivez e de crueldade. Ela não foge nem se esquiva dos pastores e os trata com cortesia e amizade, mas quando um deles lhe descobre a intenção, ainda que seja a justa e santa do matrimônio, ela o lança de si como com um trabuco. É a esse trato que Pedro atribui a calamidade:
hace más daño en esta tierra que si por ella entrara la pestilencia; porque su afabilidad y hermosura atrae los corazones de los que la tratan a servirla y a amarla, pero su desdén y desengaño los conduce a términos de desesperarse, causa mais dano nesta terra do que se por ela entrasse a pestilência; porque a sua afabilidade e formosura atraem os corações dos que a tratam a servi-la e a amá-la, mas o seu desdém e desengano os conduzem a termos de desesperar-se.
Pedro põe lado a lado a afabilidade e o desengano: ela é amável com todos e clara com cada um, e é a clareza que ele chama de dano. A conta é a da aldeia, que sofre o efeito sem pedir a causa: as faias com o nome gravado, as coroas nos troncos, os suspiros em cada encina. Mais uma vez fica de fora a pergunta que Marcela fará no capítulo XIV da Primeira Parte: que dívida tem a beleza com quem a ama?
No capítulo XIII da Primeira Parte, no enterro, Ambrósio faz o elogio do morto, e a lista de cortesias é o preâmbulo de uma acusação:
fue único en el ingenio, solo en la cortesía, estremo en la gentileza, fénix en la amistad, magnífico sin tasa, grave sin presunción, alegre sin bajeza, foi único no engenho, só na cortesia, extremo na gentileza, fênix na amizade, magnífico sem medida, grave sem presunção, alegre sem baixeza.
Quem amou foi aborrecido, adorou e foi desdenhado, rogou a uma fera, importunou um mármore. E é por obediência ao amigo, e não por juízo próprio, que ele vai queimar os papéis. Vivaldo, que quer salvar os escritos, pede os papéis em nome da curiosidade e da lástima, para que a crueldade de Marcela sirva de lição.
No capítulo XIV da Primeira Parte, quando Vivaldo lê a Canção desesperada de Grisóstomo, quem a ouve repara que ela não combina com o que se contou do recato de Marcela, porque nela o poeta se queixa de ciúmes, suspeitas e ausência, em prejuízo do bom crédito dela. Ambrósio explica que ele a escreveu de propósito ausente, e que os ciúmes eram imaginados. Então Marcela aparece sobre a rocha, tão formosa que a beleza passava a fama. Ambrósio, indignado, a chama de basilisco e de filha ingrata que pisa o pai morto, e pergunta o que quer. Marcela responde que vem defender-se, e separa três coisas que os pastores juntam, ser amável, ser amada e dever amar:
mas no alcanzo que, por razón de ser amado, esté obligado lo que es amado por hermoso a amar a quien le ama, mas não alcanço que, por razão de ser amado, esteja obrigado o que é amado por belo a amar quem o ama.
Admite que o belo seja amável e nega que a beleza obrigue: se obrigasse, os desejos seriam infinitos como os belos, e o amor verdadeiro, segundo ela ouviu dizer, não se divide e há de ser voluntário, não forçado. Ela argumenta pela razão natural que diz ter, e não pelo capricho de que a acusam. Acrescenta que não escolheu a beleza que tem, dada de graça pelo céu, e que a víbora não merece culpa pela peçonha que mata; a beleza da mulher honesta é como o fogo apartado ou a espada aguda, que não queimam nem cortam a quem não se aproxima. Depois fala de si:
Yo nací libre, y para poder vivir libre escogí la soledad de los campos. Los árboles destas montañas son mi compañía, las claras aguas destos arroyos mis espejos, eu nasci livre, e para poder viver livre escolhi a solidão dos campos. As árvores destas montanhas são minha companhia, as claras águas destes riachos, meus espelhos.
A liberdade que ela reivindica aqui tem eco na idade de ouro louvada por dom Quixote três capítulos antes:
Marcela escolhe a solidão como quem escolhe um ofício: árvores por companhia, águas por espelho. A liberdade que reivindica é a que dom Quixote, três capítulos antes, pôs na idade em que não havia "teu" nem "meu", e ela a pede para si, aqui e agora; a reação de Ambrósio e dos pastores mostra que a aldeia dela não a aceita sem custo, seja porque essa idade já passou, seja porque nunca existiu.
Marcela completa a defesa pelos fatos: aos que enamorou com a vista, desenganou com as palavras; nunca deu esperança a Grisóstomo nem a ninguém, e quando ele lhe declarou a bondade da sua intenção, naquele mesmo lugar, ela lhe disse que sua vontade era viver em perpétua solidão. Se ele quis navegar contra o vento, afogou-se no golfo do seu desatino: matou-o a porfia, não a crueldade dela. Quem a quiser chamar de fera e basilisco que a deixe, e quem a chamar de ingrata que não a sirva. Tem riquezas próprias, não cobiça as alheias, tem livre condição e não gosta de sujeitar-se: nem quer nem aborrece ninguém, e seus desejos têm por limite as montanhas. Sem esperar resposta, vira as costas e se embrenha no mato mais cerrado.
