Quem é
Lizavieta Nikoláievna Túchina, Liza, tem quase vinte e dois anos quando o romance a põe a cavalo e é a filha única de Praskóvia Ivánovna Drózdova, viúva do general Drózdov, amiga de internato e rival de Varvara Pietrovna Stavróguina; herdou do pai uns duzentos mil rublos (capítulo II da Primeira Parte). Foi aluna de Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski dos oito aos onze anos, sem que ele recebesse, com histórias sobre a origem do mundo que imitava em casa (capítulo II da Primeira Parte). Passeia de amazona com o capitão de artilharia Mavrikii Nikoláievitch, de uns trinta e três anos, bonito, calado e bondoso, que o cronista toma por parente e que é o seu noivo (capítulo III da Primeira Parte). Conheceu Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin em Paris, foi com ele no verão a Vernex-Montreux, na Suíça, e rompeu com ele depois de uma briga que ninguém explica (capítulo II da Primeira Parte). O que quer é uma causa para o dinheiro e para uma energia sem uso: um livro anual que classifique os fatos da imprensa, uma sociedade com Ivan Chátov (capítulo IV da Primeira Parte); mais tarde, viver uma hora inteira, e ela mesma diz que a vive no calendário, cada passo calculado (capítulo III da Terceira Parte). O que teme é o que pressente em Stavróguin desde a Suíça, algo terrível, sujo e sangrento e, ao mesmo tempo, ridículo (capítulo III da Terceira Parte), e morrer (capítulo III da Terceira Parte). O que sabe, ou suspeita, é que há uma ligação entre Stavróguin e a mulher manca, e não pode perguntá-lo a ninguém: por isso exige vê-la (capítulo IV da Primeira Parte). Onde se engana é em tomar a prova pelo conhecimento: força o noivo a se ajoelhar para ver como ele fica e não suporta ver (capítulo V da Segunda Parte), vai a Skvoriéchniki por uma hora e aceita de Piotr uma explicação, a da grande ideia diante da qual os dois não eram nada (capítulo III da Terceira Parte).
Trajetória
No capítulo III da Primeira Parte reconhece de longe Stiepan Trofímovitch na rua, depois de doze anos, e ele, que acabava de gritar por quem o acalmasse, ouve a voz fresca e alegre como música. Repreende-o por ter faltado em duas semanas, lembra as lições de Colombo e as mentiras que ele lhe contava e que eram quase melhores que a verdade; inclina-se da sela e lhe beija a testa. Dez minutos depois está na sala dele, com um buquê, olha o retrato de menina que ele guarda sob os punhais e se pergunta, sem saber explicar, por que nesses momentos fica triste. Descobre que Stiepan e Dária escondem o noivado de uma cidade que já o sabe, ri, e pede-lhe que traga Chátov para trabalhar com ela: precisa de um ajudante, quanto antes melhor.
No capítulo IV da Primeira Parte, na sala grande, enquanto a mãe procura o professor e o cãozinho Zemirka, leva Chátov ao sofá e explica o projeto, com pressa e sem clareza. Diz que foi Piotr, na Suíça, quem lhe falou dele e da tipografia, e que Stavróguin também lhe falou muito; quando pergunta pelo capitão Lebiádkin, que mora na casa dele, e ele diz que escolha outro, acende-se e pede a Mavrikii Nikoláievitch a carta da véspera, que o cronista lê em voz alta: versos e uma prosa do capitão, que se diz infusória diante do sol e oferece revelar muito por documentos. Quando Chátov sai, ela chama o cronista de volta, pálida, e o leva em silêncio à janela: quer ver com os próprios olhos a mulher coxa, e se não for amanhã às três irá sozinha, e que todos saibam. Na catedral, segue a governadora, corre à tia no adro e pede para ir junto à carruagem; ao ouvido, ameaça correr atrás e gritar.
No capítulo V da Primeira Parte, sentada num canto, quase junto a Chátov, os olhos vão da dona da casa à coxa e de volta, com um sorriso torto que Varvara Pietrovna também vê. Corta a mãe, que a cobra pelo escândalo: foi por conta própria, com licença de Yúlia Mikháilovna, porque quis conhecer a história da infeliz para lhe ser útil. Desde a entrada de Dária Pávlovna Chátova olha para ela com ódio e desprezo, e recusa a mãe pela primeira vez em cena quando Varvara Pietrovna a detém para ficar uns dias. Quando Stavróguin leva Mária Timofêievna à carruagem, acompanha-os com o olhar imóvel até a porta, e senta de novo com um movimento convulsivo, como se tivesse tocado um réptil. Quando o capitão se encolhe diante dele, começa a rir, e as piadas sobre pernas quebradas e sobre ser conduzida mancando repetem o que viu e não disse; depois do soco de Chátov, puxa a mãe e Mavrikii para fora da sala, grita e cai desmaiada no tapete.
