Clavis Libri

Personagem

Doroteia

Quem é

Doroteia é a filha de lavradores ricos da Andaluzia, cristãos velhos sem mistura, vassalos de um duque, que a criaram como o espelho em que se olhavam e a fizeram mordoma de toda a fazenda (capítulo XXVIII da Primeira Parte). Aparece na Serra Morena vestida de moço, com os pés na água de um arroio, e o cabelo louro que lhe cai ao tirar o gorro desfaz o disfarce diante de Cardênio e do padre. Foi seduzida por dom Fernando, filho menor do duque, com a palavra de esposo, e abandonada por ele; seguiu-o, disfarçada, e fugiu de dois homens que quiseram tomá-la à força. Quer a honra de volta; teme ser achada pelos pais antes de a ter; sabe que a cavalaria dos livros pode movê-la, porque leu muito romance e conhece o estilo das donzelas cuitadas (capítulo XXIX da Primeira Parte); e erra o cálculo ao confiar numa palavra dita diante de uma imagem, sabendo que a vontade dele pode durar só o que dure o desejo (capítulo XXVIII da Primeira Parte). O romance a faz duas vezes: moça que reivindica ser tratada como igual, e princesa Micomicona, rainha de um reino da Etiópia, no teatro armado para tirar Dom Quixote da serra. No fim é ela, e não Cardênio, quem desarma dom Fernando (capítulo XXXVI da Primeira Parte).

Trajetória

No capítulo XXVIII da Primeira Parte, aos três que a rodeiam, conta quem é. Dom Fernando se prende a ela por um só olhar, suborna a gente da casa, escreve bilhetes cheios de promessas, e os pais lhe dizem que a desigualdade mostra que ele busca o seu gosto e não o proveito dela. Quando ela soube que os pais a queriam casar, ele entrou à noite em seu aposento, onde ela, turbada, não teve voz para gritar nem força para defender-se, e a tomou nos braços com razões tais que ela não entende como a mentira pode parecer tão verdadeira. Passado o sobressalto, ela responde:

Tu vasalla soy, pero no tu esclava; ni tiene ni debe tener imperio la nobleza de tu sangre para deshonrar y tener en poco la humildad de la mía; y en tanto me estimo yo, villana y labradora, como tú, señor y caballero, tua vassala sou, mas não tua escrava; nem tem nem deve ter império a nobreza do teu sangue para desonrar e ter em pouco a humildade do meu; e em tanto me estimo eu, vilã e lavradora, como tu, senhor e cavaleiro.
Primeira Parte: A penitência e Micomicona

Doroteia responde com a hierarquia de que ele se serve, e a vira ao contrário: reconhece-se súdita, mas não aceita ser coisa, e põe o valor de cada um no que cada um se estima. É um discurso de igualdade que não pede nada a ninguém, e ela o diz abraçada à força, antes que ele a desarme com a promessa de casamento. Erich Auerbach observa, em Mimesis - Cap. 06 - A saída do cavaleiro cortês, que no romance cortês só aos cavaleiros e damas da camada cortesã podem acontecer coisas sérias, e quem não pertence a ela só entra na cena como cenário, de modo cômico, grotesco ou desprezível:

são dignas da aventura e, portanto, só a elas podem acontecer coisas sérias e importantes, diz Auerbach sobre as pessoas cavaleirescas-cortesãs, em contraste direto com o vilão do Yvain, de Chrétien de Troyes, que guarda o rebanho e conhece a fonte mágica sem nunca poder viver a aventura dela.
Auerbach, Mimesis

Dom Fernando responde que, se só falta o casamento, ali lhe dá a mão, com os céus e uma imagem de Nossa Senhora por testemunhas. Ela revê o que lhe resta e cede:

