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Personagem

Ignat Lebiádkin

Quem é

O capitão Ignat Lebiádkin é o irmão de Mária Timofêievna Lebiádkina, a mulher coxa e visionária com quem Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin se casou em segredo, e é o homem que vive do que supõe saber sobre esse casamento. Gigante gordo, encaracolado e vermelho, quase sempre bêbado, apresenta-se como um cavalheiro educadíssimo e escreve versos para tudo: para a granada de amor que lhe estourou no peito, para a moça rica que passa a cavalo, para a perna que ela poderia quebrar. Foi, anos antes, em Petersburgo, o bufão que Stavróguin chamava de seu Falstaff (capítulo V da Primeira Parte). O livro o nomeia primeiro de passagem, como o capitão por quem a mulher de Virguinski largou o marido (capítulo I da Primeira Parte), e logo depois pela boca de Lipútin, que o descreve a chicotear a irmã de manhã e à noite e a cobrar de Stavróguin, todo ano, uma reparação de honra (capítulo III da Primeira Parte). O traço que o define é a revelação que nunca se completa: ele diz que pode contar quem a irmã é e, cada vez que lhe pedem a palavra, a engole.

Trajetória

No capítulo III da Primeira Parte ele agarra pelo peito o cronista no escuro de um pátio, recita rimas ao amor e ao hino da Estrela-amazona, que é Lizavieta Nikoláievna Tuchina, e manda dizer que a Dária, que chama de escrava de gleba, esmaga com dois dedos. No capítulo IV da Primeira Parte, quando o cronista lê em voz alta, a pedido de Liza, a carta e os versos que ele lhe mandou, e ela quer saber quem é o autor, Ivan Chátov o resume em duas palavras:

Пьяный человек и негодяй, um homem bêbado e um patife.
Primeira Parte: Os fios se atam

A carta mostra o método inteiro: o capitão se diz uma infusória diante do sol, afirma que a ideia de casamento seria ridícula, promete as duzentas almas que logo terá e se oferece para revelar muito, por documentos, até na Sibéria. À noite, Chátov o enxota da porta com a lembrança de que ele vende a irmã; o capitão, desafiado a dizer quem ela é, balbucia que ela é, que ela é, cala meio minuto e foge escada abaixo gritando uma injúria.

No salão de Varvara Pietrovna Stavróguina, no capítulo V da Primeira Parte, chega de fraque e roupa branca, por conselho de Lipútin, sóbrio como quem acorda de dias de bebedeira. Oferece vinte rublos aos criados, entrega as cédulas a um comitê de beneficência, diz que a irmã só aceita o que vem de Varvara Pietrovna e, quando lhe pedem o porquê, responde com o porquê do universo e com uma fábula, a da barata que cai num copo de moscas:

Но заметьте, заметьте, сударыня, таракан не ропщет!, mas notem, notem, senhora, a barata não se queixa!
Primeira Parte: A bofetada

Quando Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski entra e conta à sala uma história de Petersburgo em que Stavróguin é generoso e o capitão, ingrato, ele a confirma ponto por ponto, de pé diante de Piotr, com a cabeça baixa, e diz que só agora acorda de quatro anos dormidos sob uma nuvem. Na porta esbarra em Stavróguin e se encolhe sem tirar os olhos dele.

Na casa nova do capítulo II da Segunda Parte, sóbrio havia oito dias, declara que vive como Zózima, mostra o testamento em que lega o esqueleto aos estudantes e o poema da perna quebrada. Stavróguin corta a comédia, lista as bebedeiras, as mentiras e o dinheiro desviado da irmã, e anuncia que dentro de dois dias tornará público o casamento. O capitão confessa em lágrimas que só falou a Lipútin, bêbado, e recebe de Stavróguin a versão que deve repetir se perguntarem. Sozinho no alpendre, raciocina à maneira dos bêbados: ou o outro tem medo, e então ele é forte, ou o empurram a denunciar. A partir daí o que ele sabe passa a ser oferecido a quem estiver ao alcance: uma carta anônima a Lembke oferece uma denúncia em troca de perdão e pensão, circula no capítulo VI da Segunda Parte, é atribuída a ele por Piotr no capítulo VIII da Segunda Parte e tem a letra reconhecida por Lipútin e Tolkatchenko no capítulo IV da Terceira Parte.

