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Personagem

Cardênio

Quem é

Cardênio é o jovem andaluz de boa linhagem que dom Quixote e Sancho encontram na Serra Morena como um homem nu, de barba negra, de calções de veludo leonado rasgados, que salta de rochedo em rochedo (capítulo XXIII da Primeira Parte). O livro o chama de Esfarrapado ou Roto da Má Figura antes de dar o nome. Veio à serra depois de ver Luscinda dizer sim a dom Fernando, o amigo a quem ele próprio a mostrara, e vive de esmolas de cabreiros e de assaltos nos acessos de loucura, que lhe tomam a tempos (capítulo XXIV da Primeira Parte). Quer casar com Luscinda; teme perdê-la desde que dom Fernando começa a louvá-la, e confessa que o medo não era por Luscinda, mas pela própria sorte (capítulo XXIV da Primeira Parte); sabe de versos e de cortesia, e canta redondilhas de desdém e soneto à santa amizade (capítulo XXVII da Primeira Parte); e se engana ao confiar tudo a quem tinha por amigo, e ao calar atrás de um tapete quando devia falar (capítulo XXVII da Primeira Parte). Sua história, contada em dois tempos, é uma das narrativas encaixadas da Primeira Parte e se fecha na estalagem, com o reencontro dos traídos (capítulo XXXVI da Primeira Parte).

Trajetória

No capítulo XXIII da Primeira Parte, o fidalgo e Sancho acham na serra uma maleta com camisas de holanda fina e um montinho de escudos de ouro, e um livrinho de memória em que há um soneto e uma carta:

Desechásteme, ¡oh ingrata!, por quien tiene más, no por quien vale más que yo; mas si la virtud fuera riqueza que se estimara, no envidiara yo dichas ajenas ni llorara desdichas propias, rejeitaste-me, ó ingrata!, por quem tem mais, não por quem vale mais que eu; mas se a virtude fosse riqueza que se estimasse, eu não invejaria venturas alheias nem choraria desventuras próprias.
Primeira Parte: Os galeotes e a serra

A carta se dirige a uma ingrata sem nome e dá a razão do desdém: o rival tem mais, não vale mais. O remetente não pede nada; quer só que os enganos do esposo dela fiquem encobertos, para que ela não se arrependa e ele não tome vingança do que não deseja. Dom Quixote conclui o que o texto diz, um desdenhado amante, e vê então no alto da colina um homem que salta de rochedo em rochedo; não o alcança, porque Rocinante é pisacorto e fleumático. No capítulo XXIV da Primeira Parte o encontra, e o Roto, que não tem com que pagar além de bons desejos, pede de comer e depois põe uma condição para contar:

Si gustáis, señores, que os diga en breves razones la inmensidad de mis desventuras, habéisme de prometer de que con ninguna pregunta, ni otra cosa, no interromperéis el hilo de mi triste historia; porque en el punto que lo hagáis, en ése se quedará lo que fuere contando, se quereis, senhores, que vos diga em poucas razões a imensidão de minhas desventuras, haveis de me prometer que com nenhuma pergunta, nem outra coisa, não interrompereis o fio de minha triste história; porque no ponto em que o fizerdes, nesse ficará o que eu for contando.
Primeira Parte: Os galeotes e a serra

Trazer as desgraças à memória só lhe serve para somar outras, e quanto menos lhe perguntarem mais depressa acaba. O narrador liga a cena ao conto das cabras de Sancho, que também ficou pendente por uma pergunta; aqui, quem vai interromper é o ouvinte que prometeu calar. Cardênio conta que amou Luscinda desde os primeiros anos, que os pais de ambos sabiam e quase concertavam o casamento, que o pai dela lhe negou a entrada em casa à maneira dos pais de Tisbe e que ele, para pedi-la por esposa, foi achar o próprio pai com uma carta do duque Ricardo, que o queria por companheiro do filho mais velho. Na casa do duque, o segundo filho, dom Fernando, fez-se amigo dele, e confiou-lhe o amor por uma lavradora rica e formosa a quem decidiu dar palavra de esposo. O amigo, para desviá-lo, propôs que os dois fossem à cidade de Cardênio; já então, soube-se depois, dom Fernando gozara da lavradora e esperava ocasião de se descobrir a salvo. Cardênio fala dele com uma sentença:

como el amor en los mozos, por la mayor parte, no lo es, sino apetito, el cual, como tiene por último fin el deleite, en llegando a alcanzarle se acaba y ha de volver atrás aquello que parecía amor, porque no puede pasar adelante del término que le puso naturaleza, el cual término no le puso a lo que es verdadero amor, como o amor nos moços, as mais das vezes, não o é, senão apetite, o qual, como tem por último fim o deleite, em chegando a alcançá-lo se acaba e há de voltar atrás aquilo que parecia amor, porque não pode passar adiante do termo que lhe pôs a natureza, o qual termo não o pôs ao que é verdadeiro amor.
Primeira Parte: Os galeotes e a serra

Cardênio a diz já sabendo o que veio depois, e a ressalva final, o limite que não existe para o verdadeiro amor, é a medida com que julga o seu. O que vem logo em seguida é que ele mesmo, por lei de amizade, mostra Luscinda a dom Fernando, e dom Fernando, vendo-a, esquece todas as belezas vistas antes. Ao chegar ao livro de cavalarias que Luscinda lhe pedira, o Amadís de Gaula, dom Quixote o interrompe com louvores às cavalarias e quebra a promessa de calar. Cardênio deixa cair a cabeça no peito e, depois de um silêncio em que o fidalgo lhe pede duas vezes que prossiga, diz que o velhacaço do mestre Elisabat estava amancebado com a rainha Madásima. O fidalgo responde com grande cólera:

¡Estraño caso; que así volvió por ella como si verdaderamente fuera su verdadera y natural señora: tal le tenían sus descomulgados libros!, estranho caso, que assim voltou por ela como se verdadeiramente fosse sua verdadeira e natural senhora: tal o tinham seus excomungados livros!
Primeira Parte: Os galeotes e a serra

O narrador interrompe a cena para dizer o que o leitor já vê: o fidalgo defende uma rainha de livro como se fosse sua senhora, e a defende com a fórmula do desafio de cavaleiro. A loucura de Cardênio e a de dom Quixote se encontram aí: cada um toma por ofensa própria o que se diz de quem não está presente, e é isso que as põe a bater uma na outra. Cardênio acerta uma pedra no peito do fidalgo, derruba Sancho com uma punhada, pisa-lhe as costelas e vai emboscar-se na montanha. No capítulo XXV da Primeira Parte, Sancho pergunta ao amo por que defendeu a rainha contra um louco, e o fidalgo responde que o cavaleiro andante está obrigado, contra sãos e loucos, a defender a honra das mulheres.

No capítulo XXVII da Primeira Parte, o padre e o barbeiro, que vieram buscar o fidalgo, ouvem uma voz sem instrumento cantar uma redondilha de desdéns, ciúmes e ausência, e depois um soneto à santa amizade, versos de discretos cortesãos e não de rústicos ganadeiros. Dão com Cardênio, que está então em seu inteiro juízo, livre do acidente furioso, e que conta a quantos querem ouvir a causa, para que os sãos não se espantem dos efeitos. Agora conta o final, que dom Quixote interrompera. Um bilhete de Luscinda, achado por dom Fernando num livro de Amadís de Gaula, a fez aos olhos dele uma das mulheres mais discretas de seu tempo e o pôs em desejo de destruir o amigo. Dom Fernando o manda ao irmão mais velho, a buscar dinheiro para pagar seis cavalos comprados de indústria para ter o amigo ausente, e pede a mão de Luscinda. Cardênio volta, esconde-se atrás dos tapetes da sala, onde vê sem ser visto, e ouve o padre perguntar a Luscinda se aceita dom Fernando:

¡Ah, loco de mí, ahora que estoy ausente y lejos del peligro, digo que había de hacer lo que no hice!, ah, louco de mim, agora que estou ausente e longe do perigo, digo que devia fazer o que não fiz!
Primeira Parte: A penitência e Micomicona