Sí, que no seré yo la primera que por vía de matrimonio haya subido de humilde a grande estado, ni será don Fernando el primero a quien hermosura, o ciega afición, que es lo más cierto, haya hecho tomar compañía desigual a su grandeza [...] puesto que en éste no dure más la voluntad que me muestra de cuanto dure el cumplimiento de su deseo; que, en fin, para con Dios seré su esposa, sim, que eu não serei a primeira que por via de matrimônio tenha subido de humilde a grande estado, nem será dom Fernando o primeiro a quem a formosura, ou cega afeição, que é o mais certo, tenha feito tomar companhia desigual à sua grandeza [...] ainda que nele não dure a vontade que me mostra mais do que dure o cumprimento do seu desejo; que, enfim, perante Deus serei sua esposa.
Primeira Parte: A penitência e Micomicona

Doroteia pesa as razões uma a uma: o precedente de outras, o risco de ele usar a força e deixá-la sem defesa diante dos pais, o juramento feito diante de uma imagem. Aceita sabendo que a vontade dele pode durar só o que dure o desejo, e fica com o que lhe resta, a honra diante de Deus. Pode ser cálculo, pode ser amor, e ela mesma conta que o convenceram também as lágrimas dele e a sua gentileza. Ele a deixa antes do amanhecer, com um anel no dedo dela, e um mês passa sem que ela o veja. Depois chega a notícia de que dom Fernando se casou numa cidade próxima com uma donzela chamada Luscinda, e Doroteia se veste de zagal, com um criado do pai, e vai à cidade, onde ouve a história do desposório. O criado quer tomá-la à força, ela o precipita num barranco e o deixa sem saber se vivo ou morto; serve meses como zagal de um ganadeiro, até que o amo a reconhece e lhe nasce o mesmo mau pensamento; sem barranco à mão, ela foge de novo e se embosca entre as asperezas, rogando ao céu que a ajude a sair ou a deixar a vida.

No capítulo XXIX da Primeira Parte, termina a história e pede conselho: onde viver sem temer ser achada, pois a vergonha de se mostrar aos pais de outro modo que eles esperavam a faz preferir o desterro. Cardênio se revela o desditoso a quem Luscinda disse ser esposa e jura não a abandonar. Sancho volta e conta a mensagem que o padre lhe ensinou, e Doroteia, que sabe o estilo, propõe fazer ela mesma a donzela necessitada, e tira da trouxa saia, mantilha, joias e um colar com que parece uma grande senhora. O padre diz a Sancho, com o ar de quem diz coisa de pouca monta, que ela é a herdeira por linha reta do grande reino de Micomicão:

es, como quien no dice nada, es la heredera por línea recta de varón del gran reino de Micomicón, é, como quem não diz nada, a herdeira por linha reta de varão do grande reino de Micomicão.
Primeira Parte: A penitência e Micomicona

É o que convence o escudeiro: ele só precisa de um nome e de um reino, e os traz de casa. Doroteia se ajoelha diante de dom Quixote, já vestido mas sem armas, e pede um dom sem se levantar. Ele concede, sem saber o quê:

Yo vos le otorgo y concedo -respondió don Quijote-, como no se haya de cumplir en daño o mengua de mi rey, de mi patria y de aquella que de mi corazón y libertad tiene la llave, eu vo-lo outorgo e concedo, respondeu dom Quixote, contanto que não se haja de cumprir em dano ou míngua de meu rei, de minha pátria e daquela que de meu coração e liberdade tem a chave.
Primeira Parte: A penitência e Micomicona

Dom Quixote concede com a única ressalva das três fidelidades que guarda, o rei, a pátria e a dama. Quem pede de joelhos, na forma dos livros, não pode ser recusado por quem conhece os livros, e Doroteia o sabe. O pedido lhe dá o que ele sempre quis, uma queixa a reparar. No capítulo XXX da Primeira Parte, ela conta a história da princesa Micomicona: o pai, o rei Tinacrio, o Sabedor, versado em arte mágica, soube por ciência que a mãe, a rainha Jaramilla, morreria antes dele e que um gigante, Pandafilando da Fosca Vista, passaria sobre o reino; mandou-a à Espanha, onde acharia o remédio num cavaleiro andante de fama grande, que se chamaria dom Azote ou dom Gigote. Esquece o nome que o padre lhe dera e o padre o sopra, e o fidalgo, Sancho corrige, é dom Quixote ou o Cavaleiro da Triste Figura. O padre acode com a emenda quando o fidalgo nota que Osuna não é porto. Quando Sancho, enfurecido com a recusa do amo de casar, ofende Dulcineia, e dom Quixote o derruba a golpes de lança, é Doroteia quem impede um terceiro golpe, e quem manda Sancho beijar a mão do amo e pedir perdão.

