Quem é
Yúlia Mikháilovna von Lembke é a mulher do governador da província, Andrei Antónovitch von Lembke, parente dos Drózdov e de Karmazínov, e a anfitriã que abre a cidade às ideias novas e a Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski. Casou, com mais de quarenta anos, com um homem de ascendência alemã, brincalhão e fraco, que passava o tempo colando teatros, trens e igrejas de papel, e a ambição dela o tirou do repouso (capítulo IV da Segunda Parte). Quando chega à cidade com o marido, o tratamento da cidade para com Varvara Pietrovna, e portanto para com Stiepan, começa a mudar (capítulo II da Primeira Parte). O que a move é um desejo de governar a província por intermédio do marido e de salvar os jovens da beira do abismo ao revelar uma conspiração de Estado; o que lhe falta é desconfiar de quem a adula. O traço que a define é a certeza de estar cercada de gente fanaticamente dedicada a ela.
Trajetória
No capítulo II da Primeira Parte, é nomeada pela primeira vez por Varvara Pietrovna, que conta a Stiepan ter dado, na viagem à Suíça, com uma intriga de Yúlia Mikháilovna, a futura governadora e parente dos Drózdov, e de um primo da família contra o namoro de Nicolas e Liza, e tê-la desfeito. A mesma conversa avisa que Karmazínov, parente de Yúlia, virá com ela quando chegar o novo governador. No capítulo IV da Primeira Parte, na catedral, em sua primeira aparição pública, cede o passo a Varvara Pietrovna com uma gentileza que é, ao seu modo, ironia; depois, quando Varvara Pietrovna a consulta em público sobre levar a mulher coxa para casa, concorda com delícia e elogia a compaixão de Lizavieta Nikoláievna Tuchina como sentimento elevado. A cidade conclui que não foi a governadora que ignorou Varvara Pietrovna, e sim Varvara Pietrovna que a manteve nos limites.
No capítulo I da Segunda Parte, o cronista e Stiepan concluem que só Piotr pode ter espalhado os boatos da cidade: em quatro dias conheceu todos e janta quase todo dia com Yúlia. No capítulo IV da Segunda Parte, no aniversário da mulher do marechal da nobreza, um general ceceante pergunta em voz alta se é verdade que Nicolas é louco, e Yúlia, irritada porque todos olham para ela, responde com uma frase que dá a volta na cidade e vira a opinião de todos:
Разве возможно удивление, что Ставрогин дрался с Гагановым и не отвечал студенту? Не мог же он вызвать на поединок бывшего крепостного своего человека, mas como é possível alguém se admirar de que Stavróguin tenha se batido com Gagánov e não tenha respondido ao estudante? Não podia desafiar para um duelo um antigo servo seu!
Varvara Pietrovna, triunfante, vai visitá-la para agradecer e sai fascinada por ela e furiosa com Stiepan: Yúlia diz que nunca ouviu falar dos méritos dele, que a Madona Sistina decepciona, que é preciso afagar os jovens para segurá-los à beira do abismo, e anuncia a matinê literária, com almoço e baile, em benefício das preceptoras pobres, em que Karmazínov lerá a despedida e Stiepan poderá ler algo curto. O cronista conta ainda que ela tomou do marido as obras de papel, o deixou escrever um romance às escondidas e tenta fazer dele o administrador de seus planos. Quando ouve que o marido entregou a Piotr a coleção de proclamações que reúne desde 1859, irrita-se com a imprudência dele e proíbe que se mencione diante dela o funcionário Blum; garante que Piotr é devotado a ela de modo fanático, que os fraseadores não são perigosos e que, se houver algo, será a primeira a saber por ele. O narrador anota que, sem a vaidade e a ambição dela, boa parte do que os maus homens fizeram não teria acontecido.
