Quem é
Nestor é o ancião do exército aqueu, filho de Neleu, chefe dos pílios, de cuja língua a voz corria mais doce que o mel. Viu passar duas gerações e fala com a autoridade de quem conviveu com homens melhores que os de agora. Já não luta como luta o filho Antíloco, e sabe disso: aceita que o privilégio dos velhos é o conselho. É ele quem organiza a formação, propõe o túmulo e a muralha, aconselha os reis e manda a embaixada a Aquiles. O poema o mostra sempre onde a palavra pode evitar um desastre, e também onde a palavra não basta.
Trajetória
No Canto I, quando Agamêmnon e Aquiles brigam, Nestor se levanta para apaziguar. Dá razão às duas partes, e por isso mesmo falha: cada um ouve só a metade que o favorece.
τοῦ καὶ ἀπὸ γλώσσης μέλιτος γλυκίων ῥέεν αὐδή·(1.249), de cuja língua a voz corria mais doce que o mel.
No Canto II, o Sonho que Zeus manda a Agamêmnon toma a figura de Nestor, o ancião que o rei mais respeita. No conselho, Nestor aceita o sonho pela posição de quem o conta: se outro qualquer aqueu o relatasse, diriam que é mentira, mas quem o viu é o que se declara o melhor deles. Depois da debandada, repreende o exército, que fala como crianças, e diz que ninguém deve voltar antes de se deitar com a esposa de algum troiano, vingando os esforços e os gemidos de Helena. Aconselha dividir os homens por tribos e clãs, para saber quem é mau chefe, quem é covarde e se a cidade resiste pela vontade dos deuses ou pela inépcia dos homens.
εἰ μέν τις τὸν ὄνειρον Ἀχαιῶν ἄλλος ἔνισπε / ψεῦδός κεν φαῖμεν καὶ νοσφιζοίμεθα μᾶλλον· / νῦν δʼ ἴδεν ὃς μέγʼ ἄριστος Ἀχαιῶν εὔχεται εἶναι·(2.80-82), se algum outro dos aqueus nos contasse o sonho, diríamos que é mentira e nos afastaríamos dele ainda mais; mas agora o viu quem se declara de longe o melhor dos aqueus.
τὼ μή τις πρὶν ἐπειγέσθω οἶκον δὲ νέεσθαι / πρίν τινα πὰρ Τρώων ἀλόχῳ κατακοιμηθῆναι, / τίσασθαι δʼ Ἑλένης ὁρμήματά τε στοναχάς τε.(2.354-356), por isso ninguém se apresse a voltar para casa antes de se deitar ao lado da esposa de algum troiano, para vingar os esforços e os gemidos de Helena.
No Canto IV, Nestor organiza a formação, cavaleiros na frente, infantaria atrás como baluarte e os fracos no meio, para que cada um lute por necessidade. O filho Antíloco é o primeiro a matar. Agamêmnon deseja que os joelhos do velho acompanhem o ânimo, e Nestor responde que os deuses não dão tudo de uma vez e que estará entre os cavaleiros, com conselho e palavras.
ἀλλʼ οὔ πως ἅμα πάντα θεοὶ δόσαν ἀνθρώποισιν· / εἰ τότε κοῦρος ἔα νῦν αὖτέ με γῆρας ὀπάζει. / ἀλλὰ καὶ ὧς ἱππεῦσι μετέσσομαι ἠδὲ κελεύσω / βουλῇ καὶ μύθοισι· τὸ γὰρ γέρας ἐστὶ γερόντων.(4.320-323), mas os deuses não deram tudo de uma vez aos homens: se então eu era jovem, agora a velhice me acompanha. Mesmo assim estarei entre os cavaleiros e comandarei com conselho e palavras, pois esse é o privilégio dos velhos.
No Canto VI, grita aos argivos que ninguém se atrase no despojo dos mortos: primeiro matar, depois despir os cadáveres com calma.
