Clavis Libri

Tema em Ilíada

Perda e luto

A dor de quem perde alguém ou algo, e o que fica depois: luto, saudade, o vazio deixado.

O tema na obra

O luto da Ilíada chega antes da morte e continua depois do poema. No Canto VI, Andrômaca lembra a Heitor o que Aquiles já lhe tirou: o pai, os sete irmãos num só dia, a mãe morta depois de resgatada. Por isso ele é para ela pai, mãe, irmão e esposo, e ela pede que não faça do filho um órfão. Heitor responde que a dor que mais o aflige é a dela, levada em lágrimas por algum aqueu a tecer em Argos, e que prefere estar coberto de terra antes de ouvir o grito. As servas, ao ver Andrômaca voltar, choram Heitor ainda vivo.

A guerra mostra o luto dos dois lados em famílias nomeadas. No Canto XIV, Peneleu manda dizer aos pais de Ilioneu, filho único, que o chorem, e que a mulher de Prómaco não se alegrará com o marido quando os aqueus partirem de Troia. No Canto XVII, os cavalos de Aquiles ficam imóveis como a estela de um túmulo, chorando a falta do cocheiro, e Zeus, ao vê-los, diz que nada há mais digno de lástima que o homem; Antíloco fica sem voz ao ouvir de Menelau que Pátroclo morreu, mas obedece e corre a levar a notícia.

Em Aquiles o luto é um corpo caído e um voto. No Canto XVIII, a nuvem negra de dor o cobre, ele derrama cinza na cabeça, estende-se no pó e arranca os cabelos, e o gemido chega à mãe no fundo do mar. Pede para morrer já, porque não socorreu o companheiro, e promete a Pátroclo que não fará as exéquias antes de trazer as armas e a cabeça de Heitor. No Canto XIX, a dor dele aparece em escala: recusa comer, diz que nenhum mal pior o atingiria que a morte do amigo, nem a do pai, e Briseida, ao ver o corpo, chora o que lhe prometera fazê-la esposa legítima de Aquiles; as outras mulheres choram Pátroclo como pretexto e cada uma os próprios males.

A morte de Heitor volta o luto para Troia. No Canto XXII, Príamo e Hécuba suplicam do alto do muro que ele entre, e Hécuba abre o vestido e mostra o seio. Quando o corpo é arrastado, Príamo quer ir sozinho às naus, Andrômaca cai de costas diante do muro e imagina o filho Astianacte órfão, expulso das mesas dos amigos do pai, e promete queimar as roupas que as mulheres teceram, porque o marido não jazerá nelas.

Os ritos dão forma ao luto. No Canto XXIII, a alma de Pátroclo aparece a Aquiles em sonho, pede o enterro e a mão e pede que os ossos dos dois fiquem numa só urna; Aquiles corta a cabeleira que o pai prometera ao rio Esperqueu e a põe na mão do morto, dizendo que não voltará. No Canto XXIV, Príamo chora Heitor caído aos pés de Aquiles, e Aquiles chora o pai e, por vezes, Pátroclo, de modo que o gemido dos dois enche a casa. O poema termina no lamento de Andrômaca, de Hécuba e de Helena, uma depois da outra, e no funeral.

O luto da Ilíada é feito de gestos e de contas. Os gestos estão nos corpos: cinza, cabelo, véu, seio, urna, lágrima de cavalo. As contas aparecem nas falas: quem perde o quê, e o que cada perda tira de quem fica. Andrômaca mede o dano pelo que o filho deixa de ter à mesa, Aquiles pela morte do pai, Briseida pela promessa que se desfaz. Há ainda uma coisa que o poema não deixa passar: as mulheres choram Pátroclo, diz o narrador, como pretexto e cada uma os próprios males, de modo que o luto por um morto é também luto por todos os que a guerra já levou. A ira de Aquiles não termina no luto, muda de alvo, e só no Canto XXIII e no Canto XXIV ele passa a ser rito.

