Quem é
Grigori Vassílievitch é o velho criado da casa de Fiódor Pávlovitch Karamázov, casado com Marfa Ignátievna, firme e inflexível, que vai em linha reta a um ponto sempre que o toma por verdade, honesto e incorruptível (capítulo I do Livro III). Cuidou dos filhos do patrão quando o pai os esqueceu: sustentou Mítia na isbá do pátio durante quase um ano (capítulo II do Livro I) e abrigou Ivan e Aliócha depois da morte da mãe deles (capítulo III do Livro I). É o homem em quem Fiódor confia, sem dizê-lo, nas noites de bebedeira, e o que recolheu o recém-nascido de Lisavieta e o criou como filho, Smierdiakóv (capítulo II do Livro III). O que o define é a lealdade que não pergunta se o patrão a merece: decide pela mulher, sem dar razão, que ficar com o antigo senhor, fosse ele como fosse, era dever deles (capítulo I do Livro III). Ferido no jardim na noite do crime, torna-se a testemunha de que a porta da casa para o jardim estava aberta (capítulo IV do Livro VIII, capítulo VI do Livro IX).
Trajetória
No capítulo III do Livro I toma o partido da segunda mulher de Fiódor, Sófia, briga com o patrão de um jeito quase proibido a um servo e uma vez expulsa à força a orgia e as mulheres. Quando a velha generala chega para levar as crianças ele apanha dela, inclina-se e diz que Deus lhe pagará pelos órfãos. No capítulo IV do Livro I, de volta à cidade, Fiódor passa a ser vigiado por ele quase como por um aio, e Grigori leva Aliócha ao túmulo da mãe, uma laje de ferro que ele mesmo pagou.
O capítulo I do Livro III apresenta o casal. Depois da emancipação dos servos Marfa quis deixar Fiódor, ir a Moscou e abrir um comércio, e Grigori decidiu, sem dar razão, que ficar era dever deles:
И не понимай, а оно так будет. Впредь молчи., E não entenda, mas assim será. Daqui em diante, cale-se.
Quando o filho de Marfa nasceu com seis dedos, ele disse ao padre que a criança não devia ser batizada, porque era um dragão, e o menino morreu em duas semanas. Depois disso lê as Vidas dos santos, o livro de Jó e as homilias de Isaac, o Sírio, das quais entende pouco, talvez por isso as preza. Fiódor tem por ele o que o narrador chama de necessidade de um homem fiel:
Дело было именно в том, чтобы был непременно другой человек, старинный и дружественный, чтобы в больную минуту позвать его, только с тем чтобы всмотреться в его лицо, пожалуй переброситься словцом, совсем даже посторонним каким-нибудь, и коли он ничего, не сердится, то как-то и легче сердцу, а коли сердится, ну, тогда грустней., A questão era justamente que houvesse sem falta um outro homem, antigo e amigo, a quem chamar na hora doente, só para olhar o rosto dele, quem sabe trocar uma palavrinha, até alheia ao assunto, e se ele está bem, não se zanga, o coração fica de algum modo mais leve, e se se zanga, bem, então fica mais triste.
No capítulo II do Livro III defende o patrão contra o boato de que o pai da criança de Lisavieta é ele e nomeia outro culpado:
«Она сама, низкая, виновата», — говорил он утвердительно, а обидчиком был не кто иной, как «Карп с винтом», A culpada é ela mesma, a vil, e o ofensor não era outro senão Karp com Parafuso.
Recolhe o recém-nascido que Lisavieta deu à luz na casinha de banho do jardim e o entrega a Marfa como dádiva do filho morto:
Божье дитя-сирота — всем родня, а нам с тобой подавно. Этого покойничек наш прислал, а произошел сей от бесова сына и от праведницы. Питай и впредь не плачь, Criança de Deus, órfã, é parente de todos, e de nós dois com mais razão. Este nosso defuntinho é quem mandou, mas este nasceu de um filho do demônio e de uma justa. Alimente-o e daqui em diante não chore.
No capítulo VI do Livro III puniu o menino com varas por enforcar gatos, disse-lhe que não era gente, nascido da umidade do banho, e, quando ele aos doze anos, na lição de história sagrada, lhe perguntou de onde vinha a luz do primeiro dia, respondeu com uma bofetada:
Свет создал господь бог в первый день, а солнце, луну и звезды на четвертый день. Откуда же свет-то сиял в первый день?, O Senhor Deus criou a luz no primeiro dia, e o sol, a lua e as estrelas no quarto dia. De onde, então, brilhava a luz no primeiro dia?
