O que é
O livro abre com duas epígrafes, e a segunda dá o título ao romance. A primeira são versos de Púchkin sobre viajantes perdidos numa tempestade, levados em roda por um demônio, que veem passar um bando em lamento e perguntam se é o enterro de um duende ou o casamento de uma bruxa. A segunda é o episódio evangélico dos porcos, em Lucas 8, 32 a 36: os demônios saem de um homem e entram numa manada, a manada se precipita do despenhadeiro no lago e se afoga, e o povo acha o homem sentado aos pés de Jesus, vestido e em são juízo. A passagem fica fora da história por centenas de páginas e só entra nela no fim, lida em voz alta por uma vendedora de Evangelhos à cabeceira de um moribundo, que a aplica à Rússia, a si mesmo e ao filho.
Onde aparece
No capítulo V da Primeira Parte, Varvara Pietrovna Stavróguina usa a palavra em sentido figurado: se o filho tivesse tido a seu lado um Horácio, o amigo sereno de Hamlet, diz ela, teria sido salvo do demônio da ironia que o atormenta. Ali é só figura de linguagem, e é ela que prepara o uso literal do fim.
Em «Com Tíkhon», Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin conta ao bispo Tíkhon que vê à noite um ser maligno, irônico e racional, e pergunta se ele não admite que seja mesmo um demônio. Diz que crê no diabo canonicamente, em pessoa e não como alegoria. Tíkhon responde que os demônios existem sem dúvida, mas que se pode entendê-los de maneiras muito diversas. No documento que entrega a Tíkhon, Stavróguin escreve que declara estar em pleno juízo para provar que entende a própria situação.
No capítulo VII da Terceira Parte, doente numa estalagem de aldeia, Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski pede a Sófia Matvêievna que abra o Evangelho na passagem dos porcos, porque quer lembrá-la literalmente. É o trecho que o cronista pôs na abertura do livro, e quem o lê é uma mulher que o conhece e o acha de imediato.
Тут же на горе паслось большое стадо свиней [...] Бесы, вышедши из человека, вошли в свиней; и бросилось стадо с крутизны в озеро и потонуло. [...] нашли человека, из которого вышли бесы, сидящего у ног Иисусовых, одетого и в здравом уме, ali, no monte, pastava uma grande manada de porcos [...] Os demônios, saídos do homem, entraram nos porcos; e a manada se lançou do despenhadeiro ao lago e se afogou. [...] acharam o homem de quem tinham saído os demônios, sentado aos pés de Jesus, vestido e em são juízo.
Agitado, Stiepan diz que lhe veio uma comparação, e é aqui que o livro entrega a chave que o narrador não deu.
Эти бесы, выходящие из больного и входящие в свиней, — это все язвы, все миазмы, вся нечистота, все бесы и все бесенята, накопившиеся в великом и милом нашем больном, в нашей России, за века, за века, esses demônios que saem do doente e entram nos porcos são todas as chagas, todos os miasmas, toda a imundície, todos os demônios e demoniozinhos que se acumularam, ao longo dos séculos, dos séculos, no nosso grande e querido doente, na nossa Rússia.
Ele não para na Rússia. Põe-se na lista, ao lado do filho, Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski, e à frente do bando.
Это мы, мы и те, и Петруша [...] и я, может быть, первый, во главе, и мы бросимся, безумные и взбесившиеся, со скалы в море и все потонем, и туда нам дорога, потому что нас только на это ведь и хватит, somos nós, nós e aqueles, e Pietrucha [...] e eu, talvez o primeiro, à frente, e nos lançaremos, loucos e raivosos, de um penhasco ao mar e todos nos afogaremos, e é para lá o nosso caminho, porque é só para isso que damos conta.
No capítulo VIII da Terceira Parte, na carta de despedida a Dária Pávlovna Chátova, Stavróguin escreve sobre Alexei Kiríllov que ele foi magnânimo por não estar em são juízo, e acrescenta que ele próprio nunca poderá perder o juízo nem crer numa ideia nesse grau.
Великодушный Кириллов не вынес идеи и — застрелился, но ведь я вижу, что он был великодушен потому, что не в здравом рассудке, o magnânimo Kiríllov não suportou a ideia e se matou, mas vejo que ele foi magnânimo porque não estava em são juízo.
Depois do enforcamento, é a autópsia que fecha a questão, e fecha no sentido oposto ao da cura evangélica.
Никого не винить, я сам, não culpem ninguém, fui eu mesmo. E, depois da autópsia,Наши медики по вскрытии трупа совершенно и настойчиво отвергли помешательство, os nossos médicos, depois da autópsia, rejeitaram de modo completo e insistente a hipótese de loucura.
O que significa
A parábola dá ao livro um esquema de três tempos, possessão, queda e cura, e o romance mostra com detalhe os dois primeiros. Os demônios que saem do doente e entram nos porcos são, na leitura de Stiepan, as chagas acumuladas na Rússia ao longo dos séculos, e os que se lançam ao lago são os homens que as recebem. O terceiro tempo, o homem sentado, vestido e em são juízo, fica prometido e não mostrado: Stiepan morre confessado e comungado, mas ainda pede um Grande Pensamento, e Stavróguin é achado enforcado, com a loucura descartada pelos médicos.
Duas coisas separam esta cena da leitura corrente, a de que os demônios seriam as ideologias que entram nos homens. A primeira é que a chave não vem do narrador, vem de um personagem em febre, e ele se inclui na conta: a alegoria deixa de ser acusação e vira confissão. A segunda é que o Evangelho reserva o "são juízo" ao homem curado, e o romance o dá a Stavróguin sem a cura, no documento que leva a Tíkhon e na autópsia, o que faz dele alguém que não adoece e que, por isso, não tem de que ser livrado. Há também um eco que o texto não comenta: a manada se afoga no lago, e o corpo que o livro lança ao lago, com pedras presas aos pés e ao pescoço, é o de Ivan Chátov, no capítulo VI da Terceira Parte. Duas leituras cabem para a fala de Stiepan: lucidez de febre, que diz a verdade porque já não precisa de plateia, ou o último discurso de um orador, que ainda precisa de uma.
Relações
- Temas-padrão: Deus e o divino, Culpa, Indivíduo e sociedade.
- Temas da obra: Deus e o divino, Culpa, Indivíduo e sociedade.
- Personagens: Dária Pávlovna Chátova, Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski, Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski, Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin, Tíkhon, Varvara Pietrovna Stavróguina, Alexei Kiríllov, Ivan Chátov.
- Símbolos vizinhos: a estrada real, o caminho a pé que leva Stiepan até a passagem, e o ícone e a lamparina, a outra face do sagrado no livro.