Onde aparece

  • Canto VI: Andrômaca diz a Heitor que Aquiles matou o pai e os sete irmãos dela e que a mãe morreu depois de resgatada, e por isso ele é para ela pai, mãe, irmão e esposo.
  • Canto VI: Heitor diz que o que mais lhe dói não é a dor futura de Troia nem a de Príamo, mas a de Andrômaca levada em lágrimas por um aqueu para tecer em Argos.
  • Canto XIV: Peneleu manda dizer aos troianos que chorem Ilioneu, filho único de Forbante, e que a mulher de Prómaco não se alegrará com o marido quando os aqueus partirem de Troia.
  • Canto XVII: Os cavalos de Aquiles ficam imóveis como a estela de um túmulo, com lágrimas quentes, de saudade do cocheiro Pátroclo, e Zeus se compadece deles.
  • Canto XVII: Antíloco fica sem voz e com os olhos cheios de lágrimas ao ouvir de Menelau que Pátroclo morreu, mas obedece e corre a levar a notícia a Aquiles.
  • Canto XVIII: Aquiles ouve de Antíloco a notícia da morte de Pátroclo, derrama cinza na cabeça, estende-se no pó e arranca os cabelos, e o gemido dele chega a Tétis no fundo do mar.
  • Canto XVIII: Aquiles promete a Pátroclo não fazer as exéquias antes de trazer as armas e a cabeça de Heitor, e fala ao morto como quem presta contas a ele.
  • Canto XIX: Briseida, ao ver Pátroclo morto, lança-se sobre ele e o chora porque ele lhe prometera fazê-la esposa legítima de Aquiles depois da morte do marido dela.
  • Canto XIX: Aquiles recusa comer e diz que nenhum mal pior o atingiria que a morte de Pátroclo, nem a notícia da morte do pai, que talvez chore na Ftia por um filho como ele.
  • Canto XXII: Príamo e Hécuba suplicam a Heitor, do alto do muro, que entre, e Hécuba abre o vestido e mostra o seio para lembrá-lo do filho que ela criou.
  • Canto XXII: Andrômaca vê o marido arrastado pelos cavalos e imagina o filho Astianacte órfão, expulso das mesas dos amigos do pai e voltando chorando à mãe viúva.
  • Canto XXIII: Aquiles corta a cabeleira que o pai prometera ao rio Esperqueu e a dá a Pátroclo, dizendo que já não voltará à querida terra pátria.
  • Canto XXIII: A alma de Pátroclo pede a Aquiles que os ossos dos dois fiquem numa só urna, a ânfora de ouro que a mãe dele lhe deu, porque cresceram juntos.
  • Canto XXIV: Príamo chora Heitor caído aos pés de Aquiles, e Aquiles chora o pai e, por vezes, Pátroclo, de modo que o gemido dos dois enche a casa.
  • Canto XXIV: Andrômaca, Hécuba e Helena choram Heitor uma depois da outra, e cada lamento diz também o que a mulher perde com ele.

Passagens

Andrômaca reúne no marido tudo o que a guerra lhe tirou.

Ἕκτορ ἀτὰρ σύ μοί ἐσσι πατὴρ καὶ πότνια μήτηρ / ἠδὲ κασίγνητος, σὺ δέ μοι θαλερὸς παρακοίτης· (6.429-430), Heitor, tu és para mim pai, mãe veneranda e irmão, e és o meu jovem esposo.
Canto VI: Heitor e Andrômaca

Peneleu devolve aos troianos a dor que eles deram, e a casa do morto é nomeada.

εἰπέμεναί μοι Τρῶες ἀγαυοῦ Ἰλιονῆος / πατρὶ φίλῳ καὶ μητρὶ γοήμεναι ἐν μεγάροισιν· / οὐδὲ γὰρ ἣ Προμάχοιο δάμαρ Ἀλεγηνορίδαο / ἀνδρὶ φίλῳ ἐλθόντι γανύσσεται, ὁππότε κεν δὴ / ἐκ Τροίης σὺν νηυσὶ νεώμεθα κοῦροι Ἀχαιῶν. (14.501-505), dizei, troianos, ao pai querido e à mãe do nobre Ilioneu que o chorem em seus salões; pois nem a mulher de Prómaco, filho de Alegenor, se alegrará com a chegada do marido querido, quando nós, jovens aqueus, partirmos de Troia com as naus.
Canto XIV: O engano de Zeus

Os cavalos de Aquiles choram o cocheiro como pedras de um túmulo.

ἀλλʼ ὥς τε στήλη μένει ἔμπεδον, ἥ τʼ ἐπὶ τύμβῳ / ἀνέρος ἑστήκῃ τεθνηότος ἠὲ γυναικός, / ὣς μένον ἀσφαλέως περικαλλέα δίφρον ἔχοντες / οὔδει ἐνισκίμψαντε καρήατα· δάκρυα δέ σφι / θερμὰ κατὰ βλεφάρων χαμάδις ῥέε μυρομένοισιν / ἡνιόχοιο πόθῳ (17.434-439), mas, como a estela que permanece firme sobre o túmulo de um homem morto ou de uma mulher, assim ficaram, imóveis, segurando o belo carro, com a cabeça fincada no chão; e lágrimas quentes lhes corriam das pálpebras ao solo, enquanto choravam, de saudade do cocheiro.
Canto XVII: A luta pelo corpo de Pátroclo

Antíloco entrega a Aquiles a notícia da morte de Pátroclo.

κεῖται Πάτροκλος, νέκυος δὲ δὴ ἀμφιμάχονται / γυμνοῦ· ἀτὰρ τά γε τεύχεʼ ἔχει κορυθαίολος Ἕκτωρ. / ὣς φάτο, τὸν δʼ ἄχεος νεφέλη ἐκάλυψε μέλαινα (18.20-22), Pátroclo jaz, e em volta do corpo nu os homens lutam; e as armas, quem as tem é Heitor, do elmo faiscante. Assim falou, e uma nuvem negra de dor cobriu Aquiles.
Canto XVIII: O escudo de Aquiles

Aquiles diz a Pátroclo que o enterro espera a vingança.