Alguns dos feridos pela flecha dos seus olhos fazem menção de segui-la, sem aproveitar o desengano que ouviram. É então que dom Quixote, pensando que ali vinha a propósito usar de sua cavalaria, põe a mão no punho da espada e proíbe, em altas e inteligíveis vozes, que alguém siga a formosa Marcela, sob pena de cair em sua furiosa indignação: ela mostrou com razões claras e suficientes a pouca ou nenhuma culpa que tem. O fidalgo age porque o caso cabe no ofício, há uma donzela que os homens perseguem e ele tem uma espada. Falta-lhe o que a cavalaria pressupõe, uma dama que peça socorro, pois Marcela pediu apenas que a deixassem sozinha, e a ajuda dele só repete, com a mão no punho, a conclusão a que ela já tinha chegado. Os pastores não se movem, seja pelas ameaças dele, seja porque Ambrósio lhes lembra o que devem ao amigo: acabam a sepultura e queimam os papéis. Antes de pôr o corpo na cova, Ambrósio anuncia a lápide que mandará fazer:
Yace aquí de un amador el mísero cuerpo helado, que fue pastor de ganado, perdido por desamor, aqui jaz, de um amante, / o mísero corpo gelado, / que foi pastor de gado, / perdido por desamor.
Ambrósio acaba de ouvir Marcela dizer que a porfia matou Grisóstomo, e escolhe os versos que a culpam: o resto do epitáfio manda dizer que ele morreu às mãos do rigor de uma formosa esquiva e ingrata. Duas leituras: é o pesar do amigo, que escreve o que o morto escreveria, ou é a lápide que diz o que a aldeia quer ler, e então o discurso de Marcela fica sem lugar na pedra. O fidalgo decide ir buscá-la para lhe oferecer tudo o que puder em seu serviço, mas, avisa o narrador, não lhe aconteceu como pensava, e o livro não a mostra de novo.
Temas que encarna
Marcela é a Liberdade e opressão posta em voz de mulher: a liberdade que ela reivindica não é a de um estado ideal, é a de quem escolhe a solidão como ofício e sustenta a escolha diante de uma aldeia que não a aceita sem custo. A razão que ela dá é a de que o amor verdadeiro há de ser voluntário. O fidalgo, três capítulos antes, louvou a liberdade da idade de ouro em que não havia teu nem meu, e é ela quem a pede para si no presente (capítulo XI da Primeira Parte, capítulo XIV da Primeira Parte).
Em Amor, ela separa o amor do dever. A beleza não obriga a amar, e quem a ama por ser bela não tem direito de cobrar a quem o amor não foi devido. A tese vai contra o código do romance pastoril que a aldeia e o fidalgo conhecem, em que a dama desdenhosa é culpada, e é por isso que a lápide de Ambrósio a reescreve como esquiva e ingrata. O livro volta ao assunto com Leandra (capítulo LI da Primeira Parte), em que o vale inteiro fala de uma moça à sua maneira e o pai a encerra num mosteiro.
A Honra e reputação de Marcela está em ser, na boca de todos, a moça sem indício de falta e o motivo de uma morte. Pedro a defende e a condena na mesma fala (capítulo XII da Primeira Parte); Ambrósio a chama de basilisco e depois escreve que ela matou (capítulo XIII da Primeira Parte, capítulo XIV da Primeira Parte). O que ela diz de si, que nem quer nem aborrece ninguém, é a reputação que ela reclama.
Leituras divergentes
O livro põe duas leituras opostas do que Marcela fez, e nenhuma é desmentida. Para Ambrósio e a aldeia, ela é a causa da morte: a fera, o basilisco, a esquiva e ingrata do epitáfio. Para ela, matou-o a porfia, não a crueldade, e a prova é que nunca deu esperança a ninguém (capítulo XIV da Primeira Parte). O texto sustenta a segunda pela exatidão dos fatos que o próprio cabreiro confirma (capítulo XII da Primeira Parte), e a primeira pelo peso dos que ficam a lamentar.
As leituras divergem sobre o que a pastora é. Quem a lê como mulher que escolhe vê em Marcela uma voz que o romance deixa dizer o que a aldeia não diria. Quem a lê como figura do gênero pastoril vê uma dama cruel que Cervantes ao mesmo tempo defende e deixa sair de cena sem resposta. Contra a primeira leitura vale lembrar que o discurso é pronunciado diante de um enterro, e que ela se embrenha no mato sem esperar resposta; contra a segunda, que Cervantes lhe dá o discurso mais longo e articulado do capítulo e um fidalgo armado que lhe garante a retirada (capítulo XIV da Primeira Parte).
Relações
- Dom Quixote: o cavaleiro que ouve o conto de Pedro (capítulo XII da Primeira Parte), que defende a cavalaria diante de Vivaldo (capítulo XIII da Primeira Parte) e que proíbe que a sigam, sem que ela lhe tenha pedido (capítulo XIV da Primeira Parte).
- Sancho Pança: o escudeiro que, na noite do conto, dorme entre Rocinante e o jumento, moído de coices (capítulo XII da Primeira Parte).
- Cardênio: o outro caso do livro em que o amor perdido leva à serra, mas por traição e não por desdém (capítulo XXIV da Primeira Parte).