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Personagem

Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski

Quem é

Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski é o professor de província que o cronista apresenta no primeiro capítulo como um liberal idealista, talentoso e muito reverenciado, que desempenhava na cidade um papel cívico e o amava até a paixão (capítulo I da Primeira Parte). Viúvo de uma primeira mulher que lhe deixou um menino de cinco anos mandado às tias, e de uma segunda, alemã, que perdeu em menos de um ano, vive há mais de vinte anos sustentado por Varvara Pietrovna Stavróguina, que o inventou e foi a primeira a crer na invenção (capítulo I da Primeira Parte). Foi o preceptor de Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin, desde os oito anos do menino, e de Lizavieta Nikoláievna Tuchina, dos oito aos onze, sem receber, e foi o primeiro mestre de Dária Pávlovna Chátova (capítulo II da Primeira Parte). Nunca esteve exilado nem sob vigilância, embora acredite no contrário; escreveu pouco, um poema alegórico apreendido e depois impresso no estrangeiro, uma tese sobre uma cidade alemã, o começo de um estudo que não terminou (capítulo I da Primeira Parte). O que quer é ser temido pela autoridade, porque é a única prova de importância que reconhece, e, ao mesmo tempo, que alguém decida por ele: quando a noiva que não escolheu lhe é imposta, o que pede ao filho é que venha salvá-lo (capítulo III da Primeira Parte). O que teme é o vexame, mais do que a Sibéria: ser açoitado, e mesmo se perdoado ser suspeito pela vida inteira por quem o sustenta (capítulo IX da Segunda Parte). O que sabe é a beleza, a sua religião, e a sabe com a lucidez de quem vive de gestos (capítulo I da Terceira Parte). Onde se engana é em tomar o papel pelo ato: crê que o brinde, a leitura e a partida a pé reconciliam as gerações e, quando a sala responde, o que descobre é que a sala nunca foi a juventude que ele perdoava (capítulo I da Terceira Parte). No fim diz que mentiu a vida inteira e que acredita em si quando mente (capítulo VII da Terceira Parte).

Trajetória

No capítulo I da Primeira Parte o cronista o apresenta pela pose, e a figura tem um modelo real:

O professor da crônica é montado sobre o historiador Timofei Granovski, com deslocamentos irônicos deliberados: o curso real de Granovski foi sobre os gauleses e não sobre os árabes, e a tese defendida em Moscou foi sobre a cidade medieval e não sobre Hanau.
Primeira Parte: O pai dos demônios

O rótulo que o acompanha vem de um verso de Niekrássov:

Воплощенной укоризною [...] Ты стоял перед отчизною, Либерал-идеалист, feito reprovação encarnada [...] ficavas diante da pátria, liberal-idealista.
Primeira Parte: O pai dos demônios

Varvara Pietrovna passa vinte e dois anos guardando-o de cada grão de poeira que atinja a reputação dele, e é por isso que o cronista vê, sob o ódio frequente, um amor:

что стал наконец для нее ее сыном, ее созданием, даже, можно сказать, ее изобретением [...] Она его выдумала и в свою выдумку сама же первая и уверовала, que ele acabou virando para ela um filho, uma criatura sua, até, dá para dizer, uma invenção sua [...] Ela o inventou, e foi a primeira a crer na invenção que fez.
Primeira Parte: O pai dos demônios

Nos serões do círculo que se forma em torno dele, com Lipútin, Ivan Chátov e Virguinski, o cronista dá nome ao que ali se pratica:

«Высший либерализм» и «высший либерал», то есть либерал без всякой цели, возможны только в одной России, o "liberalismo superior" e o "liberal superior", isto é, o liberal sem objetivo nenhum, só são possíveis na Rússia.
Primeira Parte: O pai dos demônios

Quando Stiepan fala de nacionalidade como moda de clube de fidalgos e de Deus como um ser que só toma consciência de si dentro dele, Chátov explode:

Нельзя любить то, чего не знаешь, а они ничего в русском народе не смыслили [...] А у кого нет народа, у того нет и бога, não se pode amar o que não se conhece, e eles não entendiam nada do povo russo [...] E quem não tem povo não tem Deus.
Primeira Parte: O pai dos demônios

No capítulo II da Primeira Parte Varvara Pietrovna lhe conta o plano de casá-lo com Dária, e ele consente porque o filho avisou que virá vender a propriedade a qualquer preço e Stiepan, que vendeu a mata às escondidas, só tem como acertar a conta com os oito mil rublos do dote. A contradição que ele formula sem saber que fala do filho é a de Piotr:

