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Personagem

Hera

Quem é

Hera é a esposa de Zeus e a deusa que, no Olimpo, trabalha contra Troia e a favor dos aqueus. Diz de si que é a mais velha filha de Crono, da mesma linhagem que o marido, e chamada esposa de Zeus, e não aceita ver em vão o esforço que pôs em reunir o exército contra Príamo e os filhos dele. O poema a mostra argumentando, negociando, mentindo e seduzindo, e também recuando. Por trás de cada uma dessas ações há um motivo declarado, o de ver Ílion arrasada, e um motivo que o texto sugere, o de que Zeus lhe é odioso quando ela o vê no Ida. A deusa que não pode vencer o marido pela força o vence pelo engano uma vez, e ouve a ameaça por isso.

Trajetória

No Canto I, Hera, que sofre ao ver os gregos morrerem de peste, inspira Aquiles a convocar a assembleia, e manda Atena, visível só para ele, deter a mão do herói. No Olimpo, percebe a conversa de Zeus com Tétis e o acusa de tramar às escondidas. Zeus a manda calar sob ameaça de violência, e Hefesto, o filho, convence a mãe a ceder e serve o vinho mancando, o que provoca um riso sem fim.

No Canto II, quando o exército corre às naus, Hera manda Atena deter os argivos: não aceita que fujam e deixem a Príamo e aos troianos a glória de Helena, por quem tantos aqueus morreram longe da pátria. No Canto IV, quando Zeus propõe aos deuses decidir entre guerra e amizade, ela não contém a ira e reclama do próprio trabalho: o suor e os cavalos cansados ao reunir o povo.

πῶς ἐθέλεις ἅλιον θεῖναι πόνον ἠδʼ ἀτέλεστον, / ἱδρῶ θʼ ὃν ἵδρωσα μόγῳ, καμέτην δέ μοι ἵπποι / λαὸν ἀγειρούσῃ, Πριάμῳ κακὰ τοῖό τε παισίν. (4.26-28), como queres tornar vão e inacabado o meu trabalho, o suor que suei com esforço, e os cavalos que se cansaram quando eu reunia o povo, para mal de Príamo e dos filhos dele?
Canto IV: A trégua rompida

Zeus lhe responde que só se ela comesse Príamo cru o rancor dela se curaria, e cede em troca do direito de destruir cidades queridas dela. Hera oferece Argos, Esparta e Micenas e propõe que Atena faça os troianos quebrarem o juramento primeiro.

ἀθάνατοι· σὺ δὲ θᾶσσον Ἀθηναίῃ ἐπιτεῖλαι / ἐλθεῖν ἐς Τρώων καὶ Ἀχαιῶν φύλοπιν αἰνήν, / πειρᾶν δʼ ὥς κε Τρῶες ὑπερκύδαντας Ἀχαιοὺς / ἄρξωσι πρότεροι ὑπὲρ ὅρκια δηλήσασθαι. (4.64-67), e tu manda depressa Atena ir ao terrível combate de troianos e aqueus, e tentar que os troianos comecem a ferir os aqueus orgulhosos, contra os juramentos.
Canto IV: A trégua rompida

No Canto V, ela e Atena zombam de Zeus por causa de Afrodite, e vendo a derrota atrela os cavalos de ouro e pede licença a Zeus para afastar Ares da batalha. Zeus diz que lance contra ele Atena. Hera, sob a forma de Estentor, de voz de bronze, grita aos argivos que, enquanto Aquiles ia à guerra, os troianos nunca passavam as portas Dardânias.

No Canto VIII, Hera abala o trono ao ouvir a jactância de Heitor e pede a Poseidon que ajude os gregos, que recusa. Põe no peito de Agamêmnon o impulso de animar os aqueus. Arma-se com Atena contra a ordem de Zeus, mas Íris traz a ameaça, e Hera cede: não vale lutar com Zeus por causa de mortais. Repete ao marido a fala de Atena, que elas sabem da força dele e têm pena dos dânaos. No Canto XI, Hera e Atena trovejam em honra do rei Agamêmnon.

No Canto XIV, Hera se alegra ao ver Poseidon ajudar os aqueus e acha Zeus odioso no cume do Ida. Decide enganá-lo: banha-se em ambrosia, veste o manto que Atena teceu, pede a Afrodite o amor e o desejo e mente, dizendo que vai a Oceano e a Tétis, a antiga deusa do mar, para pôr fim à briga entre os dois. Afrodite lhe entrega o cinto bordado, onde estão o amor, o desejo, a conversa íntima e a sedução que rouba o juízo até dos sensatos.

