Quem é
Mária Timofêievna Lebiádkina é a irmã do capitão Ignat Lebiádkin, a coxa e louca da casa de Filíppov, e a esposa legítima de Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin: casaram em Petersburgo, quase cinco anos antes do salão, com Alexei Kiríllov e Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski por testemunhas, e ela é virgem (capítulo I da Segunda Parte, capítulo X da Segunda Parte). Tem uns trinta anos, doentiamente magra, de vestido escuro de chita, pescoço longo descoberto, cabelos ralos presos numa trouxinha, branqueada e pintada, e vive entre uma vela, um espelhinho, um baralho velho, um cancioneiro rasgado e um pãozinho alemão mordido uma vez (capítulo IV da Primeira Parte). O irmão a espanca, não a alimenta, a velha do pavilhão lhe traz algo por caridade; os ataques nervosos quase diários lhe apagam a memória e a fazem refazer tudo à sua maneira, e passa horas sonhando acordada (capítulo IV da Primeira Parte). O que quer, por si, é pouco e preciso: beijar a mãozinha de quem a trata bem, e esperar o falcão, o príncipe (capítulo IV da Primeira Parte, capítulo II da Segunda Parte). O que teme é o crepúsculo, a hora em que volta a memória e o choro pelo filho, e há cinco anos, dia e noite, ter uma culpa grande diante do marido sem saber qual (capítulo IV da Primeira Parte, capítulo II da Segunda Parte). O que sabe, e diz a ele no rosto, é que o homem de carne e osso se envergonhou dela diante de uma moça da sociedade, e que o príncipe que ela esperava nunca se envergonharia (capítulo II da Segunda Parte). Onde se engana, ou acerta sem saber, é em chamá-lo de impostor: não há trono, e há um fato (capítulo II da Segunda Parte). É morta a facadas, caída junto à porta, o que mostra que lutou acordada (capítulo III da Terceira Parte).
Trajetória
No capítulo III da Primeira Parte aparece primeiro como assunto: Lipútin conta a Stiepan Trofímovitch que a irmã doida do capitão é chicoteada com uma nagaika de cossaco de manhã e à noite, que Kiríllov arrancou a nagaika e a quebrou, e que o capitão cobra todo ano uma tarifa do sedutor dela. No capítulo IV da Primeira Parte, na casa de Filíppov, Chátov leva o cronista a vê-la às escondidas, enquanto o irmão dorme no chão. Ela os recebe com alegria; chama Chátov de Chátuchka, pergunta quando ele se penteou pela última vez e o penteia com o pente que tira do bolso, e diz que acha engraçado ele ser tão sisudo: angústia não é tédio, e ela está alegre. Conta a história do convento, em que a madre-superiora não acreditava na bem-aventurada Lizaveta, emparedada numa gaiola havia dezessete anos, e em que ela mesma disse que para ela Deus e a natureza são a mesma coisa, e todos exclamaram. Uma velha penitente lhe sussurrou à saída da igreja o que a marcou:
Так, говорит, богородица — великая мать сыра земля есть, и великая в том для человека заключается радость. И всякая тоска земная и всякая слеза земная — радость нам есть, assim é, disse ela: a Mãe de Deus é a grande mãe, a terra úmida, e nisso há para o homem uma grande alegria. E toda angústia da terra e toda lágrima da terra são alegria para nós.
Conta que sobe a uma montanha e cai por terra e chora sem lembrar o tempo, e que, quando o sol se põe, volta a memória, e com ela o choro pelo filho. Chátov pergunta se houve filho, e ela diz que sim, pequeno, rosado, de unhas minúsculas; embrulhou-o em cambraia e renda, rezou, levou-o pela floresta sem batizar e o jogou num lago:
и всего больше я плачу о том, что родила я его, а мужа не знаю, e o que mais me faz chorar é isto: que o dei à luz e não conheço o marido.
