O que é
A gruta de Montesinos, na Mancha, onde Dom Quixote desce preso a uma corda de quase cem braças, enquanto Sancho Pança e um primo do licenciado ficam à boca contando o que sai. Lá embaixo, conta o fidalgo, adormeceu, acordou num prado, viu um palácio de cristal, o velho Montesinos, o cavaleiro Durandarte jazendo num sepulcro, a procissão de Belerma com o coração seco do morto, e três lavradoras saltando pelos campos, uma delas Dulcineia del Toboso, que lhe pede seis reais emprestados sobre um saiote. Em cima, passou pouco mais de uma hora, segundo Sancho; ele diz que viveu três dias. É a aventura que o livro mais deixa em aberto: o narrador a copia dizendo que não a garante, Sancho a toma por embuste, o macaco adivinho a chama de meio falsa e meio verossímil, e uma cabeça encantada no fim lhe responde "de tudo tem".
Onde aparece
A descida ocupa dois capítulos. No capítulo XXII da Segunda Parte, o fidalgo sai das bodas em que Basílio ganha Quitéria com o desejo de ver com os próprios olhos se são verdadeiras as maravilhas que dela se contam. Sancho pede que não se sepulte em vida nem se ponha como frasco a esfriar num poço; o amo responde que a empresa lhe estava guardada. Sancho e o primo o içam de olhos fechados, como se dormisse, e ele lamenta que o tenham tirado da vida e da vista mais saborosas que humano algum viu.
Ata y calla [...] que tal empresa como aquésta, Sancho amigo, para mí estaba guardada, ata e cala [...] que tal empresa como esta, Sancho amigo, para mim estava guardada.
No capítulo XXIII da Segunda Parte, o fidalgo conta o que viu. Examina-se para provar que estava desperto, e a prova é só dele.
vi que no dormía, sino que realmente estaba despierto [...] me certificaron que yo era allí entonces el que soy aquí ahora, vi que não dormia, e sim que estava realmente desperto [...] me certificaram de que eu era ali naquele momento o que sou aqui agora.
Quando Montesinos anuncia ao morto Durandarte que o cavaleiro que a profecia esperava está ali, o morto responde com uma frase de jogo de cartas.
Y cuando así no sea [...] cuando así no sea, ¡oh primo!, digo, paciencia y barajar, e quando assim não for [...] quando assim não for, ó primo!, digo, paciência e embaralhar.
A visão de Dulcineia se apoia na mentira de Sancho: ele a reconhece pelas roupas, as mesmas que o escudeiro descreveu no Toboso.
Habléla, pero no me respondió palabra; antes, me volvió las espaldas, y se fue huyendo con tanta priesa, que no la alcanzara una jara, falei-lhe, mas não me respondeu palavra; antes, virou-me as costas e foi-se fugindo com tanta pressa que não a alcançaria uma flecha.
E o que mais lhe dói é o pedido que a companheira de Dulcineia lhe faz, em nome da dama, de meia dúzia de reais sobre um saiote novo.
Mi señora Dulcinea del Toboso besa a vuestra merced las manos [...] sea servido de prestarle sobre este faldellín que aquí traigo, de cotonía, nuevo, media docena de reales, minha senhora Dulcineia del Toboso beija as mãos de vossa mercê [...] seja servido de lhe emprestar, sobre este saiote que aqui trago, de algodão, novo, meia dúzia de reais.
Erich Auerbach lê a Dulcineia encantada do Toboso como pura brincadeira cômica, sem profundidade oculta, e o empréstimo da gruta é do mesmo teor.
Sobre a própria cena da Dulcinéia, Auerbach recusa qualquer profundidade oculta: se ela parece triste ou trágica, é porque foi apresentada assim de propósito por quem a resume; lida no texto de Cervantes, é uma brincadeira.Mas se simplesmente lemos o texto de Cervantes, lemos uma brincadeira, e ela é subjugantemente cômica.
