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Personagem

Dária Pávlovna Chátova

Quem é

Dária Pávlovna Chátova, a Dacha dos diminutivos de Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin, é a irmã de Ivan Chátov e a pupila de Varvara Pietrovna Stavróguina, criada em casa dela com governanta, mestres e música, e com um capital reservado desde os doze anos para que a vida da moça, nas palavras do cronista, não tivesse erros (capítulo II da Primeira Parte). O irmão nasceu servo de Varvara Pietrovna e mal a vê (capítulo I da Primeira Parte); ela cresceu do lado de dentro da casa, discreta, agradecida e quase sempre calada. Tem uns vinte anos. Aparece no livro como objeto de decisões alheias, casada em projeto por quem a criou, suspeita de pecados que não são dela por quem teme o noivado, comparada a uma enfermeira por Stavróguin, e só duas vezes o texto lhe dá voz própria sobre o que quer. As duas apontam para o mesmo homem.

Trajetória

No capítulo II da Primeira Parte, Varvara Pietrovna a leva à Suíça, onde Stavróguin anda com os Drózdov, e a deixa lá ao voltar. Em agosto, a história que Praskóvia Ivánovna traz, a de uma briga em que Lizavieta Nikoláievna Tuchina viu Stavróguin conversando com Dária e ficou furiosa, leva Varvara Pietrovna a passar a noite em claro e, de manhã, a um projeto: casar a pupila com Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski. À mesa do chá ela pergunta se há algo na alma, no coração ou na consciência que a moça queira contar, ouve nada com firmeza sombria e só então pergunta se quer casar. Dá os termos: quinze mil rublos do testamento depois do casamento, dos quais oito mil quitarão a dívida de Stiepan como se fossem de Dária, e uma pensão anual ao casal. Dária diz, com firmeza, que lhe é indiferente, se o casamento for inevitável, e Varvara Pietrovna se detém na palavra; a moça acaba concordando de olhos baixos e pergunta só se ele já sabe.

Я эгоистка, будь и ты эгоисткой. Я ведь не неволю; всё в твоей воле, как скажешь, так и будет., sou egoísta, seja você também egoísta. Eu não obrigo; tudo depende da sua vontade, o que você disser será feito.
Primeira Parte: O pai dos demônios

No capítulo III da Primeira Parte, Stiepan, que não vê a noiva, exige que ela lhe diga na cara, diante do céu, se há segredo, e termina a semana na frase que a atinge sem nomeá-la:

Не могу же я жениться на «чужих грехах»!, não posso, afinal, casar com «pecados alheios»!
Primeira Parte: Os fios se atam

No capítulo V da Primeira Parte, Dária entra pela porta lateral quando Varvara Pietrovna a manda chamar, sem ter sido avisada de que Mária Timofêievna Lebiádkina está na sala. Mária se espanta de que o irmão dela, o capitão Ignat Lebiádkin, chame de serva de gleba uma moça tão encantadora, e Dária a olha fixamente. Responde ao interrogatório de Varvara Pietrovna com calma, sem rastro de perturbação: nunca a viu, deve ser a irmã doente do capitão, a quem entregou trezentos rublos, a pedido de Stavróguin, ainda na Suíça. O cronista nota que era difícil abalar essa moça por muito tempo, fosse o que fosse que sentisse por dentro. Varvara Pietrovna a absolve diante de todos, atribui o dinheiro a um capricho do filho e assume a defesa dela. Quando Stavróguin chega a Dária e pergunta se se pode felicitá-la, ou ainda não, ela responde baixo que sabe; e Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski cobra a ela a aposta feita na Suíça de que nunca se casaria. Depois, quando Stiepan é expulso, ela se adianta a ele, angustiada, para dizer que o respeita e o estima e lhe pedir que pense bem dela também. Liza, desde que a vê entrar, olha-a com ódio e desprezo que não se escondem.

