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Personagem

Andrômaca

Quem é

Andrômaca é a esposa de Heitor, filha de Eécion, que reinava em Tebe, e mãe do menino Astianacte, que os troianos assim chamam porque só Heitor defendia a cidade. Ela aparece pouco, mas em três momentos que o poema escolhe com cuidado: a despedida nas Portas Ceias, a casa que prepara o banho de um marido que já não volta e o primeiro lamento sobre o corpo dele. Aquiles lhe matou o pai e os sete irmãos, e a mãe morreu depois de resgatada, e por isso ela fala de Heitor como quem tem tudo numa pessoa só. Não pede que ele largue a guerra. Pede que a defenda de um lugar menos exposto, e mostra no que diz que sabe o que o fim da cidade traz a uma mulher e a uma criança.

Trajetória

No Canto VI, Andrômaca corre à torre de Ílion, certa de que os troianos estão em apuros, e encontra Heitor nas Portas Ceias. A ama traz o menino. Andrômaca toma a mão do marido e o acusa de que o próprio ímpeto o perderá, sem piedade do filho nem dela, que logo será viúva. Conta que Aquiles matou o pai dela e lhe deu pira e túmulo, matou os sete irmãos num só dia, e que a mãe, resgatada por um preço imenso, morreu na casa do pai.

δαιμόνιε φθίσει σε τὸ σὸν μένος, οὐδʼ ἐλεαίρεις / παῖδά τε νηπίαχον καὶ ἔμʼ ἄμμορον, ἣ τάχα χήρη / σεῦ ἔσομαι· τάχα γάρ σε κατακτανέουσιν Ἀχαιοὶ (6.407-409), desvairado, o teu próprio ímpeto te perderá; não tens piedade do filho pequeno nem de mim, desventurada, que logo serei viúva, pois logo os aqueus te matarão, investindo todos juntos
Canto VI: Heitor e Andrômaca

Conclui que Heitor é para ela pai, mãe, irmão e jovem esposo, e propõe que ele fique na torre e ponha o exército junto à figueira, onde a muralha é mais baixa e os melhores aqueus já tentaram três vezes.

Ἕκτορ ἀτὰρ σύ μοί ἐσσι πατὴρ καὶ πότνια μήτηρ / ἠδὲ κασίγνητος, σὺ δέ μοι θαλερὸς παρακοίτης· (6.429-430), Heitor, tu és para mim pai, mãe veneranda e irmão, e és o meu jovem esposo.
Canto VI: Heitor e Andrômaca

Heitor responde que tem vergonha de recuar e que sabe que a cidade cairá. Ela ri entre lágrimas ao receber o menino que se assustara com o elmo, e vai para casa, olhando para trás, a verter lágrimas. Em casa, faz as servas chorarem Heitor ainda vivo, certas de que não voltará da guerra.

No Canto VIII, Heitor, perseguindo Nestor e Diomedes, fala aos cavalos do cuidado que Andrômaca pôs diante deles antes de pôr diante dele, o trigo doce como mel, e diz que ela cuida deles mais do que dele, que se diz seu marido.

νῦν μοι τὴν κομιδὴν ἀποτίνετον, ἣν μάλα πολλὴν / Ἀνδρομάχη θυγάτηρ μεγαλήτορος Ἠετίωνος / ὑμῖν πὰρ προτέροισι μελίφρονα πυρὸν ἔθηκεν (8.186-188), Pagai-me agora o cuidado, o muito cuidado que Andrômaca, filha do magnânimo Eécion, pôs diante de vós, antes que diante de mim: trigo doce como mel.
Canto VIII: A batalha interrompida

No Canto XVII, Zeus, ao ver Heitor vestir as armas de Aquiles, diz que lhe dará grande força porque ele não voltará do combate, e Andrômaca não receberá dele as armas gloriosas do Pelida.

No Canto XXII, ela ainda não sabe: no fundo da casa tece um manto púrpura dobrado, bordando flores, e manda as servas pôr o grande tripé no fogo para que Heitor tenha água quente ao voltar. O narrador a chama de tola, sem repreendê-la: a água foi posta para um banho que Heitor já não terá. Ouve os gritos da torre, a lançadeira cai-lhe da mão, e ela sai do palácio como louca. Do muro vê o marido arrastado diante da cidade, cai de costas e arremessa longe a touca e o véu que Afrodite lhe dera no dia em que Heitor a levou da casa de Eécion.

νηπίη, οὐδʼ ἐνόησεν ὅ μιν μάλα τῆλε λοετρῶν / χερσὶν Ἀχιλλῆος δάμασε γλαυκῶπις Ἀθήνη. (22.445-446), a tola, não percebeu que, longe dos banhos, as mãos de Aquiles o tinham dominado, por obra de Atena de olhos brilhantes.
Canto XXII: A morte de Heitor

Quando volta a si, lamenta entre as troianas que ela e Heitor nasceram sob a mesma sorte, ele em Troia, ela em Tebas, e que agora ele desce ao Hades e a deixa viúva, com um filho ainda menino. Imagina o dano pelo lado da mesa: o menino de pai morto vai, de rosto molhado, puxar o manto de um e a capa de outro; um deles, por piedade, lhe estende a taça um instante, molha-lhe os lábios e não o palato, e um menino de pais vivos o expulsa da mesa a pancadas. Ele volta chorando à mãe viúva.

