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Personagem

Varvara Pietrovna Stavróguina

Quem é

Varvara Pietrovna Stavróguina é a viúva de um tenente-general, muito rica, dona da propriedade de Skvoriéchniki e de uma casa na cidade, mãe de Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin e patrona de Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski, a quem sustenta há mais de vinte anos (capítulo I da Primeira Parte). Quer ser uma mulher de grande classe: por isso o humor de Stiepan a assusta, e por isso o figurino dele, sobrecasaca preta, chapéu mole, gravata branca e bengala de castão de prata, saiu do desenho que ela guardava desde o internato do poeta Kúkolnik (capítulo I da Primeira Parte). Criou também a pupila Dária Pávlovna Chátova, de quem decidiu desde os doze anos que nessa vida não haveria erros (capítulo II da Primeira Parte), e foi amiga de internato e rival de Praskóvia Ivánovna Drózdova, mãe de Lizavieta Nikoláievna Tuchina, com quem as casas romperam sem que ela soubesse o motivo (capítulo V da Primeira Parte). Nos últimos anos tornou-se econômica e calculista, recuperou a fazenda e dá esmolas com a cidade em vista (capítulo II da Primeira Parte, capítulo IV da Primeira Parte). O que quer é que as invenções dela fiquem de pé: Stiepan, Dária, o casamento do filho com Liza, a sua casa como a melhor da cidade (capítulo I da Primeira Parte, capítulo V da Segunda Parte). O que teme é a sanidade do filho, que ela só ousa perguntar, em confiança, a Lipútin (capítulo III da Primeira Parte). O que sabe é guardar: as cartas de Stiepan numa caixinha, as ofensas por anos, a frase que nunca esquecerá (capítulo I da Primeira Parte). Onde se engana é em confundir decidir pelos outros com amar os outros: diz a Dária que tudo depende da vontade dela depois de ter resolvido o marido, o dote e o dia (capítulo II da Primeira Parte), e a Stiepan que a amizade dos dois foi só um derramamento mútuo (capítulo V da Segunda Parte), e descobre, no leito de morte dele, que vinte anos passaram (capítulo VII da Terceira Parte).

Trajetória

No capítulo I da Primeira Parte o cronista descreve a mecânica da amizade dos dois: ela lê as cartas de Stiepan, guarda-as numa caixinha, deixa-o um dia inteiro sem resposta e o recebe depois como se nada tivesse acontecido, adestrando-o a não lembrar a véspera. É a primeira vez que o texto nomeia o que ela faz com ele:

что стал наконец для нее ее сыном, ее созданием, даже, можно сказать, ее изобретением [...] Она его выдумала и в свою выдумку сама же первая и уверовала, que ele acabou virando para ela um filho, uma criatura sua, até, dá para dizer, uma invenção sua [...] Ela o inventou, e foi a primeira a crer na invenção que fez.
Primeira Parte: O pai dos demônios

A frase que ela diz duas vezes na vida, sussurrada, pálida, depois que Stiepan grita hurra diante de um barão de Petersburgo e depois que ele a olha com uma expressão caprichosa nas noites de caramanchão, é que nunca esquecerá. Quando a temporada de Petersburgo, com seus literatos desdenhosos, termina com cinco deles exigindo o jornal dela e que volte a Skvoriéchniki levando Stiepan, que envelheceu, ela o manda a Berlim descansar, porque sente que precisam se separar por um tempo. Envia cem rublos anônimos a Ivan Chátov, que descobre a origem e vai agradecer.

No capítulo II da Primeira Parte acompanha o pupilo pelos escândalos, escreve cerca de cem cartas, se humilha, e não se tranquiliza com o Harry de Shakespeare que Stiepan invoca. Quando Nicolas morde a orelha do governador e é preso, corre ao governador e é barrada à porta. Na volta da Suíça, onde desfez uma intriga contra o namoro de Nicolas e Liza, conta tudo a Stiepan e, ao ouvir dos Drózdov, no fim de agosto, que Nicolas partiu e que algo se passou entre ele e Liza, pensa a noite inteira e chega pela manhã a um projeto: casar Dária com Stiepan. À mesa do chá, pergunta à moça se há algo na alma que queira contar e ouve que não; propõe o marido, e o que lhe dá é um dever:

Он тебя любить будет, потому что должен, должен; он обожать тебя должен!, ele vai amar você porque deve, deve; ele tem de adorar você!
Primeira Parte: O pai dos demônios

E uma liberdade que ela mesma desmente:

Я эгоистка, будь и ты эгоисткой. Я ведь не неволю; всё в твоей воле, как скажешь, так и будет., sou egoísta, seja você também egoísta. Eu não obrigo; tudo depende da sua vontade, o que você disser será feito.
Primeira Parte: O pai dos demônios

Fixa a dívida de oito mil rublos de Stiepan, o dote de Dária e a pensão do casal, e sai a pé, de calçadas molhadas, para a casa dele, a quem diz que só se casam as moças e que ele casa por conta própria.