почему это все эти отчаянные социалисты и коммунисты в то же время и такие неимоверные скряги, приобретатели, собственники, и даже так, что чем больше он социалист, чем дальше пошел, тем сильнее и собственник…, por que será que todos esses socialistas e comunistas desesperados são ao mesmo tempo avarentos incríveis, acumuladores, proprietários, e a tal ponto que quanto mais socialista, quanto mais longe foi, mais forte é proprietário...
Primeira Parte: O pai dos demônios

No capítulo III da Primeira Parte passa uma semana sem ver a noiva nem Varvara Pietrovna, só sai ao anoitecer, supõe que a cidade inteira sabe, esbraveja por três bilhetes sobre Karmazínov e, depois que Lipútin lhe conta a história do capitão Lebiádkin, do dinheiro enviado da Suíça por uma nobilíssima órfã e da pergunta de Varvara Pietrovna sobre a sanidade do filho, diz num sussurro, com um sorriso de vergonha e de desespero e de um estranho entusiasmo:

Не могу же я жениться на «чужих грехах»!, não posso, afinal, casar com «pecados alheios»!
Primeira Parte: Os fios se atam

Liza, que o reconhece depois de doze anos, o trata com ternura sem condição, beija-lhe a testa da sela, e ele chora e diz que teve enfim um minuto de felicidade. À noite mostra ao cronista a carta de Varvara Pietrovna que o convoca para o domingo ao meio-dia, confessa que escreveu na véspera a Dária e cinco dias antes a Nicolas, perguntando por seus corações, para não ser obstáculo, e chama o filho, o único que pode salvá-lo. No capítulo V da Primeira Parte, no salão, é Piotr quem lê a carta do pai e Varvara Pietrovna ouve dele os pecados; Stiepan se curva com dignidade e sai, depois de ouvir de Dária que o respeita.

No capítulo IV da Segunda Parte Piotr o encontra deitado, com o romance Que fazer? sobre a mesa, estudado às escondidas para refutar os que guincham, e lhe diz que ele foi um agregado, um lacaio de livre vontade; o velho responde com uma maldição de gesto teatral. No capítulo V da Segunda Parte Varvara Pietrovna se explica com ele em Skvoriéchniki, oferece-lhe três mil rublos por ano para viver onde quiser menos com ela, e ele reconhece nas palavras dela as do filho:

Боже, сколько чужих слов! Затверженные уроки! И на вас уже надели они свой мундир! Вы тоже в радости, вы тоже на солнце; chère, chère, за какое чечевичное варево продали вы им вашу свободу!, meu Deus, quantas palavras alheias! Lições decoradas! E eles já puseram em você o uniforme deles! Você também está na alegria, você também está no sol; chère, chère, por que prato de lentilhas você lhes vendeu a sua liberdade!
Segunda Parte: A cidade à espera

Na lista de agravos que ela abre, admite o fato e recusa a palavra:

Да, я вас объедал; я говорю языком нигилизма; но объедать никогда не было высшим принципом моих поступков [...] Я всегда думал, что между нами остается нечто высшее еды, и — никогда, никогда не был я подлецом!, sim, vivi à sua mesa; falo a língua do niilismo; mas comer à custa dos outros nunca foi o princípio supremo dos meus atos. [...] Sempre pensei que entre nós restava algo mais alto do que a comida, e nunca, nunca fui um canalha!
Segunda Parte: A cidade à espera

Despede-se com Alea jacta est e anuncia que, vença ou perca na leitura, partirá a pé, de bolsa de mendigo, para morrer de fome debaixo de uma cerca. No capítulo IX da Segunda Parte, quando Blum leva seus papéis, é a polícia que ele teme, e a lamparina que manda acender diante do ícone é cálculo:

Это я давеча распорядился, только что те ушли, — пробормотал Степан Трофимович, хитро посмотрев на меня, — quand on a de ces choses-là dans sa chambre et qu’on vient vous arrêter, то это внушает, и должны же они доложить, что видели, isso eu mandei fazer há pouco, assim que eles saíram, murmurou Stiepan Trofímovitch, olhando-me com astúcia, quand on a de ces choses-là dans sa chambre et qu'on vient vous arrêter, isso impõe, e eles terão de informar que viram.
Segunda Parte: A cidade em desordem