No Canto VII, quando os aqueus se calam diante do desafio de Heitor, Nestor se levanta e os envergonha, invocando um ausente: se o velho Peleu os ouvisse encolhidos, rezaria para morrer. Conta como, o mais novo de todos, matou Ereutálion quando ninguém se atrevia, e nove chefes se levantam. É Nestor quem manda sortear e agita o elmo. Na mesa, propõe parar a guerra ao amanhecer, recolher os mortos, erguer um túmulo comum, torres altas, portões e um fosso fundo.
τοὺς νῦν εἰ πτώσσοντας ὑφʼ Ἕκτορι πάντας ἀκούσαι, / πολλά κεν ἀθανάτοισι φίλας ἀνὰ χεῖρας ἀείραι / θυμὸν ἀπὸ μελέων δῦναι δόμον Ἄϊδος εἴσω.(7.129-131), se agora ouvisse que todos vocês se encolhem diante de Heitor, muitas vezes ergueria as mãos queridas aos imortais, pedindo que a alma lhe saísse dos membros e descesse à casa de Hades.
No Canto VIII, só Nestor fica diante de Heitor, porque o cavalo ferido o prende. Diomedes o recolhe no carro, e Nestor lê o raio de Zeus: homem nenhum detém o pensamento de Zeus, hoje a glória é de Heitor, amanhã talvez deles. Diomedes aceita a razão e discute só o preço, a frase que Heitor dirá dele, e Nestor responde com as viúvas dos homens que Diomedes matou.
ἦ οὐ γιγνώσκεις ὅ τοι ἐκ Διὸς οὐχ ἕπετʼ ἀλκή; / νῦν μὲν γὰρ τούτῳ Κρονίδης Ζεὺς κῦδος ὀπάζει / σήμερον· ὕστερον αὖτε καὶ ἡμῖν, αἴ κʼ ἐθέλῃσι, / δώσει· ἀνὴρ δέ κεν οὔ τι Διὸς νόον εἰρύσσαιτο / οὐδὲ μάλʼ ἴφθιμος, ἐπεὶ ἦ πολὺ φέρτερός ἐστι.(8.140-144), Não percebes que de Zeus não te acompanha o vigor? Agora o Crônida Zeus dá glória a este, hoje; mais tarde, se quiser, também a nós a dará; homem nenhum detém o pensamento de Zeus, nem o muito forte, pois ele é bem mais poderoso.
No Canto IX, depois da fuga proposta por Agamêmnon, Nestor elogia Diomedes, mas diz que ele não chegou ao fim do assunto, manda pôr guardas no fosso e aconselha um banquete aos anciãos. Lá, lembra ao rei que o avisara quando ele tomou Briseida, mas ele cedeu ao ânimo e desonrou um homem que os imortais honraram. Propõe apaziguar Aquiles com presentes e palavras brandas, e designa a embaixada: Fênix à frente, depois Ájax e Odisseu.
No Canto X, Agamêmnon o procura de noite, esperando tirar dele um plano. Nestor, deitado ao lado das armas, responde que Zeus não cumprirá todos os planos de Heitor, que terá mais penas se Aquiles mudar o coração. Acorda os chefes, dá um pontapé em Diomedes, que protesta, e responde que o perigo está no fio da navalha. Propõe o voluntário que espie os troianos, com fama e uma ovelha negra de cada capitão.
οὔ θην Ἕκτορι πάντα νοήματα μητίετα Ζεὺς / ἐκτελέει, ὅσα πού νυν ἐέλπεται· ἀλλά μιν οἴω / κήδεσι μοχθήσειν καὶ πλείοσιν, εἴ κεν Ἀχιλλεὺς / ἐκ χόλου ἀργαλέοιο μεταστρέψῃ φίλον ἦτορ.(10.104-107), o astuto Zeus não cumprirá para Heitor todos os desígnios que ele agora espera; creio que ele penará com cuidados ainda maiores, se Aquiles mudar o coração, deixando a cólera penosa.
