O tema na obra
A compaixão da Ilíada começa recusada e acaba aceita, e o poema mostra as duas coisas em suplicantes que se ajoelham. No Canto I, Crises traz um resgate enorme e as insígnias de Apolo, e todos os gregos aprovam que se respeite o sacerdote e se aceite o resgate. Agamêmnon o expulsa com ameaças, e o velho pede a Apolo que castigue o exército inteiro, o mesmo movimento que Aquiles fará adiante com a mãe.
Os laços de hospitalidade e de família abrem exceções. No Canto III, Príamo chama Helena para junto de si e lhe diz que ela não é a culpada, e sim os deuses. No Canto VI, Diomedes e Glauco descobrem que seus avós foram hóspedes, param o duelo e trocam de armas, no mesmo canto em que Menelau, convencido pelo resgate de Adrasto, ia poupá-lo, até que Agamêmnon o repreende e manda que nenhum troiano escape, nem a criança no ventre da mãe. No Canto IX, Fênix diz a Aquiles que as Súplicas são filhas de Zeus e vão atrás de Atê para curá-la, e que quem as recusa de modo duro atrai Atê para si.
Quem suplica sob a espada raramente é ouvido. No Canto X, Dolão oferece o resgate que o pai pagaria, e Diomedes o mata quando ele ia tocar-lhe o queixo, julgando que, solto, voltaria como espião. No Canto XI, Agamêmnon recusa o resgate dos filhos de Antímaco e paga neles a ofensa do pai. No mesmo canto, Pátroclo, a caminho de Aquiles, para junto de Eurípilo ferido, corta a flecha, lava a ferida e põe uma raiz amarga, deixando a mensagem por entregar. No Canto XVI, ele acusa Aquiles de ter sido gerado pelo mar e pelas rochas, porque o único impossível de abordar é ele. No Canto XVII, Zeus se compadece dos cavalos que choram Pátroclo e diz que nada é mais digno de lástima que o homem.
A recusa de Aquiles tem uma data. No Canto XX, Trós abraça-lhe os joelhos e o narrador o chama de tolo, porque Aquiles não tinha coração brando. No Canto XXI, ele explica a Licáone que antes de morrer Pátroclo lhe era mais caro poupar os troianos, que muitos tomou vivos e vendeu, e que agora ninguém escapa. No Canto XXII, Heitor suplica pelos joelhos e pelos pais que o corpo volte aos troianos, e Aquiles responde que desejaria cortá-lo e comer-lhe cru a carne.
No Canto XXIII, o mesmo Aquiles, com pena de Eumelo, quer dar-lhe o segundo prêmio dos jogos e, diante do protesto de Antíloco, paga a Eumelo do que tem na tenda. No Canto XXIV, Apolo diz que ele perdeu a piedade, Hécuba que não terá piedade nem respeito, Zeus que não é insensato nem ímpio e poupará com zelo o suplicante. Príamo vem sozinho, abraça-lhe os joelhos e beija-lhe as mãos, Aquiles sente o desejo de chorar o pai e os dois choram, cada um o seu morto. Aquiles ergue o velho pela mão, com pena da cabeça e da barba brancas, manda-o sentar e lhe diz que os deuses fiaram aos mortais o viver aflito.
A compaixão, no poema, depende de um laço. Crises não é ouvido por Agamêmnon e é ouvido pelo exército; Diomedes poupa Glauco porque os avós foram hóspedes, e mata Dolão, que não tem ligação nenhuma com ele; Pátroclo cuida de Eurípilo por piedade, e Aquiles poupava os troianos antes de perder o amigo. O Canto XXIV aponta o laço: o que a fala de Príamo desperta em Aquiles é o desejo de chorar o pai. O poema não faz dele outro homem. Na mesma tenda, ele avisa o velho de que pode matá-lo, manda lavar o corpo longe da vista dele para não se enfurecer, e dorme com Briseida ao lado. O texto sustenta duas leituras do que aconteceu: a ordem de Zeus, que ele já tinha aceitado, ou o movimento do coração diante do velho. A refeição e a noite partilhadas são a caridade mínima que o poema deixa em cena, a hospitalidade de quem dá de comer ao pai dos homens que matou.