No capítulo V da Segunda Parte, correndo com a cavalgada dos zombadores, é a única a responder à ofensa ao ícone da Natividade, no portão da igreja da praça, com o corpo:
Румянец негодования залил ее щеки; она сняла свою круглую шляпу, перчатки, упала на колени пред образом, прямо на грязный тротуар, и благоговейно положила три земных поклона, o rubor da indignação lhe tomou as faces; ela tirou o chapéu redondo e as luvas, caiu de joelhos diante do ícone, direto na calçada suja, e fez com devoção três prostrações até o chão.
Como a bolsa só tem moedas miúdas, tira os brincos de brilhante e pergunta ao monge, sem a ironia que usa com o grupo:
Можно, можно? На украшение ризы?, pode, pode? Para adornar o revestimento do ícone?
Dois dias depois organiza a excursão ao santo louco Semión Yákovlievitch, e no caminho o grupo para no hotel onde um garoto se matou depois de gastar o dinheiro do enxoval da irmã. Na casa do profeta, quando manda servir chá a Mavrikii, lhe ordena que ocupe de joelhos o lugar de um proprietário:
непременно станьте, я хочу непременно видеть, как вы будете стоять. Если не станете — и не приходите ко мне, ponha-se lá sem falta, eu quero ver, sem falta, como o senhor vai ficar ali. Se não ficar, nem venha mais me ver.
Ao vê-lo de joelhos, empalidece, grita e o levanta com as próprias mãos; na porta, segundo boatos que o cronista não viu, ergue a mão contra o rosto de Stavróguin. No capítulo VI da Segunda Parte, Mavrikii Nikoláievitch cede a noiva a Stavróguin e lhe diz que, se ele a chamasse do altar, ela largaria todos e iria, porque do ódio constante brilha o amor e a loucura.
No capítulo X da Segunda Parte, no salão de Yúlia Mikháilovna, olha fixo para Stavróguin desde que ele entra, e no silêncio que se segue ao convite para abrir a sessão pergunta em voz alta e clara:
Николай Всеволодович, мне какой-то капитан[...]всё пишет неприличные письма[...]Если он в самом деле ваш родственник, то запретите ему меня обижать и избавьте от не приятностей., Nikolai Vsievolódovitch, um capitão qualquer [...] não para de me escrever cartas indecentes [...] Se ele é mesmo seu parente, proíba-o de me ofender e livre-me dos aborrecimentos.
Ele responde que é marido da irmã do capitão, e ela se levanta num salto, faz o movimento de correr atrás dele, contém-se e sai em silêncio, seguida de Mavrikii. No capítulo I da Terceira Parte chega à matinê com a marechala, ofuscante de beleza e de alegria, o que o cronista, lembrando a véspera, não entende. No capítulo II da Terceira Parte Piotr conta que ela saltou da carruagem da marechala para a de Stavróguin e partiu para Skvoriéchniki, em pleno dia, gritando poupe-me a Mavrikii, que não a seguiu; os criados dela confirmam, e contam que Piotr rondava a casa havia dias.
No capítulo III da Terceira Parte, às seis da manhã, na sala grande de onde o incêndio se vê como na palma da mão, olha o clarão que se apaga com o vestido claro da véspera, amassado e posto às pressas. Diz a Stavróguin que vive pelo calendário, que viveu a sua hora e basta; que o único ideal que lhe resta é o de Moscou, impossível a um homem casado; pergunta se ele pagou a esperança com a vida dele ou com a alheia. Conta que, no dia em que o ofendeu em público e o viu responder como cavaleiro, entendeu que ele fugia dela por ser casado e não por desprezo, e que depois Piotr lhe explicou que uma grande ideia abalava Stavróguin, diante da qual os dois não eram nada, mas que ela atrapalhava; queimou-se numa vela. Quando ele quer lhe abrir o que tem, interrompe, assustada, e recusa também ser enfermeira:
Мне всегда казалось, что вы заведете меня в какое-нибудь место, где живет огромный злой паук в человеческий рост, и мы там всю жизнь будем на него глядеть и его бояться, sempre me pareceu que o senhor me levaria a algum lugar onde vive uma aranha enorme e má, do tamanho de um homem, e que passaríamos lá a vida inteira olhando para ela e tendo medo dela.
Abre a porta da antessala oval, onde Stavróguin e Piotr falam, ouve que alguém foi morto e pergunta se foi Mavrikii. Diz a Stavróguin que, se ele jurar diante de Deus que é inocente, acreditará na palavra como na de Deus e irá atrás dele até o fim do mundo como uma cachorrinha:
Я не убивал и был против, но я знал, что они будут убиты, и не остановил убийц, eu não matei e era contra, mas sabia que seriam mortos e não detive os assassinos.