No capítulo XXIV da Segunda Parte, o capítulo abre com uma nota que Cervantes atribui a Cide Hamete Benengeli: ele não pode persuadir-se de que tudo tenha acontecido pontualmente ao fidalgo, e, se a aventura parece apócrifa, não tem culpa, e a escreve sem afirmá-la falsa ou verdadeira.
No me puedo dar a entender, ni me puedo persuadir, que al valeroso don Quijote le pasase puntualmente todo lo que en el antecedente capítulo queda escrito [...] y si esta aventura parece apócrifa, yo no tengo la culpa; y así, sin afirmarla por falsa o verdadera, la escribo, não posso dar a entender, nem posso persuadir-me, de que ao valoroso dom Quixote tenha acontecido pontualmente tudo o que no capítulo anterior fica escrito [...] e se esta aventura parece apócrifa, eu não tenho a culpa; e assim, sem afirmá-la falsa ou verdadeira, a escrevo.
Sancho, no mesmo capítulo, ouve o amo falar ao pajem com tal discrição que se pergunta como o mesmo homem pôde dizer que viu os disparates da gruta.
¿es posible que hombre que sabe decir tales, tantas y tan buenas cosas como aquí ha dicho, diga que ha visto los disparates imposibles que cuenta de la cueva de Montesinos?, é possível que homem que sabe dizer tais, tantas e tão boas coisas como aqui disse diga que viu os disparates impossíveis que conta da gruta de Montesinos?
No capítulo XXV da Segunda Parte, Sancho pede ao amo que mande o macaco de mestre Pedro dizer se foi verdade, e o amo concorda com um escrúpulo.
El mono dice que parte de las cosas que vuesa merced vio, o pasó, en la dicha cueva son falsas, y parte verisímiles, o macaco diz que parte das coisas que vossa mercê viu, ou passou, na dita gruta são falsas, e parte verossímeis.
Os duques, no capítulo XXXIV da Segunda Parte, tomam a gruta como matéria de uma burla: Montesinos, que o fidalgo disse ter visto debaixo da terra, vem agora num carro de encantadores com Dulcineia, e o diabo mensageiro traz a ordem do desencanto.
Yo soy el Diablo; voy a buscar a don Quijote de la Mancha; la gente que por aquí viene son seis tropas de encantadores, que sobre un carro triunfante traen a la sin par Dulcinea del Toboso. Encantada viene con el gallardo francés Montesinos, a dar orden a don Quijote de cómo ha de ser desencantada la tal señora, eu sou o Diabo; vou buscar dom Quixote de la Mancha; a gente que por aqui vem são seis tropas de encantadores, que sobre um carro triunfante trazem a sem par Dulcineia del Toboso. Encantada vem com o galhardo francês Montesinos, para dar ordem a dom Quixote de como há de ser desencantada a tal senhora.
No capítulo XXXV da Segunda Parte, Merlin ameaça que, se Sancho não se der os açoites, Dulcineia volta à gruta de Montesinos e a seu primitivo estado de lavradora. No capítulo XXXVI da Segunda Parte, Sancho escreve à mulher que estiveram na gruta, sem dizer que ficou à boca segurando a corda.
No capítulo XLI da Segunda Parte, diante da fantasia das cabras do céu que Sancho inventa depois do voo do Cravelenho, o fidalgo lhe propõe a troca.
Sancho, pues vos queréis que se os crea lo que habéis visto en el cielo, yo quiero que vos me creáis a mí lo que vi en la cueva de Montesinos; y no os digo más, Sancho, pois vós quereis que se vos creia o que vistes no céu, eu quero que vós me creiais a mim o que vi na gruta de Montesinos; e não vos digo mais.
