Quem é
Mulher de Cristiano Palha, a bela casada que Rubião conhece no trem para o Rio e que passa a dominar o desejo dele. Mora em Santa Teresa, depois no Flamengo, e acaba inaugurando os salões do palacete de Botafogo; aprende a gostar de ser vista e guarda o coração, e o narrador lhe dá, capítulo a capítulo, uma vida interior própria. No prólogo de 1889, Machado recusa o pedido de continuar o livro com a Sofia numa terceira parte de trilogia, porque ela está toda aqui.
Trajetória
Rubião, ainda em Botafogo, lembra Sofia e se julga amado por ela (capítulo III). Ela entra em cena no trem, sentada com Palha diante dele, calada: quem fala de escravos e da Europa é Palha, e ela só move os olhos e diz apenas "Não, senhor", quando Rubião lhe pergunta se já foi à Europa (capítulo XXI).
No primeiro jantar em Santa Teresa, ela é a dona da casa e fala mais que ele (capítulo XXIV); manda morangos e um bilhete que intima Rubião a jantar por ordem do marido (capítulo XXXII). O narrador a retrata cada vez mais bela, exibida decotada por Palha, que adivinhou as falências de 1864 e gasta tudo com ela: Sofia gosta de ser vista, mas guarda o coração (capítulo XXXV).
podemos compará-los à lanterna de uma hospedaria em que não houvesse cômodos para hóspedes
À noite, enquanto uma senhora canta ao piano, Rubião a contempla e ela o olha de volta (capítulo XXXVI). No jardim, ao luar, leva-o pelo braço e, quando ele fala, não sabe se deve entender ou fingir que não entende (capítulo XXXIX).
Trouxera ao colo um pombinho, manso e quieto, e sai-lhe um gavião
Quer voltar à sala e suplica que ele a solte (capítulo XLI); quando o Major Siqueira surge, é ela quem inventa a anedota do Padre Mendes para cobrir a demora (capítulo XLII).
Já de noite, conta a Palha o que Rubião fez no jardim, e ele, depois de minimizar, confessa dever muito dinheiro ao amigo, e o narrador revela que o bilhete dos morangos fora redigido por ele e apenas copiado por ela; ela promete esfriar o trato aos poucos (capítulo L). No dia seguinte amanhece abatida, culpa-se e teme que o major espalhe o caso (capítulo LI). Na rua, um rapaz a cumprimenta: é Carlos Maria, que dançou com ela num baile, e um carteiro cai, e ela ri (capítulo LII).
Recebe Rubião sem rancor e lhe apresenta a tia e a prima, Maria Benedita, moça da roça (capítulo LXIV); introduz a prima na vida da cidade (capítulo LXVIII). Num baile, dança com Carlos Maria, que se declara a ela (capítulo LXIX); em casa, chama o sarau de enfadonho, aceita o carinho do marido e de manhã procura na rua os sinais do homem da praia (capítulo LXXI). Jura esquecer o episódio, mas a declaração volta à memória como um trecho musical teimoso (capítulo LXXIII).
Quando promete à prima um noivo e é o próprio Rubião, não consegue soltar o nome dele: não o quer, mas não suporta dá-lo à moça (capítulo LXXVII).
Recebe Rubião no Flamengo, entre as costureiras do luto, e lhe fala da comissão de senhoras pelas Alagoas (capítulo XCII). Quando ele lhe despeja o que sente e entrega a carta, ela pede arrependimento e vê que ele sai sem ouvi-la (capítulo CIII, capítulo CIV); sozinha, descobre que era a circular da comissão, pensa em Carlos Maria e, de raiva de si, quebra o mandarim de porcelana (capítulo CV).
Depois do brilhante de aniversário, explica a carta a Rubião com uma lágrima e lhe conta o noivado de Maria Benedita, pensando que aquele homem a adora (capítulo CXV). Quando os noivos partem para a Europa, finge-se doente e, no quarto, entre presentes dele, recorda a promessa de fazê-la imperatriz (capítulo CXXV).
