Quem é
O padre e o barbeiro são os dois amigos de Dom Quixote na aldeia: o padre Pero Pérez, formado em Sigüenza, e mestre Nicolás, o barbeiro. Aparecem juntos do começo ao fim, de modo que o livro os trata como uma só figura de dois rostos: quando o fidalgo ainda é só leitor, discutem com ele quem foi melhor cavaleiro, Palmeirim de Inglaterra ou Amadís de Gaula (capítulo I da Primeira Parte); quando ele morre, os dois estão à cabeceira, e é o padre quem o confessa (capítulo LXXIV da Segunda Parte). No intervalo, são o braço doméstico da cura: fazem o escrutínio da biblioteca (capítulo VI da Primeira Parte), emparedam o aposento (capítulo VII da Primeira Parte), saem à Serra Morena disfarçados para trazê-lo de volta (capítulo XXVII da Primeira Parte), armam a jaula e a profecia (capítulo XLVI da Primeira Parte), testam-lhe a sanidade (capítulo I da Segunda Parte) e combinam com o bacharel o plano da terceira saída (capítulo VII da Segunda Parte). Querem o bem do amigo e a ordem da aldeia; temem a recaída; sabem de livros, de ofícios e de teatro; e se enganam ao curar uma ficção com outra, de modo que a cura reproduz a doença no estilo dos livros que querem queimar.
Trajetória
No capítulo V da Primeira Parte, estão na casa alvoroçada quando o fidalgo é trazido de volta; ouvem da ama que ele sumira havia três dias e que são os livros de cavalaria que lhe viraram o juízo, e a sobrinha pede que os queimem. O padre concorda e promete que o dia seguinte não passará sem que os livros sejam condenados em ato público:
Esto digo yo también -dijo el cura-, y a fee que no se pase el día de mañana sin que dellos no se haga acto público y sean condenados al fuego, porque no den ocasión a quien los leyere de hacer lo que mi buen amigo debe de haber hecho, concordo, disse o padre, e juro que o dia de amanhã não passará sem que se faça deles auto público e sejam condenados ao fogo, para que não deem a quem os ler ocasião de fazer o que deve ter feito meu bom amigo.
O padre não cogita que o amigo seja doente de nascença, mas vítima de uma leitura, e a cura que propõe é tirar-lhe os livros e fazer disso um espetáculo público. O raciocínio, que dá ao livro o poder de enlouquecer, é o mesmo do fidalgo ao contrário: os dois acreditam que o texto age sobre o mundo. No capítulo VI da Primeira Parte, com o fidalgo ainda dormindo, entram no quarto com a sobrinha e a ama e acham mais de cem exemplares grandes de boa encadernação. O padre quer ler ao menos os títulos antes de condenar, e o barbeiro entrega os livros um a um. O primeiro é Amadís de Gaula:
Parece cosa de misterio ésta; porque, según he oído decir, este libro fue el primero de caballerías que se imprimió en España, y todos los demás han tomado principio y origen déste, parece coisa de mistério esta; porque, segundo ouvi dizer, este livro foi o primeiro de cavalarias que se imprimiu na Espanha, e todos os demais tomaram princípio e origem dele.
O padre começa lendo Amadís como pai de uma seita e propõe queimá-lo por isso, e é o barbeiro quem lembra que dizem ser o melhor do gênero e o salva por ser único no seu gênero. O padre cede, por ora, e a absolvição do pai não vale ao filho: as Sergas de Esplandián voam pela janela. O critério de culpa e o de mérito não coincidem. Quando um livro cai por acaso aos pés do barbeiro, Tirante, o Branco, o padre diz:
Dígoos verdad, señor compadre, que, por su estilo, es éste el mejor libro del mundo: aquí comen los caballeros, y duermen, y mueren en sus camas, y hacen testamento antes de su muerte, con estas cosas de que todos los demás libros deste género carecen, digo-vos de verdade, senhor compadre, que, pelo estilo, é este o melhor livro do mundo: nele os cavaleiros comem, dormem, morrem na cama e fazem testamento antes de morrer, com essas coisas que faltam a todos os demais livros do gênero.
O padre, que condenava os outros pelo exagero, salva um livro justamente porque os cavaleiros comem, dormem e fazem testamento: a régua dele é a verossimilhança do corpo. Logo depois diz que o autor merecia as galés pelas tolices que escreveu, de modo que o elogio e a pena andam juntos. Quando o barbeiro abre a Galateia, o padre se detém:
Muchos años ha que es grande amigo mío ese Cervantes, y sé que es más versado en desdichas que en versos. Su libro tiene algo de buena invención; propone algo, y no concluye nada, há muitos anos é meu grande amigo esse Cervantes, e sei que entende mais de desventuras que de versos. Seu livro tem um quê de boa invenção; propõe alguma coisa e não conclui nada.