No capítulo III da Primeira Parte se recusa a recebê-lo e promete devolver sem abrir as cartas dele, e os bilhetes que lhe manda são sobre Karmazínov, de quem quer ser visitada; manda chamar Lipútin e lhe pergunta em confiança se o filho lhe parece são ou doente. Marca para o domingo, ao meio-dia, a resposta definitiva. No capítulo IV da Primeira Parte, na catedral, de preto, reza com um empenho quase de lágrimas; no adro, uma mulher pobre, manca, com uma rosa de papel no cabelo, se ajoelha diante dela, e o cronista julga que ela parou em plena porta com certo prazer, para que a governadora Yúlia Mikháilovna von Lembke veja que lhe é indiferente o que ela pensa. Cobre a mulher com seu xale e a põe na carruagem, e diante da manca que corre alegre à portinhola exclama:

Как! Вы хромаете!, como! A senhora manca!
Primeira Parte: Os fios se atam

No capítulo V da Primeira Parte entra voando no salão, manda a mulher sentar-se, interroga Chátov, Dária e o capitão Lebiádkin; defende-se de Praskóvia Ivánovna com um excesso de calma, conta que também ela recebeu uma carta anônima e se despede de Liza, com a voz quase em lágrimas, prometendo não deixar de amá-la, o que quer que o destino lhe prometa; Liza fica com ela uns dias. Quando o filho chega, a pergunta que ela corta em palavras firmes é a que nunca fizera:

правда ли, что она… законная жена ваша, é verdade que ela... é sua esposa legítima?
Primeira Parte: A bofetada

Ele beija-lhe a mão e não responde. Ela ouve Piotr contar a anedota de Petersburgo, que só faz honra a Nikolai Vsievolódovitch:

весь анекдот делает только честь Николаю Всеволодовичу, toda a anedota só faz honra a Nikolai Vsievolódovitch.
Primeira Parte: A bofetada

Adota a versão que a eleva, o filho cavalheiresco, o Hamlet, e diz que vai adotar a infeliz, que é um dever. Quando Piotr lê a carta de Stiepan, ela, amarela, os lábios trêmulos, ouve com um prazer maligno que pela primeira vez em vinte anos abre os olhos, e manda o amigo deixar a casa e nunca mais pôr os pés nela.

No capítulo I da Segunda Parte ronda a porta do gabinete do filho, trancado uma semana. No capítulo III da Segunda Parte, enquanto Stavróguin se bate em duelo, passeia sozinha de carruagem, contente de ele ter montado pela primeira vez desde a doença; ele manda barrá-la ao voltar. No capítulo IV da Segunda Parte, triunfante porque a cidade o absolve, visita Yúlia Mikháilovna para agradecer, sai fascinada por ela e furiosa com Stiepan. No capítulo V da Segunda Parte prepara em Skvoriéchniki uma festa própria, para depois da de Yúlia, a fim de mostrar qual casa recebe melhor, e chama Stiepan, de lápis e papel na mão: três mil rublos por ano, onde quiser menos com ela. Ouve dele, aos gritos, que as palavras dela são alheias:

Боже, сколько чужих слов! Затверженные уроки! И на вас уже надели они свой мундир! Вы тоже в радости, вы тоже на солнце; chère, chère, за какое чечевичное варево продали вы им вашу свободу!, meu Deus, quantas palavras alheias! Lições decoradas! E eles já puseram em você o uniforme deles! Você também está na alegria, você também está no sol; chère, chère, por que prato de lentilhas você lhes vendeu a sua liberdade!
Segunda Parte: A cidade à espera

Responde que não é papagaio e abre a lista dos agravos, os livros negados, o ciúme do desenvolvimento dela, a Madona de Dresden desprezada. Quando ele diz Alea jacta est, responde que não entende latim, que ele não irá a lugar nenhum e que acabará nos braços dela, com a pensão, recebendo às terças os amigos que não prestam.