νῦν δʼ ἐπεὶ οὖν Πάτροκλε σεῦ ὕστερος εἶμʼ ὑπὸ γαῖαν, / οὔ σε πρὶν κτεριῶ πρίν γʼ Ἕκτορος ἐνθάδʼ ἐνεῖκαι / τεύχεα καὶ κεφαλὴν μεγαθύμου σοῖο φονῆος· / δώδεκα δὲ προπάροιθε πυρῆς ἀποδειροτομήσω / Τρώων ἀγλαὰ τέκνα σέθεν κταμένοιο χολωθείς (18.333-337), Mas agora, Pátroclo, já que irei para debaixo da terra depois de ti, não te farei as exéquias antes de trazer aqui as armas e a cabeça de Heitor, o teu magnânimo matador; e diante da pira cortarei a garganta de doze brilhantes filhos de troianos, irado por teres sido morto.
Canto XVIII: O escudo de Aquiles

Briseida chora Pátroclo pelo que ele lhe prometera.

οὐδὲ μὲν οὐδέ μʼ ἔασκες, ὅτʼ ἄνδρʼ ἐμὸν ὠκὺς Ἀχιλλεὺς / ἔκτεινεν, πέρσεν δὲ πόλιν θείοιο Μύνητος, / κλαίειν, ἀλλά μʼ ἔφασκες Ἀχιλλῆος θείοιο / κουριδίην ἄλοχον θήσειν, ἄξειν τʼ ἐνὶ νηυσὶν / ἐς Φθίην, δαίσειν δὲ γάμον μετὰ Μυρμιδόνεσσι. / τώ σʼ ἄμοτον κλαίω τεθνηότα μείλιχον αἰεί (19.295-300), E nem me deixavas chorar, quando o veloz Aquiles matou meu marido e saqueou a cidade do divino Mines, mas dizias que me farias esposa legítima do divino Aquiles, que me levarias nas naus à Ftia e celebrarias as bodas entre os mirmidões. Por isso choro sem cessar a ti, morto, tão gentil.
Canto XIX: O fim da ira

Aquiles mede a dor pela morte do pai.

αὐτὰρ ἐμὸν κῆρ / ἄκμηνον πόσιος καὶ ἐδητύος, ἔνδον ἐόντων, / σῇ ποθῇ· οὐ μὲν γάρ τι κακώτερον ἄλλο πάθοιμι, / οὐδʼ εἴ κεν τοῦ πατρὸς ἀποφθιμένοιο πυθοίμην, / ὅς που νῦν Φθίηφι τέρεν κατὰ δάκρυον εἴβει / χήτεϊ τοιοῦδʼ υἷος· ὃ δʼ ἀλλοδαπῷ ἐνὶ δήμῳ / εἵνεκα ῥιγεδανῆς Ἑλένης Τρωσὶν πολεμίζω (19.319-325), mas meu coração fica em jejum de bebida e comida, embora haja de sobra dentro, por saudade de ti; pois nenhum mal pior eu poderia sofrer, nem se soubesse da morte de meu pai, que talvez agora, na Ftia, derrame tenras lágrimas por falta de um filho assim, enquanto eu, em povo estrangeiro, por causa da odiosa Helena combato os troianos;
Canto XIX: O fim da ira

Andrômaca queima o que as mulheres teceram, já que o corpo não o vestirá.

ἀλλʼ ἤτοι τάδε πάντα καταφλέξω πυρὶ κηλέῳ / οὐδὲν σοί γʼ ὄφελος, ἐπεὶ οὐκ ἐγκείσεαι αὐτοῖς, / ἀλλὰ πρὸς Τρώων καὶ Τρωϊάδων κλέος εἶναι. (22.512-514), mas tudo isso eu queimarei no fogo ardente: nenhum proveito te dá, porque não jazerás neles; que seja glória vinda dos troianos e das troianas.
Canto XXII: A morte de Heitor

Aquiles dá a cabeleira ao morto e diz que não voltará.

νῦν δʼ ἐπεὶ οὐ νέομαί γε φίλην ἐς πατρίδα γαῖαν / Πατρόκλῳ ἥρωϊ κόμην ὀπάσαιμι φέρεσθαι. (23.150-151), agora, já que não voltarei à querida terra pátria, ao herói Pátroclo darei a cabeleira para levar.
Canto XXIII: Os jogos fúnebres

Príamo e Aquiles choram, cada um o seu morto.

τὼ δὲ μνησαμένω ὃ μὲν Ἕκτορος ἀνδροφόνοιο / κλαῖʼ ἁδινὰ προπάροιθε ποδῶν Ἀχιλῆος ἐλυσθείς, / αὐτὰρ Ἀχιλλεὺς κλαῖεν ἑὸν πατέρʼ, ἄλλοτε δʼ αὖτε / Πάτροκλον· τῶν δὲ στοναχὴ κατὰ δώματʼ ὀρώρει. (24.509-512), e os dois, lembrando-se: um, de Heitor matador de homens, chorava sem parar, prostrado diante dos pés de Aquiles; Aquiles, por sua vez, chorava o pai, e outras vezes Pátroclo; o gemido deles ressoava pela casa.
Canto XXIV: O resgate de Heitor