Cardênio relata o instante e, no meio do relato, grita o que devia ter gritado de trás do tapete. Quem fala já sabe que não gritou, e o arrependimento sai em forma de acusação a si mesmo: foi covarde e necio. Não diz o que o deteve, e o texto deixa duas razões à mão: o temor de perder tudo ali, ou a esperança ainda viva de que a resposta de Luscinda o salvasse. Ele esperava que ela sacasse a adaga ou desatasse a língua em alguma verdade que lhe aproveitasse, e o que ouve é uma voz fraca:

cuando yo pensé que sacaba la daga para acreditarse, o desataba la lengua para decir alguna verdad o desengaño que en mi provecho redundase, oigo que dijo con voz desmayada y flaca: ''Sí quiero'', quando pensei que ela sacava a adaga para se acreditar, ou desatava a língua para dizer alguma verdade ou desengano que me aproveitasse, ouço que disse com voz desmaiada e fraca: «Sim, quero».
Primeira Parte: A penitência e Micomicona

Cardênio ouve a frase de quem cede e a toma como traição, porque tinha posto a esperança na adaga. O texto admite outras leituras: que ela diga sim sem querer, desmaiada, ou que o diga para poupar o pai e o amigo. Ela cai nos braços da mãe logo em seguida, e Cardênio guarda só esse sim, sem saber o que diz o papel achado no peito dela. Sai da casa, pega a mula e, no campo, solta a língua em maldições a Luscinda e a dom Fernando, até desculpá-la, dizendo que uma donzela recolhida não podia desobedecer aos pais, e voltar a acusá-la de pouco amor, pouco juízo e muita ambição. Anda três dias pela serra, vive no oco de um sobreiro, assalta pastores quando o acidente o toma. Termina dizendo que não quer saúde sem Luscinda.

No capítulo XXVIII da Primeira Parte, ao ver o moço de lavrador que lava os pés no arroio revelar-se mulher de cabelos louros, diz ao padre, em voz baixa, que, se não é Luscinda, não é pessoa humana, mas divina. É Doroteia, também traída por dom Fernando. No capítulo XXIX da Primeira Parte, depois de ouvir a história dela, revela-se o desditoso a quem Luscinda disse ser esposa e propõe uma esperança: como Luscinda não pode casar com dom Fernando por ser dele, nem dom Fernando com ela por ser dela, o céu pode ainda restituir a cada um o que é seu. Então jura:

yo os juro, por la fe de caballero y de cristiano, de no desampararos hasta veros en poder de don Fernando, y que, cuando con razones no le pudiere atraer a que conozca lo que os debe, de usar entonces la libertad que me concede el ser caballero, y poder con justo título desafialle, eu vos juro, pela fé de cavaleiro e de cristão, não vos desamparar até ver-vos em poder de dom Fernando e, quando com razões não puder atraí-lo a que reconheça o que vos deve, usar então a liberdade que me concede o ser cavaleiro e poder com justo título desafiá-lo.
Primeira Parte: A penitência e Micomicona

Cardênio põe a própria vingança de lado para acudir à de Doroteia, e faz da ofensa dela a causa a defender. Na hora de oferecer a espada, ele, que dias antes se dizia sem consolo, já fala como cavaleiro: a palavra de cavaleiro e de cristão lhe dá um papel que a loucura da serra não dava. Pode ser força de ânimo, e pode ser que ajudar a outra lhe sirva de remédio para si. No capítulo XXXVI da Primeira Parte, na estalagem, quando a mulher de branco com máscara chega e suspira, Cardênio se esconde no aposento de dom Quixote, reconhece a voz do outro lado da porta e grita; sai espavorido e dá com dom Fernando abraçado a Luscinda. Luscinda, que o conheceu no suspiro, fala já com ele ali:

Notad cómo el cielo, por desusados y a nosotros encubiertos caminos, me ha puesto a mi verdadero esposo delante. Y bien sabéis por mil costosas experiencias que sola la muerte fuera bastante para borrarle de mi memoria, notai como o céu, por caminhos inusitados e a nós encobertos, pôs diante de mim meu verdadeiro esposo. E bem sabeis por mil custosas experiências que só a morte bastaria para apagá-lo da minha memória.
Primeira Parte: O Curioso Impertinente