No capítulo V da Segunda Parte, a festa é adiada várias vezes, enquanto em volta de Yúlia se forma um círculo de jovens e damas com Piotr no centro, Liámchin ao piano, Lipútin, que ela quer como redator de um jornal, e até Karmazínov. A leviandade do grupo inventa aventuras só para contá-las, e Yúlia se zanga com cada uma e perdoa tudo no dia seguinte, por conselho de Piotr e por uma frase de Karmazínov que acha as brincadeiras características e ousadas. No capítulo VI da Segunda Parte, sonha descobrir uma conspiração de Estado e salvar os jovens ao revelá-la, acredita que Piotr, ligado a tudo o que há de revolucionário na Rússia e devotado a ela, lhe mostrará o complô, e por isso o manda animar o marido.
No capítulo X da Segunda Parte, o cronista conta o que sabe da madrugada, em parte pela própria Yúlia: Lembke a acorda às três horas para um ultimato, diz que a vida a dois foi ela lhe provar a toda hora que era nulo e ele lhe provar que não era, que há dois centros de poder, o dele e o do budoar dela, e que isso não pode existir; deixa escapar o ciúme de Piotr. Ela o interrompe para dizer que sabe há muito dos planos criminosos e achará um desfecho harmonioso, e, quando ele ameaça prender e acorrentar o homem que chama de amante dela, ou se atirar pela janela, ri, um riso longo, de atriz parisiense. De manhã, a caminho de Skvoriéchniki, para ver o local de uma segunda festa combinada com Varvara Pietrovna, é alcançada por Liámchin com a notícia da praça e volta à cidade com o grupo; ao encontrar o marido no salão, passa por ele como se não existisse, sem palavra nem olhar, e leva Stiepan, a quem cobre de amabilidades, à sala, confiscado. Quando Lembke tropeça no tapete e sai dizendo trocar, ela vai atrás, volta cinco minutos depois, esforçando-se por parecer calma, diz que ele está um pouco agitado, que desde menino é assim, e chama o comitê a abrir a sessão. É nesse salão que Liza pergunta a Stavróguin sobre o capitão Lebiádkin.
No capítulo I da Terceira Parte, a matinê acontece apesar do dia de confusão, porque Yúlia deposita nela um significado tão grande que a faria mesmo que o marido morresse na noite anterior. Cega até o último minuto, não percebe que a cidade inteira espera um escândalo e que as senhoras a odeiam em bloco, e continua convencida de estar cercada de gente que lhe é fanaticamente dedicada. Recusa o meio-termo do comitê, uma festa decente sem champanhe e com boa arrecadação, e escolhe a arrecadação colossal, o que mantém de pé o boato de um banquete que ela mesma plantara ao falar dos brindes. Quando Stiepan se perde no discurso e o seminarista o interpela, ela se levanta e puxa o marido da poltrona: o escândalo já é grande demais.
No capítulo II da Terceira Parte, Yúlia está em lágrimas, quase histérica, diante de Piotr e do príncipe, e o censura por apostasia, atribuindo toda a vergonha da manhã à ausência dele. Ela quer, na verdade, ser forçada a ir ao baile, e por ele. Piotr reparte as culpas e lhe dá o roteiro, aparecer no baile, declarar-se vítima de um louco, mandar dois médicos ao pai dele, deixar a cidade rir, com um diagnóstico da sociedade:
А что у нас делают отцы семейств, сановники, жены, девы в подобных обстоятельствах? Молчат и дуются. Даже настолько, чтобы шалунов сдержать, общественной инициативы недостает, e o que fazem entre nós os pais de família, os dignatários, as esposas, as moças em tais circunstâncias? Calam-se e emburram. Falta até a iniciativa social necessária para conter os travessos.
No baile, pálida, de olhos completamente abertos, não solta o marido; ao ver Piotr surgir atrás dela com ar de colegial culpado, deixa escapar em voz alta que ao menos agora ele não a engane. Quando Lembke, ao ouvir o grito de que Zariétchie está em chamas, manda prender e revistar a primeira e diz que o baile foi organizado com o fim de provocar um incêndio, o dedo dele está apontado para ela:
Арестовать первую! [...] Обыскать первую! Бал устроен с целью поджога, prender a primeira! [...] Revistar a primeira! O baile foi organizado com o fim de provocar um incêndio.