Cervantes se põe na cena como autor de um livro que o padre poupa, mas com reservas, e o gesto é o de um autor que se julga pela voz de um personagem, com a mesma ironia com que o padre julga os outros. A sobrinha teme a poesia como um segundo contágio, e o padre lhe dá razão em parte: o remédio que escolhe é podar a Diana em vez de queimá-la. No capítulo VII da Primeira Parte, interrompido o escrutínio pelos gritos do fidalgo, que se levantou e brande golpes ao ar, o padre é tomado por Turpim, o arcebispo dos Doze Pares, e a ama queima os livros do pátio à noite; os dois decidem emparedar o aposento, para que ele não os ache ao se levantar, e mandam dizer que um encantador os levou. A ama e a sobrinha, bem avisadas, repetem a lição, e a sobrinha a enfeita com a nuvem, a serpente e o sábio que sai pelo telhado; o fidalgo a adota e engorda, e ficam os dois sustentando a ficção que armaram para curá-lo.
Otto Maria Carpeaux, em História da Literatura Ocidental - 5.3 - Pastorais, epopeias e romance picaresco, registra a fogueira do padre e do barbeiro como a sorte das epopeias horríveis da Espanha:
as epopéias horríveis que o vigário e o barbeiro, no famoso capítulo VI da primeira parte de D. Quixote, condenam à fogueira, como Carpeaux lembra ao catalogar as piores epopeias espanholas.
No capítulo XXVI da Primeira Parte, vindos da estalagem da manta, encontram Sancho, que vem sobre o cavalo do amo, e o barbeiro ameaça concluir que o escudeiro o matou e roubou; Sancho conta onde o amo está, a penitência e a carta a Dulcineia, e, sem o livrinho, recita a carta errada diante deles. O padre e o barbeiro se admiram de ver quão forte foi a loucura do amo, que levou atrás de si o juízo daquele pobre homem, e decidem não tirar Sancho do erro, porque, se não danifica a consciência, melhor deixá-lo nele e ter o gosto de ouvir suas necedades. Para tirar o fidalgo da penitência inútil, o padre concebe um plano ao gosto dele: vestir-se de donzela andante, com o barbeiro de escudeiro, e pedir-lhe um dom que ele não poderá negar. No capítulo XXVII da Primeira Parte, a estalajadeira empresta saia e toucas, em penhor de uma batina nova do padre, e o barbeiro faz uma barba comprida de uma cauda de boi. Mal saem, o padre repara que fica mal a um sacerdote vestir-se assim, mesmo por boa causa, e propõe trocar os papéis: o barbeiro será a donzela e ele, o escudeiro. É nessa travessia que encontram Cardênio, a quem o padre quer consolar. No capítulo XXIX da Primeira Parte, com Doroteia disposta a fazer a donzela, o padre diz a Sancho a ficção com o ar de quem diz coisa de pouca monta, e é o que o convence:
es, como quien no dice nada, es la heredera por línea recta de varón del gran reino de Micomicón, é, como quem não diz nada, a herdeira por linha reta de varão do grande reino de Micomicão.
O padre se admira de ver como estão encaixados na fantasia do escudeiro os mesmos disparates do amo. No capítulo XXX da Primeira Parte ele sopra a Doroteia o nome que ela esqueceu e acode com a emenda de Málaga quando o fidalgo nota que Osuna não é porto.
No capítulo XXXII da Primeira Parte, na estalagem, o padre, que condenou à fogueira a biblioteca do fidalgo, quer queimar de novo, mas só o Cirongílio e o Felixmarte, e depois deixa a fogueira e argumenta. Diz ao estalajadeiro que os livros de cavalarias se toleram como os jogos:
así como se consiente en las repúblicas bien concertadas que haya juegos de ajedrez, de pelota y de trucos, para entretener a algunos que ni tienen, ni deben, ni pueden trabajar, así se consiente imprimir y que haya tales libros, assim como se consente nas repúblicas bem ordenadas que haja jogos de xadrez, de pela e de bilhar, para entreter alguns que nem têm, nem devem, nem podem trabalhar, assim se consente imprimir e que haja tais livros.
O argumento supõe um leitor que sabe que joga. O estalajadeiro, que repete de cor as façanhas de Felixmarte, mostra que o público dos livros não é esse, e o padre não responde a isso. O padre lê em voz alta O Curioso Impertinente, e no capítulo XXXV da Primeira Parte, ao fim, dá o veredito:
Bien -dijo el cura- me parece esta novela, pero no me puedo persuadir que esto sea verdad; y si es fingido, fingió mal el autor, porque no se puede imaginar que haya marido tan necio que quiera hacer tan costosa experiencia como Anselmo. Si este caso se pusiera entre un galán y una dama, pudiérase llevar, pero entre marido y mujer, algo tiene del imposible, bem me parece esta novela, disse o padre, mas não me posso persuadir de que isto seja verdade; e, se é fingido, fingiu mal o autor, porque não se pode imaginar que haja marido tão néscio que queira fazer tão custosa experiência como Anselmo. Se este caso se pusesse entre um galã e uma dama, poder-se-ia levar, mas entre marido e mulher algo tem de impossível.