No capítulo III da Segunda Parte, depois do duelo, Dária espera atrás da saliência do corredor e ouve a ordem que Stavróguin dá ao criado para barrar a mãe. Ele diz que queria romper, ela responde que também pensara nisso, porque Varvara Pietrovna suspeita demais das relações entre os dois. Ela está certa de que haverá um fim e de que então, se ele a chamar, ela irá. Diz ainda que, se não for a ele, será enfermeira de doentes ou vendedora de Evangelhos pelas estradas, porque não pode ser mulher de ninguém nem viver em casas como aquela, e acrescenta que ele sabe o que ela quer. Ele responde que nunca conseguiu saber, e a compara a uma enfermeira velha que se apega a um só doente. Conta-lhe a cena da ponte, em que Fiedka, um diabinho, lhe propôs matar os Lebiádkin por mil e quinhentos rublos, e a provoca com uma pergunta que ela se recusa a ouvir: se viria mesmo depois da lojinha de Fiedka. Ela sai de rosto escondido nas mãos, sem responder, depois de ter dito o que espera:

Я знаю, что в конце концов с вами останусь одна я, и… жду того, sei que no fim vou ficar só eu com o senhor, e… é isso que espero.
Segunda Parte: A noite dos credores

No capítulo VII da Terceira Parte, na aldeia onde Stiepan adoece, ele conta a Sófia Matvêievna uma história de amor calado por vinte anos entre uma morena, que é Varvara Pietrovna, e uma loura; o cronista supõe que a loura seja Dária, mas só supõe, e na mesma noite o próprio Stiepan confessa que mentiu a vida inteira. Quando Varvara Pietrovna chega ao leito, traz Dária e dois lacaios e a manda buscar o doutor Salzfisch. No capítulo VIII da Terceira Parte, quando Varvara Pietrovna volta à casa da cidade e se tranca a sós, a criada entrega a Dária, de manhã, uma carta de Stavróguin que chegou na véspera à noite por um desconhecido, e ela a reconhece antes de abrir. Ele lhe lembra que ela quis ser sua enfermeira, diz que parte em dois dias e não volta, que tem uma casinha no cantão de Uri e dinheiro, e pede que o acompanhe, ao mesmo tempo que diz que chamá-la é uma baixeza terrível. No mesmo trecho declara por que não se mata:

Я знаю, что мне надо бы убить себя, смести себя с земли как подлое насекомое; но я боюсь самоубийства, ибо боюсь показать великодушие. Я знаю, что это будет еще обман, — последний обман, sei que devia me matar, varrer-me da terra como um inseto vil; mas tenho medo do suicídio, porque temo mostrar magnanimidade. Sei que isso seria ainda um engano, o último engano.
Terceira Parte: A última errância

Dária leva a carta a Varvara Pietrovna, que a lê sozinha, a chama de novo e pergunta, quase tímida, se vai. Ela diz que sim. Varvara Pietrovna manda se arrumarem, vão juntas, e a partida é interrompida pelo criado Aleksiêi Iegóritch, que traz a notícia de que Stavróguin chegou de madrugada, trancou-se na ala dele e não responde às perguntas. No sótão, Dária sobe atrás de Varvara Pietrovna, entra, grita e cai desmaiada.

Temas que encarna

Dária é a personagem de quem mais se fala e menos se ouve. Cada um que a nomeia fala dela com a sua necessidade: Stiepan a vê como a suspeita que torna o noivado uma humilhação; Varvara Pietrovna, como o problema que um casamento resolve; o capitão, como alvo de uma acusação sobre dinheiro; Stavróguin, como alguém cujo desejo diz nunca ter entendido. A Família em volta dela é uma disposição de peças: a benfeitora casa a moça pelo bem dela e pela dívida de outro, o irmão não aparece, o noivado vem pronto.

O que ela aceita na cena da porta sustenta duas leituras, e o próprio Stavróguin dá a primeira. Na primeira, é devoção de enfermeira, o apego de quem escolhe um doente entre vários, e a comparação é dele, dita com asco. Na segunda, é decisão lúcida de uma moça inteligente que sabe o que ele é, ouviu dele mesmo que a arruinará e a chamará, diz que não pode ser mulher de ninguém nem viver na casa em que cresceu, e vai assim mesmo. As páginas seguintes não resolvem: ela vai quando a carta chega, e o que encontra no sótão é o fim que dizia esperar, sem a resposta do que viria depois.

Dária também carrega, de outro modo, o que o tema da Culpa chama de pecado alheio. Stiepan recusa casar com pecados alheios, e a frase lhe cabe sem que o livro diga se existem; ela, em silêncio e de antemão, aceita partilhar o pior de quem a chamará. É o contrário do que Stavróguin pede ao bispo Tíkhon, ser o único culpado, perdoado por poucos e odiado por todos, e que Tíkhon, em «Com Tíkhon», devolve com a ideia de que nenhum pecado é isolado e cada um é culpado, de algum modo, do pecado dos outros. Dária é a que faz disso uma conduta, sem dizer uma frase sobre a tese.

Relações