O que é
Os livros de cavalaria que Dom Quixote lê até perder o juízo, a biblioteca de mais de cem volumes que o padre e o barbeiro condenam ao fogo em boa parte, e o código de conduta de que o fidalgo tira tudo o que faz: o que um cavaleiro deve a uma dama, o que dá a um escudeiro, como se defende, como se disfarça uma derrota. O texto nomeia o Amadis de Gaula como pai do gênero, Palmeirim de Inglaterra, Tirante o Branco, Dom Belianís e uma dezena de outros, e com isso faz do livro dentro do livro um personagem. Eles são a causa da loucura, a norma pela qual o fidalgo mede o mundo, a prova que ele invoca quando alguém o contradiz (porque tudo está impresso com licença dos reis), a língua com que os outros o enganam para o curar, e por fim o que ele renuncia no leito de morte. Por trás de quase toda aventura há um livro de cavalaria que o fidalgo cita ou imita.
Onde aparece
O prólogo já avisa a que vem. O autor diz que o livro não tem outro fim senão derrubar a máquina mal fundada dos livros cavaleirescos, aborrecidos de tantos e louvados de muitos mais.
llevad la mira puesta a derribar la máquina mal fundada destos caballerescos libros, aborrecidos de tantos y alabados de muchos más, tende a mira posta em derrubar a máquina mal fundada destes cavaleirescos livros, aborrecidos de tantos e louvados de muitos mais.
No capítulo I da Primeira Parte, o narrador explica a loucura pela leitura: ele se embebeu tanto nela que as noites lhe passavam lendo de claro em claro e os dias de turvo em turvo, e do pouco dormir e do muito ler ressecou-se-lhe o cérebro.
En resolución, él se enfrascó tanto en su letura, que se le pasaban las noches leyendo de claro en claro, y los días de turbio en turbio; y así, del poco dormir y del mucho leer, se le secó el celebro, de manera que vino a perder el juicio, em resolução, ele se embebeu tanto na sua leitura que as noites lhe passavam lendo de claro em claro, e os dias de turvo em turvo; e assim, do pouco dormir e do muito ler, ressecou-se-lhe o cérebro, de tal sorte que chegou a perder o juízo.
Ainda no capítulo I da Primeira Parte, o gosto do fidalgo é o de Feliciano de Silva, de quem lhe encantam as "razões enredadas", como a razão da sem-razão que se faz à sua razão. No capítulo II da Primeira Parte, a primeira saída é a de um cavaleiro que escreve em voz alta a página do cronista futuro com aurora mitológica e adjetivos aos pares. Erich Auerbach lê essa saída como paródia perfeita da saída do cavaleiro cortês.
A primeira saída de Dom Quixote [...] é uma paródia perfeita da saída de Calogrenante, justamente porque Dom Quixote não encontra o mundo preparado de propósito para a sua prova, mas um mundo qualquer.
O escrutínio acontece no capítulo VI da Primeira Parte, com o fidalgo ainda dormindo. O primeiro livro que o barbeiro entrega é o Amadis de Gaula, e o padre o apresenta como o pai da seita.
Parece cosa de misterio ésta; porque, según he oído decir, este libro fue el primero de caballerías que se imprimió en España, y todos los demás han tomado principio y origen déste, parece coisa de mistério esta; porque, segundo ouvi dizer, este livro foi o primeiro de cavalarias que se imprimiu na Espanha, e todos os demais tomaram princípio e origem dele.
O padre condena à fogueira os que acha arrogantes ou secos, e poupa Tirante o Branco por um critério que não tem nada de cavalaria.
Dígoos verdad, señor compadre, que, por su estilo, es éste el mejor libro del mundo: aquí comen los caballeros, y duermen, y mueren en sus camas, y hacen testamento antes de su muerte, con estas cosas de que todos los demás libros deste género carecen, digo-vos de verdade, senhor compadre, que, pelo estilo, é este o melhor livro do mundo: nele os cavaleiros comem, dormem, morrem na cama e fazem testamento antes de morrer, com essas coisas que faltam a todos os demais livros do gênero.
Quando o barbeiro abre a Galateia, o padre se detém: o autor é amigo dele, entende mais de desventuras que de versos, e o livro propõe alguma coisa e não conclui nada.
Muchos años ha que es grande amigo mío ese Cervantes, y sé que es más versado en desdichas que en versos. Su libro tiene algo de buena invención; propone algo, y no concluye nada, há muitos anos é meu grande amigo esse Cervantes, e sei que entende mais de desventuras que de versos. Seu livro tem um quê de boa invenção; propõe alguma coisa e não conclui nada.
Naquela noite a ama queima os livros do pátio e da casa, e o aposento é emparedado; o fidalgo ouve que um sábio os levou, e o capítulo VII da Primeira Parte dá a esse sábio o nome de Frestón.