Quando ele lhe pergunta se houve de fato, ela responde que é difícil e que chora do mesmo modo, e muda de assunto; pergunta por que ele nunca lhe pergunta nada, e diz que, se ele pedisse bem, talvez dissesse, mas que não dirá nem que a matem. No domingo, na catedral, o cronista conta que chegou numa carroça de aluguel, pagou quatro copeques ao cocheiro, disse que era tudo que tinha, entrou com uma rosa de papel no cabelo, sem xale num dia frio de setembro, e depois do sermão, no adro, ajoelhou-se diante de Varvara Pietrovna:
Я приехала только, чтобы вашу ручку поцеловать…, vim só para beijar a sua mãozinha...
Perguntada se é a senhora Lebiádkina, responde que não, que seu irmão é Lebiádkin. Varvara Pietrovna a leva para casa, e ela ri histericamente nos três minutos do trajeto. No capítulo V da Primeira Parte, na sala de Varvara Pietrovna Stavróguina, examina o mobiliário, o teto pintado e o crucifixo de bronze com prazer, diz merci ao café e pergunta se a tia está zangada, reconhece Chátov e a irmã dele, Dária Pávlovna Chátova, e se espanta de que o irmão chame tal encanto de serva de gleba. Quando Stavróguin chega e lhe diz com seriedade de quem convence uma criança que é para ela um estranho, não marido, nem pai, nem noivo, pergunta se pode se ajoelhar diante dele e, ao pisar na perna curta, cai de lado sobre a poltrona; sai da sala quase pendurada no braço dele, envergonhada, corada, manca.
No capítulo II da Segunda Parte, na casa nova do capitão, dorme sentada no sofá e acorda com o olhar parado de Stavróguin sobre ela, e chora como criança. Chama-o de príncipe e diz que não serve para ser condessa; teme que o magoem com um comentário sobre ela, e acha que o que sentirão por ela é mais pena do que vergonha. Ele lhe oferece uma vida em montanhas distantes da Suíça, sem tocá-la, e ela ri: quarenta anos ali é absurdo, e não pode ser que um falcão vire coruja. Pergunta por que ele a chama de príncipe, ouve que nunca foi príncipe, e então o declara impostor, pergunta se matou o verdadeiro e diz como o desmascarou:
Как увидала я твое низкое лицо, когда упала, а ты меня подхватил, — точно червь ко мне в сердце заполз: не он, думаю, не он! Не постыдился бы сокол мой меня никогда пред светской барышней, quando vi a tua cara baixa, na hora em que caí e você me apanhou, foi como se um verme me entrasse no coração: não é ele, pensei, não é ele! O meu falcão nunca teria vergonha de mim diante de uma moça da sociedade!
Joseph Frank a toma por quem o desmascara de fato, ao chamá-lo de Grichka Otriépiev, o impostor histórico que se fez passar por tsar.
Acusa-o de ter uma faca no bolso. Ele a empurra contra o sofá e foge; ela o persegue, coxeando, até ser retida pelo capitão no alpendre, de onde grita, com riso e guincho, o nome do falso Dmítri, anátema. No capítulo II da Terceira Parte, na noite do baile, Chátov vai vê-la e a encontra bem, e o capitão morto de bêbado num sofá. No capítulo III da Terceira Parte a casa nova, isolada, a cinquenta passos das outras, pega fogo antes das outras e não se consome, porque o dono a salva com a vizinhança; dentro estão o capitão de garganta cortada, a criada de cabeça arrebentada e ela, crivada de facadas, caída junto à porta. Quem matou sabia onde estava o dinheiro, e o baú dela e o revestimento de prata do ícone não foram tocados.
