O que é
A ínsula que Dom Quixote promete a Sancho Pança no começo da segunda saída e que o escudeiro cobra durante o livro inteiro: primeiro um pedaço de terra a ganhar na ponta da lança, depois um cargo, o de mandar melhor do que quem manda, e por fim um lugarejo de mil vizinhos chamado Barataria, que os duques lhe dão de brincadeira por dez dias. É uma promessa que o livro cumpre, e a cumpre dentro de uma burla. A palavra não designa nada que se veja até o fim; ela é o prêmio que paga o esforço antes de existir, e é por isso que Sancho a persegue com uma cobiça que o texto nunca decide se é ambição ou esperança de homem pobre. Ao contrário dos moinhos, que valem pelo que cada um vê neles, a ínsula vale pelo que se espera dela, e o livro a gasta aos poucos, até a frase com que Sancho a larga.
Onde aparece
A promessa é feita pela estrada. No capítulo VII da Primeira Parte, ao sair com o vizinho que convenceu a ser escudeiro, o fidalgo dá de bandeja o que os cavaleiros antigos faziam e promete superá-los: em menos de seis dias ganhará um reino com outros agregados, que calham para coroar Sancho rei de um deles.
Has de saber, amigo Sancho Panza, que fue costumbre muy usada de los caballeros andantes antiguos hacer gobernadores a sus escuderos de las ínsulas o reinos que ganaban, y yo tengo determinado de que por mí no falte tan agradecida usanza; antes, pienso aventajarme en ella: porque ellos algunas veces, y quizá las más, esperaban a que sus escuderos fuesen viejos; y, ya después de hartos de servir y de llevar malos días y peores noches, les daban algún título de conde, o, por lo mucho, de marqués, de algún valle o provincia de poco más a menos; pero, si tú vives y yo vivo, bien podría ser que antes de seis días ganase yo tal reino que tuviese otros a él adherentes, que viniesen de molde para coronarte por rey de uno dellos, fica sabendo, amigo Sancho Pança, que era costume muito corrente entre os antigos cavaleiros andantes nomear governadores de suas ínsulas ou reinos conquistados os seus escudeiros, e estou resolvido a que por mim não se perca tão grata usança; antes, penso superá-la: porque eles, às vezes, e talvez as mais delas, aguardavam que os escudeiros envelhecessem; e então, cansados de servir e de levar dias ruins e noites piores, davam-lhes um título de conde ou, quando muito, de marquês, de algum vale ou província de pouca monta; mas, se tu viveres e eu viver, bem pode acontecer que em menos de seis dias eu ganhe um reino com outros a ele ligados, que calhem para te coroar rei de um deles.
No capítulo X da Primeira Parte, depois da luta com os frades e o biscainho, Sancho pede o governo da ínsula ganha, e o amo responde que aventuras de encruzilhada não rendem ínsula, só cabeça quebrada. Quando o amo descreve o bálsamo de Fierabrás, o escudeiro faz a conta de quanto vale o que se vende e abre mão do governo.
Si eso hay -dijo Panza-, yo renuncio desde aquí el gobierno de la prometida ínsula, y no quiero otra cosa, en pago de mis muchos y buenos servicios, sino que vuestra merced me dé la receta de ese estremado licor, se há tal coisa, disse Pança, renuncio daqui mesmo ao governo da ínsula prometida, e outra paga não quero, pelos muitos bons serviços que prestei, senão que vossa mercê me passe a receita desse licor extremado.
No capítulo L da Primeira Parte, diante do cônego de Toledo, o amo diz que daria a Sancho o condado prometido há muitos dias, se não temesse que lhe falte a habilidade para governar, e Sancho encontra a saída: ouviu dizer que há homens que tomam em arrendamento os estados dos senhores, e o senhor fica a perna estendida gozando a renda.
Na Segunda Parte a ínsula passa a ser uma discussão em casa. No capítulo II da Segunda Parte, a sobrinha e a criada barram a porta a Sancho e a sobrinha pergunta se uma ínsula é coisa de comer.
sino de gobernar y regir mejor que cuatro ciudades y que cuatro alcaldes de corte, mas de governar e reger melhor do que quatro cidades e quatro alcaides de corte.
No capítulo IV da Segunda Parte, o bacharel Sansão Carrasco o ouve dizer que não pediria a ínsula, mas que não a recusaria se o céu a desse, e responde com o aviso que o governo de Sancho vai pôr à prova: os ofícios mudam os costumes, e vendo-se governador ele poderia não reconhecer a mãe que o pariu.