Louvada pela imprensa, depura as amizades, corrige o marido servil e passa pelos velhos conhecidos de olhar desviado (capítulo CXXXVIII). Quando Rubião a convida à Tijuca, adia o passeio (capítulo CXXXIX), a imaginação galopa como corcel e volta à cavalariça (capítulo CXL), as rosas e outras plantas lhe dizem que a culpa é dela (capítulo CXLI, capítulo CXLII); no passeio, cai do cavalo (capítulo CXLIII) e, em casa, mostra o joelho pisado ao marido, que jura que nada se viu (capítulo CXLIV).
Rubião entra no coupé dela (capítulo CL); ela perde a voz, teme o escândalo (capítulo CLI), sente aversão e suplica que ele desça (capítulo CLII), e o ouve falar de um encontro que nunca houve, com a sinceridade de quem viu (capítulo CLIII). Passado o susto, mergulha no devaneio e imagina quem seria o homem da caleça (capítulo CLIV); vendo no mal dele o efeito do amor por ela, sente compaixão, feita de simpatia e egoísmo, e lhe perdoa (capítulo CLVII). A carta de Maria Benedita, feliz e mãe, lhe dá despeito (capítulo CLVIII), e na manhã chuvosa deixa-se estar sinceramente defunta, e então os nomes passam como relâmpagos (capítulo CLIX).
O sol manda o raio de volta para não alumiar o desejo dela (capítulo CLX); sonha que Carlos Maria é morto diante dela e acorda aos gritos (capítulo CLXI), e a vontade imperiosa vira veleidade (capítulo CLXIII). Foge de Rubião numa livraria, mas insiste, apesar da queixa de Palha, quando Dona Fernanda acha que ele pode sarar (capítulo CLXIV).
No fim, Palha e o Dr. Falcão internam Rubião, depois de Sofia ter deixado esquecida a promessa que fizera (capítulo CLXXXV); na casa abandonada da Rua do Príncipe mal disfarça o asco (capítulo CLXXXVIII) e, livre dela, retoma as boas maneiras e convida Dona Fernanda a ver o palacete de Botafogo (capítulo CLXXXIX). Evita a visita ao internado e conta que Palha apurou três contos e duzentos dos bens dele (capítulo CXCI), e em outubro inaugura os salões com um baile, usando um colar dos primeiros presentes de Rubião (capítulo CXCII).
Temas que encarna
Os temas-padrão que passam por ela são Desejo, Aparência e realidade e Lealdade e traição. O símbolo que a acompanha em cena é O Cruzeiro do Sul, que Rubião lhe pede para fitar (capítulo XLI) e que ela não quis fitar, como o narrador lembra no fecho (capítulo CCI).
O texto nunca decide se Sofia consente. Ela é descrita como vitrine, aprende a gostar de ser vista, e o narrador insiste que a porta do coração continua trancada, mas a mesma Sofia sonha com Carlos Maria, deixa a declaração da praia voltar como música e chama de veleidade, depois de poucas horas, o que parecia vontade imperiosa. O refúgio moral que o narrador lhe dá é o corpo sem mácula, e o livro não vai além disso.
Sofia aceita de Rubião o brilhante, a subscrição e a admiração, e só lhe devolve, quando precisa, uma lágrima. O livro é de Rubião no dinheiro e de Sofia no desejo, e o desejo dela só aparece em sonho, em devaneio e em objetos que respondem por ela: o mandarim quebrado, o colar usado no baile, as rosas do jardim.
Relações
- Rubião: o admirador que ela usa, evita e teme, e que a leva à cena mais constrangida do livro, a do coupé.
- Cristiano Palha: o marido que a exibe, a quem ela conta o episódio do jardim e que primeiro empalidece, depois minimiza e só no fim confessa a dívida que tem com Rubião.
- Carlos Maria: o rapaz que lhe declara a mentira da praia, e que ela guarda na memória e no pesadelo.
- Maria Benedita: a prima que ela introduz na cidade, e para quem promete um noivo que não suporta ceder.
- Dona Fernanda: a companhia na casa abandonada da Rua do Príncipe, onde ela se comove com o cão magro e Sofia mal disfarça o asco.