Temas que encarna
Mária Timofêievna é a Verdade e mentira dita por quem o mundo não leva a sério: a cidade a toma por louca, o irmão a trata como bicho, Piotr a descreve como o capricho de um homem cansado, e é ela quem diz de Stavróguin o que ninguém na sala diz. O que a liga ao Deus e o divino não é doutrina, e sim um modo de rezar com o corpo: beija o chão, chora sem causa, acha que as lágrimas correm sozinhas e não são ruins (capítulo IV da Primeira Parte). E o que a liga à Culpa é o medo, de cinco anos, de ter ofendido o marido sem saber como (capítulo II da Segunda Parte).
O que a faz tão difícil de ler é que ela mistura os registros. Na mesma conversa diz Deus e a natureza, o convento, o filho no lago, a Mãe de Deus como terra úmida e o homem que ela não conhece (capítulo IV da Primeira Parte), e o romance a faz dizer, cinco anos de casada, o que mais ninguém ousa: que o homem que a ampara na sala se envergonhou dela. É a mulher a quem Stavróguin se liga por tédio e por desejo de aviltar a vida, e a que o desmascara quando ele tenta tratá-la com ternura.
Leituras divergentes
O texto não decide entre a louca de Deus e a mulher ferida. Quando ela fala da Mãe de Deus e das lágrimas, ora aparece alguém que atravessou o luto e acha alegria, ora alguém que não sabe onde acaba a profecia e começa o delírio (capítulo IV da Primeira Parte). Quando fala do filho, o cronista não sabe se houve um parto real e um marido que ela esconde, ou um delírio de que a dor é a prova; Chátov insiste, ela responde que a pergunta é difícil e chora do mesmo modo (capítulo IV da Primeira Parte). Quando, no adro, pede só para beijar a mão, a cena tem duas leituras, um pedido ingênuo de quem diz o que sente, ou o gesto de quem sabe quem é Varvara Pietrovna e o que a comove (capítulo IV da Primeira Parte). E quando acusa Stavróguin de impostor, o texto soma um delírio, porque não há trono, e um diagnóstico exato, a vergonha, sem separá-los (capítulo II da Segunda Parte).
Mária Timofêievna e Liza fazem a Stavróguin, cada uma a seu modo, a pergunta que o romance não responde: uma lhe diz que ele é impostor, a outra lhe pede que diga se é culpado, e as duas morrem na esteira dele. Piotr jura que não mandou matar os Lebiádkin e atribui a morte a Fiedka e ao dinheiro que o capitão mostrava; Stavróguin diz a Liza que sabia e não deteve (capítulo III da Terceira Parte).
Relações
- Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin: o marido secreto, que a trata como a uma marquesa, que lhe diz que é um estranho e a quem ela chama de impostor (capítulo V da Primeira Parte, capítulo II da Segunda Parte).
- Ignat Lebiádkin: o irmão que a espanca, cobra por ela do sedutor e morre com ela (capítulo IV da Primeira Parte, capítulo V da Primeira Parte, capítulo III da Terceira Parte).
- Ivan Chátov: o vizinho que a visita às escondidas e que ela penteia, e a quem diz que não dirá o seu segredo nem que a matem (capítulo IV da Primeira Parte).
- Varvara Pietrovna Stavróguina: a benfeitora a quem ela só queria beijar a mão e que se assusta ao ver que ela manca (capítulo IV da Primeira Parte).
- Lizavieta Nikoláievna Tuchina: a moça que exige vê-la e que a acompanha com o olhar até a porta (capítulo IV da Primeira Parte, capítulo V da Primeira Parte).
- Dária Pávlovna Chátova: a pupila que o irmão dela chama de serva e cuja beleza ela admira (capítulo V da Primeira Parte).
- Fiedka: o servo fugido a quem Stavróguin lança o dinheiro depois da cena com ela (capítulo II da Segunda Parte), e a quem Piotr atribui a morte dela (capítulo III da Terceira Parte).
- Alexei Kiríllov: testemunha do casamento dela e quem arrancou a nagaika (capítulo III da Primeira Parte, capítulo I da Segunda Parte).