Cobre o rosto e sai da casa. Piotr lhe toma o braço e lhe dá a escolher entre esperar a caleche e seguir a pé, e ela cora ao entender que Mavrikii a espera; ouve de Piotr que a ladja era um barco furado, grita que ele não os veja, foge pelo campo e cai numa touceira. Mavrikii chega chorando e a cobre com o capote; ela lhe beija a mão e diz que lá, diante de Stavróguin, foi corajosa, e aqui tem medo de morrer; quer ver os mortos, porque por eles ele deixou de amá-la esta noite, e lhe pede uma bofetada, que a mate como a um cão. Ouve de Mavrikii que ninguém é seu juiz agora, ele menos que todos. No caminho, Stiepan Trofímovitch cai de joelhos diante dela e diz que é preciso perdoar, e ela o abençoa com o sinal da cruz e lhe manda devolver o guarda-chuva ao menino. Chega à casa dos Lebiádkin abrindo caminho na multidão como quem fugiu de um hospital, e o cronista vê:
Вдруг я увидел, что над ее головой, сзади, поднялась и опустилась чья-то рука; Лиза упала, de repente vi que, por trás, sobre a cabeça dela, ergueu-se e desceu a mão de alguém; Lizá caiu.
Levam-na ainda viva.
Temas que encarna
Liza é a pergunta pelo Sentido da vida posta numa moça sem causa: tem dinheiro, beleza e uma energia que o cronista descreve como desejo mal nomeado de uma causa, e o que o livro lhe oferece é uma série de provas, um livro, uma sociedade, um ícone, um noivo de joelhos, um amor de uma hora. Seus símbolos são o ícone e a lamparina, a única coisa que ela respeita sem ironia (capítulo V da Segunda Parte), a aranha, que ela vê em Stavróguin e recusa (capítulo III da Terceira Parte), e o incêndio de Zariétchie, de que olha as brasas sentada em Skvoriéchniki antes de saber o que queimou (capítulo III da Terceira Parte).
O que a distingue dos outros que o romance cerca de Stavróguin é que ela é a única a lhe fazer uma pergunta que tem resposta: se ele é culpado, e diante de Deus. Mária Timofêievna o desmascara sem perguntar, Kiríllov o mede sem esperar nada, Chátov lhe cobra uma frase, Piotr lhe oferece uma figura. Liza pede o fato, e é a resposta exata que ele lhe dá, saber e não deter, que a faz sair da casa (capítulo III da Terceira Parte). Quando a multidão a mata, o cronista só vê a mão de alguém, e o texto a deixa assim.
Leituras divergentes
O livro deixa abertas várias leituras dela. A curiosidade impetuosa por uma possível rival ou a necessidade de ver o que ninguém quer dizer: é o que a empurra a exigir que o cronista a leve à mulher coxa (capítulo IV da Primeira Parte). A devoção de quem ainda crê num ícone ou o desafio ao próprio grupo, a gente com quem ri o dia inteiro e que ali lhe repugna: é o que a ajoelha na calçada suja (capítulo V da Segunda Parte). Uma prova que se volta contra quem a faz, ou o horror de descobrir que o poder que tem sobre Mavrikii é maior do que a vontade que tinha: é o que a faz levantá-lo (capítulo V da Segunda Parte). A pergunta de quem quer saber a verdade ou o desafio de quem quer ver até onde ele vai: é o que a faz falar em voz alta no salão (capítulo X da Segunda Parte). E a imagem da aranha pode ser uma predição que ela já fez a si mesma na Suíça ou um pretexto para não ouvir o que ele tenta dizer (capítulo III da Terceira Parte).
A divergência mais funda é a do que ela sabe. No capítulo VI da Segunda Parte, Mavrikii Nikoláievitch diz que ela o ama e o odeia, e que se ele a chamasse largaria todos; no capítulo III da Terceira Parte, ela diz que viveu a sua hora e basta. As duas coisas cabem na mesma moça: a que, segundo Mavrikii, ama e odeia, e a que, na manhã seguinte, diz que viveu a sua hora e basta. O que o texto não permite é decidir por ela.
Relações
- Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin: o homem que ela ama e odeia, contra quem, dizem, ergue a mão, que interroga em público (capítulo X da Segunda Parte) e de quem recebe a resposta que a faz partir (capítulo III da Terceira Parte).
- Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski: o antigo professor, a quem beija a testa (capítulo III da Primeira Parte) e que a encontra na estrada, de joelhos (capítulo III da Terceira Parte).
- Varvara Pietrovna Stavróguina: a tia que a leva para casa com a mulher manca (capítulo IV da Primeira Parte) e com quem ela fica, contra a mãe (capítulo V da Primeira Parte).
- Ivan Chátov: o colaborador que ela escolhe e que recusa (capítulo IV da Primeira Parte).
- Mária Timofêievna Lebiádkina: a mulher que ela exige ver e que a segue com o olhar (capítulo IV da Primeira Parte, capítulo V da Primeira Parte).
- Dária Pávlovna Chátova: a pupila de quem sente ódio e desprezo ao vê-la entrar (capítulo V da Primeira Parte).
- Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski: quem lhe fala de Chátov e da tipografia na Suíça (capítulo IV da Primeira Parte), lhe explica a grande ideia de Stavróguin e a alcança no campo, em Skvoriéchniki (capítulo III da Terceira Parte).
- Ignat Lebiádkin: o capitão cujas cartas indecentes ela traz à luz (capítulo X da Segunda Parte).
- Yúlia Mikháilovna von Lembke: a governadora com cuja licença ela vai à casa de Varvara Pietrovna (capítulo V da Primeira Parte).