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O incêndio de Zariétchie

O que é

Na noite do baile de Yúlia Mikháilovna von Lembke, o bairro de Zariétchie, do outro lado do rio, pega fogo em três pontos ao mesmo tempo, e uma rua inteira arde até o amanhecer. O fogo vinha anunciado: Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski o conta entre os meios do seu programa, o governador o teme desde o verão, e a cidade já sabe quem acusar antes que as chamas acabem. Na manhã seguinte, uma casinha isolada que também ardera, mas não por inteiro, revela três mortos a faca. O incêndio faz quatro coisas na mesma noite: é método de uma conspiração, é espetáculo para uma cidade que olha, é cortina para um crime e é a prova de que ninguém decidiu sozinho o que aconteceu.

Onde aparece

No capítulo VI da Segunda Parte, Andrei Antónovitch von Lembke está cada dia mais sombrio, com a cólera chegando, o gado morrendo, os incêndios do verão e o boato de que alguém os provoca. Piotr, no mesmo dia, dá a Karmazínov a data em que a Rússia vai ruir: começa no início de maio e termina na festa do Pokrov.

No capítulo VIII da Segunda Parte, na rua, depois da reunião, Piotr expõe a Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin o que virá antes do chefe escondido: proclamar a destruição, soltar incêndios e lendas até que a Rússia se turve e a terra chore pelos velhos deuses. Só então se solta o Ivan Czariêvitch.

No capítulo X da Segunda Parte, o cronista adianta, ao contar a marcha dos operários da fábrica Chpigúlin, que o incêndio da cidade, três dias depois, terá dois operários ao lado de Fiedka.

No capítulo II da Terceira Parte, o baile já se desfez em vergonha quando chega o grito de que todo o Zariétchie está em chamas. Uma mulher grita que os reuniram ali de propósito para incendiar lá, e Lembke, que empalidecera ao ouvir a palavra flibusteiros num canto do salão, aponta o dedo para a própria mulher, Yúlia Mikháilovna, manda prendê-la e revistá-la, e diz que o baile foi organizado para provocar o incêndio.

Арестовать первую! [...] Обыскать первую! Бал устроен с целью поджога, prender a primeira! [...] Revistar a primeira! O baile foi organizado com o fim de provocar um incêndio.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

No Zariétchie, o cronista fixa o que se sabe com firmeza: três homens da fábrica participaram, um foi preso e confessou, dois fugiram, todos os outros operários estão inocentados, e Fiedka participou. Ele descreve o espetáculo, e inclui a si mesmo entre os espectadores.

Большой огонь по ночам всегда производит впечатление раздражающее и веселящее; на этом основаны фейерверки; но там огни располагаются по изящным, правильным очертаниям и, при полной своей безопасности, производят впечатление игривое и легкое, как после бокала шампанского. Другое дело настоящий пожар: тут ужас и всё же как бы некоторое чувство личной опасности, при известном веселящем впечатлении ночного огня, производят в зрителе (разумеется, не в самом погоревшем обывателе) некоторое сотрясение мозга и как бы вызов к его собственным разрушительным инстинктам, которые, увы! таятся во всякой душе, um grande fogo à noite sempre causa uma impressão que irrita e alegra; os fogos de artifício se baseiam nisso; mas ali as luzes se dispõem em contornos elegantes e regulares e, em plena segurança, dão uma impressão brincalhona e leve, como depois de uma taça de champanhe. O incêndio de verdade é outra coisa: nele o horror, e ainda assim um certo sentimento de perigo pessoal, junto da impressão alegre do fogo noturno, produzem no espectador (claro que não no morador que perdeu a casa) um certo abalo do cérebro e como que um desafio aos seus próprios instintos destruidores, que, ai!, se escondem em toda alma.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

Lembke, sem chapéu sobre os restos de uma cerca, dá ordens que ninguém cumpre e diz o que a noite mostrou sem querer.

Пожар в умах, а не на крышах домов, o incêndio está nas mentes, e não nos telhados das casas.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

Ao amanhecer, a casinha nova, a cinquenta passos das outras, pegou fogo antes de todas e só não se consumiu porque o dono jogou longe a lenha acesa que estava encostada à parede. Moravam nela o capitão Ignat Lebiádkin, a irmã e uma criada, e os três foram mortos e roubados.

No capítulo III da Terceira Parte, em Skvoriéchniki, Lizavieta Nikoláievna Tuchina olha na sala grande o clarão que se apaga, às seis da manhã. Piotr, na antessala, assume a ideia e recusa a ocasião: o que o indigna é que o fogo tenha sido aceso antes da hora.

ну да, у меня уже давно эта идейка об огне созревала, так как она столь народна и популярна; но ведь я берег ее на критический час, на то драгоценное мгновение, pois é, essa ideiazinha do fogo já amadurecia em mim havia muito tempo, porque é tão do povo e tão popular; mas eu a guardava para a hora crítica, para aquele momento precioso.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

No capítulo IV da Terceira Parte, Lipútin e os outros do quinteto reclamam de Piotr, e Chigalióv lhe devolve o programa que ele mesmo traçou. Piotr não rebate o argumento e só grita que o fogo foi aceso por conta própria.

систематическою обличительною пропагандой беспрерывно ронять значение местной власти, произвести в селениях недоумение, зародить цинизм и скандалы, полное безверие во что бы то ни было, жажду лучшего и, наконец, действуя пожарами, как средством народным по преимуществу, ввергнуть страну, в предписанный момент, если надо, даже в отчаяние, derrubar sem cessar, por meio de uma propaganda denunciadora sistemática, o prestígio do poder local, provocar nos povoados perplexidade, gerar cinismo e escândalos, descrença total em tudo o que existe, sede de algo melhor e, por fim, valendo-se de incêndios como meio popular por excelência, lançar o país, no momento prescrito, até no desespero, se for preciso.
Terceira Parte: A última decisão

O que significa

O fogo carrega duas coisas que o livro nunca separa. Uma é o método: o incêndio como meio popular por excelência, para jogar a província na descrença e no desespero no momento prescrito. A outra é o apetite: o prazer inconfessável de olhar uma casa arder, que o cronista atribui a toda alma, e que leva metade da cidade ao Zariétchie atrás do espetáculo que o baile não deu. Piotr se diz dono da primeira e culpa a pressa dos outros pela segunda. Os fatos que o cronista guarda contam outra história: três operários, Fiedka, gente do quinteto que bebeu e dançou até o grito, cada um por motivo próprio, e nenhum com ordem que se possa provar.

O incêndio é o único crime do livro em que a autoria se esvazia por excesso de candidatos. Piotr tem a ideia e perde a hora, Lipútin e Tolkatchenko falam com os operários por conta própria, Fiedka aproveita, e Lembke, que já não manda, vê conspiração onde só havia conjunção. Dá para ler o fogo como o método de Piotr se cumprindo, e a pressa que ele condena como o preço de depender de homens que não obedecem em silêncio. Dá para lê-lo, como o cronista, como o que a cidade queria ver, e então Piotr é só quem soube estar no lugar certo quando o chão cedeu. O texto sustenta as duas, e é por isso que a casinha dos Lebiádkin, onde o fogo falhou, pesa mais do que a rua que queimou.

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