O que é
Folhas impressas circulam no romance em duas direções que não se encontram. De um lado, as proclamações anônimas: de edição estrangeira, jogadas à noite em fábricas e em casas, algumas com um machado desenhado no alto, outras em versos, que o governador coleciona desde 1859 e que a polícia recebe em pacotes ainda fechados. Do outro, três folhetos impressos que Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin leva ao bispo Tíkhon e quer mandar imprimir em trezentos exemplares: a confissão de um crime, com o nome dele embaixo. O livro faz da mesma matéria dois gestos opostos. A proclamação trabalha sem ser lida, e a confissão pede para ser lida por todos e não chega a circular.
Onde aparece
No capítulo IV da Segunda Parte, Andrei Antónovitch von Lembke mostra a Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski a coleção de proclamações que reúne desde 1859, na esperança de desarmá-lo com liberalismo. Piotr diz que uma linha delas vale mais que toda a chancelaria do governador, e, quando Lembke observa que ali há um chamado a destruir igrejas e que é cedo, o cerca com a lógica do próprio liberal.
Ведь вы же умный человек и, конечно, сами не веруете, а слишком хорошо понимаете, что вера вам нужна, чтобы народ абрютировать. Правда честнее лжи, afinal o senhor é um homem inteligente e, claro, não crê por conta própria, mas entende muito bem que precisa da fé para embrutecer o povo. A verdade é mais honesta que a mentira.
No capítulo VI da Segunda Parte, um subtenente do distrito, que mordeu o ombro do comandante, tinha proclamações nos bolsos, e o administrador da fábrica dos Chpigúlin acaba de entregar à polícia pacotes das mesmas folhas, jogadas na fábrica durante a noite. Piotr reconhece a do machado como velha conhecida e, para salvar Ivan Chátov, como diz, entrega-o como autor do poema «Figura luminosa». Lembke deduz daí que Chátov é culpado das proclamações com machado.
То-то вот и есть, вы всегда подкосите вот этою вашею логикой, черт… ну, черт… эта «светлая личность», этот «студент» — это Шатов… вот вам и всё!, é isso mesmo, o senhor sempre me derruba com essa sua lógica, diabo… ora, diabo… essa «figura luminosa», esse «estudante» é Chátov… pronto, é só isso!
No capítulo IX da Segunda Parte, o funcionário Blum leva duas das dez proclamações que tinham sido jogadas na casa de Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski. Stiepan se ofende de ser posto entre aqueles canalhas, entre os quais está o próprio filho.
No capítulo I da Terceira Parte, no palco da matinê, Stiepan começa pelas proclamações que andam pela cidade e diz que o segredo do efeito delas é a estupidez em sua essência mais pura, que ninguém acredita ser tão primitiva e por isso procura nela um segredo. Faz um brinde à estupidez e é vaiado.
No capítulo IV da Terceira Parte, Piotr passa a Lipútin uma proclamação manuscrita e manda que ele a componha e imprima na tipografia de Chátov, para espalhar durante o inverno. Lipútin acha o texto uma tolice, pergunta se Piotr mesmo o compôs, e diz que talvez só exista o quinteto deles e rede nenhuma.
No capítulo VI da Terceira Parte, a nota que Alexei Kiríllov assina sob ditado diz que ele e Chátov espalharam proclamações com a ajuda de Fiedka, escondido no apartamento deles. Piotr avisa que esse ponto é o mais importante de todos.
No capítulo VIII da Terceira Parte, Liámchin entrega às autoridades o programa impresso da sociedade, de edição estrangeira, e um rascunho de ação, de próprio punho de Piotr.
Em «Com Tíkhon», Stavróguin tira os folhetos do bolso e os põe na mesa de Tíkhon: se um só homem os ler, diz, não os esconderá mais, e todos os lerão. O que Tíkhon prevê é a recepção.
Их смеху, o riso deles.
O capítulo que traz esses folhetos teve, ele mesmo, a circulação barrada.
Dostoiévski queria este capítulo depois do capítulo VIII da Segunda Parte, mas o redator da revista em que o romance saía em folhetim, Mikhail Katkov, o recusou terminantemente; o autor o leu a Pobiedonóssietz, homem de confiança do czar, e aos críticos Máikov e Strakhóv, que o acharam real demais, tentou refazê-lo várias vezes (só o encontro com Tíkhon teve oito esboços) sem se afastar do essencial, e o texto não foi divulgado em vida dele. As edições costumam por isso trazê-lo como apêndice, no fim do livro.
O que significa
As duas famílias de papel funcionam por princípios contrários. A proclamação anônima age pela quantidade e pela falta de leitor: o cronista nota que nenhum operário chegou a ler os pacotes da Chpigúlin, e basta que existam para o governador ver neles uma conspiração, para Piotr indicar um culpado e para Stiepan se ver incluído. A confissão assinada age pelo nome. Stavróguin a escreve com a ideia de que o ódio dos leitores lhe será mais leve que a pena, e Tíkhon lhe aponta o que ele não mediu, o riso, e a forma, que o desafio a todos pode estragar. Uma é feita para não ter autor, a outra só vale com um.
O romance põe em circulação o que ninguém lê e retira de circulação o que pede leitor. As proclamações chegam a todas as casas, a todas as fábricas e a todas as gavetas de governador. A confissão fica na mesa de um bispo, e o livro não registra que a confissão, que Stavróguin dizia que bastaria um homem ler para que todos lessem, tenha saído dali. Duas leituras cabem para essa simetria. Numa, é ironia sobre a imprensa: o escrito anônimo e estúpido vale mais, na cidade, do que a verdade com nome. Na outra, é a mesma recusa que Stavróguin dá a Piotr, de não se oferecer como chefe visto por todos, voltada agora contra o desejo de ser visto no pior. O texto sustenta as duas, e é por isso que o capítulo suprimido muda o que se lê depois dele.
Relações
- Temas-padrão: Revolução, Verdade e mentira, Culpa.
- Temas da obra: Revolução, Verdade e mentira, Culpa.
- Personagens: Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin, Tíkhon, Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski, Andrei Antónovitch von Lembke, Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski, Ivan Chátov, Lipútin, Alexei Kiríllov, Fiedka.
- Símbolos vizinhos: o incêndio de Zariétchie, o outro meio do programa de Piotr.