No capítulo XXXVI da Primeira Parte, quando dom Fernando chega à estalagem com Luscinda embuçada e ela o reconhece e cai desmaiada nos braços do barbeiro, Luscinda fala primeiro. Doroteia, que voltou a si e ouviu tudo, se ajoelha a seus pés e lhe diz que é a lavradora que ele quis levantar à altura de se chamar sua:

Tú no puedes ser de la hermosa Luscinda, porque eres mío, ni ella puede ser tuya, porque es de Cardenio; y más fácil te será, si en ello miras, reducir tu voluntad a querer a quien te adora, que no encaminar la que te aborrece a que bien te quiera, tu não podes ser da formosa Luscinda, porque és meu, nem ela pode ser tua, porque é de Cardênio; e mais fácil te será, se nisso reparas, reduzir tua vontade a querer quem te adora do que encaminhar a que te aborrece a que bem te queira.
Primeira Parte: O Curioso Impertinente

Doroteia vira contra ele a conta que ele não pode negar: foi ele quem solicitou, quem rogou, quem conhecia a sua qualidade. A simetria é a sua melhor razão: ele não pode ser de Luscinda porque é dela, nem Luscinda dele porque é de Cardênio. Fala de honra e de nobreza, não de amor, porque é o que pode convencê-lo, e termina dizendo que, se tudo faltar, a consciência dele dará vozes calando. Diz que, se não a quer por esposa legítima, aceite-a ao menos por escrava; que não dê tão má velhice a seus pais, que servem aos dele; que a nobreza verdadeira está na virtude. Chora tanto que os que acompanham dom Fernando choram com ela. Ele a escuta sem responder e então abre os braços e solta Luscinda:

Venciste, hermosa Dorotea, venciste; porque no es posible tener ánimo para negar tantas verdades juntas, venceste, formosa Doroteia, venceste; porque não é possível ter ânimo para negar tantas verdades juntas.
Primeira Parte: O Curioso Impertinente

Dom Fernando cede a um argumento e não a um sentimento: à verdade que não pode negar, e o texto o diz com essas palavras. Cercado de quem defende Doroteia, e com ela aos seus pés, a derrota lhe custa menos que a obstinação diante de todos. Pode ser arrependimento, e pode ser a saída honrosa que o grupo lhe abre. A novela do Curioso Impertinente termina com três mortos; a estalagem termina com dois casais refeitos e os odres a pagar, e a diferença está em quem escuta, pois a razão de Lotário não salva Anselmo e a de Doroteia salva dom Fernando de si mesmo (capítulo XXXVII da Primeira Parte).

No mesmo capítulo XXXVII da Primeira Parte, Cardênio se oferece para continuar a ficção com Luscinda no papel de Micomicona, e dom Fernando prefere que Doroteia prossiga. Quando o fidalgo lhe diz que Sancho o informou de que a grandeza dela se aniquilou, ela responde, com graça e gravidade, que quem lhe disse que mudou não disse a verdade, porque a que foi ontem é a de hoje, e a ficção prossegue; o fidalgo se volta então contra Sancho, a quem chama o maior velhaquete de Espanha. No capítulo XLIII da Primeira Parte, acorda dona Clara para que não perca a voz do músico e, ouvindo da moça a confissão do amor por um moço de mulas que é fidalgo disfarçado, promete encaminhar os negócios dela ao amanhecer:

No es sino señor de lugares -respondió Clara-, y el que le tiene en mi alma con tanta seguridad que si él no quiere dejalle, no le será quitado eternamente, qual nada, é senhor de lugares, respondeu Clara, e o que ele tem em minha alma o tem com tanta segurança que, se ele não quiser deixá-lo, não lhe será tirado eternamente.
Primeira Parte: As armas e o cativo

