Clavis Libri

Símbolo

O ícone e a lamparina

O que é

O canto do ícone com a lamparina acesa, que na casa russa marca o lugar da reza, aparece no romance em mãos que não sabem se creem. É a lamparina que a velha surda acende no quarto de Alexei Kiríllov, a que o próprio Kiríllov acende quando ela não tem tempo, a que Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski manda acender como álibi, a que arde diante da imagem do Salvador na noite do suicídio. Ao lado dela está o ícone violado: a Natividade da Virgem, no portão de uma igreja da cidade, com o vidro quebrado e as pérolas arrancadas, diante do qual só uma pessoa se ajoelha. O livro trata o sagrado como objeto que passa de mão em mão, e o que cada um faz com ele diz mais do que o que cada um declara.

Onde aparece

No capítulo III da Primeira Parte, o cronista entra no pavilhão onde Kiríllov mora e descreve o aposento pobre e limpo: um ícone, diante do qual uma velha surda já acendeu a lamparina, e dois retratos escuros, o de Nicolau I e o de um bispo. A lamparina é anterior a qualquer palavra de Kiríllov sobre Deus.

No capítulo I da Segunda Parte, Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin pergunta a Kiríllov se foi ele quem a acendeu. Kiríllov diz que sim, explica que a velha gosta e que hoje ela não teve tempo, e recusa o nome de fé: diz rezar a tudo, até à aranha que sobe pela parede. No capítulo II da Segunda Parte, o quarto de Mária Timofêievna Lebiádkina na casa nova tem, como o da casa anterior, o seu ícone com a lamparina acesa, e ninguém comenta.

No capítulo V da Segunda Parte, na praça da igreja, o ícone da Natividade amanhece violado, com um rato vivo atrás do vidro. A cidade ri.

O crime é atribuído, quatro meses depois, ao galé Fiedka, mas a maledicência da cidade também soma o nome de Liámchin, sem prova alguma na época dos fatos.
Segunda Parte: A cidade à espera

Entre os curiosos, Lizavieta Nikoláievna Tuchina chega a cavalo, indignada com a moeda de desdém que um rapaz joga no prato, tira o chapéu e as luvas e se ajoelha na calçada suja.

Румянец негодования залил ее щеки; она сняла свою круглую шляпу, перчатки, упала на колени пред образом, прямо на грязный тротуар, и благоговейно положила три земных поклона, o rubor da indignação lhe tomou as faces; ela tirou o chapéu redondo e as luvas, caiu de joelhos diante do ícone, direto na calçada suja, e fez com devoção três prostrações até o chão.
Segunda Parte: A cidade à espera

Quando o monge lhe responde que todo dom é bom, ela já deu os brincos. A pergunta que faz antes é a de quem pede licença para um rito que não domina.

Можно, можно? На украшение ризы?, pode, pode? Para adornar o revestimento do ícone?
Segunda Parte: A cidade à espera

No capítulo IX da Segunda Parte, depois da revista na casa de Stiepan, a criada sobe numa cadeira e acende uma lamparina diante do ícone, que antes nunca estivera ali. Ele mesmo diz por quê.

Это я давеча распорядился, только что те ушли, — пробормотал Степан Трофимович, хитро посмотрев на меня, — quand on a de ces choses-là dans sa chambre et qu’on vient vous arrêter, то это внушает, и должны же они доложить, что видели, isso eu mandei fazer há pouco, assim que eles saíram, murmurou Stiepan Trofímovitch, olhando-me com astúcia, quand on a de ces choses-là dans sa chambre et qu'on vient vous arrêter, isso impõe, e eles terão de informar que viram.
Segunda Parte: A cidade em desordem

Na soleira, ao sair para ir ao governador, estende a mão para a lamparina, diz que nunca acreditou naquilo, mas que seja, e faz o sinal da cruz.

No capítulo II da Terceira Parte, na manhã depois do incêndio, a casinha dos Lebiádkin aparece com os três moradores mortos a faca. Quem roubou esvaziou a carteira do capitão e deixou o baú de Mária Timofêievna e o revestimento de prata do ícone sem tocar.

No capítulo IV da Terceira Parte, na cozinha de Kiríllov, Fiedka, que tirou pérolas de ícones, cobra de Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski o dinheiro prometido e a fé que ele perdeu.

что в самого бога, творца истинного, перестал по разврату своему веровать, que por tua devassidão deixaste de crer no próprio Deus, o Criador verdadeiro.
Terceira Parte: A última decisão

No capítulo VI da Terceira Parte, na noite em que Kiríllov se mata, ele aponta a imagem do Salvador diante da lamparina acesa, e Piotr nota que ele ainda crê, mais que um pope, e pergunta se acendeu a lamparina por via das dúvidas. A resposta é a ideia das três cruzes.

если законы природы не пожалели и Этого, даже чудо свое же не пожалели, а заставили и Его жить среди лжи и умереть за ложь, то, стало быть, вся планета есть ложь и стоит на лжи и глупой насмешке. Стало быть, самые законы планеты ложь и диаволов водевиль. Для чего же жить, отвечай, если ты человек, se as leis da natureza não pouparam nem Este, não pouparam nem o seu próprio milagre, mas obrigaram também a Ele a viver em meio à mentira e a morrer pela mentira, então, quer dizer, todo o planeta é mentira e se assenta sobre a mentira e uma zombaria estúpida. Quer dizer, as próprias leis do planeta são mentira e vaudeville do diabo. Para que viver, responda, se você é homem?
Terceira Parte: A última decisão

O que significa

A lamparina não tem dono nem sentido fixo. Para a velha, é costume; para Kiríllov, uma gentileza que ele não chama de crença; para Stiepan, uma prova de bom comportamento que a polícia poderá constatar; para Mária Timofêievna, um item fixo do quarto, que muda de casa com ela; para Kiríllov na última noite, o ponto de luz diante de uma imagem de que ele tira, em vez de fé, uma sentença contra o planeta. O ícone violado é o outro polo. A cidade ri dele, o grupo em que ela cavalga o toma por brincadeira entre outras, e o único gesto sem plateia é o dela, que se ajoelha na lama, dá os brincos e pergunta se pode.

Quem acende a lamparina no livro nega que creia: Kiríllov recusa o nome de fé, Stiepan diz que nunca acreditou naquilo. E quem reza sem cálculo, Lizavieta Nikoláievna na calçada, é derrubada por uma mão anônima na multidão no capítulo III da Terceira Parte e morre. O objeto sobrevive a quem o usa, e o romance deixa duas leituras abertas. Numa, a lamparina é resto de fé que o descrente não consegue apagar, e por isso a acende sem saber por quê. Na outra, é acessório de cena, igual a todo o resto numa cidade que se acostumou a ver tudo como espetáculo, e só o ato de Lizavieta Nikoláievna fica fora disso. A ambiguidade cabe até a Fiedka, que arranca as pérolas dos ícones e que, mesmo assim, cobra de Piotr a fé que ele perdeu.

Relações