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Personagem

Smierdiakóv

Quem é

Smierdiakóv é o criado e cozinheiro da casa de Fiódor Pávlovitch Karamázov, a quem a cidade dá o velho como pai, por boato nunca confirmado nem desmentido dentro do romance: nasceu de Lisavieta Smierdiáchtchaia, a louca de Deus que um bando de bêbados achou dormindo entre urtigas, e daí vem o sobrenome inventado pelo próprio Fiódor (capítulo II do Livro III). Foi criado pelo casal de criados Grigori e Marfa, que o recebeu como reposição do filho que nascera com seis dedos e morrera logo, e cresceu como epiléptico, desconfiado e esquisito à mesa (capítulo I do Livro III, capítulo VI do Livro III). Adulto, volta de Moscou amarelo, quase eunuco e excelente cozinheiro, e é por fim o autor material do parricídio que o romance investiga sem nunca mostrar: mata Fiódor com um pesa-papéis de ferro, rouba os três mil rublos do envelope e devolve a Ivan Fiódorovitch Karamázov a autoria moral do crime antes de se enforcar (capítulo VIII do Livro XI, capítulo X do Livro XI). O traço que o define é uma lógica fria posta a serviço de um ressentimento que nunca se declara.

Trajetória

No capítulo II do Livro III o narrador conta a origem inteira. Lisavieta, grávida, atravessa o muro do jardim de Fiódor na véspera do parto e a criança se salva, a mãe morre ao amanhecer. Grigori, que defendera o patrão contra o boato, nomeando outro culpado, recolhe o recém-nascido:

«Она сама, низкая, виновата», — говорил он утвердительно, а обидчиком был не кто иной, как «Карп с винтом», A culpada é ela mesma, a vil, e o ofensor não era outro senão Karp com Parafuso.
Livro III: Os sensuais
Божье дитя-сирота — всем родня, а нам с тобой подавно. Этого покойничек наш прислал, а произошел сей от бесова сына и от праведницы. Питай и впредь не плачь, Criança de Deus, órfã, é parente de todos, e de nós dois com mais razão. Este nosso defuntinho é quem mandou, mas este nasceu de um filho do demônio e de uma justa. Alimente-o e daqui em diante não chore.
Livro III: Os sensuais

O menino é batizado Pável, e pelo patronímico todos passam a chamá-lo Fiodórovitch sem ordem de ninguém. No capítulo VI do Livro III, aos doze anos, na lição de história sagrada, sorri e pergunta a Grigori de onde brilhava a luz no primeiro dia, se o sol só foi criado no quarto, e apanha por isso; uma semana depois tem a primeira crise de epilepsia. Aos quinze anos, ao receber de Fiódor as Noites na granja perto de Dikanka, de Gógol, devolve o livro de cara fechada. A pergunta do menino e a resposta do rapaz:

Свет создал господь бог в первый день, а солнце, луну и звезды на четвертый день. Откуда же свет-то сиял в первый день?, O Senhor Deus criou a luz no primeiro dia, e o sol, a lua e as estrelas no quarto dia. De onde, então, brilhava a luz no primeiro dia?
Livro III: Os sensuais
Про неправду всё написано, É tudo escrito sobre mentira.
Livro III: Os sensuais

Fiódor o manda estudar cozinha em Moscou e confia nele sem reserva, porque ele devolveu três cédulas perdidas na lama. No capítulo VI do Livro II, quando Mítia chega atrasado à cela do stáriets, é Smierdiakóv quem lhe garantira duas vezes a hora errada. No capítulo VII do Livro III, diante da história do soldado esfolado vivo por não renegar Cristo, faz o primeiro raciocínio que o revela: não haveria pecado em renegar sob ameaça, porque um homem excomungado pelo próprio Deus no instante em que pensa em renegar já não é cristão e não mente ao dizer que não é.

рассуждая, что с одного вола двух шкур не дерут, raciocinando que de um mesmo boi não se tiram duas peles.
Livro III: Os sensuais

Fiódor o chama de casuísta e jesuíta fedorento, e Smierdiakóv, citando a Escritura, propõe a Grigori que diga à montanha que se mova:

попробуйте сами-с сказать сей горе, чтобы не то чтобы в море (потому что до моря отсюда далеко-с), но даже хоть в речку нашу вонючую съехала, вот что у нас за садом течет, то и увидите сами в тот же момент, что ничего не съедет-с, experimente o senhor mesmo dizer a esta montanha que, não digo para o mar (porque daqui até o mar é longe), mas ao menos para o nosso rio fedorento, o que corre atrás do jardim, se mova, e o senhor verá na mesma hora que nada se moverá.
Livro III: Os sensuais

No capítulo II do Livro V, na casa da vizinha, canta ao violão e corteja Maria Kondrátievna de roupa de gala. Quando ela lhe pede mais um verso, ele o desqualifica pela utilidade, e o que sai dele a seguir é desprezo integral:

