Vale a pena para quem gosta de ler pelo narrador e pelas cenas pequenas, mais do que por reviravoltas. Quincas Borba conta a queda de um herdeiro em 201 capítulos curtos, metade deles com menos de trezentas palavras, e o narrador ri de quase todos, sem poupar ninguém.
O que o livro dá ao leitor é um enredo claro (um professor herda uma fortuna, vai para o Rio, deseja a mulher do amigo e enlouquece) e personagens que se revelam em frases. Os olhos de Sofia são comparados a uma "lanterna de uma hospedaria em que não houvesse cômodos para hóspedes". A alma de Palha é uma colcha de retalhos, e o narrador a defende: "moralmente as colchas inteiriças são tão raras". No fim, o narrador se recusa a fechar o sentido e manda o leitor chorar ou rir.
O que pode atrapalhar é a doutrina de Humanitas, abstrata, que o filósofo explica no capítulo VI com a alegoria das tribos famintas e que Rubião entende pouco. A ação também se passa entre 1867 e 1871, no Império, com guerra do Paraguai, ministérios e Napoleão III, e muita referência soa distante hoje. Os capítulos não têm título, só número.
Não é preciso ter lido as Memórias Póstumas de Brás Cubas antes: no capítulo IV o narrador apresenta de novo o filósofo a quem não leu o outro livro, como "aquele mesmo náufrago da existência". E o romance foi lido no seu tempo: o prólogo da terceira edição conta que a segunda "acabou mais depressa que a primeira".