χερσὶν πεπλήγων καὶ ὀνειδείοισιν ἐνίσσων· / ἔρρʼ οὕτως· οὐ σός γε πατὴρ μεταδαίνυται ἡμῖν. (22.497-498), batendo-lhe com as mãos e atacando-o com insultos: vai embora assim mesmo; teu pai não come à mesa conosco.
Canto XXII: A morte de Heitor
δακρυόεις δέ τʼ ἄνεισι πάϊς ἐς μητέρα χήρην / Ἀστυάναξ (22.499-500), e chorando o menino volta à mãe viúva, Astianacte.
Canto XXII: A morte de Heitor
ὃς πρὶν μὲν ἑοῦ ἐπὶ γούνασι πατρὸς / μυελὸν οἶον ἔδεσκε καὶ οἰῶν πίονα δημόν· (22.500-501), que antes, sobre os joelhos do pai, comia só a medula e a gordura gorda dos carneiros.
Canto XXII: A morte de Heitor

Termina voltando às roupas finas que as mulheres teceram, guardadas na casa: ela as queimará todas, sem proveito para o morto, que não jazerá nelas, mas para que haja glória dele diante dos troianos e das troianas.

ἀλλʼ ἤτοι τάδε πάντα καταφλέξω πυρὶ κηλέῳ / οὐδὲν σοί γʼ ὄφελος, ἐπεὶ οὐκ ἐγκείσεαι αὐτοῖς, / ἀλλὰ πρὸς Τρώων καὶ Τρωϊάδων κλέος εἶναι. (22.512-514), mas tudo isso eu queimarei no fogo ardente: nenhum proveito te dá, porque não jazerás neles; que seja glória vinda dos troianos e das troianas.
Canto XXII: A morte de Heitor

No Canto XXIV, quando o corpo chega a Troia, Andrômaca abre o lamento, com a cabeça de Heitor entre as mãos. Diz que ele morreu jovem e a deixou viúva, com o menino ainda criança, e prevê a queda da cidade, porque o marido era quem a guardava: as mulheres serão levadas nas naus, e o menino ou servirá a um senhor duro ou será jogado de uma torre por um aqueu a quem Heitor tirou o irmão, o pai ou o filho. A dor maior, diz, é a dela, porque Heitor, ao morrer, não lhe estendeu a mão nem lhe deixou uma palavra para lembrar de noite e de dia.

ἆνερ ἀπʼ αἰῶνος νέος ὤλεο, κὰδ δέ με χήρην / λείπεις ἐν μεγάροισι· πάϊς δʼ ἔτι νήπιος αὔτως (24.725-726), marido, morreste jovem, arrancado da vida, e deixas-me viúva no palácio; e o menino ainda é só uma criança pequena.
Canto XXIV: O resgate de Heitor

Temas que encarna

Andrômaca encarna a Perda e luto: perde a família inteira para Aquiles, em Tebas, e perde o marido diante de Troia. Encarna a Guerra pelo lado de dentro, o das mulheres e dos meninos que dependem de quem luta, e a Morte como o que o poema faz desaparecer da casa, do banho que esfria às roupas que ela queima. O luto dela é ao mesmo tempo despedida e cálculo, porque o que ela perde é o homem e a defesa da cidade.

O argumento de Andrômaca no Canto VI mistura afeto e cálculo de guerra: ela quer Heitor vivo defendendo, não desistindo. Quando Heitor lhe responde que sabe que a cidade cairá e que isso lhe dói mais por ela que pelo resto, o poema não escolhe entre o dever dele e o pedido dela: Heitor não responde ao plano da figueira, e Andrômaca volta para casa. No Canto XXII, a mesma casa recebe a notícia pelo que ela não percebeu a tempo, o banho quente e o manto bordado, e ela queima as roupas para dar a Heitor em fogo e pano o que Aquiles lhe nega. No Canto XXIV, a dor que ela diz ser a maior é a da palavra que ele não lhe deixou. Duas leituras convivem para o luto dela, a de uma mulher que olha o futuro como alguém que já viu o fim de uma cidade, e a de uma mulher que mede o que perde pelo que não foi dito.

Relações

  • Heitor: o marido a quem ela pede que fique e que ela acusa de ser vítima do próprio ímpeto, e a quem chora no Canto XXIV.
  • Aquiles: o guerreiro que lhe tirou pai, irmãos e mãe, e que arrasta o marido.
  • Príamo: o sogro que traz o corpo de volta e a quem ela se junta, com Hécuba, perto das portas, no Canto XXIV.
  • Helena: a cunhada que chora Heitor depois dela e de Hécuba, no Canto XXIV.
  • Zeus: o deus que, no Canto XVII, diz que ela não receberá as armas de Heitor.
  • Astianacte: o filho que se assusta com o elmo e que ela imagina expulso da mesa.
  • Eécion: o pai, rei de Tebe, morto por Aquiles que lhe deu pira e túmulo.