O que é
Uma aranha percorre o romance em quatro bocas e três tamanhos. Para Alexei Kiríllov, é a aranhazinha que sobe pela parede e a quem ele diz ser grato por subir. Para Lizavieta Nikoláievna Tuchina, é uma aranha enorme e má, do tamanho de um homem, no lugar aonde Stavróguin a levaria para viverem a vida inteira olhando para ela e tendo medo. Para os cinco do quinteto, na casa de Erkel, é a aranha de uma teia em que caíram como moscas. E para Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin, na confissão que leva ao bispo, é uma aranhazinha vermelha numa folha de gerânio, vista no dia em que uma menina se enforcou por causa dele e de novo, anos depois, num sonho. A mesma criatura muda de dono e de significado a cada vez, e o texto nunca diz quem ela é.
Onde aparece
No capítulo I da Segunda Parte, Stavróguin pergunta a Kiríllov se ele ainda não reza, depois de ouvir que a lamparina é da velha. Kiríllov responde que reza a tudo: vê a aranha subir pela parede, olha, e é grato a ela por subir. Os olhos dele se acendem de novo, e Stavróguin o observa sem ironia.
No capítulo III da Terceira Parte, em Skvoriéchniki, Lizavieta Nikoláievna recusa ser a enfermeira de Stavróguin e dá a razão com uma imagem: sempre lhe pareceu que ele a levaria a um lugar onde vive a criatura, e que a vida em comum seria passada diante dela.
Мне всегда казалось, что вы заведете меня в какое-нибудь место, где живет огромный злой паук в человеческий рост, и мы там всю жизнь будем на него глядеть и его бояться, sempre me pareceu que o senhor me levaria a algum lugar onde vive uma aranha enorme e má, do tamanho de um homem, e que passaríamos lá a vida inteira olhando para ela e tendo medo dela.
No capítulo IV da Terceira Parte, Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski domina o quinteto reunido na casa do alferes Erkel com a notícia de uma denúncia que ninguém viu, e o cronista registra o que se passa nos cinco.
Чувствовали, что вдруг как мухи попали в паутину к огромному пауку; злились, но тряслись от страху, sentiam que de repente tinham caído, como moscas, na teia de uma aranha enorme; irritavam-se, mas tremiam de medo.
Em «Com Tíkhon», no documento "De Stavróguin", ele conta que, no último dia da menina de uns catorze anos de quem abusara, ficou à janela olhando uma aranhazinha vermelha numa folha de gerânio e se esqueceu de si, enquanto ela ia para o cubículo onde se enforcaria. Anota que menciona essa miudeza para provar até que ponto dominava as próprias faculdades, e que lembrou depois que, sentado ali, já pensava em como se poria na ponta dos pés para espiar pela fresta do cubículo. Anos depois, numa cidadezinha alemã, sonha com o quadro de Claude Lorrain que viu em Dresden e acorda em lágrimas; contra a luz oblíqua do pôr do sol, vê uma aranhazinha vermelha, e com ela a menina no limiar, de punho erguido. É essa imagem, e não o ato, que ele diz não suportar.
O que significa
A aranha liga personagens que não se tocam. Kiríllov a olha como a um dos fatos bons do mundo, e a gratidão faz parte da doutrina de que tudo é bom para quem sabe. Lizavieta Nikoláievna e os cinco a veem do outro lado: ela como a vida ao lado de Stavróguin, eles como a prisão em que Piotr os segura, e nos dois casos o verbo é ficar olhando com medo. Stavróguin a leva no corpo, como a coisa pequena que a memória prende ao pior e que o sonho devolve. Em nenhuma das cenas a aranha é morta ou expulsa. Ela é só vista, e o que cada um faz com a visão diz o que cada um é.
Duas coisas chamam a atenção. A primeira é que a aranha enorme de Lizavieta Nikoláievna e a teia do quinteto são a mesma imagem em duas bocas, e o texto deixa em aberto quem é a aranha: Lizavieta Nikoláievna a põe na vida com Stavróguin, a cena em que o cronista usa a imagem aponta para a vontade de Piotr, que segura os cinco sem ser nomeado, e as duas respostas não se excluem. A segunda é que a aranhazinha de Stavróguin é a única que ele mesmo explica, e o faz com uma justificativa de quem presta contas: a miudeza vale como prova de lucidez. Dá para ler isso como a memória de um homem que repara em tudo e por isso não pode alegar que não sabia, ou como a defesa de quem prefere ser tido por lúcido a ser tido por doente. Em ambos os casos, o bicho pequeno carrega o que o homem não consegue dizer em palavras.
Relações
- Temas-padrão: Culpa, Verdade e mentira, Deus e o divino.
- Temas da obra: Culpa, Verdade e mentira, Deus e o divino.
- Personagens: Alexei Kiríllov, Lizavieta Nikoláievna Tuchina, Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin, Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski.
- Símbolos vizinhos: a folha e os cinco segundos, na mesma conversa de Kiríllov, e o ícone e a lamparina, que fica no mesmo canto do quarto.