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Personagem

Sansão Carrasco

Quem é

Sansão Carrasco é o bacharel de Salamanca da aldeia de Dom Quixote: descrito no capítulo III da Segunda Parte como baixo de corpo e grande socarrão, de cor macilenta e muito bom entendimento, de uns vinte e quatro anos, de rosto redondo, nariz chato e boca grande, sinais, diz o narrador, de condição maliciosa e amiga de donaires e de burlas. Entra no livro de 1615 como leitor da Primeira Parte, que já circula impressa, e trabalha o resto da obra como o vizinho que quer curar o fidalgo da cavalaria: combina com o padre e o barbeiro que o deixem sair e que ele lhe apareça na estrada como cavaleiro andante, o vença e o mande para casa (capítulo XV da Segunda Parte). Disfarçado, perde no capítulo XIV da Segunda Parte e vence no capítulo LXIV da Segunda Parte, e a cura que impõe funciona: dom Quixote volta à aldeia, adoece e morre como Alonso Quijano, o Bom (capítulo LXXIV da Segunda Parte). O que ele quer é o bem do amigo e, aos poucos, também a própria desforra; teme que o segredo o desfaça, e pede a dom Antônio que não o descubra (capítulo LXV da Segunda Parte); sabe de poética, de cavalaria e de aldeia, e se engana ao achar que se pode curar um homem sem lhe tirar o que o sustenta.

Trajetória

No capítulo III da Segunda Parte Sansão se ajoelha diante do fidalgo e lhe diz que ele é um dos mais famosos cavaleiros andantes que já houve. Quando dom Quixote pergunta se é verdade que há história sua, o bacharel responde com números:

tengo para mí que el día de hoy están impresos más de doce mil libros de la tal historia; si no, dígalo Portugal, Barcelona y Valencia, donde se han impreso; y aun hay fama que se está imprimiendo en Amberes, y a mí se me trasluce que no ha de haber nación ni lengua donde no se traduzga, tenho para mim que hoje há impressos mais de doze mil livros da tal história; se não, diga-o Portugal, Barcelona e Valência, onde foram impressos; e corre fama até de que se está imprimindo em Antuérpia, e a mim se me transparece que não há de haver nação nem língua em que não se traduza.
Segunda Parte: O livro impresso

O número vem com a fórmula do palpite, e a lista de cidades lhe dá aparência de prova. Carrasco diz o que o fidalgo mais quer ouvir, que o nome dele corre nas línguas. Duas leituras: bajulação de um graduado que já mede o homem diante de si, ou piscadela do autor, que no mundo real via o livro ser traduzido. Quando dom Quixote pede que o livro o poupasse dos golpes, o bacharel responde com uma distinção de escola, de origem aristotélica:

uno es escribir como poeta y otro como historiador: el poeta puede contar, o cantar las cosas, no como fueron, sino como debían ser; y el historiador las ha de escribir, no como debían ser, sino como fueron, sin añadir ni quitar a la verdad cosa alguna, escrever como poeta é uma coisa, como historiador é outra: ao poeta cabe contar, ou cantar, as coisas não como foram, mas como deviam ser; ao historiador, escrevê-las não como deviam ser, mas como foram, sem acrescentar nem tirar nada à verdade.
Segunda Parte: O livro impresso

A regra deixa o fidalgo sem saída, porque o livro que o conta se declara história. Duas leituras: crítico neutro que explica uma convenção literária, ou graduado que se serve do rigor para pôr o fidalgo contra a parede. Sobre a Primeira Parte, aponta uma falha que o próprio Cervantes admite pela boca de um leitor:

su autor puso en ella una novela intitulada El curioso impertinente; no por mala ni por mal razonada, sino por no ser de aquel lugar, ni tiene que ver con la historia de su merced del señor don Quijote, o autor pôs nela uma novela intitulada O Curioso Impertinente, não por má nem por mal arrazoada, mas por não ser daquele lugar, nem ter que ver com a história de sua mercê o senhor dom Quixote.
Segunda Parte: O livro impresso

