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Os moinhos de vento

O que é

Trinta ou quarenta moinhos de vento num descampado da Mancha que Dom Quixote toma por gigantes e acomete de lança em riste, com Sancho Pança gritando atrás que são moinhos. É a aventura mais citada do livro e a que ficou como emblema dele, mas o romance a trata menos como cena isolada do que como um modelo: o fidalgo vê uma coisa, o escudeiro nomeia as peças da outra (pás, vento, pedra), a lança prende numa pá e o vento a quebra, e a derrota é explicada por um sábio inimigo que mudou os gigantes em moinhos para lhe tirar a glória. Essa explicação é o primeiro uso do encantador, a peça que o livro vai reaproveitar até a Segunda Parte. Depois da cena, os moinhos não ficam parados: o bacharel os põe na lista das façanhas mais celebradas do livro impresso, Sancho os usa como prova da loucura do amo, e dom Quixote, diante de outras azenhas, concede o que antes negava.

Onde aparece

A explicação nasce antes da cena. No capítulo VII da Primeira Parte, quando a ama e a sobrinha dizem que um sábio levou o aposento dos livros, o fidalgo corrige o nome do mago e lhe dá uma razão: o inimigo sabe que ele o vencerá um dia e por isso lhe faz todos os dissabores que pode.

ése es un sabio encantador, grande enemigo mío, que me tiene ojeriza, porque sabe por sus artes y letras que tengo de venir, andando los tiempos, a pelear en singular batalla con un caballero a quien él favorece, y le tengo de vencer, sin que él lo pueda estorbar, y por esto procura hacerme todos los sinsabores que puede, esse é um sábio encantador, grande inimigo meu, que me tem ojeriza porque sabe, por suas artes e letras, que hei de vir, com o correr dos tempos, a pelejar em batalha singular com um cavaleiro a quem ele protege, e devo vencê-lo sem que ele possa impedir, e por isso procura causar-me todos os dissabores que pode.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

No capítulo VIII da Primeira Parte, a poucas horas de a promessa da ínsula ter posto o escudeiro a ganhar ou a perder com o que o amo vê, dom Quixote aponta os moinhos e diz o que pensa fazer com eles.

ves allí, amigo Sancho Panza, donde se descubren treinta, o pocos más, desaforados gigantes, con quien pienso hacer batalla y quitarles a todos las vidas, olha ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta, ou pouco mais, desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha e tirar a todos a vida.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

Sancho responde pelo que sabe do ofício, e o amo não discute os fatos: diz que o escudeiro não entende de aventuras e o manda rezar, se tem medo.

aquellos que allí se parecen no son gigantes, sino molinos de viento, y lo que en ellos parecen brazos son las aspas, que, volteadas del viento, hacen andar la piedra del molino, aqueles que ali se veem não são gigantes, e sim moinhos de vento, e o que neles parecem braços são as pás, que, tocadas pelo vento, fazem girar a pedra do moinho.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

Ainda no capítulo VIII da Primeira Parte, caído com a lança em pedaços, ele fecha o sistema sem corrigir a visão: o que desmente o cavaleiro é obra do inimigo.

aquel sabio Frestón que me robó el aposento y los libros ha vuelto estos gigantes en molinos por quitarme la gloria de su vencimiento: tal es la enemistad que me tiene, aquele sábio Frestón que me roubou o aposento e os livros mudou estes gigantes em moinhos para me privar da glória de os vencer: tal é a inimizade que me tem.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

No capítulo III da Segunda Parte, na primeira conversa com o bacharel Sansão Carrasco, o livro impresso aparece como a prova de que a aventura fez fama: os moinhos abrem a lista das façanhas mais ponderadas, antes dos pisões, dos rebanhos, do morto de Segóvia, dos galeotes, dos frades e do biscainho.

No capítulo X da Segunda Parte, ao planejar como fazer o amo crer que uma lavradora é Dulcineia, Sancho tira a lição da cena que ele mesmo presenciou: quem toma moinhos por gigantes, mulas de frades por dromedários e rebanhos por exércitos não terá dificuldade em crer na camponesa, e, se não crer, ele jura.

No capítulo XVII da Segunda Parte, diante da jaula dos leões, o mesmo Sancho mede o perigo pelo que já passaram: em comparação com esta, a dos moinhos e a dos pisões foram tortas e pão pintado.

No capítulo XXIX da Segunda Parte, no barco encantado do Ebro, o fidalgo vê castelo onde há azenhas, e Sancho diz o que são e para que servem, como no primeiro dia. A resposta já não é a mesma.

todas las cosas trastruecan y mudan de su ser natural los encantos. No quiero decir que las mudan de en uno en otro ser realmente, sino que lo parece, como lo mostró la experiencia en la transformación de Dulcinea, único refugio de mis esperanzas, todas as coisas trastrocam e mudam de seu ser natural os encantos. Não quero dizer que as mudem de um ser em outro realmente, mas que o parece, como mostrou a experiência na transformação de Dulcineia, único refúgio de minhas esperanças.
Segunda Parte: Montesinos e o retábulo

O que significa

Os moinhos são a cena em que o livro mostra como funciona a loucura de dom Quixote antes de dizer o que ela é. Os dois lados discutem com tipos diferentes de prova: o escudeiro apela ao que se vê e ao uso das coisas, o amo apela a um saber que só ele leu, e o texto deixa claro qual dos dois tem razão sobre os moinhos e qual deles manda. A explicação do mago acrescenta a esse desencontro a peça que o torna estável: se o fato desmente o cavaleiro, o desmentido prova que o cavaleiro valia o bastante para ser temido, e nada que Sancho possa ver ou dizer toca a crença.

Entre o capítulo VIII da Primeira Parte e o capítulo XXIX da Segunda Parte o símbolo muda de posição. Na Primeira Parte, o amo vê gigantes e o escudeiro vê moinhos, e quem erra é o amo. Na Segunda, depois que Sancho inventou a Dulcineia encantada, a aparência é concedida ao escudeiro e o valor é tirado dela: é moinho, e é isso mesmo o encanto. A prova de Sancho vira prova a favor do amo, e a teoria passa a depender da mentira do escudeiro para se sustentar, porque o exemplo que o fidalgo dá é a transformação de Dulcineia, que ele nunca viu. Duas leituras: o fidalgo aprendeu a se defender do desmentido e fechou o sistema, ou, ao admitir que as azenhas parecem azenhas, deu pela primeira vez um passo em direção ao escudeiro. O texto sustenta as duas, e é por isso que a cena dos moinhos continua a render depois de o episódio ter acabado.

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