O que é
A estalagem (a venta) onde Dom Quixote vê um castelo. Há duas no começo do livro: a da armação de cavaleiro, na primeira saída, e a da manta, onde ele é recebido por Maritornes e onde Sancho é manteado, que volta a receber o livro por quase quinze capítulos, no meio da Primeira Parte. É o lugar onde o mundo prático cobra a conta: o estalajadeiro, a mulher dele, o arrieiro e os hóspedes desmentem o castelo com a paga, a cama e a manta. É também o cenário que o livro enche de outras gentes: o padre e o barbeiro, Cardênio e Doroteia, dom Fernando, o cativo e Zoraida, o ouvidor, os quadrilheiros. Entre as duas coisas, o castelo e a conta, fica o espaço onde a loucura de dom Quixote é obrigada a conviver com quem não a compartilha. Na Segunda Parte a estalagem passa a ser estalagem, e é esse deslocamento que o símbolo guarda.
Onde aparece
A primeira estalagem aparece no capítulo II da Primeira Parte, no fim do primeiro dia de caminho, quando o fidalgo, cansado e com fome, vê uma venta com duas moças à porta e a transforma, pelo que leu, em castelo com torres e ponte levadiça.
como a nuestro aventurero todo cuanto pensaba, veía o imaginaba le parecía ser hecho y pasar al modo de lo que había leído, luego que vio la venta, se le representó que era un castillo con sus cuatro torres y chapiteles de luciente plata, sin faltarle su puente levadiza y honda cava, con todos aquellos adherentes que semejantes castillos se pintan, como a esse nosso aventureiro tudo o que pensava, via ou imaginava lhe parecia feito e acontecido ao modo do que lera, assim que viu a estalagem se lhe figurou um castelo com suas quatro torres e agulhas de luzente prata, sem faltar-lhe ponte levadiça e fosso fundo, com todos os apetrechos que tais castelos trazem nas pinturas.
No capítulo III da Primeira Parte, o estalajadeiro, vendo o hóspede louco, entra na brincadeira e lhe dá a primeira lição prática da cavalaria: o que os livros não dizem é o que era óbvio demais para dizer, dinheiro e camisas limpas, e quando o fidalgo racha a cabeça de dois arrieiros com a lança o estalajadeiro grita que a loucura o absolverá.
El ventero daba voces que le dejasen, porque ya les había dicho como era loco, y que por loco se libraría, aunque los matase a todos, o estalajadeiro bradava que o deixassem em paz, pois já lhes avisara que ele era louco, e que a loucura o absolveria mesmo que matasse todos eles.
A segunda estalagem é a da cama de tábuas. No capítulo XVI da Primeira Parte, a estalajadeira, a filha e a asturiana Maritornes curam o fidalgo moído. Ele imagina ter chegado a um castelo e que a filha do estalajadeiro é a do senhor.
él se imaginó haber llegado a un famoso castillo -que, como se ha dicho, castillos eran a su parecer todas las ventas donde alojaba-, y que la hija del ventero lo era del señor del castillo, ele imaginou ter chegado a um famoso castelo (que, como já se disse, eram castelos, a seu parecer, todas as estalagens onde se alojava), e que a filha do estalajadeiro o era do senhor do castelo.
Quando Maritornes entra no cômodo para ir ter com o arrieiro, ele a toma pelo pulso e a sente como a deusa da beleza: a camisa de estopa é cendal, as contas de vidro são pérolas, o hálito de salada requentada é aroma.
Y era tanta la ceguedad del pobre hidalgo, que el tacto, ni el aliento, ni otras cosas que traía en sí la buena doncella, no le desengañaban, las cuales pudieran hacer vomitar a otro que no fuera arriero; antes, le parecía que tenía entre sus brazos a la diosa de la hermosura, e era tanta a cegueira do pobre fidalgo que o tato, nem o hálito, nem outras coisas que a boa donzela trazia consigo o desenganavam, e que poderiam fazer vomitar a quem não fosse arrieiro; ao contrário, parecia-lhe que tinha entre os braços a deusa da formosura.
No capítulo XVII da Primeira Parte, depois da noite de pancadaria, ele atribui o dano a um mouro encantado que guarda o tesouro da formosura da donzela. Na hora de pagar, concede o engano sem renegar o que acreditou: pensou que era castelo, e não dos piores.
Engañado he vivido hasta aquí -respondió don Quijote-, que en verdad que pensé que era castillo, y no malo, enganado vivi até aqui, respondeu dom Quixote, pois em verdade pensei que era castelo, e não dos piores.
Sancho Pança invoca a lei dos cavaleiros para não pagar, e os hóspedes o põem numa manta e o jogam ao ar no curral.
O palco da metade do livro começa no capítulo XXXII da Primeira Parte. O padre e o barbeiro chegam com Cardênio e Doroteia, e o estalajadeiro, que tem uma maleta de livros de cavalaria, rejeita a tese de que sejam mentira.
¡Como si yo no supiese cuántas son cinco y adónde me aprieta el zapato! [...] estando impreso con licencia de los señores del Consejo Real, como si ellos fueran gente que habían de dejar imprimir tanta mentira junta, como se eu não soubesse quantas são cinco e onde me aperta o sapato! [...] estando impresso com licença dos senhores do Conselho Real, como se eles fossem gente que havia de deixar imprimir tanta mentira junta.
No capítulo XXXV da Primeira Parte, Sancho sai do quarto do amo gritando que o fidalgo está na mais renhida batalha que seus olhos viram, e o padre, interrompido na leitura do Curioso Impertinente, descobre que são odres de vinho tinto abertos a cutiladas por um homem que dorme.