Onde aparece
- Canto I: Os gregos aprovam que se respeite o sacerdote Crises e se aceite o resgate pela filha, mas Agamêmnon o expulsa com ameaças, e o velho pede a Apolo que castigue os gregos.
- Canto III: Príamo chama Helena para perto de si e lhe diz que não é ela a culpada, e sim os deuses que lançaram contra ele a guerra de muitas lágrimas.
- Canto VI: Menelau, convencido pelo resgate que Adrasto promete, ia poupá-lo, mas Agamêmnon o repreende e manda que nenhum troiano escape, nem a criança no ventre da mãe.
- Canto VI: Diomedes e Glauco descobrem que seus avós foram hóspedes, param o duelo, trocam de armas e prometem evitar a lança um do outro na multidão.
- Canto IX: Fênix diz a Aquiles que as Súplicas são filhas de Zeus e vão atrás de Atê para curá-la, e que quem as recusa atrai Atê para si.
- Canto X: Dolão oferece o resgate que o pai pagaria, mas Diomedes o mata antes que ele toque o queixo, julgando que, solto, ele voltaria como espião ou para lutar.
- Canto XI: Agamêmnon recusa o resgate dos filhos de Antímaco e os mata, pagando com eles a ofensa que o pai fez a Menelau.
- Canto XI: Pátroclo, a caminho de Aquiles, para junto de Eurípilo ferido, leva-o à tenda, corta a flecha e põe uma raiz amarga na ferida, deixando a mensagem por entregar.
- Canto XVI: Pátroclo acusa Aquiles de ter sido gerado pelo mar e pelas rochas, porque os melhores aqueus feridos recebem cuidado e só ele é impossível de abordar.
- Canto XVII: Zeus se compadece dos cavalos de Aquiles que choram Pátroclo e diz que, de tudo o que respira sobre a terra, nada há mais digno de lástima que o homem.
- Canto XX: Trós abraça os joelhos de Aquiles e pede que o poupe, lembrando que têm a mesma idade, mas o narrador o chama de tolo, porque Aquiles não tinha coração brando.
- Canto XXI: Aquiles recusa a súplica de Licáone e explica que antes da morte de Pátroclo lhe era mais caro poupar os troianos, e muitos tomou vivos e vendeu.
- Canto XXII: Heitor, caído, suplica a Aquiles pelos joelhos e pelos pais que o corpo volte aos troianos, e Aquiles responde que desejaria cortá-lo e comer cru a carne dele.
- Canto XXIII: Aquiles, com pena de Eumelo, quer dar-lhe o segundo prêmio dos jogos e, diante do protesto de Antíloco, paga a Eumelo com uma couraça tomada de Asteropeu.
- Canto XXIV: Zeus diz que Aquiles não é insensato nem ímpio e poupará com zelo o suplicante, enquanto Apolo diz que ele perdeu a piedade e Hécuba que não terá piedade nem respeito.
- Canto XXIV: Aquiles ergue Príamo pela mão, com pena da cabeça e da barba brancas, manda-o sentar e diz que os deuses fiaram aos mortais miseráveis o viver aflito.
Passagens
Príamo diz a Helena que a culpa não é dela.
οὔ τί μοι αἰτίη ἐσσί, θεοί νύ μοι αἴτιοί εἰσιν / οἵ μοι ἐφώρμησαν πόλεμον πολύδακρυν Ἀχαιῶν·(3.164-165), para mim tu não és culpada; para mim os deuses é que são culpados, eles que lançaram contra mim a guerra de muitas lágrimas dos aqueus.
Fênix diz a Aquiles que as Súplicas vão atrás de Atê.
καὶ γάρ τε λιταί εἰσι Διὸς κοῦραι μεγάλοιο / χωλαί τε ῥυσαί τε παραβλῶπές τʼ ὀφθαλμώ, / αἵ ῥά τε καὶ μετόπισθʼ ἄτης ἀλέγουσι κιοῦσαι.(9.502-504), Pois também as Súplicas são filhas do grande Zeus, coxas, enrugadas, de olhos desviados, que vão atrás de Ate, cuidando dela.
Dolão estende a mão ao queixo de Diomedes e a espada chega antes.