O padre aceita a arte da novela e recusa o caso, pela mesma razão que o fez recusar os livros de cavalarias: o que não pode acontecer não é história verdadeira. A ressalva é de verossimilhança, não de moral. Quem diz isso acabou de ver um homem lutar com odres como se fossem um gigante. No capítulo XLV da Primeira Parte, o barbeiro da aldeia, que conhece o humor do amigo, esforça o desatino e leva adiante a burla para que todos riam: diz ao outro barbeiro, dono da bacia, que a peça que o fidalgo tem nas mãos não é bacia, e que, ainda que seja elmo, não é elmo inteiro. O padre, que entendeu a intenção do amigo, confirma. No capítulo XLVI da Primeira Parte, o padre persuade os quadrilheiros de que o fidalgo é falto de juízo, como se vê por suas obras e palavras, e às escondidas dá oito reais pela bacia ao barbeiro lesado, que lhe faz uma cédula de recibo. Dão ordem para levar o fidalgo à aldeia sem que Doroteia e dom Fernando precisem acompanhá-lo com a invenção da libertação da rainha Micomicona, e concertam com um carreteiro de bois que passa por acaso. O barbeiro compõe, no estilo dos livros que o fidalgo leu, a profecia que acompanha a jaula:
la cual se acabará cuando el furibundo león manchado con la blanca paloma tobosina yoguieren en uno, ya después de humilladas las altas cervices al blando yugo matrimoñesco; de cuyo inaudito consorcio saldrán a la luz del orbe los bravos cachorros, que imitarán las rumpantes garras del valeroso padre, a qual se acabará quando o furibundo leão manchado com a branca pomba tobosina jazerem juntos, já depois de humilhadas as altas cervizes ao brando jugo matrimoniesco; de cujo inaudito consórcio sairão à luz do orbe os bravos filhotes, que imitarão as rompantes garras do valoroso pai.
O tom sobe e depois baixa, com tanta ternura que os próprios cúmplices ficam a ponto de crer. Quem arma a burla escolheu o prêmio que o prende: o casamento com Dulcineia, que o fidalgo lê de imediato como o seu, com filhos para glória da Mancha. No capítulo XLVIII da Primeira Parte, depois de concordar com o cônego sobre os livros, o padre diz que o cônego despertou nele um rancor antigo contra as comédias de agora:
habiendo de ser la comedia, según le parece a Tulio, espejo de la vida humana, ejemplo de las costumbres y imagen de la verdad, las que ahora se representan son espejos de disparates, ejemplos de necedades e imágenes de lascivia, tendo a comédia de ser, como parece a Túlio, espelho da vida humana, exemplo dos costumes e imagem da verdade, as que agora se representam são espelhos de disparates, exemplos de necedades e imagens de lascívia.
Quem queimou livros no escrutínio quer agora um censor para o teatro, por zelo da verdade e da honra dos engenhos espanhóis. No capítulo LII da Primeira Parte, na procissão dos penitentes, o padre é conhecido de outro padre que vem com a procissão e, em duas razões, explica quem é o fidalgo.
Na Segunda Parte, no capítulo I da Segunda Parte, ficam quase um mês sem ver o amigo, para não lhe reavivar as lembranças, e o visitam depois de pedir à sobrinha e à criada que o tratem com comidas boas para o coração e o cérebro. Combinam de não tocar na cavalaria, e é o padre quem toca, porque a cura só se prova forçando o ponto fraco. Quando o fidalgo propõe ao rei convocar por pregão os cavaleiros andantes, o padre diz consigo:
¡Dios te tenga de su mano, pobre don Quijote: que me parece que te despeñas de la alta cumbre de tu locura hasta el profundo abismo de tu simplicidad!, Deus te segure pela mão, pobre dom Quixote: parece-me que te despenhas do alto cume da tua loucura até o profundo abismo da tua tolice!