O fidalgo faz do primeiro dos livros a norma de sua penitência. No capítulo XXV da Primeira Parte, na Serra Morena, ele diz a Sancho por que enlouquece de propósito: Amadis é o norte, a estrela e o sol dos valentes e enamorados, a quem devem imitar todos os que militam sob a bandeira do amor e da cavalaria.
Amadís fue el norte, el lucero, el sol de los valientes y enamorados caballeros, a quien debemos de imitar todos aquellos que debajo de la bandera de amor y de la caballería militamos, Amadís foi o norte, a estrela, o sol dos cavaleiros valentes e enamorados, a quem devemos imitar todos os que militamos sob a bandeira do amor e da cavalaria.
No capítulo XXXII da Primeira Parte, na estalagem, o estalajadeiro defende seus três volumes e uns papéis manuscritos contra o padre e o barbeiro, que falam em levá-los ao fogo.
¡Como si yo no supiese cuántas son cinco y adónde me aprieta el zapato! [...] estando impreso con licencia de los señores del Consejo Real, como si ellos fueran gente que habían de dejar imprimir tanta mentira junta, como se eu não soubesse quantas são cinco e onde me aperta o sapato! [...] estando impresso com licença dos senhores do Conselho Real, como se eles fossem gente que havia de deixar imprimir tanta mentira junta.
O padre, que propusera queimar dois deles, acaba por pô-los no lugar de um passatempo permitido nas repúblicas bem ordenadas.
así como se consiente en las repúblicas bien concertadas que haya juegos de ajedrez, de pelota y de trucos, para entretener a algunos que ni tienen, ni deben, ni pueden trabajar, así se consiente imprimir y que haya tales libros, assim como se consente nas repúblicas bem ordenadas que haja jogos de xadrez, de pela e de bilhar, para entreter alguns que nem têm, nem devem, nem podem trabalhar, assim se consente imprimir e que haja tais livros.
No capítulo XLVII da Primeira Parte, o cônego de Toledo, que leu o princípio de quase todos e nunca terminou nenhum, põe em termos de forma o que lhes falta.
No he visto ningún libro de caballerías que haga un cuerpo de fábula entero con todos sus miembros, de manera que el medio corresponda al principio, y el fin al principio y al medio [...] y por esto dignos de ser desterrados de la república cristiana, como a gente inútil, não vi nenhum livro de cavalarias que faça um corpo de fábula inteiro com todos os seus membros, de maneira que o meio corresponda ao princípio, e o fim ao princípio e ao meio [...] e por isso dignos de ser desterrados da república cristã, como gente inútil.
No capítulo XLIX da Primeira Parte, ele diz que, enquanto não pensa que são mentira e leviandade, dão-lhe contento, e que quando cai na conta de que são, dá com o melhor deles na parede.
De mí sé decir que, cuando los leo, en tanto que no pongo la imaginación en pensar que son todos mentira y liviandad, me dan algún contento; pero, cuando caigo en la cuenta de lo que son, doy con el mejor dellos en la pared, de mim sei dizer que, quando os leio, enquanto não ponho a imaginação em pensar que são todos mentira e leviandade, dão-me algum contento; mas, quando caio na conta do que são, dou com o melhor deles na parede.
O fidalgo responde com a infanta Floripes, Fierabrás e a ponte de Mantible, que lhe parecem verdade como é de dia.
¿qué ingenio puede haber en el mundo que pueda persuadir a otro que no fue verdad lo de la infanta Floripes y Guy de Borgoña, y lo de Fierabrás con la puente de Mantible, que sucedió en el tiempo de Carlomagno; que voto a tal que es tanta verdad como es ahora de día, que engenho pode haver no mundo que possa persuadir a outro que não foi verdade o da infanta Floripes e Guy de Borgonha, e o de Fierabrás com a ponte de Mantible, que sucedeu no tempo de Carlos Magno; que voto a tal que é tanta verdade como é agora de dia?
No capítulo L da Primeira Parte, ele leva a defesa ao ponto em que o gosto geral e a licença dos reis lhe parecem provar a verdade.