Sancho nací, y Sancho pienso morir; pero si con todo esto, de buenas a buenas, sin mucha solicitud y sin mucho riesgo, me deparase el cielo alguna ínsula, o otra cosa semejante, no soy tan necio que la desechase, Sancho nasci e Sancho penso morrer; mas, ainda assim, por bem, sem muita solicitude e sem muito risco, se o céu me deparasse alguma ínsula, ou coisa semelhante, não sou tão tolo que a recusasse.
No capítulo XIII da Segunda Parte, o escudeiro do Bosque descreve a ínsula com a desconfiança de quem já viu o prêmio de perto.
los gobiernos insulanos no son todos de buena data. Algunos hay torcidos, algunos pobres, algunos malencónicos, y finalmente, el más erguido y bien dispuesto trae consigo una pesada carga de pensamientos y de incomodidades, que pone sobre sus hombros el desdichado que le cupo en suerte, os governos de ínsula não são todos de bom proveito: alguns há tortos, alguns pobres, alguns melancólicos, e finalmente o mais empinado e bem disposto traz consigo uma carga pesada de pensamentos e de incômodos, que põe sobre os ombros o desditoso a quem coube em sorte.
No capítulo XXVIII da Segunda Parte, em plena queixa contra o amo, Sancho põe a promessa na conta do salário e a faz valer pelo peso que tem para ele.
debe de haber más de veinte años, tres días más a menos, deve haver mais de vinte anos, três dias a mais ou a menos.
No capítulo XLI da Segunda Parte, na garupa do cavalo de pau, é o duque quem fala da ínsula e a firma: ela não é movível nem fugitiva, e o preço que cobra por ela é que o escudeiro vá com o amo e dê cima à aventura.
la ínsula que yo os he prometido no es movible ni fugitiva: raíces tiene tan hondas, echadas en los abismos de la tierra, que no la arrancarán ni mudarán de donde está a tres tirones, a ínsula que eu vos prometi não é movível nem fugitiva: raízes tem tão fundas, lançadas nos abismos da terra, que não a arrancarão nem mudarão de onde está a três puxões.
Nos capítulos XLII da Segunda Parte e XLIII da Segunda Parte, o amo escreve os conselhos de como governar: conhecer-se a si mesmo, tomar a virtude por meio, ser clemente com o culpado, não carregar a fala de refrões. No capítulo XLV da Segunda Parte, Sancho toma posse de Barataria, entre sinos e cerimônias ridículas, e a primeira coisa que faz é devolver o "dom" que lhe põem no nome.
Pues advertid, hermano -dijo Sancho-, que yo no tengo don, ni en todo mi linaje le ha habido: Sancho Panza me llaman a secas, y Sancho se llamó mi padre, y Sancho mi agüelo, y todos fueron Panzas, sin añadiduras de dones ni donas, pois notai, irmão, disse Sancho, que eu não tenho dom, nem em toda a minha linhagem o houve: Sancho Pança me chamam a secas, e Sancho se chamou meu pai, e Sancho meu avô, e todos foram Panças, sem acréscimos de dons nem donas.
No mesmo dia, a sentença do bastão com os dez escudos no oco, que o próprio Sancho propõe como prova do tino para governar todo um reino.
No capítulo XLVII da Segunda Parte, à mesa de um banquete que o médico Pedro Recio manda levar embora prato por prato, Sancho reduz o governo ao que o mantém vivo.
que oficio que no da de comer a su dueño no vale dos habas, que ofício que não dá de comer a seu dono não vale duas favas.
No capítulo LIII da Segunda Parte, na sétima noite, depois do assalto fingido que o deixa emparedado entre dois paveses, ele abraça o ruço na cavalariça e fala do governo como de uma torre de onde caiu.
Venid vos acá, compañero mío y amigo mío, y conllevador de mis trabajos y miserias: cuando yo me avenía con vos y no tenía otros pensamientos que los que me daban los cuidados de remendar vuestros aparejos y de sustentar vuestro corpezuelo, dichosas eran mis horas, mis días y mis años; pero, después que os dejé y me subí sobre las torres de la ambición y de la soberbia, se me han entrado por el alma adentro mil miserias, mil trabajos y cuatro mil desasosiegos, vinde cá, companheiro meu e amigo meu, e suportador de meus trabalhos e misérias: quando eu me avinha convosco e não tinha outros pensamentos que os que me davam os cuidados de remendar vossos aparelhos e de sustentar vosso corpinho, ditosas eram minhas horas, meus dias e meus anos; mas, depois que vos deixei e subi sobre as torres da ambição e da soberba, entraram-me pela alma adentro mil misérias, mil trabalhos e quatro mil desassossegos.
