Quem é
O cativo é o capitão que chega à estalagem no capítulo XXXVII da Primeira Parte com uma moura de véu, Zoraida, e que, a pedido de dom Fernando e dos que ouviram o fidalgo discursar sobre as armas e as letras, conta a própria vida como quem promete um relato verdadeiro e não uma invenção (capítulo XXXIX da Primeira Parte). Só no capítulo XLII da Primeira Parte recebe o nome completo, Ruy Pérez de Viedma. Nasceu nas Montanhas de Leão, filho de um pai que repartiu a herança entre três filhos e os mandou seguir cada um um caminho (Igreja, mar ou casa real), tomou o da guerra, serviu ao duque de Alba em Flandres, chegou a capitão em Lepanto, foi rendido ao saltar à galera inimiga, passou cativo em Constantinopla, em Navarino, em Argel, e de lá fugiu com Zoraida, que lhe escreveu primeiro, do alto de uma janela. Quer a liberdade, a espanhola e a dela, e a volta ao pai e aos irmãos; teme que o irmão ouvidor se envergonhe do capitão pobre; sabe de guerra, de cativeiro e de resgates; e se engana, talvez, ao aceitar o plano do renegado em lugar do que Zoraida propusera. Passa o livro numa estalagem em que todos se reconhecem, e o romance o põe entre o fidalgo que acaba de discursar e o ouvidor que é seu irmão.
Trajetória
No capítulo XXXVIII da Primeira Parte, o fidalgo fecha à mesa o discurso sobre as armas e as letras, e logo a palavra passa ao soldado verdadeiro, que promete contar uma vida. No capítulo XXXIX da Primeira Parte, com o silêncio que pediu, o cativo começa em primeira pessoa: o pai, tido por rico, o seria de verdade se soubesse conservar a fazenda como sabia gastá-la, e quis privar-se do instrumento do gasto. Chama os três filhos a sós e propõe um refrão da Espanha:
y el que yo digo dice: "Iglesia, o mar, o casa real", e o que eu digo diz: «Igreja, ou mar, ou casa real».
O pai traduz o refrão em três ofícios, as letras, a mercancia e a guerra, e deixa claro o que cada um dá: quem quiser valer e ser rico siga a Igreja ou o mar, e a guerra, que não dá muitas riquezas, costuma dar muito valor e muita fama. Quer livrar-se do que o faz gastador sem passar por mau pai, e o faz com razões longas e meditadas, para os filhos não o tomarem por padrasto. O cativo escolhe a guerra, o segundo irmão as Índias, o menor a Igreja ou Salamanca. Conta então Lepanto pelo avesso:
vine yo a quedar cautivo en su poder, y solo fui el triste entre tantos alegres y el cautivo entre tantos libres; porque fueron quince mil cristianos los que aquel día alcanzaron la deseada libertad, que todos venían al remo en la turquesca armada, vim eu a ficar cativo em seu poder, e só eu fui o triste entre tantos alegres e o cativo entre tantos livres; porque foram quinze mil os cristãos que naquele dia alcançaram a desejada liberdade, que todos vinham ao remo na armada turquesca.
A vitória de que o mundo se desengana é a que o encadeia, e entre os que a ganharam estão quinze mil remeiros cristãos libertos. A frase se arma em pares (triste e alegres, cativo e livres) e ele não se queixa do que fez, o salto à galera inimiga, que conta como obrigação. Pode ser lamento, ou a medida de quem sabe ter feito parte de uma vitória que o deixou de fora. Em Constantinopla vê o amo feito general do mar, remar em Navarino, a perda da Goleta e do forte, e nomeia dom Pedro de Aguilar, alferes e poeta cativo como ele, a quem a sorte levou à sua galera e ao seu banco; um dos três que sorriem à mesa é o irmão de Aguilar, que vive em seu lugar, bom e rico, casado e com três filhos. O cativo diz, como quem fala de si:
no hay en la tierra, conforme mi parecer, contento que se iguale a alcanzar la libertad perdida, não há na terra, a meu parecer, contentamento que se iguale a alcançar a liberdade perdida.
A frase é dita sobre outro e vale para quem a diz: um cativo livre há poucos dias, que acabou de contar o salto à galera, o banco do remo e o preço em ouro e em risco que a liberdade lhe custou. Os três que sorriram sabiam do irmão de Aguilar o que o cativo ignorava, e a coincidência é a primeira de uma noite de reconhecimentos que o livro não esconde.
