O que é
A jaula de paus enrejados em que o padre e o barbeiro, ajudados por dom Fernando e seus camaradas, os criados de dom Luís, os quadrilheiros e o estalajadeiro, levam Dom Quixote de volta à aldeia num carro de bois, no fim da Primeira Parte. Disfarçados e calados, agarram-no de noite, atam-lhe mãos e pés e o fecham nela, e uma voz de profecia, composta no estilo dos livros que ele leu, lhe diz que está encantado e que sairá casado com Dulcineia. A jaula é a cena em que quem o ama se serve da linguagem da loucura dele para o levar para casa, e é também aquela em que Sancho Pança conhece todos os disfarçados e só ousa dizê-lo ao amo quando pode falar a sós. Seu contraponto vem na Segunda Parte, quando dom Quixote manda abrir a jaula de um leão, e seu eco, no fim do livro, numa gaiola de grilos que Sancho compra de um menino por quatro quartos.
Onde aparece
A armadilha é montada no capítulo XLVI da Primeira Parte, depois que os quadrilheiros desistem do mandado porque o padre os convence de que o fidalgo é louco. O padre arma a máquina com o que o fidalgo leu: voz temerosa, profecia de leão e pomba, promessa de filhotes valorosos.
la cual se acabará cuando el furibundo león manchado con la blanca paloma tobosina yoguieren en uno, ya después de humilladas las altas cervices al blando yugo matrimoñesco; de cuyo inaudito consorcio saldrán a la luz del orbe los bravos cachorros, que imitarán las rumpantes garras del valeroso padre, a qual se acabará quando o furibundo leão manchado com a branca pomba tobosina jazerem juntos, já depois de humilhadas as altas cervizes ao brando jugo matrimoniesco; de cujo inaudito consórcio sairão à luz do orbe os bravos filhotes, que imitarão as rompantes garras do valoroso pai.
O fidalgo responde como a um sábio amigo, e não como a quem o prendeu: pede ao encantador que não o deixe perecer na prisão antes de ver cumpridas as promessas.
ruégote que pidas de mi parte al sabio encantador que mis cosas tiene a cargo, que no me deje perecer en esta prisión donde agora me llevan, hasta ver cumplidas tan alegres e incomparables promesas como son las que aquí se me han hecho, rogo-te que peças da minha parte ao sábio encantador que tem a meu cargo as minhas coisas que não me deixe perecer nesta prisão onde agora me levam, até ver cumpridas tão alegres e incomparáveis promessas como são as que aqui me fizeram.
No capítulo XLVII da Primeira Parte, enjaulado no carro de bois, ele estranha o que vê: nunca leu que levassem os encantados assim, devagar, por animais tardios, e conclui que a cavalaria e os encantos do seu tempo devem seguir outro caminho que os antigos. Sancho diz que as visões não lhe parecem de todo católicas, e observa pelo olfato.
Par Dios, señor -replicó Sancho-, ya yo los he tocado; y este diablo que aquí anda tan solícito es rollizo de carnes, y tiene otra propiedad muy diferente de la que yo he oído decir que tienen los demonios; porque, según se dice, todos huelen a piedra azufre y a otros malos olores; pero éste huele a ámbar de media legua, por Deus, senhor, replicou Sancho, já os toquei; e este diabo que anda aqui tão solícito é roliço de carnes e tem outra propriedade muito diferente da que ouvi dizer que têm os demônios; porque, segundo se diz, todos cheiram a enxofre e a outros maus cheiros; mas este cheira a âmbar a meia légua.
Ainda no capítulo XLVII da Primeira Parte, quando o cônego de Toledo pergunta o que significa levar um homem assim, o fidalgo conta que vai encantado por inveja e fraude de maus encantadores, e Sancho rebate que o amo vai encantado como sua mãe, come, bebe e faz suas necessidades como os demais.