No capítulo VII do Livro III, à mesa de Fiódor, conta a história do soldado que se deixou esfolar vivo por não renegar Cristo, e Smierdiakóv, que sorri à porta, usa a mesma fé que Grigori diz ter para desafiá-lo:
попробуйте сами-с сказать сей горе, чтобы не то чтобы в море (потому что до моря отсюда далеко-с), но даже хоть в речку нашу вонючую съехала, вот что у нас за садом течет, то и увидите сами в тот же момент, что ничего не съедет-с, experimente o senhor mesmo dizer a esta montanha que, não digo para o mar (porque daqui até o mar é longe), mas ao menos para o nosso rio fedorento, o que corre atrás do jardim, se mova, e o senhor verá na mesma hora que nada se moverá.
No capítulo IX do Livro III fecha as portas dos aposentos internos e fica diante delas de braços em cruz para defender a entrada, e Mítia o derruba com um soco. No salão, sombrio, repete devagar, separando as sílabas:
Он меня дерзнул!, Ele se atreveu comigo!
E conta o que foi para Mítia:
Я его в корыте мыл… он меня дерзнул!, Eu o lavei na gamela… ele se atreveu comigo!
No capítulo II do Livro IV e no capítulo VI do Livro V está de cama no anexo, e Smierdiakóv explica a Ivan que Marfa o tratará com uma tintura da qual os dois cairão em sono pesado e dificilmente ouvirão coisa alguma. No capítulo VII do Livro V está com a cintura travada, e o dia é uma sucessão de males para Fiódor.
No capítulo IV do Livro VIII, na noite do crime, acorda sem motivo, sente uma pontada nas costas, vai ao jardim por escrúpulo de deixar a casa sem guarda, vê o portão aberto e a janela do patrão escancarada, corre atrás de uma sombra que sobe o muro e agarra-lhe a perna com as duas mãos. É Mítia, e mal consegue gritar parricida antes de cair. Mítia salta de volta ao jardim, inclina-se sobre o velho e, sem pensar, joga o pilão fora:
он машинально отбросил его в траву. Пестик упал в двух шагах от Григория, но не в траву, а на тропинку, на самое видное место., jogou-o maquinalmente na grama. O pilão caiu a dois passos de Grigori, mas não na grama, e sim na trilha, no lugar mais visível.
No capítulo II do Livro IX o alarme é dado por ele e por Marfa, que o acha a vinte passos da cerca, ferido, murmurando que o patrão foi morto. No capítulo III do Livro IX, ao saber que Grigori vive, Mítia grita de alegria e diz quem ele foi para ele:
Этот старик — ведь он носил меня на руках, господа, мыл меня в корыте, когда меня трехлетнего ребенка все покинули, был отцом родным!.., Esse velho me carregava nos braços, senhores, me lavava na tina quando todos me abandonaram, aos três anos, era um pai de verdade!..
No capítulo V do Livro IX Mítia cala que saltou o muro por pena, e o promotor lê o salto como frieza:
Увы, Мите и в голову не пришло рассказать, хотя он и помнил это, что соскочил он из жалости и, став над убитым, произнес даже несколько жалких слов: «Попался старик, нечего делать, ну и лежи»., Ai, a Mítia nem passou pela cabeça contar, embora se lembrasse, que saltou por pena e, de pé sobre o que julgava morto, disse até algumas palavras lastimáveis: «Deu-se mal o velho, não há o que fazer, pois fique aí deitado».
No capítulo VI do Livro IX o promotor informa a Mítia que Grigori, ao recobrar a consciência, diz que viu a porta do jardim escancarada e acredita que Mítia saiu por ela.
No capítulo VIII do Livro XI Smierdiakóv diz a Ivan que a porta aberta foi só imaginação, que lhes calhou bem. No capítulo II do Livro XII Grigori depõe tranquilo e majestoso, confirma a porta aberta sem ceder, e Fietiukóvitch o interroga sobre o bálsamo com que esfregou as costas e se não terá visto as portas do paraíso abertas em vez da porta do jardim:
Я человек подневольный [...] коли начальству угодно надо мною надсмехаться, так я снести должен., sou um homem submetido a ordens [...] se a autoridade quer zombar de mim, tenho de suportar.