νῦν γὰρ δὴ πάντεσσιν ἐπὶ ξυροῦ ἵσταται ἀκμῆς / ἢ μάλα λυγρὸς ὄλεθρος Ἀχαιοῖς ἠὲ βιῶναι.(10.173-174), pois agora, para todos os aqueus, está sobre o fio da navalha: ou ruína lamentável, ou viver.
No Canto XI, leva o ferido Macáon às naus. Aquiles, da popa, o vê e manda Pátroclo perguntar quem é. Na tenda dele, Nestor enumera os chefes feridos e pergunta se Aquiles quer esperar até que as naus ardam. Narra uma guerra da juventude dele contra os epeios, na qual, sem cavalos, matou Mulio com a ajuda de Atena, e conclui que Aquiles gozará sozinho da sua excelência e chorará depois. Lembra a Pátroclo o conselho de Menécio e propõe que Aquiles o mande à frente dos mirmidões, com as armas dele, para que os troianos o tomem por Aquiles.
αὐτὰρ Ἀχιλλεὺς / ἐσθλὸς ἐὼν Δαναῶν οὐ κήδεται οὐδʼ ἐλεαίρει. / ἦ μένει εἰς ὅ κε δὴ νῆες θοαὶ ἄγχι θαλάσσης / Ἀργείων ἀέκητι πυρὸς δηΐοιο θέρωνται, / αὐτοί τε κτεινώμεθʼ ἐπισχερώ;(11.664-668), mas Aquiles, sendo valente, não se importa com os dânaos nem tem pena deles. Espera, porventura, até que as naus velozes, junto ao mar, contra a vontade dos argivos, sejam queimadas pelo fogo inimigo, e nós mesmos morramos em fila?
τέκνον ἐμὸν γενεῇ μὲν ὑπέρτερός ἐστιν Ἀχιλλεύς, / πρεσβύτερος δὲ σύ ἐσσι· βίῃ δʼ ὅ γε πολλὸν ἀμείνων. / ἀλλʼ εὖ οἱ φάσθαι πυκινὸν ἔπος ἠδʼ ὑποθέσθαι / καί οἱ σημαίνειν· ὃ δὲ πείσεται εἰς ἀγαθόν περ.(11.786-789), meu filho, Aquiles é superior pela linhagem, mas tu és o mais velho; ele é muito melhor em força. Mas fala-lhe bem, com palavra sensata, aconselha-o e indica-lhe o caminho; ele te obedecerá para o seu bem.
καί τοι τεύχεα καλὰ δότω πόλεμον δὲ φέρεσθαι, / αἴ κέ σε τῷ εἴσκοντες ἀπόσχωνται πολέμοιο / Τρῶες, ἀναπνεύσωσι δʼ ἀρήϊοι υἷες Ἀχαιῶν / τειρόμενοι· ὀλίγη δέ τʼ ἀνάπνευσις πολέμοιο.(11.798-801), e que ele te dê as belas armas para levares à guerra, na esperança de que os troianos, tomando-te por ele, se afastem do combate, e os belicosos filhos dos aqueus, exaustos, respirem; pequeno é o alívio na guerra.
No Canto XIV, Nestor ouve o clamor, sai da tenda e acha o muro dos aqueus por terra. Encontra Agamêmnon, Odisseu e Diomedes, os três feridos, e responde ao rei que o pior já se consumou e que não convém voltar à luta, porque os feridos não servem para combater. Propõe deliberar. No Canto XV, quando os troianos tomam o muro, Nestor ergue as mãos ao céu e pede a Zeus que se lembre das ofertas dos aqueus. Zeus troveja ouvindo a prece do velho, mas os troianos tomam o trovão por sinal a favor deles. Nestor exorta os aqueus pelos pais, filhos e esposas ausentes.