¡Bueno está eso! -respondió don Quijote-. Los libros que están impresos con licencia de los reyes y con aprobación de aquellos a quien se remitieron, y que con gusto general son leídos y celebrados de los grandes y de los chicos, de los pobres y de los ricos, de los letrados e ignorantes, de los plebeyos y caballeros, finalmente, de todo género de personas, de cualquier estado y condición que sean, ¿habían de ser mentira? [...] y más llevando tanta apariencia de verdad, pues nos cuentan el padre, la madre, la patria, los parientes, la edad, el lugar y las hazañas, punto por punto y día por día, que el tal caballero hizo, o caballeros hicieron, está boa essa, respondeu dom Quixote. Os livros que estão impressos com licença dos reis e com aprovação daqueles a quem se remeteram, e que com gosto geral são lidos e celebrados de grandes e de pequenos, de pobres e de ricos, de letrados e ignorantes, de plebeus e cavaleiros, enfim, de todo gênero de pessoas, de qualquer estado e condição que sejam, haviam de ser mentira? [...] e mais levando tanta aparência de verdade, pois nos contam o pai, a mãe, a pátria, os parentes, a idade, o lugar e as façanhas, ponto por ponto e dia por dia, que o tal cavaleiro fez, ou cavaleiros fizeram.
O capítulo LII da Primeira Parte fecha a Primeira Parte com um pedido do autor da história que repete a defesa por outro lado: que lhe deem o mesmo crédito que os discretos dão aos livros de cavalaria, tão valorizados no mundo.
El cual autor no pide a los que la leyeren, en premio del inmenso trabajo que le costó inquerir y buscar todos los archivos manchegos, por sacarla a luz, sino que le den el mesmo crédito que suelen dar los discretos a los libros de caballerías, que tan validos andan en el mundo, o qual autor não pede aos que a lerem, em prêmio do imenso trabalho que lhe custou inquirir e buscar todos os arquivos manchegos, para a tirar à luz, senão que lhe deem o mesmo crédito que costumam dar os discretos aos livros de cavalarias, que tão valorizados andam no mundo.
Na Segunda Parte, no capítulo I da Segunda Parte, o fidalgo defende diante do padre e do barbeiro que viu Amadis com seus próprios olhos: homem alto, branco, de barba preta, lento em se irar e pronto em depor a ira.
estoy por decir que con mis propios ojos vi a Amadís de Gaula, que era un hombre alto de cuerpo, blanco de rostro, bien puesto de barba, aunque negra, de vista entre blanda y rigurosa, corto de razones, tardo en airarse y presto en deponer la ira, estou por dizer que com meus próprios olhos vi Amadis de Gaula, que era homem alto de corpo, branco de rosto, de barba bem posta, ainda que preta, de olhar entre brando e rigoroso, de poucas palavras, lento em se irar e pronto em depor a ira.
E no capítulo LXXIV da Segunda Parte, no leito de morte, a renúncia começa pelo nome: já não é dom Quixote, é Alonso Quijano o Bom, inimigo de Amadis e de toda a sua linhagem.
Dadme albricias, buenos señores, de que ya yo no soy don Quijote de la Mancha, sino Alonso Quijano, a quien mis costumbres me dieron renombre de Bueno. Ya soy enemigo de Amadís de Gaula y de toda la infinita caterva de su linaje, dai-me parabéns, bons senhores, de que já eu não sou dom Quixote de la Mancha, mas Alonso Quijano, a quem meus costumes deram renome de Bom. Já sou inimigo de Amadis de Gaula e de toda a infinita caterva de sua linhagem.
O que significa
Os livros são o fundo contra o qual tudo o mais no romance se mede. A loucura de dom Quixote não nasce do nada, nasce de uma leitura que o próprio livro mostra, julga e põe em cena, e o prólogo diz que o fim é derrubá-la. O que impede a leitura de ser só sátira é que o livro condena e ao mesmo tempo salva: o padre queima o que acha arrogante e poupa o que lhe parece verossímil, o cônego pede forma e verossimilhança mas confessa que gosta de lê-los, o próprio fidalgo os defende com argumentos que não são os de um bobo. Os livros de cavalaria, no romance, são uma biblioteca que todos conhecem, e é por isso que servem de língua comum até a quem quer curar o fidalgo.
A renúncia do capítulo LXXIV da Segunda Parte pode ser lida de duas maneiras que o texto não separa. Numa, o fidalgo recobra a razão e abjura os livros porque entende que o que viveu foi erro, e isso dá ao romance o fim que o prólogo anunciava. Na outra, ele renuncia ao nome e à linhagem de Amadis, e o que fica é o homem a quem os costumes deram o renome de Bom, e o texto não diz de onde esses costumes vieram. O que sustenta as duas é que a renúncia é dita em fórmula de convertido, e que o nome que ele escolhe não é o que os livros lhe deram, é o que os costumes lhe deram.
Relações
- A obra: Dom Quixote.
- Temas-padrão: Loucura, Linguagem e narração, Aparência e realidade.
- Temas da obra: Loucura, Linguagem e narração, Aparência e realidade.
- Personagens: Dom Quixote.
- Símbolos vizinhos: a jaula, armada com a linguagem dos livros, e a estalagem, onde o estalajadeiro guarda os seus.