No capítulo XL da Primeira Parte, ao descrever as crueldades do amo, que a cada dia enforca um, empala outro, corta as orelhas de outro, interrompe o próprio relato para louvar um soldado espanhol a quem esse amo nunca bateu:
Sólo libró bien con él un soldado español, llamado tal de Saavedra, el cual, con haber hecho cosas que quedarán en la memoria de aquellas gentes por muchos años, y todas por alcanzar libertad, jamás le dio palo, ni se lo mandó dar, ni le dijo mala palabra, só se deu bem com ele um soldado espanhol, chamado um tal de Saavedra, o qual, por ter feito coisas que ficarão na memória daquelas gentes por muitos anos, e todas para alcançar a liberdade, jamais lhe deu pau, nem mandou dar, nem lhe disse má palavra.
O cativo nomeia o soldado pelo sobrenome, como quem aponta alguém que os ouvintes poderiam conhecer, e deixa o relato para depois. Otto Maria Carpeaux, em História da Literatura Ocidental - 5.6 - Antibarroco, situa Cervantes entre os soldados de Filipe II e os cativos dos mouros:
Cervantes (1547-1616) foi soldado a serviço de Filipe II, cativo dos mouros, e publicou o Dom Quixote em duas partes, 1605 e 1615; a leitura de Carpeaux o situa como o último dos erasmianos espanhóis, um "miles christianus" anacrônico numa Espanha que já tinha trocado o universalismo erasmiano pelo maquiavelismo de Estado.
Saavedra é o segundo sobrenome do autor, que também foi cativo dos mouros em Argel. O texto não diz que o soldado seja ele: diz que o cativo o louva e o deixa fora do relato, e é só pelo sobrenome que o leitor pode ouvir ali o autor. Depois, o cativo conta da cana de pescar que se mexe sobre o pátio do banho: uma mão muito branca, uma cruz de canas, quarenta escudos de ouro e um papel em árabe. O renegado de Múrcia traduz o que a moça escreve:
muchos cristianos he visto por esta ventana, y ninguno me ha parecido caballero sino tú. Yo soy muy hermosa y muchacha, y tengo muchos dineros que llevar conmigo: mira tú si puedes hacer cómo nos vamos, y serás allá mi marido, si quisieres, y si no quisieres, no se me dará nada, que Lela Marién me dará con quien me case, muitos cristãos tenho visto por esta janela, e nenhum me pareceu cavaleiro senão tu. Eu sou muito formosa e moça, e tenho muitos dinheiros para levar comigo: vê tu se podes fazer como nos vamos, e serás lá meu marido, se quiseres, e se não quiseres, não se me dará nada, que Lela Marién me dará com quem me case.
A moça escolhe um cavaleiro entre os cristãos que viu pela janela e deixa a ele a decisão de casar, porque Lela Marién lhe arranjará marido se ele não quiser. Não sabe como fugir, só que quer ir, e pede segredo por medo do pai, que a jogaria num poço. A iniciativa é toda dela: o dinheiro, a fuga, a escolha do cativo; a ele cabe responder. Ele responde que se casará com ela como bom cristão e que os cristãos cumprem o que prometem melhor que os mouros. Quando Zoraida propõe que ele se resgate e volte com uma barca, todos querem ser o resgatado, e o renegado se opõe:
la experiencia le había mostrado cuán mal cumplían los libres las palabras que daban en el cautiverio [...] porque la libertad alcanzada y el temor de no volver a perderla les borraba de la memoria todas las obligaciones del mundo, a experiência lhe tinha mostrado quão mal cumpriam os livres as palavras que davam no cativeiro [...] porque a liberdade alcançada e o temor de não voltar a perdê-la lhes apagava da memória todas as obrigações do mundo.
O renegado fala de caso visto: principais cativos que mandaram um resgatado buscar barca na terra de cristãos e nunca o viram voltar. Ao mesmo tempo, o plano que propõe o põe como dono da barca, e o cativo, que preferia mandar buscar a barca em Maiorca como Zoraida dissera, não se atreve a contradizê-lo, com medo de que os denuncie. A razão do renegado pode ser prudência, e pode ser o desejo de ter o comando.
No capítulo XLI da Primeira Parte, o renegado compra uma barca e o cativo escolhe doze remeiros espanhóis. Vai ao jardim de Agi Morato sob pretexto de colher ervas, e Zoraida lhe lança um braço ao pescoço e caminha para a casa com passos desmaiados, quando o pai os vê:
Zoraida, advertida y discreta, no quiso quitar el brazo de mi cuello, antes se llegó más a mí y puso su cabeza sobre mi pecho, doblando un poco las rodillas, dando claras señales y muestras que se desmayaba, y yo, ansimismo, di a entender que la sostenía contra mi voluntad, Zoraida, avisada e discreta, não quis tirar o braço de meu pescoço, antes se chegou mais a mim e pôs sua cabeça sobre meu peito, dobrando um pouco os joelhos, dando claros sinais e mostras de que desmaiava, e eu, do mesmo modo, dei a entender que a sustinha contra a minha vontade.