Não pede a dom Fernando que a solte por piedade, e sim por ser quem é, e lhe mostra que o céu mesmo pôs diante dela o esposo verdadeiro. Apela ao que ele já sabe, que só a morte a faria esquecer, e oferece a própria vida diante do marido, o que desarma a ameaça: o que ele pode tomar dela não é o que ele quer. Quando Doroteia se ajoelha e vence dom Fernando, Cardênio toma Luscinda nos braços. No capítulo XXXVII da Primeira Parte, oferece-se para continuar a ficção da princesa Micomicona com Luscinda no papel de Doroteia, mas dom Fernando prefere que Doroteia prossiga. No capítulo XLII da Primeira Parte, é um dos que o cativo chama à parte para pedir conselho sobre se dar a conhecer ao irmão ouvidor; no capítulo XLV da Primeira Parte, confirma a farsa do elmo com o barbeiro e dom Fernando; no capítulo XLVII da Primeira Parte, com dom Fernando, resolve abreviar a partida para que Sancho não caia em si, pendura do arção de Rocinante a adarga de um lado e a bacia do outro, põe os quadrilheiros aos lados do carro e fica na estalagem quando o fidalgo parte na jaula.

Temas que encarna

Cardênio é o Amor que se perde pela confiança. O livro o mostra amando dentro da regra, pedindo a mão pelos pais, e perdendo por duas confianças: a que dá ao amigo e a que pôs na adaga de Luscinda. O contraponto é dom Quixote, que ama de ouvir dizer e não perde nada, porque nada pôs à prova (capítulo XXIV da Primeira Parte, capítulo XXVII da Primeira Parte).

A Loucura dele é a contrapartida exata da do fidalgo. Ele enlouquece com motivo (o que Luscinda disse atrás do tapete); o fidalgo, ao imitar Amadís no capítulo XXV da Primeira Parte, decide enlouquecer sem motivo, porque o valor está em mostrar à dama o que faria com ela. A loucura de Cardênio vem e vai, e o narrador diz que ele tem acessos; a de dom Quixote não vem nem vai, é método. Os dois se encontram no capítulo XXIV da Primeira Parte, em torno de Madásima, e é o fidalgo quem leva a pedrada.

Em Honra e reputação, a história de Cardênio e de Doroteia mostra o preço da palavra dada e não cumprida: dom Fernando dá palavra de esposo a uma lavradora e a quebra, depois arrebata Luscinda do mosteiro. O livro resolve com o argumento da simetria, que Doroteia formula (ele não pode ser de Luscinda porque é dela, nem Luscinda dele porque é de Cardênio, capítulo XXXVI da Primeira Parte), e com a regra de que o cavaleiro cumpre o que prometeu.

Leituras divergentes

O livro oferece duas razões de Cardênio não ter gritado atrás do tapete, e não decide. O texto do capítulo XXVII da Primeira Parte deixa à mão o temor de perder tudo ali, e a esperança de que Luscinda o salvasse; o texto do capítulo XXIX da Primeira Parte mostra um Cardênio que, sem saber o que o desmaio e o papel tinham dito, foi embora cedo demais. A dúvida decide se ele é, como diz de si, covarde e necio, ou um homem que esperou da amada o que a amada não podia dar.

As leituras também divergem sobre o que o encontro com dom Quixote faz com ele. Cardênio é o primeiro a quem o fidalgo oferece ajuda para chorar a desventura, e o primeiro a bater nele por defender uma rainha de livro (capítulo XXIV da Primeira Parte). Quem lê como encontro de dois loucos vê um espelho; quem lê pelo contraste vê um louco por motivo ao lado de um louco por método.

O desfecho de Cardênio tem duas leituras. Quem o lê como recompensa vê nele a justiça de uma ficção em que a verdade acaba vencendo quando todos estão presentes (capítulo XXXVI da Primeira Parte). Quem o lê como acaso vê que ele só recupera Luscinda porque dom Fernando, cercado, cede a um argumento que não é de amor, e que o livro tem o cuidado de dizer que o que desarma dom Fernando é a verdade que não pode negar. Contra a primeira leitura vale lembrar que o final feliz depende de Doroteia, não de Cardênio; contra a segunda, que Cardênio, antes de a cena se resolver, já pusera a espada ao lado de Doroteia (capítulo XXIX da Primeira Parte).

Relações