Clavis Libri

Personagem

Helena

Quem é

Helena é a mulher por causa de quem os aqueus foram a Troia, e que agora vive em Esparta ao lado de Menelau, de volta ao palácio. Aparece na Odisseia como anfitriã que controla o ânimo da mesa: lança uma droga no vinho para tirar a dor e conta histórias de Troia. Os outros personagens a citam como causa de muitas mortes ou como exemplo de uma mulher levada por um deus.

Trajetória

No Canto IV, sai do quarto semelhante a Ártemis, com as servas e o cesto de prata. Pergunta ao marido se dirá a verdade ou mentirá, e diz que nunca viu semelhança igual: o rapaz só pode ser Telêmaco. Quem reconhece o filho é a mulher por causa de quem os aqueus foram a Troia, e o faz pelo rosto.

οὐ γάρ πώ τινά φημι ἐοικότα ὧδε ἰδέσθαι / οὔτʼ ἄνδρʼ οὔτε γυναῖκα, σέβας μʼ ἔχει εἰσορόωσαν, / ὡς ὅδʼ Ὀδυσσῆος μεγαλήτορος υἷι ἔοικε (4.141-143), pois afirmo nunca ter visto alguém tão parecido, nem homem nem mulher (o espanto me toma ao olhar), como este se parece com o filho do magnânimo Odisseu.
Canto IV: Telêmaco em Esparta

Depois de todos chorarem, lança no vinho uma droga egípcia que tira a dor e a cólera e faz esquecer os males, e diz que Zeus dá a cada um bem e mal. Conta que Odisseu entrou em Troia como mendigo, depois de se ferir com golpes humilhantes e vestir trapos de escravo, e que só ela o reconheceu. Deu-lhe banho e óleo, jurou não o denunciar, e ele lhe contou o plano dos aqueus. As outras troianas gritavam, mas o coração dela se alegrava, porque queria voltar para casa, e ela lamentava a cegueira que Afrodite lhe dera ao levá-la para longe da pátria.

αὐτίκʼ ἄρʼ εἰς οἶνον βάλε φάρμακον, ἔνθεν ἔπινον, / νηπενθές τʼ ἄχολόν τε, κακῶν ἐπίληθον ἁπάντων (4.220-221), pôs no vinho de que bebiam uma droga que tira a dor e a cólera e faz esquecer todos os males.
Canto IV: Telêmaco em Esparta
ἔνθʼ ἄλλαι Τρῳαὶ λίγʼ ἐκώκυον· αὐτὰρ ἐμὸν κῆρ / χαῖρʼ, ἐπεὶ ἤδη μοι κραδίη τέτραπτο νέεσθαι / ἂψ οἶκόνδʼ, ἄτην δὲ μετέστενον, ἣν Ἀφροδίτη / δῶχʼ, ὅτε μʼ ἤγαγε κεῖσε φίλης ἀπὸ πατρίδος αἴης (4.259-262), ali as outras troianas gritavam alto; o meu coração, porém, se alegrava, pois já meu ânimo se voltara para voltar para casa, e eu lamentava a cegueira que Afrodite me deu quando me levou para lá, longe da minha terra querida.
Canto IV: Telêmaco em Esparta

Menelau responde que ela falou como convém, e conta outro feito: dentro do cavalo de madeira, os chefes ouviram Helena rodeá-lo três vezes, chamando-os pelo nome com a voz das esposas, e Odisseu os conteve até que Atena a levasse embora. Ela manda armar as camas dos hóspedes.

No Canto XI, Odisseu diz a Agamêmnon, no Hades, que muitos morreram por Helena. No Canto XIV, Eumeu amaldiçoa a linhagem dela, que fez perecer tantos homens, entre eles o seu senhor.