Zoraida decide em um instante e muda o que o pai viu: o que seria prova de intimidade vira o desmaio de uma moça assustada com turcos. O cativo a acompanha no gesto sem ter sido avisado. Na fuga, quando o pai, que a abraça, descobre que ela é cristã, ela responde que é cristã, mas não a que o pôs em poder dos inimigos, e remete o pai à Virgem:
La que es cristiana yo soy, pero no la que te ha puesto en este punto, porque nunca mi deseo se estendió a dejarte ni a hacerte mal, sino a hacerme a mí bien [...] pregúntaselo tú a Lela Marién, que ella te lo sabrá decir mejor que no yo, a que é cristã sou eu, mas não a que te pôs neste ponto, porque nunca meu desejo se estendeu a deixar-te nem a fazer-te mal, mas a fazer bem a mim [...] pergunta-o tu a Lela Marién, que ela saberá dizer-te melhor do que eu.
A moça separa duas coisas que o pai junta: ser cristã e tê-lo posto em poder dos inimigos. O que ele faz a seguir, jogar-se de cabeça ao mar, sugere que a ouviu como sentença. Salvo, e posto em terra com os mouros na enseada da Cava Rumía, grita de longe que ela volte, que ele lhe perdoa tudo, e Zoraida, quando ele já não pode ouvi-la, responde:
Alá sabe bien que no pude hacer otra cosa de la que he hecho, y que estos cristianos no deben nada a mi voluntad, pues, aunque quisiera no venir con ellos y quedarme en mi casa, me fuera imposible, según la priesa que me daba mi alma a poner por obra ésta que a mí me parece tan buena como tú, padre amado, la juzgas por mala, Alá sabe bem que não pude fazer outra coisa que a que fiz, e que estes cristãos nada devem à minha vontade, pois, ainda que quisesse não vir com eles e ficar em minha casa, me seria impossível, segundo a pressa que minha alma me dava para pôr em obra esta que a mim parece tão boa como tu, pai amado, a julgas má.
O pai deu duas razões que a tiram da fé, o proveito e a licenciosidade, e ela responde com uma terceira, a pressa da alma, que ele não pode ver. Ao dizer que os cristãos nada devem à sua vontade, afirma que a decisão foi dela e faz de si a agente da fuga, e não do cativo.
No capítulo XLII da Primeira Parte, o cativo se cala, e dom Fernando oferece o marquês, seu irmão, como padrinho do batismo de Zoraida. Ao cerrar da noite chega à estalagem um ouvidor e uma donzela, e o cativo, ao ver o ouvidor, sente o coração saltar: é Juan Pérez de Viedma, o irmão que seguiu as letras. Aqui a ordem dos dois filhos mais novos se inverte em relação ao que o cativo contou antes: o ouvidor, das letras, aparece como o do meio, e o menor está no Peru. Chama à parte dom Fernando, Cardênio e o padre, e pede conselho para se dar a conhecer ou para saber primeiro se o irmão, vendo-o pobre, se envergonharia ou o receberia de boas entranhas. O padre toma a prova a seu cargo, e na ceia conta ao ouvidor, como se ouvisse de um camarada de Constantinopla chamado Ruy Pérez de Viedma, a história do pai, da guerra, de Lepanto, de Zoraida. O ouvidor suspira e enche os olhos de água:
¡Oh buen hermano mío, y quién supiera agora dónde estabas; que yo te fuera a buscar y a librar de tus trabajos, aunque fuera a costa de los míos!, oh bom irmão meu, e quem soubesse agora onde estavas; que eu te iria buscar e livrar de teus trabalhos, ainda que fosse à custa dos meus!
O padre armou o rodeio para saber se o irmão se envergonharia do capitão pobre, e o ouvidor responde a essa pergunta sem saber que ela foi feita: diz que iria buscá-lo, e à custa dos seus. O capitão, afastado, nota cada movimento do irmão. O padre, vendo que a prova saiu como o capitão queria, leva Zoraida pela mão, com Luscinda, Doroteia e a filha do ouvidor, e o capitão pela outra, e diz ao ouvidor que cesse as lágrimas, pois tem diante de si o bom irmão e a boa cunhada. O capitão corre a abraçar o irmão, que lhe põe as mãos no peito para olhá-lo mais afastado e, quando o reconhece, o abraça tão estreitamente que os presentes o acompanham. Dom Quixote, enquanto isso, assiste calado:
Allí don Quijote estaba atento, sin hablar palabra, considerando estos tan estraños sucesos, atribuyéndolos todos a quimeras de la andante caballería, ali dom Quixote estava atento, sem dizer palavra, considerando estes tão estranhos sucessos e atribuindo-os todos a quimeras da cavalaria andante.