O aparte é compaixão e diagnóstico ao mesmo tempo, e lê a recaída como queda de um cume, não como doença que volta. Duas leituras: o padre cuida do amigo, ou precisa que o teste falhe para confirmar o que decidiu quando o mandou para casa encantado na jaula. No capítulo VII da Segunda Parte, o plano é combinado com o bacharel Sansão Carrasco; no capítulo XV da Segunda Parte, o narrador revela que o bacharel entrou em acordo com eles sobre como reduzir o fidalgo a ficar em casa. No capítulo LXXIII da Segunda Parte, o padre e o bacharel rezam num prado à entrada da aldeia e recebem o fidalgo e Sancho de braços abertos. No capítulo LXXIV da Segunda Parte, o padre é chamado para a confissão: faz sair a gente, fica a sós com o fidalgo e o confessa, e depois diz que verdadeiramente se morre, e verdadeiramente está sensato Alonso Quijano, o Bom. Pede ao escrivão um testemunho de que ele morreu naturalmente, para tirar a ocasião de que algum outro autor que não Cide Hamete o ressuscite falsamente.
Temas que encarna
O padre e o barbeiro são a Loucura vista pelo lado da cura. Ambos tratam a leitura como causa e a retirada dos livros como remédio, e a ficção da donzela, a profecia e a jaula como método: a loucura se trata com uma ficção que ela reconheça. O livro mostra que o método funciona sempre que o fidalgo reconhece o estilo (o encantador, a donzela, a jaula) e deixa à vista que a cura é uma espécie de contágio: eles se divertem com as necedades que ouvem (capítulo XXVI da Primeira Parte), e o plano inteiro depende de saberem tanto de cavalaria quanto ele.
A relação com Linguagem e narração é a da crítica. O escrutínio faz de dois amigos da aldeia o primeiro tribunal literário do livro: Amadís salvo por ser o primeiro, Tirante por ser verossímil, a Galateia por ser promessa, a Diana podada. O mesmo padre que queima defende, na estalagem, que os livros de cavalarias se toleram como jogos (capítulo XXXII da Primeira Parte), e a exigência de verossimilhança com que ele julga a novela do Curioso Impertinente (capítulo XXXV da Primeira Parte) é a que o livro faz a si mesmo.
A Aparência e realidade os põe no lugar do Frestón: são eles que fabricam o encantamento para consolar, e é por isso que ficam presos ao que fabricaram. O encantador do capítulo VII da Primeira Parte é o remédio que os dois decidem, enfeitado pela sobrinha; a profecia da jaula é obra do barbeiro; e é o fidalgo que, ao reconhecer o gênero, devolve a invenção como prova (capítulo VII da Primeira Parte, capítulo XLVI da Primeira Parte).
Leituras divergentes
O próprio livro põe nos dois amigos as duas leituras do que fazem. O padre, no capítulo I da Segunda Parte, vê o tombo do amigo como queda de um cume, e compaixão; o narrador, no capítulo XV da Segunda Parte, diz que o plano do bacharel foi combinado com eles e acabou em surra. Duas leituras: os dois curam um amigo, ou precisam de um louco para o mundo continuar a ter um fidalgo de aldeia que se pode visitar.
O escrutínio tem duas leituras no próprio texto. Quem lê pela autoridade do padre vê um tribunal que sabe o que condena e o que absolve, e que salva o que o livro mais tarde defenderá, a verossimilhança do corpo. Quem lê pela distância do narrador vê que o tribunal é parte da piada: a ama queima o resto à noite, justos pagam pelos pecadores, e o padre poupa os livros do amigo Cervantes com reservas. Contra a primeira leitura vale lembrar que o critério de culpa e o de mérito não coincidem (capítulo VI da Primeira Parte); contra a segunda, que o padre acerta quando separa a novela do Curioso Impertinente dos livros de cavalarias pelo critério que o próprio Cervantes adota (capítulo XXXV da Primeira Parte).
Relações
- Dom Quixote: o amigo a quem querem curar com a retirada dos livros (capítulo VI da Primeira Parte), com a ficção de Micomicona (capítulo XXIX da Primeira Parte), com a jaula (capítulo XLVI da Primeira Parte) e com o teste de sanidade (capítulo I da Segunda Parte), e que os recebe, no fim, para a confissão (capítulo LXXIV da Segunda Parte).
- Sancho Pança: o escudeiro que os encontra na estalagem da manta (capítulo XXVI da Primeira Parte), que lhes recita a carta errada (capítulo XXVI da Primeira Parte) e que os reconhece sob os disfarces da jaula (capítulo XLVII da Primeira Parte).
- Cardênio e Doroteia: os dois a quem encontram na serra, e que fazem parte da ficção de Micomicona (capítulo XXVII da Primeira Parte, capítulo XXIX da Primeira Parte).
- Sansão Carrasco: o bacharel com quem combinam o plano da terceira saída (capítulo VII da Segunda Parte, capítulo XV da Segunda Parte).
- Cide Hamete Benengeli: o historiador por quem o padre pede o testemunho da morte, para que outro autor não ressuscite o fidalgo (capítulo LXXIV da Segunda Parte).