Ζῆνα δʼ ἐπʼ ἀκροτάτης κορυφῆς πολυπίδακος Ἴδης / ἥμενον εἰσεῖδε, στυγερὸς δέ οἱ ἔπλετο θυμῷ. / μερμήριξε δʼ ἔπειτα βοῶπις πότνια Ἥρη / ὅππως ἐξαπάφοιτο Διὸς νόον αἰγιόχοιο· (14.157-160), e viu Zeus sentado no cume mais alto do Ida de muitas fontes, e ele lhe foi odioso ao ânimo. Então a soberana Hera de olhos de vaca pensou como enganaria o espírito de Zeus, o detentor da égide.
Canto XIV: O engano de Zeus
ἦ, καὶ ἀπὸ στήθεσφιν ἐλύσατο κεστὸν ἱμάντα / ποικίλον, ἔνθα δέ οἱ θελκτήρια πάντα τέτυκτο· / ἔνθʼ ἔνι μὲν φιλότης, ἐν δʼ ἵμερος, ἐν δʼ ὀαριστὺς / πάρφασις, ἥ τʼ ἔκλεψε νόον πύκα περ φρονεόντων. (14.214-217), disse, e desatou do peito a cinta bordada, de muitos matizes, onde estavam feitos todos os feitiços: nela havia amor, nela desejo, nela a conversa íntima, a sedução que rouba o juízo até de quem pensa com firmeza.
Canto XIV: O engano de Zeus

Em Lemnos, pede ao Sono que adormeça Zeus. O Sono recusa, pela lembrança do último castigo. Hera responde com uma pergunta e um prêmio, uma das Graças mais novas, e jura pelo Estige. No Gárgaro, repete a mentira a Zeus, objeta que o cume do Ida é visível e se deixa levar para a nuvem dourada.

Ζηνὸς δʼ οὐκ ἂν ἔγωγε Κρονίονος ἆσσον ἱκοίμην / οὐδὲ κατευνήσαιμʼ, ὅτε μὴ αὐτός γε κελεύοι. (14.247-248), mas de Zeus, o filho de Crono, eu não me aproximaria, nem o faria dormir, a não ser que ele mesmo ordenasse.
Canto XIV: O engano de Zeus
ἦ φῂς ὣς Τρώεσσιν ἀρηξέμεν εὐρύοπα Ζῆν / ὡς Ἡρακλῆος περιχώσατο παῖδος ἑοῖο; / ἀλλʼ ἴθʼ, ἐγὼ δέ κέ τοι Χαρίτων μίαν ὁπλοτεράων / δώσω ὀπυιέμεναι καὶ σὴν κεκλῆσθαι ἄκοιτιν. (14.265-268), acaso dizes que Zeus de voz ampla vai ajudar os troianos, como se enfureceu por Héracles, seu filho? Mas vai, que eu te darei uma das Graças mais novas para desposares, e ela será chamada tua esposa.
Canto XIV: O engano de Zeus

No Canto XV, Zeus acorda e a acusa, lembrando o dia em que a pendurou entre o éter e as nuvens, com duas bigornas nos pés e algemas de ouro. Hera estremece e jura pelo Estige e pelo leito conjugal que Poseidon age por vontade própria. No Olimpo, ri só com os lábios e dá a Ares a notícia da morte do filho como quem crava um espinho, e Ares quer vingá-lo, mas Atena o detém.

ἦ οὐ μέμνῃ ὅτε τʼ ἐκρέμω ὑψόθεν, ἐκ δὲ ποδοῖιν / ἄκμονας ἧκα δύω, (15.18-19), ou não te lembras de quando ficaste pendurada no alto, e dos teus pés deixei pender duas bigornas,
Canto XV: Os troianos nas naus
περὶ χερσὶ δὲ δεσμὸν ἴηλα / χρύσεον ἄρρηκτον; σὺ δʼ ἐν αἰθέρι καὶ νεφέλῃσιν / ἐκρέμω· ἠλάστεον δὲ θεοὶ κατὰ μακρὸν Ὄλυμπον, / λῦσαι δʼ οὐκ ἐδύναντο παρασταδόν· (15.19-22), e em volta das mãos lancei uma corrente de ouro inquebrável? E tu pendias no éter e nas nuvens; os deuses se indignavam pelo vasto Olimpo, mas, estando ali, não podiam soltar-te.
Canto XV: Os troianos nas naus
μὴ διʼ ἐμὴν ἰότητα Ποσειδάων ἐνοσίχθων / πημαίνει Τρῶάς τε καὶ Ἕκτορα, τοῖσι δʼ ἀρήγει, / ἀλλά που αὐτὸν θυμὸς ἐποτρύνει καὶ ἀνώγει, / τειρομένους δʼ ἐπὶ νηυσὶν ἰδὼν ἐλέησεν Ἀχαιούς. (15.41-44), que não é por vontade minha que Poseidon, o abalador da terra, castiga os troianos e Heitor e ajuda os outros; é antes o próprio ânimo dele que o incita e manda, e, vendo os aqueus aflitos junto às naus, teve compaixão.
Canto XV: Os troianos nas naus

No Canto XVI, quando Zeus pensa em tirar Sarpédon do combate, Hera lhe diz que faça, mas os outros deuses não aprovarão, e que outros também tirarão os filhos da guerra. Zeus cede.

