O que é
A bacia de latão de um barbeiro de aldeia que Dom Quixote ganha na estrada e passa a chamar de elmo de Mambrino. O barbeiro a pôs na cabeça para a chuva não estragar o chapéu novo, e limpa como estava ela reluzia de meia légua; o fidalgo vê um cavaleiro de elmo de ouro sobre um cavalo tordilho, onde há um homem num burro pardo. A peça tem três nomes, e é isso que a faz render: bacia para o barbeiro e para Sancho Pança, elmo para quem a conquistou, e um nome misto que o escudeiro acaba cunhando, bacielmo. Ao contrário dos moinhos, que o livro deixa entre dois homens numa planície, a bacia atravessa a Primeira Parte inteira e chega a uma estalagem cheia de testemunhas, que a submetem a uma votação. O fidalgo a conserva até a Segunda Parte, em que a veste cheia de requeijões na aventura dos leões, e o livro nunca diz que ela tenha deixado de ser bacia para quem não é ele.
Onde aparece
A peça é desejada antes de ser vista. No capítulo X da Primeira Parte, depois de a celada rachar na luta com o biscainho, o fidalgo jura levar a vida do marquês de Mântua até tomar à força outra celada igual de algum cavaleiro, e apoia o juramento no precedente do elmo de Mambrino, que o texto diz ter custado caro a Sacripante.
Yo hago juramento al Criador de todas las cosas y a los santos cuatro Evangelios, donde más largamente están escritos, de hacer la vida que hizo el grande marqués de Mantua cuando juró de vengar la muerte de su sobrino Valdovinos, que fue de no comer pan a manteles, ni con su mujer folgar, y otras cosas que, aunque dellas no me acuerdo, las doy aquí por expresadas, hasta tomar entera venganza del que tal desaguisado me fizo, juro ao Criador de todas as coisas e aos santos quatro Evangelhos, onde mais por extenso estão escritos, levar a vida que levou o grande marquês de Mântua quando jurou vingar a morte do sobrinho Valdovinos, que foi não comer pão à mesa posta, nem deitar-se com a esposa, e outras coisas que, embora não as recorde, aqui dou por ditas, até tomar completa vingança de quem tal agravo me fez.
No capítulo XIX da Primeira Parte, Sancho lhe lembra o juramento e atribui a ele a manta e os coices dos últimos dias. O fidalgo não o desmente e promete emenda.
No capítulo XXI da Primeira Parte, com a chuva e o susto dos pisões ainda frescos, o fidalgo vê o elmo onde há um homem com uma coisa que reluz, e faz a pergunta que pede uma testemunha.
¿no ves aquel caballero que hacia nosotros viene, sobre un caballo rucio rodado, que trae puesto en la cabeza un yelmo de oro?, não vês aquele cavaleiro que vem para nós, sobre um cavalo tordilho rodado, que traz posto na cabeça um elmo de ouro?
Sancho descreve sem batizar: homem, burro, coisa que reluz. Não nega o brilho, nega só o nome.
no es sino un hombre sobre un asno pardo, como el mío, que trae sobre la cabeza una cosa que relumbra, não é senão um homem sobre um burro pardo, como o meu, que traz sobre a cabeça uma coisa que reluz.
O narrador conta então o que havia, a bacia e a chuva, e explica o mecanismo sem chamá-lo de invenção: o fidalgo não vê do nada, acomoda o que vê ao que tem dos livros.
todas las cosas que veía, con mucha facilidad las acomodaba a sus desvariadas caballerías y malandantes pensamientos, todas as coisas que via, com muita facilidade as acomodava a suas desvairadas cavalarias e malandantes pensamentos.
No capítulo XXII da Primeira Parte, quando liberta os galeotes e eles o apedrejam, o estudante lhe tira a bacia da cabeça e a quebra a golpes nas costas e no chão. No capítulo XXV da Primeira Parte ela reaparece amassada no costal de Sancho, que a leva para fazer dela a bacia de barba em casa, e o fidalgo tira disso a fineza do temple do elmo. Quando o escudeiro cita a bacia como prova de que as promessas de reinos e ínsulas são vento, a resposta é a doutrina dos encantadores: eles mudam as coisas dos cavaleiros conforme a vontade de favorecê-los ou de destruí-los, e por isso o elmo parece bacia a todos, para ninguém lho tomar.