No capítulo X da Segunda Parte, no salão de Yúlia, quando Stavróguin responde à pergunta de Liza que é marido da irmã do capitão, levanta-se como louca, com a mão à frente, como que para se defender, e à noite se tranca na casa da cidade. Para a matinê de Yúlia, no capítulo I da Terceira Parte, pagara trezentos rublos por um ingresso e mandara as flores da estufa. No capítulo IV da Terceira Parte chega à cidade a notícia de que o filho partiu sem vê-la.

No capítulo VII da Terceira Parte vai atrás de Stiepan na pista quente, com Dária e dois lacaios. Entra gritando, expulsa Sófia Matvêievna, pergunta com ironia furiosa como foi o passeio e, só ao vê-lo desfalecer, entende a doença; manda chamar o médico e traz de volta a mulher que expulsara, dizendo que não a comeu. Ouve de Stiepan que o amou a vida inteira e responde no sussurro dos agravos de vinte anos, o perfume, a gravata, o charuto, a lua, e o chama de vazio, glorioso, covarde, eternamente vazio, antes de se conter: vinte anos passaram, burra também fui eu. Quando o doutor lhe lembra que tem um filho, corta: não tenho filho. No capítulo VIII da Terceira Parte, de volta, é na casa da cidade que as notícias desabam sobre ela e se tranca; Dária lhe leva a carta de Stavróguin, que ela lê sozinha, e ela pergunta, quase tímida, se Dária vai, e diz que também se registrará em Uri e viverá no desfiladeiro. Antes do trem do meio-dia, Aleksiêi Iegóritch chega de Skvoriéchniki para avisar que o patrão voltou de manhã e se trancou na ala dele; ela o encara sem perguntar, manda atrelar e, no caminho, dizem, benze-se muitas vezes. Na ala todas as portas estão abertas, e quando alguém aponta a porta da água-furtada, ela diz, muito pálida, olhando os criados que a fitam em silêncio, que não vai lá e por que ele iria até lá. Sobe, e Dária atrás dela.

Temas que encarna

Varvara Pietrovna é a Família do romance no registro do poder: tudo o que acontece em casa passa por ela antes de acontecer, e é com ela que a filiação entre o liberal idealista e os niilistas se prova na prática. Stiepan fica de pé porque ela o inventou, Dária se casa porque ela já resolveu, Nicolas se explica pela doença porque a cidade precisa da doença, e ela a perdoa, e o dinheiro que dá a todos é a moeda do controle. A cidade a trata como aliada ou rival conforme sopra a opinião de Yúlia Mikháilovna, e é nos salões das duas que a questão do Indivíduo e sociedade se decide: a visita que ela faz à governadora para agradecer (capítulo IV da Segunda Parte) e a passagem que lhe cede à porta da catedral (capítulo IV da Primeira Parte) mostram quem leva a cidade para qual lado.

A mecânica de controle que ela usa sobre Stiepan e sobre Dária, em que a decisão é anunciada como escolha e o preço está fixado de antemão, antecipa em escala doméstica o princípio de compartimentação que o grupo de Piotr aplica à rede da cidade. A diferença é que ela acredita na invenção que faz, e Piotr não acredita em nenhuma.

Leituras divergentes

O texto deixa de pé duas leituras do que ela sente por Stiepan. Nas cartas dele, ela o segura por vaidade ou por inveja do talento; sob o ódio frequente, o cronista enxerga um amor insuportável, e por isso ela exige em troca servidão (capítulo I da Primeira Parte). E a mesma mulher que o chama de vazio no leito de morte é a que manda buscar o médico e chama de volta a enfermeira que expulsou, sem que o texto separe nela o amor do mando: grita porque teme (capítulo VII da Terceira Parte). Duas leituras cabem para o susto diante da coxeadura de Mária Timofêievna, rachadura na máscara de benfeitora: a confirmação do que ela já ouvira ou temia, ou a percepção de que a desconhecida que beijou sua mão não é uma desvalida qualquer (capítulo IV da Primeira Parte).

Também há duas leituras do que ela faz com Dária. Dizer que tudo depende da vontade da moça, depois de resolver tudo, é a maneira que ela tem de testar uma suspeita que nega, ou é simples zelo de benfeitora que arruma a vida de todos de uma vez (capítulo II da Primeira Parte). O cronista dá a entender que ela mesma não tinha clareza do que fazia; o romance não resolve, e Dária, a quem ela disse que tudo dependia da vontade dela, é quem parte com ela atrás do filho (capítulo VIII da Terceira Parte). E há duas leituras do que fica: o desfecho de Varvara Pietrovna é o da mãe que perde o filho, ou o da mulher que, depois de vinte anos, descobre que as invenções dela também se vão.

Relações