O que é
A constelação que Rubião pede a Sofia que fite todas as noites, às dez horas, para que os pensamentos dos dois se encontrem ali, entre Deus e os homens. Sofia recusa, e o pedido volta ao longo do livro sempre fora da cena em que foi feito: na queixa de Sofia ao marido, na lembrança de Rubião à janela e na última frase do romance.
Onde aparece
No capítulo XLI, no jardim de Santa Teresa, Sofia diz que podiam dar pela ausência deles, e Rubião agarra-se ao possessivo. Retendo-a pela mão, pede dois favores: que não esqueça aqueles dez minutos e que, todas as noites às dez, fite o Cruzeiro, enquanto ele o fitará também. O texto diz que o convite era poético, mas só o convite, porque nem os olhos nem o gesto dele tinham poesia.
Rubião estremeceu diante deste possessivo: nossa ausência
No capítulo L, na sala, Sofia conta ao marido a cena do jardim e cita, entre as ofensas, o pedido do Cruzeiro. Cristiano Palha o toma por pedido de alma cândida, coisa de moça de quinze anos, de tolo e de poeta. Mais adiante ela diz que presentes, jóias e camarotes não são motivo para que fite o Cruzeiro com Rubião, e é aí que Palha suspira que fosse só isso e acaba confessando a dívida.
Mas, meu amor, eu devo-lhe muito dinheiro
No capítulo XCVII, à janela, depois de ver a costureira sair com um homem, Rubião olha o céu e lá está o Cruzeiro. Pensa que a vida dos dois seria outra se ela tivesse consentido em fitá-lo, e a constelação parece confirmar, fulgurando. Daí passa a lembrar que o Cruzeiro é também uma ordem honorífica e acha genial fazer dela uma distinção nacional e privilegiada.
No capítulo CCI, no fecho do livro, o narrador manda o leitor chorar ou rir, que é a mesma coisa, e acrescenta que o Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar como Rubião lhe pedia, está alto demais para discernir os risos e as lágrimas dos homens.
Se só tens riso ri-te! É a mesma coisa.
O que significa
O Cruzeiro tem uma só cena e três ecos, e cada eco o usa para outra coisa. Para Sofia, no capítulo L, é a prova do que Rubião quis. Para Palha, é o que ele minimiza antes de confessar a dívida. Para Rubião, no capítulo XCVII, é a vida que não houve e, logo em seguida, uma condecoração. No capítulo CCI é o céu que o narrador põe acima das lágrimas e dos risos dos homens.
A última frase do livro só pesa para quem se lembra do pedido do capítulo XLI, que Sofia recusou. O romance fecha mandando olhar para cima e põe como medida do que está lá em cima aquilo que ela não quis fazer. Do jardim ao fecho, o Cruzeiro vira a medida da distância entre o que Rubião pediu e o que o livro lhe deu.
Relações
- Temas-padrão: Desejo, Ambição, Lealdade e traição.
- Personagens: Rubião, Sofia, Cristiano Palha, que ouve o pedido de segunda mão.
- Símbolos vizinhos: A coroa imperial, a outra distinção que Rubião acaba por conceder a si mesmo.