No capítulo XXXVII da Primeira Parte, ele sai para enfrentar a ficção de Doroteia com o elmo de Mambrino amassado na cabeça, e ninguém na sala diz nada.
No capítulo XLIV da Primeira Parte, o barbeiro de quem ele a tirou entra na estalagem, reconhece a albarda que Sancho mexe e reclama também a bacia. O fidalgo jura pela ordem de cavalaria que aquele é o mesmo elmo, sem nada acrescentado nem tirado, mas quanto à albarda se recusa a sentenciar: a mudança de jaez em albarda ele atribui às transformações de que a cavalaria está cheia.
de haberse convertido de jaez en albarda, no sabré dar otra razón si no es la ordinaria: que como esas transformaciones se ven en los sucesos de la caballería, de ter-se convertido de jaez em albarda, não saberei dar outra razão senão a ordinária: que como essas transformações se veem nos sucessos da cavalaria.
No capítulo XLV da Primeira Parte, o outro barbeiro, o da aldeia do fidalgo, entra na burla e declara que aquilo é elmo, mas não elmo inteiro, e dom Fernando toma os votos em segredo, de ouvido em ouvido, e anuncia o resultado.
El caso es, buen hombre, que ya yo estoy cansado de tomar tantos pareceres, porque veo que a ninguno pregunto lo que deseo saber que no me diga que es disparate el decir que ésta sea albarda de jumento, sino jaez de caballo, y aun de caballo castizo, o caso é, bom homem, que já estou cansado de tomar tantos pareceres, porque vejo que a ninguém pergunto o que desejo saber que não me diga que é disparate dizer que esta seja albarda de jumento, e sim jaez de cavalo, e até de cavalo de boa casta.
No capítulo XLVI da Primeira Parte, os quadrilheiros arbitram a querela entre o barbeiro e Sancho, e a questão do elmo se resolve sem decidir o que a peça é: o padre, às escondidas, dá oito reais pela bacia, e o barbeiro assina uma cédula de que não se chamará a engano. No capítulo I da Segunda Parte, na visita do padre e do barbeiro, o fidalgo ainda manda o recado ao barbeiro: digo isto para que o senhor Bacia saiba que o entendo. E no capítulo XVII da Segunda Parte, antes de enfrentar os leões, ele enfia na cabeça o elmo em que Sancho, sem outro lugar onde pôr uns requeijões comprados dos pastores, os escondera, e o soro lhe escorre pelo rosto.
O que significa
O elmo é o único objeto do livro sobre o qual o mundo inteiro é chamado a opinar. Nos moinhos ou nos rebanhos, quem desmente o fidalgo é Sancho e mais ninguém; na estalagem, o barbeiro, o padre, Cardênio, dom Fernando e os camaradas dele votam, enquanto o ouvidor, absorto, e os quadrilheiros, que não entendem a burla, só assistem, e o resultado é que a bacia fica por elmo na imaginação de dom Quixote, a albarda por jaez, a estalagem por castelo. O que a votação faz é transformar a ficção do louco num veredito de gente séria, para o riso de quem sabe da burla, e o que ela não consegue é mudar a crença do fidalgo, que só reage quando o que está em jogo é a ordem a que serve.
Entre o capítulo XXI da Primeira Parte e o capítulo XLIV da Primeira Parte o fidalgo faz com o elmo duas coisas que o texto não concilia. Jura pela ordem de cavalaria que a peça é a mesma que ele ganhou, e na mesma cena se recusa a dar parecer sobre a albarda, remetendo-a ao encanto do castelo. Duas leituras: ele escolhe onde o encantamento serve e onde incomoda, e o elmo é a peça de que não pode abrir mão porque sustenta o juramento do capítulo X da Primeira Parte; ou é fiel ao que lhe consta de cada objeto, e acredita no elmo porque o ganhou e duvida da albarda porque nunca a viu. O desfecho do capítulo XLVI da Primeira Parte é a resposta da gente sem fé nos livros: oito reais e um recibo, sem que ninguém precise dizer o que a coisa é.
Relações
- A obra: Dom Quixote.
- Temas-padrão: Aparência e realidade, Loucura.
- Temas da obra: Aparência e realidade, Loucura.
- Personagens: Dom Quixote, Sancho Pança, Doroteia.
- Símbolos vizinhos: os moinhos de vento, a primeira vez que o fidalgo explica o que vê pelo mago, e a estalagem, onde a bacia é votada.