Mítia, perguntado, agradece ao velho por ter catado os piolhos dele e por tê-lo perdoado, e pede perdão. No capítulo VIII do Livro XII o promotor lê o salto de Mítia para ver se Grigori vivia como o desejo de saber se o único testemunho estava morto, e no capítulo X do Livro XII o advogado vira o mesmo gesto do avesso, como prova de que a psicologia é uma faca de dois gumes.
Temas que encarna
Grigori é a lei vivida como dever e gratidão, sem razão dada: manda calar a mulher com a ordem de não entender (capítulo I do Livro III), vê no sexto dedo do filho uma violação da ordem natural (capítulo I do Livro III) e mede a ofensa de Mítia pelo que fez por ele, a gamela e o banho (capítulo IX do Livro III). O tema que carrega é o de Família, entendida como dívida de quem cria e de quem é criado, e o de Fé, posta à prova por Smierdiakóv na mesa (capítulo VII do Livro III) e por Fietiukóvitch no tribunal (capítulo II do Livro XII). Aparece também em Justiça e lei, como a testemunha em que o inquérito apoia a porta aberta.
Grigori cuida de Mítia, abriga Ivan e Aliócha por alguns meses e cria Smierdiakóv, e lhes dá o mesmo cuidado sem pedir nada; por isso a ofensa de Mítia dói como quebra de uma ordem de gratidões (capítulo IX do Livro III). Com Smierdiakóv a mesma lei produz o oposto do que pretende: o menino a quem diz que não é gente, nascido da umidade do banho, é quem anos depois mata o patrão (capítulo VI do Livro III, capítulo VIII do Livro XI). O texto não julga a criação: mostra que uma moral de dever sem razão serve a quem a recebe com gratidão, como Mítia, e não a quem a recebe pedindo razões, como Smierdiakóv.
Leituras divergentes
O livro dá três tratamentos ao testemunho de Grigori, e nenhum o faz mentir. O promotor e o juiz tomam a porta aberta como prova decisiva (capítulo VI do Livro IX). O advogado o expõe ao ridículo da pergunta sobre o bálsamo e as portas do paraíso (capítulo II do Livro XII). Smierdiakóv, na confissão, diz que a porta aberta foi só imaginação (capítulo VIII do Livro XI).
A porta aberta da casa para o jardim pode ser verdade, e então alguém passou por ela, pode ser erro de um homem ferido e medicado com bálsamo e vodca (capítulo II do Livro XII), ou imaginação que calhou bem a quem planejou o crime (capítulo VIII do Livro XI). O texto sustenta a segunda e a terceira, porque a confissão mostra o crime feito pela janela, com os sinais, mas deixa uma parte fora de dúvida: o que o narrador mostra Grigori vendo na noite do crime é o portão da cerca aberto e a janela do patrão escancarada (capítulo IV do Livro VIII), e a porta interna só entra no depoimento dele (capítulo VI do Livro IX). O que Grigori não faz em nenhuma das leituras é inventar: a dignidade com que responde ao advogado (capítulo II do Livro XII) é a de quem sabe o que viu e se recusa a ser feito de bobo.
Relações
- Fiódor Pávlovitch Karamázov: o patrão que ele serve por dever e a quem vigia como um aio (capítulo IV do Livro I); defende-o contra o boato de Lisavieta (capítulo II do Livro III).
- Dmitri Fiódorovitch Karamázov: o menino que criou na isbá (capítulo II do Livro I), que o derruba com um soco (capítulo IX do Livro III) e que o deixa ferido no jardim (capítulo IV do Livro VIII); Mítia o chama de pai de criação (capítulo III do Livro IX).
- Smierdiakóv: o menino que recolhe e cria, a quem castiga com varas e a quem diz que não é gente (capítulo II do Livro III, capítulo VI do Livro III); o que o desafia à mesa (capítulo VII do Livro III) e cuja confissão desmente a porta aberta (capítulo VIII do Livro XI).
- Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov: o menino que abrigou e a quem leva ao túmulo da mãe (capítulo IV do Livro I).
- Ivan Fiódorovitch Karamázov: o outro filho de Sófia que ele abrigou (capítulo III do Livro I); Ivan ouve dele, no salão, que Mítia o ousou (capítulo IX do Livro III).
- Fietiukóvitch: o advogado que o interroga sobre o bálsamo e as portas do paraíso (capítulo II do Livro XII).