No capítulo XLVIII da Primeira Parte, Sancho chega à jaula quando pode falar a sós com o amo, diz-lhe que os dois cobertos são o padre e o barbeiro e que ele vai embaído e tonto, e quer prová-lo com uma pergunta de corpo: se desde que está enjaulado lhe veio vontade de fazer águas maiores ou menores. O fidalgo responde que muitas vezes, e que ainda agora a tem, e pede que o tirem dali.
No capítulo XLIX da Primeira Parte, a prova de Sancho é dita por inteiro, e a resposta do amo não a discute.
De donde se viene a sacar que los que no comen, ni beben, ni duermen, ni hacen las obras naturales que yo digo, estos tales están encantados; pero no aquellos que tienen la gana que vuestra merced tiene y que bebe cuando se lo dan, y come cuando lo tiene, y responde a todo aquello que le preguntan, de onde se vem a tirar que os que não comem, nem bebem, nem dormem, nem fazem as obras naturais que digo, esses tais estão encantados; mas não aqueles que têm a vontade que vossa mercê tem, e que bebe quando lhe dão, e come quando tem, e responde a tudo o que lhe perguntam.
O fidalgo fundamenta a certeza que lhe basta: ele sabe que vai encantado, e a consciência lhe diria o contrário se pensasse que não está.
Yo sé y tengo para mí que voy encantado, y esto me basta para la seguridad de mi conciencia; que la formaría muy grande si yo pensase que no estaba encantado y me dejase estar en esta jaula, perezoso y cobarde, defraudando el socorro que podría dar a muchos menesterosos y necesitados que de mi ayuda y amparo deben tener a la hora de ahora precisa y estrema necesidad, eu sei e tenho para mim que vou encantado, e isto me basta para a segurança de minha consciência; que a formaria muito grande se eu pensasse que não estava encantado e me deixasse estar nesta jaula, preguiçoso e covarde, defraudando o socorro que poderia dar a muitos necessitados e carentes que de minha ajuda e amparo devem ter a esta hora precisa e extrema necessidade.
Na parada em que o cônego e o padre o desenjaulam, a pedido de Sancho, ele dá palavra de cavaleiro de não se apartar até que queiram, e acrescenta que o encantado não é livre para fazer de si o que quiser.
No capítulo L da Primeira Parte, já fora dela, o fidalgo a conta como prisão passada: apesar de ter se visto enjaulado como louco, espera ver-se rei de algum reino em poucos dias. No capítulo LII da Primeira Parte, a jaula ficou para trás: o boieiro o acomoda sobre um feixe de feno, e depois de seis dias de estrada o carro atravessa a praça da aldeia ao meio-dia de um domingo, com a gente toda reunida.
a cabo de seis días llegaron a la aldea de don Quijote, adonde entraron en la mitad del día, que acertó a ser domingo, y la gente estaba toda en la plaza, ao cabo de seis dias chegaram à aldeia de dom Quixote, onde entraram no meio do dia, que calhou de ser domingo, e a gente estava toda na praça.
Na Segunda Parte a jaula volta como memória. No capítulo I da Segunda Parte, o barbeiro conta ao fidalgo a história do licenciado de Sevilha que se julgou são e, ao despedir-se do hospício, consolou um louco furioso na jaula; dom Quixote a lê como arapuca para ele. No capítulo VII da Segunda Parte, a criada diz ao bacharel que a primeira vez o devolveram atravessado num jumento, moído a pau, e a segunda num carro de bois, enjaulado, tão magro e amarelo que a mãe não o conheceria, e que ela gastou mais de seiscentos ovos para trazê-lo de volta a si. No capítulo XXXII da Segunda Parte, diante dos duques, ele mesmo fala dela quando explica por que não tem a graça de não ser encantado: já se viu metido numa jaula, onde o mundo inteiro não o teria encerrado senão a força de encantamento.
