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Símbolo

A estrada real

O que é

A estrada é o último cenário de Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski. Depois de mais de vinte anos de convivência com Varvara Pietrovna Stavróguina, ele sai a pé, de guarda-chuva e bengala, com um saco no ombro, sem passaporte e sem destino que dê para dizer em voz alta, e faz de uma frase francesa, viva a estrada grande, o seu mote. O cronista a explica: pedir cavalos o faria ser detido por Varvara Pietrovna, tirar passaporte o obrigaria a dizer para onde vai, e qualquer cidade tornaria a empresa ridícula aos olhos dele. A estrada, ao contrário, é comprida e sem fim como a vida humana. Na estrada está a ideia, e no passaporte está o fim da ideia. O trecho que ele percorre é curto, algumas verstas e alguns dias, e ao fim dele há uma cama de aldeia e uma carruagem que o alcança.

Onde aparece

A saída a pé vem anunciada muito antes. No capítulo III da Primeira Parte, Stiepan pergunta ao cronista se ele o toma por alguém sem a força moral de pegar a caixa de pedinte e sumir por honra e por princípio de independência.

No capítulo IV da Segunda Parte, Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski diz ao pai a palavra que a estrada vai responder.

ты был приживальщиком, то есть лакеем добровольным, você era um agregado, quer dizer, um lacaio de livre vontade.
Segunda Parte: A cidade à espera

No capítulo V da Segunda Parte, depois que Varvara Pietrovna lhe oferece três mil rublos por ano para viver longe dela, Stiepan anuncia que, vença ou perca na leitura da matinê, partirá a pé na mesma noite, de bolsa de mendigo, para morrer de fome debaixo de uma cerca.

No capítulo II da Terceira Parte, depois do escândalo da matinê, Stiepan se tranca e escreve a Dária Pávlovna Chátova que a sorte está lançada, que deixa a cidade para sempre e não sabe para onde.

No capítulo III da Terceira Parte, no caminho que Lizavieta Nikoláievna Tuchina faz com Mavríkii Nikoláievitch, surge da bruma a figura dele, de botas de cano alto de hussardo, cinto de couro laqueado, chapéu de abas largas, saco abarrotado, bengala e guarda-chuva aberto. Ele cai de joelhos diante de Lizavieta Nikoláievna, diz que é preciso perdoar, perdoar e perdoar, e que foge do delírio para procurar a Rússia. Ela o abençoa com o sinal da cruz.

No capítulo VII da Terceira Parte, o cronista conta a viagem. Depois de uma versta ou versta e meia pela estrada real, junto a um salgueiro, Stiepan junta as imagens da véspera e pensa que, se encontrar Fiedka, lhe dirá toda a verdade e lhe dará a bolsa. Passa uma carroça, e ele, aliviado pela vaca atada atrás, a acompanha. Quando lhe perguntam quem é, diz em francês que não é comerciante, que é outra coisa, e num lampejo se declara o professor principal. Em Khátovo compra um Evangelho, por impulso, de Sófia Matvêievna Ulítina, e a leva consigo na bricha para Spássov. Os camponeses desconfiam, até que um antigo criado o reconhece e o apresenta como grande sábio. Num povoado junto a um lago ele adoece, e na crise da madrugada cai aos pés dela.

Главное в том, что я сам себе верю, когда лгу. Всего труднее в жизни жить и не лгать… и… и собственной лжи не верить, да, да, вот это именно, o principal é que eu mesmo acredito em mim quando minto. O mais difícil na vida é viver e não mentir... e... e não acreditar na própria mentira, sim, sim, é exatamente isso.
Terceira Parte: A última errância
J’ai menti toute ma vie, всю, всю жизнь!, menti a vida inteira, toda, toda a vida! E, mais adiante, a todos: да здравствует Великая Мысль! Вечная, безмерная Мысль, viva o Grande Pensamento! O eterno, o desmedido Pensamento.
Terceira Parte: A última errância

Varvara Pietrovna chega de carruagem na pista dele, expulsa Sófia Matvêievna e a chama de volta no mesmo fôlego. Antes de morrer, Stiepan confessa e comunga de boa vontade, e dá a sua profissão de fé.

Мое бессмертие уже потому необходимо, что бог не захочет сделать неправды и погасить совсем огонь раз возгоревшейся к нему любви в моем сердце. И что дороже любви? Любовь выше бытия, любовь венец бытия, и как же возможно, чтобы бытие было ей неподклонно? Если я полюбил его и обрадовался любви моей — возможно ли, чтоб он погасил и меня и радость мою и обратил нас в нуль? Если есть бог, то и я бессмертен! Voilà ma profession de foi, a minha imortalidade é necessária já por isto: Deus não vai querer cometer uma injustiça e apagar de todo o fogo do amor que um dia se acendeu por ele no meu coração. E o que é mais caro que o amor? O amor é mais alto que o ser, o amor é a coroa do ser, e como seria possível que o ser não lhe estivesse submetido? Se eu o amei e me alegrei com o meu amor, é possível que ele apague a mim e à minha alegria e nos reduza a zero? Se há Deus, também eu sou imortal! Voilà ma profession de foi.
Terceira Parte: A última errância

O que significa

Para Stiepan, a estrada é o lugar sem papel. Em casa ele era o professor, o perseguido, o agregado, o inventado, e cada nome tinha um dono. Na estrada ninguém sabe quem ele é, e ele pode ser o que diz que é, até quando essa liberdade vira mentira nova: o principal professor, o amigo do povo que nunca vira o povo de perto, o pregador de um Evangelho que mal leu. O livro deixa que ele se perca nesse gozo durante a viagem, até a doença e a crise da madrugada. A estrada lhe dá o que o salão não deu, o ouvido de uma mulher que o escuta por horas e de quem ele pode dizer que mentiu a vida toda, e lhe dá também a morte longe da casa que o inventou, mas com a inventora ao lado.

O mote diz que a ideia mora na estrada e morre no passaporte, e o romance cumpre a frase ao pé da letra: Stiepan nunca chega a lugar nenhum, e morre onde a ideia termina, numa cama de aldeia, com a carruagem de Varvara Pietrovna à porta. Duas leituras cabem. Numa, a estrada é peregrinação, e o velho que passou a vida em poses cívicas chega, a pé, à confissão e à comunhão que a casa nunca lhe pediu. Na outra, é fuga, de Varvara Pietrovna, do filho, dos mortos do Zariétchie e de ter de dizer onde está, e quem foge só pode ser alcançado. O texto não escolhe. O que mostra é um homem que, ao dizer pela primeira vez que mentiu a vida inteira, ainda precisa de um Grande Pensamento para morrer em paz: a estrada mudou o conteúdo da pose e não a pose.

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