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A folha e os cinco segundos

O que é

São duas imagens com que Alexei Kiríllov tenta provar que o homem já é feliz e não sabe. A primeira é uma folha de árvore. Kiríllov viu uma, amarelada e podre nas bordas, levada pelo vento, e lembrou a folha verde, brilhante, de nervuras e sol, que aos dez anos imaginava de olhos fechados no inverno e que, ao abri-los, não acreditava existir. Ele recusa a palavra alegoria: é uma folha, uma só, e a folha é boa. A segunda são os segundos de harmonia, cinco ou seis de uma vez, em que se sente toda a natureza e se diz sim, e que o corpo não aguenta por muito tempo. As duas carregam a doutrina que o liga a Stavróguin e a Chátov: sofrer é não saber que tudo é bom, e quem ensinar isso encerra o mundo.

Onde aparece

No capítulo I da Segunda Parte, na casa de Filíppov, Kiríllov brinca no chão com um bebê e uma bola de borracha vermelha, e responde a Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin que ama a vida e decidiu se matar, e que uma coisa não contradiz a outra. A morte, para ele, não chega a existir, porque há minutos em que o tempo para.

Есть минуты, вы доходите до минут, и время вдруг останавливается и будет вечно, há minutos, a gente chega a certos minutos, e o tempo de repente para e passa a ser para sempre.
Segunda Parte: A noite dos credores

Stavróguin pergunta por que ele se zangava com Lipútin dias antes. Kiríllov responde que ainda não sabia que era feliz, e é aí que traz a folha e fixa a tese.

Человек несчастлив потому, что не знает, что он счастлив; только потому, o homem é infeliz porque não sabe que é feliz; só por isso.
Segunda Parte: A noite dos credores

Stavróguin objeta com o faminto e com quem desonra uma menina, e Kiríllov diz que isso também é bom, para quem sabe. A certeza veio numa noite de quarta-feira, andando pelo quarto: ele parou o relógio, que marcava duas e trinta e sete. Stavróguin pergunta se o relógio é o emblema de que o tempo deve parar, e Kiríllov não responde. Daí a conclusão que ele tira, e que ele deseja ensinada.

Кто научит, что все хороши, тот мир закончит, quem ensinar que todos são bons, esse encerra o mundo.
Segunda Parte: A noite dos credores

No capítulo V da Terceira Parte, quando Ivan Chátov volta à casa dele durante o parto da mulher, Kiríllov se distrai a ponto de esquecer a velha que prometera enviar e pergunta de repente se Chátov já teve minutos de harmonia eterna. Fala com mais coesão do que de costume, como quem já formulou a ideia.

Есть секунды, их всего зараз приходит пять или шесть, и вы вдруг чувствуете присутствие вечной гармонии, совершенно достигнутой. Это не земное; я не про то, что оно небесное, а про то, что человек в земном виде не может перенести. Надо перемениться физически или умереть. Это чувство ясное и неоспоримое. Как будто вдруг ощущаете всю природу и вдруг говорите: да, это правда. Бог, когда мир создавал, то в конце каждого дня создания говорил: «Да, это правда, это хорошо». Это… это не умиление, а только так, радость. Вы не прощаете ничего, потому что прощать уже нечего. Вы не то что любите, о — тут выше любви! Всего страшнее, что так ужасно ясно и такая радость. Если более пяти секунд — то душа не выдержит и должна исчезнуть. В эти пять секунд я проживаю жизнь и за них отдам всю мою жизнь, потому что стоит, há segundos, vêm ao todo cinco ou seis de uma vez, e de repente você sente a presença da harmonia eterna, perfeitamente alcançada. Isso não é terreno; não digo que seja celeste, digo que o homem, em forma terrena, não pode suportar. É preciso mudar fisicamente ou morrer. Esse sentimento é claro e indiscutível. É como se de repente você sentisse toda a natureza e dissesse: sim, isso é verdade. Deus, quando criava o mundo, no fim de cada dia da criação dizia: "Sim, isso é verdade, isso é bom". Isso... isso não é enternecimento, é apenas alegria. Você não perdoa nada, porque já não há o que perdoar. Não é que você ame, ah, é mais alto que o amor! O mais terrível é que é tão assustadoramente claro, e é tanta alegria. Se durar mais de cinco segundos, a alma não aguenta e tem de desaparecer. Nesses cinco segundos eu vivo uma vida, e por eles daria toda a minha vida, porque vale a pena.
Terceira Parte: A última decisão

Chátov responde com um fato clínico: é assim que começa a epilepsia, e ele lembra o cântaro de Maomé, que não chegou a verter enquanto o profeta percorria o paraíso a cavalo. Kiríllov replica baixinho que não dará tempo.

No capítulo VI da Terceira Parte, na noite da morte, a doutrina está inteira: se não há Deus, ele é Deus, e o ponto mais pleno da vontade própria é matar-se. O que a cena mostra no último instante é outra coisa. Kiríllov derruba a vela com uma cabeçada, morde o dedo de Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski e grita que quer xingar, e depois repete "já, já" dez vezes antes do tiro.

Я хочу изругать… [...] Я хочу изругать…, quero xingar... [...] quero xingar... E, na fuga de Piotr, os gritos vêm de dentro da casa: Сейчас, сейчас, сейчас, сейчас…, já, já, já, já...
Terceira Parte: A última decisão
A doutrina é pensada com método, e a cena mostra o corpo a contradizê-la: Kiríllov, ao ser tocado, derruba a vela e morde, e só depois dos "já, já" repetidos dez vezes atira. Quem diz "sou Deus" se encosta num canto como bicho encurralado, ri e xinga em francês. Não invalida a lógica, mas o romance deixa a personagem dizer uma coisa e mostra outra.
Terceira Parte: A última decisão

No capítulo VIII da Terceira Parte, na carta a Dária Pávlovna, Stavróguin lê a morte do outro como o livro a mostrou.

Великодушный Кириллов не вынес идеи и — застрелился, но ведь я вижу, что он был великодушен потому, что не в здравом рассудке, o magnânimo Kiríllov não suportou a ideia e se matou, mas vejo que ele foi magnânimo porque não estava em são juízo.
Terceira Parte: A última errância

O que significa

A folha e os segundos fazem o mesmo trabalho com materiais opostos. A folha é banal, qualquer um a vê, e é por isso que Kiríllov a oferece como prova: o bem do mundo estaria à vista de quem soubesse olhar. Os segundos são raros, e é por isso que ele os trata como saber: o que o homem vê neles é a harmonia perfeita, mais alta que o amor, tão clara e tão alegre que a alma não resistiria a mais que cinco segundos e teria de mudar fisicamente ou desaparecer. A doutrina nasce dessa alternativa. Se o corpo não suporta a verdade, o homem novo é o que muda o corpo, e o homem que não consegue mudá-lo morre em nome dela.

O livro nunca testa a harmonia, testa o homem. Chátov dá a ela um nome médico no mesmo capítulo em que Kiríllov a descreve, e a cena do suicídio não mostra harmonia nenhuma: mostra riso, esconderijo, mordida e uma contagem de "já". Dá para ler isso de dois modos. Numa leitura, o corpo desmente a lógica no momento de prová-la, e o romance julga a ideia por esse desmentido. Na outra, a lógica fica intacta e o corpo faz o que o corpo faz, e a distância entre a doutrina e a cena é a que Stavróguin nomeia na carta, ao dizer que Kiríllov foi magnânimo porque não estava em são juízo. Em qualquer das duas, a serenidade que se costuma atribuir ao suicídio de Kiríllov não está no texto.

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