τῶν μνῆσαι καὶ ἄμυνον Ὀλύμπιε νηλεὲς ἦμαρ, / μηδʼ οὕτω Τρώεσσιν ἔα δάμνασθαι Ἀχαιούς. / ὣς ἔφατʼ εὐχόμενος, μέγα δʼ ἔκτυπε μητίετα Ζεύς, / ἀράων ἀΐων Νηληϊάδαο γέροντος. / Τρῶες δʼ ὡς ἐπύθοντο Διὸς κτύπον αἰγιόχοιο, / μᾶλλον ἐπʼ Ἀργείοισι θόρον, μνήσαντο δὲ χάρμης.(15.375-380), lembra-te disso e afasta, Olímpio, o dia impiedoso, e não deixes que os aqueus sejam assim dominados pelos troianos. Assim disse, rezando, e o conselheiro Zeus trovejou alto, ouvindo as preces do ancião, filho de Neleu. Os troianos, quando ouviram o estrondo de Zeus detentor da égide, lançaram-se ainda mais contra os argivos e se lembraram do ardor.
No Canto XIX, é um dos que ficam com Aquiles depois da assembleia, para consolá-lo.
No Canto XXIII, antes da corrida de carros, ensina ao filho Antíloco, que tem os cavalos mais lentos, que o lenhador e o piloto valem mais pelo jeito que pela força, e indica a meta, um tronco seco entre duas pedras brancas. Aquiles lhe dá a taça sem dono, em memória de Pátroclo, porque o velho já não lutará no punho nem na luta, nem lançará dardo, nem correrá. Nestor aceita contente, lembrando os dias em que venceu nos jogos de Amarinceu.
μήτι τοι δρυτόμος μέγʼ ἀμείνων ἠὲ βίηφι· / μήτι δʼ αὖτε κυβερνήτης ἐνὶ οἴνοπι πόντῳ / νῆα θοὴν ἰθύνει ἐρεχθομένην ἀνέμοισι·(23.315-317), é pela astúcia que o lenhador é muito melhor do que pela força; é pela astúcia que o piloto, no mar cor de vinho, guia a nau veloz sacudida pelos ventos.
Temas que encarna
Nestor encarna a Honra e reputação no sentido do ancião que a mede pelo que se dirá: invoca Peleu, as viúvas, a frase de Heitor, a vergonha de voltar de mãos vazias. Encarna a Guerra pelo lado do conselho, da formação, do túmulo e da muralha. E encarna o Destino e livre-arbítrio no modo de ler Zeus, o raio e o trovão, para aceitar o limite sem negar a coragem.
O conselho de Nestor é sensato e quase sempre dá razão a mais de uma parte, e por isso nem sempre prevalece: no Canto I cada um ouve a metade que o favorece. Quando prevalece, é porque o ouvinte já está a meio caminho. Nestor decide pelo que vê, o raio, o muro caído, o ferido na tenda, e põe a coragem no tempo: hoje é de Heitor, amanhã pode não ser. No Canto XI, a mesma habilidade de persuadir leva Pátroclo a um caminho que o narrador já marcou como o começo do mal dele, e o poema deixa em aberto se a sugestão das armas é prudente ou imprudente.
Relações
- Agamêmnon: o rei que o respeita e que ele aconselha, repreende e confronta.
- Aquiles: o homem a quem ele manda a embaixada e de quem fala com dureza no Canto XI.
- Pátroclo: o jovem a quem ele lembra o conselho de Menécio e propõe as armas.
- Diomedes: o chefe que o resgata no Canto VIII e que ele acorda com um pontapé no Canto X.
- Odisseu: o outro conselheiro, com quem divide a assembleia do Canto II.
- Zeus: o deus cujo raio e trovão ele lê.
- Heitor: o adversário diante de quem ele fica no Canto VIII.
- Antíloco: o filho, primeiro a matar no Canto IV e aluno de Nestor no Canto XXIII.