No capítulo IV da Segunda Parte, quando Sancho responde às dúvidas do bacharel sobre o jumento, é ele quem localiza o erro do livro:

No está en eso el yerro [...] sino en que, antes de haber parecido el jumento, dice el autor que iba a caballo Sancho en el mesmo rucio, o erro não está nisso [...] e sim em que, antes de o jumento aparecer, o autor diz que Sancho ia montado no mesmo ruço.
Segunda Parte: O livro impresso

Sansão recomenda ao fidalgo o reino de Aragão e Saragoça, onde logo haverá justas, para ganhar fama sobre todos os cavaleiros aragoneses. Depois, a Sancho, que lhe fala da ínsula, adverte:

los oficios mudan las costumbres, y podría ser que viéndoos gobernador no conociésedes a la madre que os parió, os ofícios mudam os costumes, e poderia ser que, vendo-vos governador, não reconhecêsseis a mãe que vos pariu.
Segunda Parte: O livro impresso

O aviso resume numa frase o que o governo de Sancho vai pôr à prova, e Sancho responde que o ofício muda em quem nasceu nas malvas, não nele. No capítulo VII da Segunda Parte, avisado pela criada de que o fidalgo vai sair de novo, o bacharel já tem o plano combinado com o padre e o barbeiro, e confirma o que leu ao ouvir Sancho pedir um testamento com codicilo que não se possa "revolcar", por revogar: acha Sancho um dos mais solenes mentecaptos do século e pensa que dois loucos como amo e criado nunca se viram no mundo. Faz-se oráculo deles, marca a saída para dali a três dias, oferece-lhes uma celada de encaixe de um amigo, mais escura de ferrugem que clara de aço, e os acompanha meia légua.

No capítulo XIV da Segunda Parte, como Cavaleiro dos Espelhos, tem uma fala que arma a isca pelos dois nervos que doem no fidalgo, a dama e o nome:

porque el tal don Quijote que digo los ha vencido a todos; y, habiéndole yo vencido a él, su gloria, su fama y su honra se ha transferido y pasado a mi persona; y tanto el vencedor es más honrado, cuanto más el vencido es reputado, porque o tal dom Quixote de quem falo os venceu a todos; e, tendo-o eu vencido a ele, a glória, a fama e a honra dele se transferiram e passaram à minha pessoa; e tanto o vencedor é mais honrado, quanto mais o vencido é reputado.
Segunda Parte: Espelhos, leões e Camacho

Dom Quixote o derruba, desata as lazadas do elmo e vê o rosto, que o narrador descreve em seis sinônimos:

Vio, dice la historia, el rostro mesmo, la misma figura, el mesmo aspecto, la misma fisonomía, la mesma efigie, la pespetiva mesma del bachiller Sansón Carrasco, viu, diz a história, o rosto mesmo, a mesma figura, o mesmo aspecto, a mesma fisionomia, a mesma efígie, a perspectiva mesma do bacharel Sansão Carrasco.
Segunda Parte: Espelhos, leões e Camacho

O vencido cumpre o trato rebaixando a própria dama com um humor que o dispensa de humilhar-se:

Confieso -dijo el caído caballero- que vale más el zapato descosido y sucio de la señora Dulcinea del Toboso que las barbas mal peinadas, aunque limpias, de Casildea, confesso, disse o caído cavaleiro, que vale mais o sapato descosido e imundo da senhora Dulcineia del Toboso do que as barbas mal penteadas, ainda que limpas, de Casildeia.
Segunda Parte: Espelhos, leões e Camacho

O fidalgo exige, em troca, uma cláusula de reciprocidade: o vencido há de confessar que o cavaleiro que venceu não foi dom Quixote e que o vencedor, por sua vez, não vê nele o bacharel, mas outro que se lhe parece, posto ali pelos inimigos:

También habéis de confesar y creer -añadió don Quijote- que aquel caballero que vencistes no fue ni pudo ser don Quijote de la Mancha, sino otro que se le parecía, como yo confieso y creo que vos, aunque parecéis el bachiller Sansón Carrasco, no lo sois, sino otro que le parece, y que en su figura aquí me le han puesto mis enemigos, para que detenga y temple el ímpetu de mi cólera, y para que use blandamente de la gloria del vencimiento, haveis ainda de confessar e crer, acrescentou dom Quixote, que aquele cavaleiro que vencestes não foi nem pôde ser dom Quixote de la Mancha, mas outro que se lhe parecia, como eu confesso e creio que vós, ainda que pareceis o bacharel Sansão Carrasco, não o sois, mas outro que lhe parece, e que em sua figura aqui me puseram meus inimigos, para que detenha e tempere o ímpeto de minha cólera, e para que use brandamente da glória do vencimento.
Segunda Parte: Espelhos, leões e Camacho

No capítulo XV da Segunda Parte o narrador explica o que o capítulo anterior calou: o plano era vencer o fidalgo em batalha singular, tendo-o por coisa fácil, com pacto de que o vencido ficasse à mercê do vencedor e voltasse à aldeia, sem sair de casa por dois anos, ou até ordem em contrário. Tomé Cecial, compadre e vizinho de Sancho, ofereceu-se por escudeiro, com um nariz falso de máscara. Já na estrada de volta, perguntado sobre quem é mais louco, o que o é por força ou o que o é por vontade, Carrasco responde:

La diferencia que hay entre esos dos locos es que el que lo es por fuerza lo será siempre, y el que lo es de grado lo dejará de ser cuando quisiere, a diferença que há entre esses dois loucos é que o que o é à força o será sempre, e o que o é por gosto deixará de sê-lo quando lhe aprouver.
Segunda Parte: Espelhos, leões e Camacho

A distinção é limpa e aplicável aos três: o fidalgo é louco por força, o escudeiro e o próprio Carrasco são loucos de grado. Quem a diz acaba de se dar a razão de largar a empreitada, e é ele quem não a largará:

no me llevará ahora a buscarle el deseo de que cobre su juicio, sino el de la venganza; que el dolor grande de mis costillas no me deja hacer más piadosos discursos, não me levará agora a buscá-lo o desejo de que ele recobre o juízo, mas o de vingança; que a grande dor de minhas costelas não me deixa fazer mais piedosos discursos.
Segunda Parte: Espelhos, leões e Camacho

O plano começou como remédio para um amigo e termina como pendência pessoal, e Carrasco o admite sem rodeio: o corpo moído decide o que o raciocínio tinha decidido de outro modo. Duas leituras: confissão de um homem que se deixa levar pela dor, ou, desde o início, uma cura em que havia um jovem letrado com algo a provar, e a pancada só tirou a máscara. No capítulo L da Segunda Parte, na casa de Teresa, é quem não acredita na notícia do governo, e aplica ao pajem a regra do fidalgo, tocar as aparências:

pensamos que ésta es una de las cosas de don Quijote, nuestro compatrioto, que todas piensa que son hechas por encantamento; y así, estoy por decir que quiero tocar y palpar a vuestra merced, por ver si es embajador fantástico o hombre de carne y hueso, pensamos que esta é uma das coisas de dom Quixote, nosso compatriota, que todas pensa que são feitas por encantamento; e assim, estou por dizer que quero tocar e apalpar vossa mercê, para ver se é embaixador fantástico ou homem de carne e osso.
Segunda Parte: O governo da ilha

A aldeia que tem o fidalgo por louco é a primeira a suspeitar que o real seja fantasia. No capítulo LXIV da Segunda Parte, vestido de Cavaleiro da Lua Branca, desafia o fidalgo na praia de Barcelona em nome da formosura de uma dama:

Insigne caballero y jamás como se debe alabado don Quijote de la Mancha, yo soy el Caballero de la Blanca Luna [...] la cual verdad si tú la confiesas de llano en llano, escusarás tu muerte y el trabajo que yo he de tomar en dártela, insigne cavaleiro e jamais louvado como se deve, dom Quixote de la Mancha, eu sou o Cavaleiro da Lua Branca [...] a qual verdade, se tu a confessares sem rodeios, escusarás tua morte e o trabalho que eu hei de tomar em dá-la.
Segunda Parte: A derrota e a morte