O que o aterra não é a Sibéria:

Высекут, vão me açoitar.
Segunda Parte: A cidade em desordem

E mesmo ser solto o perderia:

Но пусть даже меня простят, пусть опять сюда привезут и ничего не сделают— и вот тут-то я и погиб. Elle me soupçonnera toute sa vie, mas ainda que me perdoem, que me tragam de volta para cá e não me façam nada, é aí que estou perdido. Elle me soupçonnera toute sa vie.
Segunda Parte: A cidade em desordem

No capítulo X da Segunda Parte vai ao governador exigir seus direitos, no meio dos operários que Lembke manda ajoelhar, aponta o dedo ao comissário Flibustiêrov e ouve de Lembke um pedido de compaixão. Karmazínov o abraça no salão de Yúlia Mikháilovna, e ele é obrigado a beijar a face que o escritor oferece, e conta ao cronista o que pensou:

я подумал в ту минуту: кто из нас подлее? Он ли, обнимающий меня с тем, чтобы тут же унизить, я ли, презирающий его и его щеку и тут же ее лобызающий, хотя и мог отвернуться… тьфу!, pensei naquele instante: quem de nós é mais baixo? Ele, que me abraça para me humilhar na mesma hora, ou eu, que o desprezo, e a ele e à sua face, e na mesma hora a beijo, embora pudesse virar o rosto... arre!
Segunda Parte: A cidade em desordem

No capítulo I da Terceira Parte, na matinê, sobe ao estrado com um ramo de oliveira: faz um brinde à estupidez e diz que o espírito da juventude é tão puro quanto o de sua geração, e que a pergunta de nosso tempo é o que é mais belo, Shakespeare ou as botas, Rafael ou o petróleo.

без англичанина еще можно прожить человечеству, без Германии можно, без русского человека слишком возможно, без науки можно, без хлеба можно, без одной только красоты невозможно, ибо совсем нечего будет делать на свете, sem o inglês a humanidade ainda pode viver, sem a Alemanha pode, sem o homem russo é mais que possível, sem a ciência pode, sem o pão pode, só sem a beleza é impossível, pois não haveria absolutamente nada a fazer no mundo.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

Joseph Frank lê Stiepan como retrato de Granóvski e, indiretamente, de Herzen, e a última fala pública dele repete palavras que Herzen escrevera contra os filhos niilistas.

A sala responde que é fácil para quem sempre teve o pão garantido, e o seminarista, na hora em que ele perde o controle e bate na mesa, lhe cobra o que a estética não paga:

Здесь в городе и в окрестностях бродит теперь Федька Каторжный, беглый с каторги. Он грабит и недавно еще совершил новое убийство. Позвольте спросить: если б вы его пятнадцать лет назад не отдали в рекруты в уплату за карточный долг, то есть попросту не проиграли в картишки, скажите, попал бы он в каторгу? резал бы людей, как теперь, в борьбе за существование? Что скажете, господин эстетик?, anda por aqui, na cidade e nos arredores, Fiedka Kátorjni, fugitivo dos trabalhos forçados. Ele rouba e ainda há pouco cometeu um novo assassinato. Permita-me perguntar: se o senhor, quinze anos atrás, não o tivesse entregado como recruta para pagar uma dívida de carteado, isto é, simplesmente não o tivesse perdido no baralho, diga-me, ele teria ido parar nos trabalhos forçados? Teria degolado gente, como agora, na luta pela existência? O que o senhor diz, senhor esteta?
Terceira Parte: A festa e o incêndio

Stiepan grita que sacode o pó dos pés e foge chorando para os bastidores. No capítulo II da Terceira Parte, trancado em casa, responde pela porta que acabou com os homens, bons e maus, escreve a Dária e se despede do cronista com um merci, como Karmazínov com o público. No capítulo III da Terceira Parte sai a pé, de botas de cano alto, cachecol, um saco pequeno e abarrotado e um guarda-chuva aberto, e encontra Liza e Mavrikii Nikoláievitch a caminho da casa dos Lebiádkin: ajoelha-se diante dela, chorando, e diz que é preciso perdoar, perdoar e perdoar, para ficar livre; ela o abençoa com o sinal da cruz.