No capítulo XLIV da Primeira Parte conta a Cardênio a história do músico e de Clara. No capítulo XLVI da Primeira Parte, o fidalgo, de joelhos diante dela, quer acabar a aventura a que foi chamado, e ela o faz levantar antes de ouvi-lo; quando Sancho diz que a rainha não é rainha, porque anda hocicando com alguém, ela cora e não responde:

sino que yo tengo por cierto y por averiguado que esta señora que se dice ser reina del gran reino Micomicón no lo es más que mi madre; porque, a ser lo que ella dice, no se anduviera hocicando con alguno de los que están en la rueda, a vuelta de cabeza y a cada traspuesta, senão que eu tenho por certo e por averiguado que esta senhora que se diz ser rainha do grande reino Micomicão não o é mais que minha mãe, porque, se fosse o que diz, não andaria de focinho com algum dos que estão na roda, a cada virar de cabeça e a cada descuido.
Primeira Parte: A jaula e o cônego

Doroteia é quem tempera a ira do fidalgo contra Sancho, dizendo que o escudeiro talvez não fale sem ocasião, e que, se naquele castelo tudo sucede por encantamento, ele pode ter visto por essa via diabólica o que diz ter visto. No capítulo XLVII da Primeira Parte, o padre e o barbeiro se despedem dela e de Luscinda e combinam dar notícias uns aos outros.

Temas que encarna

Doroteia é o Amor que sobrevive à traição. Duas histórias de amor traído, a dela e a de Cardênio, mostram o preço de uma palavra dada e quebrada, e a dela tem o desfecho que a de Anselmo e Camila não tem: no capítulo XXXVI da Primeira Parte, ela vence o homem que a traiu pelo único argumento que ele não pode negar, a simetria de quem é de quem. O livro lhe dá a palavra diante da plateia que reúne os traídos, e é por isso que a estalagem acaba em dois casais refeitos.

A Honra e reputação de Doroteia é a de quem se sabe igual: lavradora rica, cristã velha sem mistura, ela não aceita o vocabulário de dom Fernando, mas aceita o que lhe resta, a honra diante de Deus (capítulo XXVIII da Primeira Parte). Quando a palavra dele é quebrada, é ela quem vai à cidade, quem enfrenta o criado, quem foge do amo, quem nomeia o que perdeu, e é ela que pede a dom Fernando o que o padre lhe dá com outras palavras (capítulo XXXVI da Primeira Parte). A fala em que ela diz ser vassala e não escrava é uma posição de honra, e o livro a deixa à vista sem corrigir.

Em Aparência e realidade, Doroteia faz da princesa Micomicona o que o fidalgo faz de dama: veste um papel que a leitura lhe deu e o sustenta pelo estilo. A ficção funciona porque ele a reconhece (capítulo XXIX da Primeira Parte, capítulo XXX da Primeira Parte), e ela a deixa quando já não serve (capítulo XXXVII da Primeira Parte), diferente dele, que não a deixa. Doroteia mostra que se pode falar a língua dos livros sem ser louca, e o padre e Cardênio notam, com espanto, que o fidalgo discorre com boas razões fora das cavalarias (capítulo XXX da Primeira Parte).

Leituras divergentes

O livro põe duas leituras do consentimento de Doroteia no aposento, e nenhuma é desmentida. Ela mesma diz que o convenceram as lágrimas e a gentileza dele, e que ficou com o que lhe restava, a honra diante de Deus (capítulo XXVIII da Primeira Parte). Pode ser cálculo, pode ser amor.

A observação de Erich Auerbach de que o romance cortês reserva as coisas sérias aos cavaleiros e damas da camada cortesã é posta à prova por Doroteia: camponesa, ela fala com coerência, conduz a ficção da princesa Micomicona e decide o desfecho de uma história que tem duas damas, um duque e um amigo. Duas leituras do que isso diz do livro: Cervantes lhe dá o lugar que o romance cortês negava, ou a deixa à vista como contraste, sem corrigir o gênero. Contra a primeira vale lembrar que ela recebe do padre e de Cardênio a ajuda de que precisa para o papel; contra a segunda, que o abraço final é devido à razão dela (capítulo XXXVI da Primeira Parte).

Relações