O desafio chega vestido de beleza, mas os termos revelam outro objetivo: se o vencido não confessa, morre; se perde, ganha um ano em casa, sem pegar na espada, para o aumento da fazenda e a salvação da alma. Quem fala em fazenda e em salvação da alma quer mandá-lo para casa, e o diz com voz de cavaleiro. Duas leituras: o cavaleiro conhece o ponto fraco do outro e o ataca por ele, ou usa o único idioma que o fidalgo ouve, o de honra de dama, para impor um fim que nenhum conselho conseguiu. No capítulo LXV da Segunda Parte, desarmado numa estalagem, explica a dom Antônio Moreno, que o seguiu, o plano inteiro:

Sabed, señor, que a mí me llaman el bachiller Sansón Carrasco; soy del mesmo lugar de don Quijote de la Mancha, cuya locura y sandez mueve a que le tengamos lástima todos cuantos le conocemos, y entre los que más se la han tenido he sido yo; y, creyendo que está su salud en su reposo y en que se esté en su tierra y en su casa, di traza para hacerle estar en ella, sabei, senhor, que a mim me chamam o bacharel Sansão Carrasco; sou do mesmo lugar de dom Quixote de la Mancha, cuja loucura e sandice move a que lhe tenhamos lástima todos quantos o conhecem, e entre os que mais lha tiveram fui eu; e, crendo que sua saúde está em seu repouso e em que se esteja em sua terra e em sua casa, dei traça para fazê-lo estar nela.
Segunda Parte: A derrota e a morte

A explicação começa pela lástima e acaba num plano: Carrasco se apresenta como o amigo que, por não poder curar o doente, resolve prendê-lo ao que ele mais respeita, a palavra de cavaleiro. O que conta sem notar é o orgulho ferido: voltou do encontro com o Cavaleiro dos Espelhos vencido, corrido e moído, e a vontade de buscar o outro não passou. Duas leituras: compaixão sincera de quem conhece o vizinho, ou a teimosia de quem perdeu uma vez e não pôde deixar a coisa assim. Dom Antônio, que armou a cabeça encantada e a visita às galés para divertir os hóspedes, reprova a cura:

Dios os perdone el agravio que habéis hecho a todo el mundo en querer volver cuerdo al más gracioso loco que hay en él! ¿No veis, señor, que no podrá llegar el provecho que cause la cordura de don Quijote a lo que llega el gusto que da con sus desvaríos, Deus vos perdoe o agravo que haveis feito a todo o mundo em querer voltar sensato o mais gracioso louco que há nele! Não vedes, senhor, que o proveito que cause a sensatez de dom Quixote não poderá chegar ao gosto que dá com seus desvarios?
Segunda Parte: A derrota e a morte

A conta é interesseira e afetuosa ao mesmo tempo, e ele a reconhece como tal: dizer que dom Quixote nunca sare seria, admite, contra a caridade. No capítulo LXVII da Segunda Parte, planejando a vida de pastor, o fidalgo dá ao bacharel o nome pastoril de Sansonino ou Carrascón, e Sancho teme apenas que o padre entre também no aprisco. No capítulo LXXI da Segunda Parte, Sancho bate numa faia com o nome dele na boca, sem saber que o Cavaleiro da Lua Branca era o bacharel:

¡Aquí morirás, Sansón, y cuantos con él son!, aqui morrerás, Sansão, e quantos com ele são!
Segunda Parte: A derrota e a morte

No capítulo LXXIV da Segunda Parte, com o padre, visita muitas vezes o fidalgo doente, procura alegrá-lo com a écloga pastoril e os dois cães comprados, Barcino e Butrón, e, quando o doente acorda são e anuncia que já não é dom Quixote, supõe que uma nova loucura o tomou e lhe diz que a senhora Dulcineia está desencantada. É testamenteiro dele. Ao fim, escreve o epitáfio:

Yace aquí el Hidalgo fuerte / que a tanto estremo llegó / de valiente, que se advierte / que la muerte no triunfó / de su vida con su muerte. / Tuvo a todo el mundo en poco; / fue el espantajo y el coco / del mundo, en tal coyuntura, / que acreditó su ventura / morir cuerdo y vivir loco, jaz aqui o Fidalgo forte / que a tão extremo chegou / de valente, que se adverte / que a morte não triunfou / de sua vida com sua morte. / Teve em pouco o mundo todo; / foi o espantalho e o papão / do mundo, em tal conjuntura, / que acreditou sua ventura / morrer sensato e viver louco.
Segunda Parte: A derrota e a morte

O epitáfio põe de novo o bacharel na página, o mesmo que armou a derrota para fazê-lo voltar, e sua conclusão, morrer sensato e viver louco, dá ao desfecho a fórmula que o livro inteiro oferecia sem dizer. Duas leituras: homenagem sincera de um vizinho que o amava à sua maneira, ou o resumo, com um fio de crueldade, de quem sabe que a cura custou o homem.

Temas que encarna

Carrasco é a Loucura vista de fora, por quem quer curá-la. Ele a classifica (por força ou por vontade, capítulo XV da Segunda Parte), a mede pelo que o fidalgo pode perder (a palavra de cavaleiro, capítulo LXIV da Segunda Parte) e a trata pelo remédio que o próprio fidalgo reconhece, a ordem de um vencedor. A cura funciona, e o livro deixa à vista o preço: o homem são morre de melancolia, e o amigo escreve o epitáfio.

Em Linguagem e narração, o bacharel é o leitor crítico que entra na história com a Primeira Parte na mão. Dá a conhecer ao fidalgo que o livro existe, corrige-o pela regra da poética (capítulo III da Segunda Parte), aponta o erro do jumento (capítulo IV da Segunda Parte) e termina inscrito no próprio livro como autor do epitáfio (capítulo LXXIV da Segunda Parte). A cidade que ele indica ao fidalgo no capítulo IV da Segunda Parte, Saragoça, é a mesma que o fidalgo evita no capítulo LIX da Segunda Parte para desmentir o apócrifo.

A relação com Aparência e realidade é de duplo sentido. O bacharel se esconde sob a armadura e sob o nome de outro, e o fidalgo, que lhe vê o rosto, prefere crer que lhe puseram o rosto do amigo (capítulo XIV da Segunda Parte); no capítulo L da Segunda Parte, é ele quem, diante da notícia do governo, quer tocar o mensageiro para ver se é embaixador fantástico ou homem de carne e osso. A mesma regra que o fidalgo ensinou à aldeia volta contra a aldeia quando a fantasia vem de fora.

Leituras divergentes

O livro põe duas leituras opostas do plano de Carrasco, e nenhuma é desmentida. Dom Antônio Moreno o reprova em nome de todo o mundo: curar o louco é tirar a graça de quem se diverte com ele (capítulo LXV da Segunda Parte). O próprio bacharel o defende como cura, e depois como desforra (capítulo XV da Segunda Parte, capítulo LXV da Segunda Parte).

Para uma leitura, a derrota do fidalgo é a de uma consciência antiga, ambígua e ligada ao sagrado, vencida no plano social por uma ordem racionalista ou literal.

No texto, o agente dessa derrota é Carrasco, bacharel de Salamanca, que vence com as regras da cavalaria que o fidalgo guarda, o pacto do vencido, a palavra de cavaleiro, e não com argumentos. Contra essa leitura vale lembrar que o bacharel só vence depois de ter sido vencido, e que o que o move é uma pendência de homem moído e de vizinho, tanto quanto a razão; contra a leitura de pura compaixão, que a cura é imposta pelo mesmo código que o fidalgo ensinou a respeitar, e por isso o fidalgo a cumpre sem resistir (capítulo LXIV da Segunda Parte, capítulo LXVI da Segunda Parte).

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