No capítulo VII da Terceira Parte o cronista explica por que a pé: a estrada, ao contrário do passaporte, é algo comprido, sem fim, como a vida humana, e é o mote da fuga, Vive la grande route. Sentado sob um salgueiro, de guarda-chuva aberto, pensa que, se encontrar Fiedka, lhe dirá toda a verdade e lhe dará a bolsa de quarenta rublos, e que ele o matará do mesmo jeito. Acompanha uma carroça com um camponês, uma mulher e uma vaca, diz que é o professor principal, chega a Khátovo e encontra Sófia Matvêievna Ulítina, viúva de trinta e quatro anos, ex-enfermeira em Sevastopol, que vende Evangelhos pelas estradas; compra um, sem ter lido o livro havia trinta anos. Na bricha para Spássov fala sem parar, adormece com febre e, no povoado junto ao lago, conta-lhe por horas a vida desde a infância, a morena e a loura que se calaram por vinte anos, exaustas de generosidade mútua. De madrugada cai a seus pés, chamando-se de canalha:

Главное в том, что я сам себе верю, когда лгу. Всего труднее в жизни жить и не лгать… и… и собственной лжи не верить, да, да, вот это именно, o principal é que eu mesmo acredito em mim quando minto. O mais difícil na vida é viver e não mentir... e... e não acreditar na própria mentira, sim, sim, é exatamente isso.
Terceira Parte: A última errância

Doente, pede ao acaso uma página do Evangelho e cai na carta ao anjo de Laodiceia, aos que não são nem frios nem quentes, e diz que irão provar. Pede então a passagem dos porcos, para lembrá-la literalmente:

Тут же на горе паслось большое стадо свиней [...] Бесы, вышедши из человека, вошли в свиней; и бросилось стадо с крутизны в озеро и потонуло. [...] нашли человека, из которого вышли бесы, сидящего у ног Иисусовых, одетого и в здравом уме, ali, no monte, pastava uma grande manada de porcos [...] Os demônios, saídos do homem, entraram nos porcos; e a manada se lançou do despenhadeiro ao lago e se afogou. [...] acharam o homem de quem tinham saído os demônios, sentado aos pés de Jesus, vestido e em são juízo.
Terceira Parte: A última errância

Agitado, faz a comparação que decifra a epígrafe:

Эти бесы, выходящие из больного и входящие в свиней, — это все язвы, все миазмы, вся нечистота, все бесы и все бесенята, накопившиеся в великом и милом нашем больном, в нашей России, за века, за века, esses demônios que saem do doente e entram nos porcos são todas as chagas, todos os miasmas, toda a imundície, todos os demônios e demoniozinhos que se acumularam, ao longo dos séculos, dos séculos, no nosso grande e querido doente, na nossa Rússia.
Terceira Parte: A última errância

E se inclui nela, nomeando o filho e a si mesmo:

Это мы, мы и те, и Петруша [...] и я, может быть, первый, во главе, и мы бросимся, безумные и взбесившиеся, со скалы в море и все потонем, и туда нам дорога, потому что нас только на это ведь и хватит, somos nós, nós e aqueles, e Pietrucha [...] e eu, talvez o primeiro, à frente, e nos lançaremos, loucos e raivosos, de um penhasco ao mar e todos nos afogaremos, e é para lá o nosso caminho, porque é só para isso que damos conta.
Terceira Parte: A última errância

Varvara Pietrovna chega no terceiro dia, com Dária e dois lacaios, expulsa Sófia Matvêievna, grita com ele, e só então percebe a doença; manda chamar o médico e traz de volta a mulher que acabara de expulsar. Ele diz, pela primeira vez na vida, que a amou durante a vida toda, vinte anos; ela responde no sussurro dos agravos antigos, o perfume, a gravata nova, o charuto no caramanchão, e o chama de vazio e covarde antes de se conter. Confessa-se e comunga de boa vontade e, quando o padre fala da fé como único refúgio, sorri finamente e é cortado por Varvara Pietrovna. Então faz a profissão de fé:

Мое бессмертие уже потому необходимо, что бог не захочет сделать неправды и погасить совсем огонь раз возгоревшейся к нему любви в моем сердце. И что дороже любви? Любовь выше бытия, любовь венец бытия, и как же возможно, чтобы бытие было ей неподклонно? Если я полюбил его и обрадовался любви моей — возможно ли, чтоб он погасил и меня и радость мою и обратил нас в нуль? Если есть бог, то и я бессмертен! Voilà ma profession de foi, a minha imortalidade é necessária já por isto: Deus não vai querer cometer uma injustiça e apagar de todo o fogo do amor que um dia se acendeu por ele no meu coração. E o que é mais caro que o amor? O amor é mais alto que o ser, o amor é a coroa do ser, e como seria possível que o ser não lhe estivesse submetido? Se eu o amei e me alegrei com o meu amor, é possível que ele apague a mim e à minha alegria e nos reduza a zero? Se há Deus, também eu sou imortal! Voilà ma profession de foi.
Terceira Parte: A última errância

E ao fim:

J’ai menti toute ma vie, всю, всю жизнь!, menti a vida inteira, toda, toda a vida! E, mais adiante, a todos: да здравствует Великая Мысль! Вечная, безмерная Мысль, viva o Grande Pensamento! O eterno, o desmedido Pensamento.
Terceira Parte: A última errância

Pede para ver Pietrucha e Chátov, de quem ninguém ali sabe a sorte, fala da necessidade do infinitamente grande, e três dias depois morre, já sem consciência, apagado como uma vela. Varvara Pietrovna o enterra no adro da igreja de Skvoriéchniki e, quando o doutor lembra que ela tem um filho, responde que não tem.

Temas que encarna

Stiepan é a Verdade e mentira do liberalismo idealista, e por isso o ponto de partida da Família de que o livro trata: os filhos que ele educou e o filho que gerou saem dele de dois modos. Em todo o romance o que ele diz tem a forma de um gesto (o brinde à estupidez, a leitura sobre a Madona, a partida a pé, o merci) e a forma é a verdade dele, a única que consegue sustentar: no capítulo V da Segunda Parte recusa que o chamem de canalha, mas não nega ter vivido à mesa de outro; no capítulo IX da Segunda Parte acende a lamparina para parecer o que não é; no capítulo VII da Terceira Parte diz que acredita em si quando mente. Seus símbolos são o ícone e a lamparina, a estrada real e os porcos e a epígrafe, de que ele é o intérprete.

O livro lhe dá, no fim, o que lhe nega no começo: um ato. Ao longo de três partes ele ameaça partir, escreve cartas que não envia e cai em crises de nervos, e só no capítulo III da Terceira Parte sai de casa. A partida é o ato de um homem a quem não sobrou o papel, e a estrada que o cronista descreve como sem fim é onde ele encontra o que não achava no salão: alguém que o escuta sem plateia, Sófia Matvêievna, e a decifração da epígrafe que o narrador deixara sem explicação no começo. Isso não faz dele outro homem. Reconhece a mentira e continua a precisar de um Grande Pensamento para morrer em paz (capítulo VII da Terceira Parte).

Leituras divergentes

A confissão final tem duas leituras no próprio texto. Numa, Stiepan se converte: confessa, comunga e argumenta pela imortalidade a partir do amor, e Varvara Pietrovna, que implora que ele diga que Deus existe, não entende bem a profissão de fé. Na outra, é o último raciocínio de quem sempre argumentou por afeição, e o conteúdo muda sem mudar a forma (capítulo VII da Terceira Parte):

É o mesmo homem que o livro apresenta como liberal de salão, com pose cívica sustentada por Varvara Pietrovna e nunca convertida em ato; a confissão final não desmente o retrato, fecha-o por dentro. Reconhece a mentira e continua a precisar de um Grande Pensamento para morrer em paz: muda de conteúdo (do liberalismo ao Evangelho) sem mudar de forma, e nunca vira o homem de um ato.
Terceira Parte: A última errância

A mesma divisão vale para a defesa que faz de si diante de Varvara Pietrovna no capítulo V da Segunda Parte: dignidade verdadeira de um homem fraco que se recusa a se ver como agregado, ou um último refúgio na forma, tão vazio quanto o latim que ele cita. E vale para a decifração da epígrafe, que pode ser lucidez de febre ou o último discurso de um orador (capítulo VII da Terceira Parte):

Stiepan Trofímovitch não só decifra a epígrafe, mas se inclui nela, ao lado do filho, entre os que se lançarão ao mar; e ainda assim termina apostando em que o doente se curará e "se sentará aos pés de Jesus". É a única vez em que o livro põe um personagem a dar a chave que o narrador deixou, sem explicação, no começo, e ele a dá delirando. Pode ser lucidez de febre ou o último discurso de um orador.
Terceira Parte: A última errância

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