No capítulo X da Segunda Parte, Liza se levanta no salão da governadora e pede a Stavróguin, diante de todos, que proíba um capitão qualquer de lhe escrever cartas indecentes, se ele é mesmo seu parente:

Николай Всеволодович, мне какой-то капитан [...] всё пишет неприличные письма [...] Если он в самом деле ваш родственник, то запретите ему меня обижать и избавьте от не приятностей., Nikolai Vsievolódovitch, um capitão qualquer [...] não para de me escrever cartas indecentes [...] Se ele é mesmo seu parente, proíba-o de me ofender e livre-me dos aborrecimentos.
Segunda Parte: A cidade em desordem

Na matinê do capítulo I da Terceira Parte, o capitão sobe ao palco vazio de fraque e gravata branca, bêbado, solta uma risada longa e feliz e é levado por Lipútin e dois criados; um instante depois Lipútin volta para ler, como obra de um poeta incógnito, os versos que várias pessoas na sala reconhecem como dele. À noite, Chátov o encontra caído de bêbado num sofá. De manhã, no capítulo II da Terceira Parte, o capitão está com a garganta cortada, vestido, num banco da casa que Stavróguin alugou para ele e pagou por seis meses adiantados; a irmã e a criada foram mortas também, e a velha carteira verde que ele exibira na véspera está vazia no chão. Piotr dá depois a sua versão: foi roubo do galé Fiedka, atrás do dinheiro que o imbecil mostrava a todos (capítulo III da Terceira Parte), e a culpa, se há, é de Lipútin, que devia tê-lo despachado a Petersburgo com os duzentos e trinta rublos que Piotr dera para isso (capítulo IV da Terceira Parte). No capítulo III da Terceira Parte, Liza pede a Stavróguin que diga, diante de Deus, se é culpado das três mortes, e a resposta dele é o que o livro tem de mais próximo de um veredito sobre a morte do capitão:

Я не убивал и был против, но я знал, что они будут убиты, и не остановил убийц, eu não matei e era contra, mas sabia que seriam mortos e não detive os assassinos.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

Temas que encarna

Lebiádkin é a Verdade e mentira no registro de quem fatura com ela. Mária Timofêievna diz o que vê, sem interesse, e é chamada de louca; ele diz que sabe, e faz do que diz saber um crédito que nunca resgata, porque o crédito vale enquanto está por pagar. É também a Família reduzida à contabilidade: a irmã é pensão e é honra, e o próprio sobrenome, que ele deriva de cisne para sonhar com um título de príncipe de Monbar, vira motivo de queixa ao universo no capítulo V da Primeira Parte.

A fábula da barata sustenta duas leituras, e as duas cabem no homem. Na primeira, é pose de vítima nobre para impressionar a anfitriã: o inseto que não se queixa de ter sido jogado fora pela natureza é ele. Na segunda, é aviso a quem tem o que perder, de alguém que ameaça revelar e explica que sabe calar, e que o silêncio tem preço. O texto não escolhe, e o que mostra dele nas cenas seguintes sustenta as duas: diante de Chátov, que o provoca a falar, a coragem some; diante de Piotr, a obediência é imediata.

O livro não mostra Lebiádkin percebendo que o segredo vale mais calado que dito, e vale mais calado ainda quando quem o guarda está morto. Cada comprador, Stavróguin, Piotr, o governador, tem razões diferentes para não querer que o capitão fale, e o texto mostra o silêncio dele ser administrado por todos, com dinheiro, com versão pronta, com passagem de trem. O romance não afirma que o assassino agiu por causa do que ele sabia; afirma que a casa onde morreu era de Stavróguin, que o dinheiro estava à vista e que Stavróguin sabia que seriam mortos e não deteve os assassinos. A astúcia que o capitão se atribui, a Astúcia de Lebiádkin com maiúscula, funciona enquanto os interesses dos que a pagam coincidem.

Relações