Ao partir, pede aos que o rodeiam o que o governo nunca lhe deu.
dejadme volver a mi antigua libertad; dejadme que vaya a buscar la vida pasada, para que me resucite de esta muerte presente, deixai-me voltar à minha antiga liberdade; deixai-me ir buscar a vida passada, para que me ressuscite desta morte presente.
No capítulo LV da Segunda Parte, diante dos duques, depois de sair do fosso, ele resume dez dias numa conta de caixa: entrou nu na ínsula Barataria e nu se acha, nem perde nem ganha.
E no capítulo LXXIV da Segunda Parte, no testamento, dom Quixote fecha a promessa: se estando louco deu a Sancho o governo de uma ínsula, estando sensato lhe daria o de um reino, e lhe pede perdão por tê-lo feito cair no erro de que há cavaleiros andantes.
quiero que no se le haga cargo dellos, ni se le pida cuenta alguna, sino que si sobrare alguno, después de haberse pagado de lo que le debo, el restante sea suyo [...] y, si como estando yo loco fui parte para darle el gobierno de la ínsula, pudiera agora, estando cuerdo, darle el de un reino, se le diera, porque la sencillez de su condición y fidelidad de su trato lo merece [...] Perdóname, amigo, de la ocasión que te he dado de parecer loco como yo, haciéndote caer en el error en que yo he caído, de que hubo y hay caballeros andantes en el mundo, quero que não se lhe faça cargo deles, nem se lhe peça conta alguma, mas que, se sobrar algum, depois de pagar-se do que lhe devo, o restante seja dele [...] e, se como estando eu louco contribuí para dar-lhe o governo da ínsula, pudesse agora, estando sensato, dar-lhe o de um reino, dar-se-lhe-ia, porque a simplicidade de sua condição e a fidelidade de seu trato o merecem [...] perdoa-me, amigo, a ocasião que te dei de parecer louco como eu, fazendo-te cair no erro em que eu caí, de que houve e há cavaleiros andantes no mundo.
O que significa
A ínsula é o fio que mantém Sancho ao lado do amo e a medida de como os dois lidam com a mesma esperança. Para dom Quixote, ela é uma consequência da cavalaria: o escudeiro de cavaleiro recebe governo, como nos livros, e o texto não mostra o fidalgo duvidando um instante de poder cumprir. Para Sancho, é um cargo que ele quer exercer bem, com o pé no chão: faz as contas do salário, desconfia dos conselhos do escudeiro do Bosque e responde à sobrinha com a defesa de quem sabe do que fala. O que o governo dos duques faz é testar essa esperança no corpo: o escudeiro julga, passa fome, é atacado de noite, e sai dizendo que não nasceu para aquilo.
O desfecho de Barataria dá razão ao escudeiro e ao mesmo tempo ao aviso do bacharel. Os ofícios mudam os costumes? Sancho sai sem tocar em dinheiro, devolve o "dom" e acerta as sentenças que dependem de ver: o ofício não o muda, e o que o muda é ver de dentro o que o amo prometeu de fora. A ínsula que existe só nos livros e a ínsula que existe nas mãos dos duques são duas fantasias, e a segunda tem a vantagem de poder ser largada. Duas leituras: a burla dos duques produziu, contra a intenção, o único desengano do livro que não é derrota, pois Sancho larga o governo por vontade própria; ou o governo apenas confirma que Sancho já era o que dizia ser, e a ínsula, em vez de mudá-lo, serviu aos duques para rir do que ele sempre foi.
Relações
- A obra: Dom Quixote.
- Temas-padrão: Justiça e lei, Liberdade e opressão.
- Temas da obra: Justiça e lei, Liberdade e opressão.
- Personagens: Dom Quixote, Sancho Pança, Sansão Carrasco, os duques.
- Símbolos vizinhos: a estalagem, o outro lugar que o livro dá ao fidalgo e ao escudeiro e tira de volta, e os livros de cavalaria, de onde vem a norma de que o escudeiro recebe governo.