No Canto XV, quando Telêmaco se despede, Menelau lhe dá uma cratera, e ela, o peplo mais belo e mais largo da arca, feito por suas mãos, para a esposa que ele ainda vai ter. Quando uma águia passa levando um ganso, Menelau hesita na resposta, e ela se adianta: como a águia veio do monte e arrebatou o ganso criado em casa, assim Odisseu voltará e se vingará. Telêmaco diz que a invocaria como a uma deusa.

δῶρόν τοι καὶ ἐγώ, τέκνον φίλε, τοῦτο δίδωμι, / μνῆμʼ Ἑλένης χειρῶν, πολυηράτου ἐς γάμου ὥρην, / σῇ ἀλόχῳ φορέειν· (15.125-127), também eu te dou este presente, filho querido, lembrança das mãos de Helena, para a hora do muito desejado casamento, para tua esposa usar.
Canto XV: A volta de Telêmaco
ὡς ὅδε χῆνʼ ἥρπαξʼ ἀτιταλλομένην ἐνὶ οἴκῳ / ἐλθὼν ἐξ ὄρεος, ὅθι οἱ γενεή τε τόκος τε, / ὣς Ὀδυσεὺς κακὰ πολλὰ παθὼν καὶ πόλλʼ ἐπαληθεὶς / οἴκαδε νοστήσει καὶ τίσεται· (15.174-177), assim como esta águia arrebatou o ganso criado em casa, vinda do monte onde tem sua cria e seus filhotes, assim Odisseu, depois de sofrer muitos males e de muito errar, voltará para casa e se vingará.
Canto XV: A volta de Telêmaco

No Canto XVII, Telêmaco conta a Penélope o que viu em Esparta, e entre os que viu está Helena. No Canto XXII, Atena censura Odisseu: já não tem a força de quando lutou nove anos por Helena.

No Canto XXIII, Penélope a cita ao explicar por que demorou a aceitar o marido. Nem Helena, nascida de Zeus, teria se unido a um estrangeiro se soubesse que os aqueus a levariam de volta; um deus a impeliu à ação vergonhosa, e dessa ruína nasceu também o luto dos dois.

οὐδέ κεν Ἀργείη Ἑλένη, Διὸς ἐκγεγαυῖα, / ἀνδρὶ παρʼ ἀλλοδαπῷ ἐμίγη φιλότητι καὶ εὐνῇ, / εἰ ᾔδη ὅ μιν αὖτις ἀρήϊοι υἷες Ἀχαιῶν / ἀξέμεναι οἶκόνδε φίλην ἐς πατρίδʼ ἔμελλον. (23.218-221), nem a argiva Helena, nascida de Zeus, teria se unido em amor e no leito a um homem estrangeiro, se soubesse que os belicosos filhos dos aqueus um dia a levariam de volta para casa, para a pátria querida.
Canto XXIII: O leito de oliveira

Temas que encarna

Helena encarna a Lealdade e traição no ponto em que ela se confunde com a Verdade e mentira e com o destino: o poema a mostra explicando, a quem quer ouvir, que foi uma cegueira posta por Afrodite, e deixa que o marido responda que ela falou como convém. Encarna também a Família, como esposa e anfitriã que, com a droga lançada no vinho, apaga a dor da mesa da casa de Menelau.

O que Helena diz de si, que queria voltar para casa e lamentava a cegueira de Afrodite, pode ser lido de duas maneiras que o texto sustenta: a explicação de quem foi levada, ou a versão que a protege diante do marido. O mesmo vale para a droga, que é remédio para o luto e também o meio de que ela dispõe para controlar o que se diz à mesa. Penélope, por sua vez, a cita sem condená-la: um deus a impeliu, e a cautela de Penélope é o contrário da imprudência de Helena.

Relações

  • Menelau: o marido com quem convive sem rancor aparente, que a corrige em público.
  • Telêmaco: o rapaz que ela reconhece pelo rosto e a quem dá um peplo.
  • Odisseu: o homem que ela reconheceu em Troia, disfarçado de mendigo.
  • Penélope: a esposa que a cita como exemplo do que o medo de ser enganada evita.