ἦ, καὶ ὃ μέν μιν ἔμελλε γενείου χειρὶ παχείῃ / ἁψάμενος λίσσεσθαι, ὃ δʼ αὐχένα μέσσον ἔλασσε / φασγάνῳ ἀΐξας, ἀπὸ δʼ ἄμφω κέρσε τένοντε· / φθεγγομένου δʼ ἄρα τοῦ γε κάρη κονίῃσιν ἐμίχθη.(10.454-457), disse, e o outro ia tocar-lhe o queixo com a mão robusta para suplicar, mas ele investiu com a espada e atingiu o meio do pescoço, cortando os dois tendões; e a cabeça de Dolão, ainda falando, misturou-se ao pó.
Pátroclo para junto de Eurípilo ferido antes de levar a mensagem.
ἔρχομαι ὄφρʼ Ἀχιλῆϊ δαΐφρονι μῦθον ἐνίσπω / ὃν Νέστωρ ἐπέτελλε Γερήνιος οὖρος Ἀχαιῶν· / ἀλλʼ οὐδʼ ὧς περ σεῖο μεθήσω τειρομένοιο.(11.839-841), vou levar a Aquiles, de ânimo aguerrido, a palavra que Nestor de Gerena, guardião dos aqueus, me encomendou; mas nem assim te abandonarei, a ti que estás em sofrimento.
Zeus lastima os cavalos de Aquiles e, com eles, todos os homens.
ἆ δειλώ, τί σφῶϊ δόμεν Πηλῆϊ ἄνακτι / θνητῷ, ὑμεῖς δʼ ἐστὸν ἀγήρω τʼ ἀθανάτω τε; / ἦ ἵνα δυστήνοισι μετʼ ἀνδράσιν ἄλγεʼ ἔχητον; / οὐ μὲν γάρ τί πού ἐστιν ὀϊζυρώτερον ἀνδρὸς / πάντων, ὅσσά τε γαῖαν ἔπι πνείει τε καὶ ἕρπει.(17.443-447), ai, infelizes, por que vos demos ao rei Peleu, um mortal, vós que não envelheceis nem morreis? Foi para que tivésseis dores entre homens miseráveis? Pois de tudo o que respira e rasteja sobre a terra, nada há mais digno de lástima que o homem.
Aquiles diz a Licáone o que mudou desde a morte de Pátroclo.
πρὶν μὲν γὰρ Πάτροκλον ἐπισπεῖν αἴσιμον ἦμαρ / τόφρά τί μοι πεφιδέσθαι ἐνὶ φρεσὶ φίλτερον ἦεν / Τρώων, καὶ πολλοὺς ζωοὺς ἕλον ἠδʼ ἐπέρασσα·(21.100-102), Pois antes que Pátroclo encontrasse o dia fatal, até então me era mais caro, no ânimo, poupar os troianos, e muitos tomei vivos e vendi.
Apolo acusa Aquiles diante dos deuses de ter perdido a piedade.
ὣς Ἀχιλεὺς ἔλεον μὲν ἀπώλεσεν, οὐδέ οἱ αἰδὼς / γίγνεται, ἥ τʼ ἄνδρας μέγα σίνεται ἠδʼ ὀνίνησι.(24.44-45), assim Aquiles perdeu a piedade, e nele não nasce o pudor reverente, que muito prejudica os homens e muito os beneficia.
Príamo mede o que fez ao beijar a mão do matador dos filhos.
ἔτλην δʼ οἷʼ οὔ πώ τις ἐπιχθόνιος βροτὸς ἄλλος, / ἀνδρὸς παιδοφόνοιο ποτὶ στόμα χεῖρʼ ὀρέγεσθαι.(24.505-506), suportei o que nenhum outro mortal sobre a terra ainda suportou: levar aos lábios a mão do homem que mata os meus filhos.
Aquiles manda Príamo suportar o luto, já que chorar não ressuscita o filho.
ἄνσχεο, μὴ δʼ ἀλίαστον ὀδύρεο σὸν κατὰ θυμόν· / οὐ γάρ τι πρήξεις ἀκαχήμενος υἷος ἑῆος, / οὐδέ μιν ἀνστήσεις, πρὶν καὶ κακὸν ἄλλο πάθῃσθα.(24.549-551), aguenta, e não te lamentes sem fim no teu coração; pois nada conseguirás afligindo-te pelo teu filho, nem o farás levantar, antes que sofras ainda outro mal.