No capítulo LV da Segunda Parte, ao cair no fosso, Sancho compara a sua sorte com a do amo na gruta: o amo achou regalo, ele verá sapos e cobras. No capítulo LIX da Segunda Parte, o fidalgo conta aos cavalheiros da estalagem, ponto por ponto, o encanto de Dulcineia, a gruta e a ordem de Merlin, e eles não sabem que grau dar-lhe entre a discrição e a loucura.
No capítulo LXII da Segunda Parte, diante da cabeça encantada, ele faz a pergunta que o narrador deixara em aberto na gruta.
Dime tú, el que respondes: ¿fue verdad o fue sueño lo que yo cuento que me pasó en la cueva de Montesinos? ¿Serán ciertos los azotes de Sancho mi escudero? ¿Tendrá efeto el desencanto de Dulcinea? - A lo de la cueva -respondieron- hay mucho que decir: de todo tiene; los azotes de Sancho irán de espacio, el desencanto de Dulcinea llegará a debida ejecución, diz-me tu, o que respondes: foi verdade ou foi sonho o que eu conto que me passou na gruta de Montesinos? Serão certos os açoites de Sancho, meu escudeiro? Terá efeito o desencanto de Dulcineia? A respeito da gruta, responderam, há muito que dizer: de tudo tem; os açoites de Sancho irão devagar, o desencanto de Dulcineia chegará à devida execução.
O que significa
A gruta é o lugar em que o livro desmonta, de dentro, a pergunta "isto é verdade?" que ele vinha fazendo desde o primeiro capítulo. Nos moinhos e nos rebanhos, o desmentido vinha de fora, de Sancho ou do mundo, e o fidalgo o absorvia pelo encantador. Na gruta não há ninguém lá embaixo para dizer o que viu; o que existe é um relato, o do fidalgo, com um narrador que o copia e o duvida, um escudeiro que sabe de onde veio o vestido de Dulcineia, e um oráculo que concede metade. É uma aventura que se tem de acreditar ou não acreditar sem prova, e é por isso que tudo o que o livro conta depois se apoia nela: os duques a usam, Sancho a cita, o fidalgo a oferece em troca de uma mentira.
Auerbach diz que em Cervantes o processo de julgar nem chega a ser iniciado, que ninguém é condenado neste livro afora os maus livros e as más peças.
No lugar do trágico e do simbólico, Auerbach propõe uma categoria própria: um jogo que ilumina tudo o que toca sem julgar, porque em Cervantes o próprio processo de julgar nem chega a se abrir.Não é suficiente dizer que não emite juízos e não tira conclusões; o processo nem é iniciado, as perguntas nem são feitas. Ninguém c nada (afora os maus livros e as más peças) é condenado neste livro [...]
O capítulo XXIV da Segunda Parte contraria a frase de Auerbach na única vez em que o narrador abre o processo: Cide Hamete julga a gruta pela régua das outras aventuras, acha que ela não tem entrada, e em vez de condenar o fidalgo ou o relato passa a decisão ao leitor. A diferença importa: Auerbach lê a neutralidade como ausência de pergunta, e na gruta a pergunta é feita e deixada de pé. Três respostas ficam disponíveis, e o texto não escolhe: que o fidalgo viu aquilo por sonho, que o inventou depois, ou que o contou como o viu, sem saber mais que o leitor. A pergunta à cabeça no capítulo LXII da Segunda Parte e a troca de mentiras no capítulo XLI da Segunda Parte são as duas saídas que o livro encontra para viver com isso: pedir a um oráculo, ou aceitar a mentira alheia em troca da própria.
Relações
- A obra: Dom Quixote.
- Temas-padrão: Aparência e realidade, Linguagem e narração, Loucura.
- Temas da obra: Aparência e realidade, Linguagem e narração, Loucura.
- Personagens: Dom Quixote, Sancho Pança, Cide Hamete Benengeli, Dulcineia del Toboso, os duques.
- Símbolos vizinhos: os moinhos de vento, onde o desmentido vinha de fora, e a jaula, a outra cena em que o fidalgo está num espaço fechado e conta o que sente.