αἰνότατε Κρονίδη ποῖον τὸν μῦθον ἔειπες. / ἄνδρα θνητὸν ἐόντα πάλαι πεπρωμένον αἴσῃ / ἂψ ἐθέλεις θανάτοιο δυσηχέος ἐξαναλῦσαι; / ἔρδʼ· ἀτὰρ οὔ τοι πάντες ἐπαινέομεν θεοὶ ἄλλοι. (16.440-443), terribilíssimo Cronida, que palavra disseste! Um homem mortal, desde há muito destinado pelo fado, queres livrá-lo de novo da morte de som funesto? Faze-o; mas nós, os outros deuses, não te aprovamos todos.
Canto XVI: A morte de Pátroclo

No Canto XVIII, envia Íris a Aquiles, sem que Zeus nem os outros deuses saibam, para que se mostre aos troianos, e faz o Sol mergulhar nas correntes do Oceano, contra a vontade dele, para que a luta cesse. Zeus lhe diz que enfim levantou Aquiles. Ela responde que até um mortal consegue fazer mal ao próximo, e que ela, a primeira das deusas por origem e por ser esposa de Zeus, não poderia deixar de tramar o mal contra os troianos.

No Canto XIX, Agamêmnon conta a história de Atê para explicar a cegueira que o levou a tirar o prêmio de Aquiles. Hera enganou Zeus no dia em que Alcmena ia dar à luz Héracles e apressou o parto de Euristeu. Hera também dá voz ao cavalo Xanto, que prevê a morte de Aquiles.

No Canto XX, vendo Eneias avançar, reúne Poseidon e Atena, propõe que um deles fique ao lado de Aquiles para que ele saiba que os melhores dos imortais o amam e declara que a proteção é só de hoje: depois, ele sofrerá o que o destino lhe fiou no nascimento. Lembra que ela e Atena juraram diante de todos nunca afastar dos troianos o dia da ruína.

σήμερον· ὕστερον αὖτε τὰ πείσεται ἅσσά οἱ αἶσα / γιγνομένῳ ἐπένησε λίνῳ ὅτε μιν τέκε μήτηρ. (20.127-128), hoje; mais tarde, porém, ele sofrerá o que o destino lhe fiou no fio quando a mãe o deu à luz.
Canto XX: A batalha dos deuses

No Canto XXI, quando Aquiles é dominado pela correnteza, Hera grita a Hefesto que se levante com fogo contra o Xanto. Manda-o parar logo que o rio cede: não convém que um deus imortal seja assim maltratado por causa de mortais. Na briga dos deuses, agarra os pulsos de Ártemis e a golpeia nas orelhas com o próprio arco.

οὐ γὰρ ἔοικεν / ἀθάνατον θεὸν ὧδε βροτῶν ἕνεκα στυφελίζειν. (21.379-380), pois não convém que um deus imortal seja assim maltratado por causa de mortais.
Canto XXI: Aquiles e o rio

No Canto XXIV, quando Apolo acusa os deuses de preferir Aquiles a Heitor, Hera responde irritada que os dois não podem ter honra igual: Heitor é mortal e foi amamentado por uma mulher, Aquiles é filho de uma deusa que ela mesma criou. O narrador diz que ela, Poseidon e Atena continuam a odiar Troia desde que Páris ofendeu as deusas e preferiu a que lhe ofereceu o desejo.

Temas que encarna

Hera encarna a Guerra como empreendimento que ela quer ver acabar em ruína: o suor dela está nas tropas, e ela cobra isso de Zeus. Encarna o Destino e livre-arbítrio pelo engano que quase muda o curso do dia e pelo limite que ela mesma reconhece: o destino de Aquiles, o dia da ruína de Troia, o filho de Zeus que não se salva. A Honra e reputação aparece quando ela mede a honra de Aquiles e de Heitor e quando diz que ela é a primeira das deusas.

Hera tem duas razões que o texto não separa: a ruína de Troia, que ela chama de seu trabalho, e uma repulsa por Zeus que o narrador dá numa palavra, odioso. O plano do Canto XIV passa por seduzi-lo e adormecê-lo, e não por convencê-lo, e por isso o poema gasta tantos versos no banho, no óleo, nas vestes. O que ela consegue é uma janela curta, e o Sono avisa que o favor tem prazo. Quando é descoberta, o texto mostra a força real dela diante dele: estremece, jura, e Zeus sorri. A deusa que recua por memória do castigo é a mesma que, no Canto XVI, usa um argumento de precedente e consegue que Zeus recue.

Relações

  • Zeus: o marido a quem engana, a quem obedece sob ameaça e a quem convence com um argumento de precedente.
  • Atena: a aliada que ela manda ao campo e com quem se arma contra a ordem do marido.
  • Aquiles: o herói que ela inspira e depois faz aparecer, e de cujo destino ela fala sem poder mudá-lo.
  • Príamo: o rei cuja casa ela quer ver arrasada.
  • Apolo: o deus a quem responde no Canto XXIV sobre a honra de Aquiles e Heitor.
  • Tétis: a deusa que Hera diz ter criado e entregue a Peleu.
  • Afrodite: a deusa que lhe entrega o cinto.
  • Poseidon: o cunhado e irmão de Zeus que ela convoca e a quem recorre.
  • O Sono: o deus que ela convence com uma Graça.