Clavis Libri

Símbolo

A coroa imperial

O que é

O delírio de Rubião, que se toma por Napoleão III e depois por imperador sem mais, e a coroa que ele põe na cabeça na hora da morte, feita de nada. O delírio começa nos bustos de Napoleão I e de Napoleão III sobre a secretária, passa pela pêra e pelos bigodes copiados do imperador, por Compiègne, por Luís e pela duquesa, e acaba na Rua da Ajuda e em Barbacena. Aparece em muitos capítulos, mas o objeto que lhe dá nome só aparece no último.

Onde aparece

No capítulo CIX o sonho já traz a imagem: Sofia aparece como a imperatriz Eugênia, Rubião manda enforcar Cristiano Palha e sai em carruagem triunfal com ela e o Quincas Borba (cão), sentindo-se o imperador Luís Napoleão.

No capítulo CXXV Sofia, doente, recorda a frase dele de que ainda a faria imperatriz.

No capítulo CXXXIV os bustos dos dois Napoleões chegam à secretária de Rubião.

No capítulo CXLV o barbeiro Lucien os encontra no gabinete, com uma gravura da batalha de Solferino e um retrato da imperatriz Eugênia, enquanto o dono segue em marcha para a lua.

No capítulo CXLVI Rubião manda cortar a barba pelo busto de Napoleão III e defende o imperador contra Orsini, dizendo que não há maldade que valha contra o destino de quem recebe a coroa imperial. Responde em português ao barbeiro francês e cuida falar francês.

respondendo-lhe em português, cuidava falar francês
Capítulos CXXXIII a CXLVII: Comensais, Tijuca e barba imperial

No capítulo CXLVII imagina-se em Biarritz ou Compiègne, governando um grande Estado e ouvindo ministros e embaixadores. Compiègne, diz o texto, ficava no caminho da lua.

No capítulo CXLVIII, sem a barba, alterna entre si mesmo e o imperador dos franceses, e o texto diz que os dois se equilibram, cada um inteiro sem o outro.

Equilibravam-se, um sem outro, ambos integrais
Capítulos CXLVIII a CLIX: O delírio no coupé de Sofia

No capítulo CLIII, no coupé de Sofia, fala-lhe como amante, pede que o chame de Luís, oferece-lhe um solitário e promete título de duque ao marido, que a fará duquesa. O texto chama aquilo de delírio com a sinceridade de quem viu as coisas que relata.

Delírio, sim, é o que era; tinha a sinceridade da palavra, como pessoa que vê ou viu realmente as coisas que relata
Capítulos CXLVIII a CLIX: O delírio no coupé de Sofia

No capítulo CLV a notícia da mania se espalha, e quem a testa, levando a conversa à França e ao imperador, vê Rubião resvalar ao abismo.

No capítulo CLVI, com a guerra franco-prussiana, as crises ficam mais agudas: a queda de Napoleão III é para ele a captura do rei Guilherme, e os comensais, promovidos a marechais, não o contrariam.

No capítulo CLXXXI, na casa do Major Siqueira, é o major quem, ao contar a batalha de Monte-Caseros, tem Napoleão III diante de si, e Rubião aplaude e lhe promete uma condecoração. Quando o major o conduz à porta, insiste que é o seu imperador.

No capítulo CLXXXII desfila pela Rua da Ajuda com uma imperatriz invisível, Eugênia ou Sofia.

No capítulo CLXXXIV chega à casa de Dona Fernanda com a rua feita paço: cada lampião tem aspecto de camarista, cada esquina feição de reposteiro.

No capítulo CXCIX, na casa da comadre Angélica, grita aos curiosos que está imperador e diz ter capturado o rei da Prússia.

No capítulo CC morre poucos dias depois, sem ser súdito nem vencido: põe a coroa na cabeça, uma coroa que o texto diz não ser sequer um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão, e que só ele vê.

Guardem a minha coroa
Capítulos CLXXXII a CCI: Loucura, abandono e a morte de Rubião

O que significa

A coroa percorre o livro em quatro estados: objeto de admiração, nos bustos do capítulo CXXXIV; cópia, na barba do capítulo CXLVI; ocupação, no coupé do capítulo CLIII e nas ruas do capítulo CLXXXII; e, por fim, nada, na cabeça de um moribundo, no capítulo CC. O delírio entra como detalhe de comédia, a resposta em português que ele julga ser francês, antes de ser diagnóstico, e o narrador deixa em aberto se zomba da glória de Rubião ou a respeita.

O narrador faz questão de que não haja objeto: nem chapéu velho nem bacia, nada onde os espectadores palpassem a ilusão. A coroa existe só para quem a vê, e quem a vê é quem morre. A vitória que as batatas prometiam e o mundo lhe negou chega a Rubião por esse caminho, no momento em que ninguém mais a vê.

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