O fidalgo que acabou de pesar armas e letras fica calado diante de uma história de armas, de cativeiro e de letras, e a absorve na única língua que sabe. O texto admite duas leituras: o mundo oferece acontecimentos que só a cavalaria sabe ler, ou o relato do cativo, que se dizia verdadeiro, é ele mesmo escrito como aventura de livro, e dom Quixote reconhece o gênero. Combinam que o capitão e Zoraida voltem com o ouvidor a Sevilha e avisem o pai, para que venha às bodas e ao batismo; a frota parte dali a um mês para a Nova Espanha.
Temas que encarna
O cativo é a Liberdade e opressão vista de baixo, pelo banco do remo e pela cadeia. O livro dá a ele a única história de liberdade que custa: a vitória que o encadeia, o resgate pelo dinheiro de outra, a fuga em que quem decide é a mulher. A liberdade que Marcela reclama por vontade própria (capítulo XIV da Primeira Parte) ele a perdeu pela guerra e a recobra pela iniciativa de Zoraida. O que a liberdade apaga é, segundo o renegado, a obrigação dos libertos (capítulo XL da Primeira Parte).
Em Amor, a iniciativa é de Zoraida: ela escreve primeiro, decide o plano, muda o que o pai viu, assume a fuga. O cativo responde, e o livro o deixa em segundo plano na própria história de amor. O contraste é com as histórias de Cardênio e de Doroteia, em que o amor se perde pela palavra quebrada: aqui é a palavra cumprida, a do cavaleiro que promete casar-se como bom cristão (capítulo XL da Primeira Parte), que salva a cena.
Em Linguagem e narração, o cativo é o relato que se diz verdadeiro. Ele promete contar uma vida e não uma invenção (capítulo XXXIX da Primeira Parte), e o livro o confirma e o contradiz: o relato tem a forma das novelas de cativos, a janela, a cana, a moura que escreve, e o fidalgo, que o ouve, o lê como quimera de cavalaria (capítulo XLII da Primeira Parte). O soldado Saavedra, louvado no meio do relato, faz o autor passar pela história sem que o texto diga que é ele (capítulo XL da Primeira Parte).
Leituras divergentes
O livro põe duas leituras do plano do renegado, e nenhuma é desmentida. O renegado fala de caso visto: principais cativos que mandaram um resgatado buscar barca e nunca o viram voltar. O texto também mostra que o plano o põe como dono da barca. O cativo, por medo de que o denunciem, não contradiz. Pode ser prudência do renegado, pode ser desejo de comando, e a dúvida decide se o cativo foi enganado, ou apenas calou (capítulo XL da Primeira Parte).
Também as leituras de Zoraida divergem. O pai deu duas razões que a tiram da fé, o proveito e a licenciosidade; ela responde com uma terceira, a pressa da alma, que ele não pode ver. Quem lê a fuga como conversão vê uma cristã que nunca quis fazer mal ao pai; quem a lê como escolha de ordem vê uma mulher que decide por si (capítulo XLI da Primeira Parte).
As leituras divergem sobre o que o relato do cativo faz no livro. Quem o lê como pausa moral vê a vida de um soldado que contrasta com a do fidalgo, a guerra real ao lado da imaginada. Quem o lê como mais uma ficção vê o romance contando outra aventura de livro, com os mesmos elementos que o padre e o barbeiro sabem manejar, o disfarce, o rodeio, a revelação (capítulo XLII da Primeira Parte). Contra a primeira leitura vale lembrar que o fidalgo não distingue as duas coisas e as absorve na mesma língua; contra a segunda, que o relato é carregado de fatos que um soldado de verdade guardaria, Navarino, a Goleta, Túnez (capítulo XXXIX da Primeira Parte).
Relações
- Dom Quixote: o cavaleiro que o ouve calado e o absorve na língua que sabe (capítulo XLII da Primeira Parte), depois de ter discursado sobre as armas e as letras (capítulo XXXVIII da Primeira Parte).
- O padre e o barbeiro: o padre que toma a prova do irmão a seu cargo e a conduz pelo rodeio (capítulo XLII da Primeira Parte).
- Doroteia e Cardênio: os que escutam, aconselham e acompanham o padre quando ele leva Zoraida pela mão na hora do reconhecimento (capítulo XLII da Primeira Parte).
- Marcela: a outra figura do livro que fala de liberdade, mas por vontade própria e em solidão (capítulo XIV da Primeira Parte).