No capítulo XVII da Segunda Parte, o leoneiro abre a jaula do primeiro leão por ordem do fidalgo, que a pé, de espada desembainhada, espera o bicho.
el generoso león, más comedido que arrogante, no haciendo caso de niñerías, ni de bravatas, después de haber mirado a una y otra parte, como se ha dicho, volvió las espaldas y enseñó sus traseras partes a don Quijote, y con gran flema y remanso se volvió a echar en la jaula, o generoso leão, mais comedido que arrogante, sem fazer caso de meninices nem de bravatas, depois de olhar para uma e outra parte, voltou as costas e mostrou a dom Quixote suas partes traseiras, e com grande fleuma e remanso tornou a deitar-se na jaula.
O leoneiro, que não quer atiçar o animal, lhe dá a regra do desafio: o leão tem a porta aberta, e quem espera e o outro não vem, vence.
El león tiene abierta la puerta: en su mano está salir, o no salir; pero, pues no ha salido hasta ahora, no saldrá en todo el día. La grandeza del corazón de vuesa merced ya está bien declarada: ningún bravo peleante, según a mí se me alcanza, está obligado a más que a desafiar a su enemigo y esperarle en campaña; y si el contrario no acude, en él se queda la infamia, y el esperante gana la corona del vencimiento, o leão tem aberta a porta: está em suas mãos sair ou não sair; mas, como não saiu até agora, não sairá em todo o dia. A grandeza do coração de vossa mercê já está bem declarada: nenhum bravo peleador, segundo alcanço, está obrigado a mais que a desafiar o inimigo e esperá-lo em campanha; e se o contrário não acode, nele fica a infâmia, e o que espera ganha a coroa do vencimento.
No capítulo LXXIII da Segunda Parte, na entrada da aldeia, onde o livro termina em agouros, Sancho tira quatro quartos da algibeira, paga ao menino uma gaiola de grilos que ele tomara do outro e a põe nas mãos de dom Quixote, como prova de que os agouros estão rompidos e desbaratados.
O que significa
A jaula é a cena em que o romance mais se aproxima do que seus personagens pensam do fidalgo e menos se esforça por esconder. O padre a armou com a linguagem dos livros porque sabia que ele só aceitaria uma explicação que viesse deles, e o fidalgo a aceita porque ela lhe devolve uma razão para estar parado: se está encantado, não tem culpa de não socorrer os necessitados; se não estivesse, seria covarde por ficar. O argumento do capítulo XLIX da Primeira Parte não responde à prova de Sancho, responde a outra pergunta, a do que ele deve fazer, e por isso a prova de Sancho, correta nos fatos, não toca na crença.
As duas jaulas se espelham. Na do capítulo XLVI da Primeira Parte, o fidalgo é fechado por outros, que se servem do que ele leu para o levar em segurança, e ele só sai dela, na parada, quando dá a palavra de que não fugirá. Na do capítulo XVII da Segunda Parte, ele abre a jaula, enfrenta a fera e pede um atestado do leoneiro, e quem não sai é o leão. Entre as duas, o livro faz a pergunta de quem é o animal que se mostra: na primeira o exibido é o homem, num carro de bois pela estrada, e na segunda é o leão, e o fidalgo precisa que alguém lhe dê testemunho de que esperou. A gaiola de grilos do capítulo LXXIII da Segunda Parte fecha a série em escala mínima: já não há quem enjaule ninguém, e um escudeiro compra por quatro quartos um pequeno cativeiro para desfazer um agouro. Duas leituras: Sancho aprendeu com a jaula que se desfaz com um gesto o que não se desfaz com argumento, e a gaiola é o seu modo de cuidar do amo; ou a gaiola é só um agouro desfeito por quem não crê em agouros, e a ligação com o carro de bois é de quem lê, não do texto.
Relações
- A obra: Dom Quixote.
- Temas-padrão: Loucura, Liberdade e opressão, Aparência e realidade.
- Temas da obra: Loucura, Liberdade e opressão, Aparência e realidade.
- Personagens: Dom Quixote, Sancho Pança, o padre e o barbeiro, Cardênio.
- Símbolos vizinhos: os livros de cavalaria, de onde vem a linguagem com que a jaula é armada, e a estalagem, de onde ela parte.