Это чтобы стих-с, то это существенный вздор-с. Рассудите сами: кто же на свете в рифму говорит? И если бы мы стали все в рифму говорить, хотя бы даже по приказанию начальства, то много ли бы мы насказали-с? Стихи не дело, Марья Кондратьевна, quanto a verso, isso é pura besteira. Julgue por si: quem é que no mundo fala em rima? E se todos nós passássemos a falar em rima, ainda que por ordem de um superior, quanto é que diríamos? Verso não é coisa que preste, Maria Kondrátievna.
Livro V: Pró e contra
я бы дозволил убить себя еще во чреве с тем, чтобы лишь на свет не происходить вовсе-с, eu deixaria que me matassem ainda no ventre, só para não vir ao mundo de modo nenhum.
Livro V: Pró e contra
Я всю Россию ненавижу, Марья Кондратьевна., eu odeio a Rússia inteira, Maria Kondrátievna.
Livro V: Pró e contra
хорошо, кабы нас тогда покорили эти самые французы: умная нация покорила бы весьма глупую-с и присоединила к себе, teria sido bom se aqueles mesmos franceses nos tivessem conquistado: uma nação inteligente teria subjugado uma muito tola e a teria anexado.
Livro V: Pró e contra

Diz que Mítia o ameaça de morte se deixar Grúchenka entrar, e que ele tem muito medo:

Если, говорят, Аграфену Александровну пропущу и она здесь переночует, — не быть тебе первому живу. Боюсь я их очень-с, se eu deixar Agrafena Alieksándrovna entrar e ela passar a noite aqui, dizem, serei o primeiro a morrer. Tenho muito medo dele, senhor.
Livro V: Pró e contra

No capítulo VI do Livro V, no portão, aconselha Ivan a ir a Tchermachnia, conta o código de batidas combinado com o velho e prevê uma longa epilepsia para o dia seguinte:

первый-то знак в пять стуков означает: «Аграфена Александровна пришли», а второй знак в три стука — «оченно, дескать, надоть», o primeiro sinal, de cinco batidas, significa: «Agrafena Alieksándrovna chegou», e o segundo sinal, de três batidas, «preciso muito de você, entende».
Livro V: Pró e contra

Ivan lhe pergunta o que quer dizer com o conselho, e o criado, de rosto aberto, diz que fala por pena:

На вашем месте, если бы только тут я, так всё бы это тут же бросил… чем у такого дела сидеть-с…, no seu lugar, se eu estivesse aqui, largaria tudo isso agora mesmo... em vez de ficar sentado ao lado de um negócio assim...
Livro V: Pró e contra

No capítulo VII do Livro V, quando Ivan parte e lhe diz sem querer que vai a Tchermachnia, o criado devolve com firmeza uma frase que Ivan carregará depois:

Значит, правду говорят люди, что с умным человеком и поговорить любопытно, quer dizer que as pessoas dizem a verdade: com um homem inteligente até conversar é interessante.
Livro V: Pró e contra

Cai então ao porão, em convulsões e com espuma na boca, e o doutor Herzenstube diz que o ataque pode ser perigoso. No capítulo V do Livro IX, quando o promotor sugere que talvez ele tenha batido o sinal, Mítia o descarta: a seu ver, um covarde que lhe beijava as botas e não gosta de dinheiro. No capítulo VI do Livro XI, Ivan o visita no hospital, e o criado se defende dizendo que, se tivesse planejado, não teria avisado o filho do patrão de que sabe fingir ataques. No capítulo VII do Livro XI, na segunda conversa, em casa de Maria Kondrátievna, de roupão e de óculos, devolve a Ivan, pela primeira vez, o que pensa:

Чтоб убить — это вы сами ни за что не могли-с, да и не хотели, а чтобы хотеть, чтобы другой кто убил, это вы хотели., matar, isso o senhor mesmo não poderia de modo algum, nem queria; mas querer que outro matasse, isso o senhor queria.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch
если предчувствовали на меня и в то же самое время уезжали, значит, мне тем самым точно как бы сказали: это ты можешь убить родителя, а я не препятствую., se o senhor pressentia isso de mim e, ao mesmo tempo, partia, era como se me dissesse: você pode matar o seu pai, e eu não impeço.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo VIII do Livro XI, na terceira, diz a Ivan que ele pode dormir sem medo, porque não matou, e, quando Ivan o agarra, sussurra:

Вы убили, вы главный убивец и есть, а я только вашим приспешником был, слугой Личардой верным, и по слову вашему дело это и совершил., o senhor matou, o senhor é o assassino principal, e eu fui só o seu ajudante, o seu servo fiel, o seu Licharda, e por palavra sua fiz o que fiz.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

Ivan teme que o criado seja um fantasma, e o criado responde que há só os dois e um terceiro:

Никакого тут призрака нет-с, кроме нас обоих-с, да еще некоторого третьего [...] Третий этот — бог-с, самое это провидение-с, тут оно теперь подле нас-с, только вы не ищите его, не найдете., não há aqui fantasma nenhum, além de nós dois, e ainda um terceiro [...] esse terceiro é Deus, a própria Providência; está aqui ao nosso lado, só não o procure, o senhor não o achará.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

Tira da meia os três mil rublos, cobre o dinheiro dos olhos de Maria Kondrátievna com o único livro à vista:

Святого отца нашего Исаака Сирина слова, Palavras do nosso santo pai Isaac, o Sírio.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

Conta em ordem o plano e o golpe: um ataque fingido no porão, os sinais batidos na vidraça, os três golpes de pesa-papéis, o envelope jogado no chão, o dinheiro escondido numa macieira. Diz que Ivan é o mais legítimo assassino que há:

А вы самый законный убивец и есть!, e o senhor é o mais legítimo assassino que há!
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

Explica por que devolve o dinheiro, sem ter passado a crer em Deus:

Это вы вправду меня учили-с, ибо много вы мне тогда этого говорили: ибо коли бога бесконечного нет, то и нет никакой добродетели, да и не надобно ее тогда вовсе., isso o senhor me ensinou de verdade; muitas vezes me disse então que, se não existe um Deus infinito, não há virtude nenhuma, e nem é preciso tê-la.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo X do Livro XI é achado enforcado num prego por Maria Kondrátievna, que corre a avisar Aliócha, e deixa um bilhete que diz que se mata por vontade própria, para não culpar ninguém. No capítulo VIII do Livro XII, o promotor o descreve como fraco, covarde e aterrorizado por Mítia, e a acusação ao morto, diz, nasce de que não se pode achar outro:

Именно только по тому одному, что другого некого подобрать!, justamente só por isto: porque não se pode achar outro!
Livro XII: Um erro judiciário

E nota, sobre o bilhete, a omissão que decide:

Ну что б ему прибавить в записке: убийца я, а не Карамазов. Но этого он не прибавил: на одно совести хватило, а на другое нет?, que lhe custava acrescentar no bilhete: o assassino sou eu, e não Karamázov? Mas isso não acrescentou: para uma coisa a consciência bastou, e para a outra não?
Livro XII: Um erro judiciário

Temas que encarna

Smierdiakóv é o caso mais duro da tese que Zossima prega e Ivan nega, a de que cada um é culpado de tudo diante de todos (capítulo III do Livro VI, capítulo IV do Livro XI). Ele não inventa o tudo é permitido: aprende com Ivan, repete-o de volta como acusação e o executa ao pé da letra enquanto Ivan ainda o discute como filosofia de gabinete (capítulo VII do Livro XI, capítulo VIII do Livro XI). É também o quarto filho que a família nunca reconhece, e o romance usa esse não reconhecimento para perguntar até que ponto um pai, e um irmão, responde pelo filho que finge não ter (capítulo II do Livro III, capítulo VIII do Livro XI). O tema que carrega é o de Culpa, medido contra a Liberdade e opressão que o Inquisidor discute.

O que ele quer é ser tratado como igual por quem julga inteligente: a frase com que despede Ivan, de que com um homem inteligente dá gosto conversar, ele a explica depois como repreensão e não como elogio (capítulo VII do Livro V, capítulo VI do Livro XI). O que teme é Mítia, e a ameaça de morte lhe serve também de álibi (capítulo II do Livro V). O que sabe é exato: o dinheiro, os sinais, a hora (capítulo VIII do Livro XI). Onde se engana é em tomar a lógica do soldado, a de que o que não é dito não é pecado (capítulo VII do Livro III), por uma regra do mundo: depois do crime a regra não o protege, e ele se enforca. O sofisma sobre o soldado, no Livro III, já é o Smierdiakóv do Livro XI em miniatura, lógica formal perfeita e moralmente hedionda, anos antes de a lógica virar assassinato.

Leituras divergentes

O livro põe dentro de si leituras opostas do criado. O promotor o descreve como fraco, doente e aterrorizado por Mítia, incapaz de planejar, e diz que a acusação ao morto só nasce de que não se acha outro nome (capítulo VIII do Livro XII). O próprio criado, na confissão, descreve um plano em três ramos: se Mítia matasse, ele pegaria o dinheiro; se só batesse, também; se não viesse, nada faria (capítulo VIII do Livro XI). Na réplica, o promotor ainda diz que o advogado fez do criado um Smierdiakóv byroniano (capítulo XIV do Livro XII).

Smierdiakov serve como alter ego de Ivan da mesma maneira que Svidrigáilov servira a Raskólnikov; ele leva as teorias de Ivan ao seu extremo lógico e repugnante e exibe a refração distorcida e perigosa delas numa natureza mais rude e menos nobre
Joseph Frank

As leituras divergem sobre o que Smierdiakóv é: agente ou instrumento. Para o promotor, o criado era fraco demais para planejar; para uma leitura simbólica, é o instrumento do intelectual; para Frank, a projeção do pensamento de Ivan; para a confissão dele, o agente de um cálculo que a ideia de Ivan autorizou. O livro sustenta as quatro, e é nisso que a pergunta fica aberta. Contra a leitura do instrumento puro, vale notar que ele descreve os três ramos do plano e que o bilhete cala o que a consciência dele não calou antes (capítulo VIII do Livro XII). Contra a do agente puro, que, sem a partida de Ivan, ele diz que nada faria (capítulo VIII do Livro XI).

Relações