Ela grita e desmaia, de verdade, e ao despertar o primeiro grito é pelo marido, porque, desfeitas todas as suas fantasias, só lhe resta Andriêi Antónovitch. No capítulo IV da Terceira Parte, no dia seguinte ao incêndio, Piotr consegue forçar a entrada na casa dela, que não o queria receber, e o cronista julga que a amedrontou com a ameaça de cumplicidade, caso ela falasse; só três semanas depois, antes de ela partir para Petersburgo, ela lhe conta a visita, e diz com um estremecimento que Piotr a espantou então além de toda medida. Na estação, no capítulo VI da Terceira Parte, um jovem parente dela diz que Yúlia nem o recebeu na véspera, e Piotr, que afirma ir a Petersburgo com cartas dela para três ou quatro pessoas, explica o medo dela pelo receio de que já tenham escrito de lá. No capítulo VIII da Terceira Parte, no depoimento de Liámchin, que a defende sem que lhe perguntassem, ela é inocente: só a enganaram.
Temas que encarna
Yúlia é o ponto onde o Indivíduo e sociedade entra pelo salão: a cidade cede à conspiração porque a governadora lhe abre a sala, e ela o faz porque quer uma festa que a consagre, um jornal, um complô a revelar. Nada nela é cálculo de revolucionária. O romance a coloca na posição mais frágil, a de quem acredita que as ideias novas são uma moda de que ela é patrona, e é por isso que Piotr a trata como um instrumento que ele toca com os elogios de que ela precisa.
O livro dá três versões de quanto lhe cabe do que acontece, e nenhuma é desmentida. O cronista a chama de causa: sem a vaidade e a ambição dela, boa parte do que os maus homens fizeram não teria acontecido. Piotr, na cena de lágrimas, dilui a culpa: não houve conspiração além de Lipútin, a atmosfera era obra dela, que afagava os poetas e deixava Liámchin lhe beijar a mão, e Karmazínov foi imposto por ela. Liámchin, no depoimento, lhe dá a inocência de quem foi enganada. A primeira versão a lê pela intenção, a segunda pelo efeito, a terceira pela posição de quem sabe menos do que acha saber, e o texto sustenta as três porque Yúlia é, ao mesmo tempo, a que abre a porta, a que não vê quem entra e a primeira a ser acusada pelo marido quando tudo desaba.
O desmaio do baile e o grito pelo marido mostram o que sobra de uma ambição quando as fantasias caem: não a ideia nem o salão, e sim o marido que, na queixa dele, ela tratava como nulo. O cronista põe a frase como constatação, sem comentário. Pode ser lido como o fim de uma fantasia que só se sustentava por ele, ou como a única coisa que ela de fato tinha, e o texto não diz mais.
Relações
- Andrei Antónovitch von Lembke: o marido de quem ela toma as obras de papel, que na queixa dele ela trata como nulo e de quem, no fim, só lhe resta o cuidado (capítulo IV da Segunda Parte, capítulo X da Segunda Parte, capítulo II da Terceira Parte).
- Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski: quem ela julga fanaticamente devotado (capítulo IV da Segunda Parte), quem lhe inventa planos e a adula até se tornar necessário como o ar, e quem a amedronta depois do incêndio (capítulo II da Terceira Parte, capítulo IV da Terceira Parte).
- Karmazínov: o parente de quem ela quer a despedida na matinê, e cuja frase a faz perdoar as travessuras da juventude (capítulo IV da Segunda Parte, capítulo V da Segunda Parte).
- Varvara Pietrovna Stavróguina: a rival de salão a quem cede o passo na catedral, que a visita para agradecer e sai conquistada (capítulo IV da Primeira Parte, capítulo IV da Segunda Parte).
- Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski: de quem diz nunca ter ouvido falar dos méritos e a quem, depois, cobre de amabilidades como confiscado (capítulo IV da Segunda Parte, capítulo X da Segunda Parte).
- Lizavieta Nikoláievna Tuchina: a jovem que a acompanha à catedral e em cujo nome ela aprova a compaixão (capítulo IV da Primeira Parte).
- Lipútin: o candidato a redator do jornal dela (capítulo V da Segunda Parte).