Acudid, señores, presto y socorred a mi señor, que anda envuelto en la más reñida y trabada batalla que mis ojos han visto, acudi, senhores, depressa e socorrei meu senhor, que anda envolvido na mais renhida e travada batalha que meus olhos viram.
No capítulo XXXVII da Primeira Parte, quando o fidalgo repete que tudo na estalagem é encanto, o escudeiro, sem teoria, lhe dá a contraprova do corpo.
Todo lo creyera yo -respondió Sancho-, si también mi manteamiento fuera cosa dese jaez, mas no lo fue, sino real y verdaderamente; y vi yo que el ventero que aquí está hoy día tenía del un cabo de la manta, y me empujaba hacia el cielo con mucho donaire y brío, y con tanta risa como fuerza; y donde interviene conocerse las personas, tengo para mí, aunque simple y pecador, que no hay encantamento alguno, sino mucho molimiento y mucha mala ventura, tudo isso eu creria, respondeu Sancho, se também o meu manteamento fosse coisa dessa laia, mas não foi, e sim real e verdadeiramente; e vi eu que o estalajadeiro que aqui está hoje tinha uma ponta da manta e me empurrava para o céu com muito donaire e brio, e com tanto riso como força; e onde se conhecem as pessoas, tenho para mim, ainda que simples e pecador, que não há encantamento algum, mas muita moedura e muita má ventura.
Nos capítulos XXXVIII da Primeira Parte a XLIII da Primeira Parte, a estalagem deixa de ser palco de burlas e passa a ser palco de reconhecimentos: o cativo e o irmão ouvidor, Zoraida, dom Luís e dona Clara, o ouvidor. O fidalgo assiste calado e atribui tudo a quimeras de cavalaria.
No capítulo XLIV da Primeira Parte e no capítulo XLV da Primeira Parte, o barbeiro reclama a bacia e a albarda, e o salão se transforma em tribunal, com votação em segredo, de ouvido em ouvido.
El caso es, buen hombre, que ya yo estoy cansado de tomar tantos pareceres, porque veo que a ninguno pregunto lo que deseo saber que no me diga que es disparate el decir que ésta sea albarda de jumento, sino jaez de caballo, y aun de caballo castizo, o caso é, bom homem, que já estou cansado de tomar tantos pareceres, porque vejo que a ninguém pergunto o que desejo saber que não me diga que é disparate dizer que esta seja albarda de jumento, e sim jaez de cavalo, e até de cavalo de boa casta.
Nos capítulos XLVI da Primeira Parte e XLVII da Primeira Parte, tudo se dissolve em dinheiro, casamento e pazes, e a estalagem entrega o fidalgo à jaula.
Na Segunda Parte, o lugar muda de estatuto. No capítulo XXIV da Segunda Parte, quando eles chegam a uma estalagem ao anoitecer, o texto registra o contentamento de Sancho por ver o amo tomá-la por estalagem verdadeira. No capítulo XXXI da Segunda Parte, os duques o recebem num castelo real, e o narrador diz que aquele foi o primeiro dia em que ele creu ser cavaleiro andante verdadeiro, vendo-se tratar como os livros mandam.
aquél fue el primer día que de todo en todo conoció y creyó ser caballero andante verdadero, y no fantástico, viéndose tratar del mesmo modo que él había leído se trataban los tales caballeros en los pasados siglos, aquele foi o primeiro dia em que de todo em todo conheceu e creu ser cavaleiro andante verdadeiro, e não fantástico, vendo-se tratar do mesmo modo que ele tinha lido que se tratavam os tais cavaleiros nos séculos passados.
No capítulo LIX da Segunda Parte, ao divisar uma estalagem, dom Quixote a chama de estalagem, fora do costume de chamar castelo a todas, e Sancho agradece ao céu. É ali que o fidalgo e o escudeiro dão com o livro apócrifo nas mãos de dois cavalheiros.
O que significa
A estalagem é o lugar onde a primeira loucura de dom Quixote, a de ver castelo, acaba sendo posta à prova pela vida corrente. Na venta tudo é miúdo e verificável: a cama de tábuas, a conta, a manta, os odres, o direito de hospedagem. O romance usa essa miudeza para fazer duas coisas ao mesmo tempo: mostra que o fidalgo lê o mundo pelos livros, sem arredar, e mostra que o mundo, ali, tem como responder, por boca de quem cobra, de quem ri e de quem manteia. A estalagem da metade do livro vira então uma espécie de praça em que as histórias dos outros, o Curioso Impertinente, o cativo, o ouvidor, passam sob os olhos de um louco que as toma por cavalaria.
O símbolo muda de função na Segunda Parte, e o que muda é o fidalgo, não a venta. Na Primeira, ele precisa que as vendas sejam castelos para poder entrar e pedir a investidura; na Segunda, o castelo existe, é o dos duques, e aí a estalagem deixa de ser castelo. Duas leituras: dom Quixote aprendeu com as pancadas que a venta é venta e passou a distinguir; ou ele já não precisa dos castelos improvisados porque os duques lhe dão o cenário que os livros mandam. O texto não escolhe entre as duas, e só registra o alívio de Sancho, que agradece ao céu.
Relações
- A obra: Dom Quixote.
- Temas-padrão: Aparência e realidade, Loucura.
- Temas da obra: Aparência e realidade, Loucura.
- Personagens: Dom Quixote, Sancho Pança, Cardênio, Doroteia, o padre e o barbeiro, o cativo, os duques.
- Símbolos vizinhos: o elmo de Mambrino, disputado na estalagem, e a jaula, armada ali.