Clavis Libri

Personagem

Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov

Quem é

Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov, Aliócha, é o terceiro filho de Fiódor Pávlovitch Karamázov e de Sófia Ivánovna, o herói que o narrador anuncia no prefácio como homem estranho, de modo algum grande, mas que talvez traga em si o cerne do todo (prefácio do Livro I). Guarda a mãe, morta quando ele tinha quase quatro anos, numa só cena de entardecer, com a lamparina diante do ícone e a mulher em crise que o ergue para a Virgem (capítulo IV do Livro I). Criado em casa alheia, amado por todos desde menino, chega aos vinte anos à casa do pai, procura primeiro o túmulo da mãe e entra no mosteiro, junto ao Stáriets Zossima (capítulo IV do Livro I, capítulo V do Livro I). É o filho da fé: onde Mítia responde ao abandono com o corpo e Ivan com o intelecto, Aliócha responde vivendo a própria convicção sem meio-termo, o mesmo excesso de família voltado para a entrega em vez do apetite ou do argumento. O traço que o define é não julgar, e por isso desarmar quem desconfia de todos (capítulo IV do Livro I, capítulo I do Livro III).

Trajetória

No capítulo IV do Livro I o narrador explica o dom que Aliócha tem e que não vem de esperteza:

Да и все этого юношу любили, где бы он ни появился, и это с самых детских даже лет его., Todos gostavam desse rapaz, onde quer que ele aparecesse, e isso desde os seus anos de criança.
Livro I: História de uma família

No capítulo V do Livro I diz que o herói é um realista, para quem é a fé que gera o milagre e não o contrário, e que a convicção dele não admite meio-termo:

В реалисте вера не от чуда рождается, а чудо от веры, no realista a fé não nasce do milagre, e sim o milagre da fé.
Livro I: História de uma família
Хочу жить для бессмертия, а половинного компромисса не принимаю, Quero viver para a imortalidade, não aceito meio-termo.
Livro I: História de uma família

Acrescenta que, se a conclusão tivesse sido a oposta, ele teria ido aos ateus e aos socialistas, porque o socialismo é antes de tudo a questão do ateísmo, e define o mestre que escolheu:

социализм есть не только рабочий вопрос, или так называемого четвертого сословия, но по преимуществу есть атеистический вопрос, o socialismo não é apenas a questão operária, ou a do chamado quarto estado, mas é por excelência a questão ateia.
Livro I: História de uma família
Старец — это берущий вашу душу, вашу волю в свою душу и в свою волю, O stáriets é aquele que toma a sua alma, a sua vontade, para dentro da sua alma e da sua vontade.
Livro I: História de uma família

No capítulo VII do Livro II, depois da cena em que Zossima se ajoelha diante de Mítia, o stáriets manda Aliócha sair do mosteiro quando ele morrer e lhe deixa um testamento:

Как только сподобит бог преставиться мне — и уходи из монастыря. Совсем иди., Assim que Deus me conceder partir, saia do mosteiro. Vá embora de vez.
Livro II: Uma reunião intempestiva
Горе узришь великое и в горе сем счастлив будешь. Вот тебе завет: в горе счастья ищи., Você verá grande dor e nessa dor será feliz. Este é o meu testamento: na dor, procure a felicidade.
Livro II: Uma reunião intempestiva

Na alameda de pinheiros, Rakítin lhe diz o que pensa dos Karamázov, que o desprezo não livra quem se apaixona, e Aliócha deixa escapar que entende:

Тут, брат, презрение не помогает, Aqui, irmão, o desprezo não adianta.
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo III do Livro III, no jardim vizinho ao do pai, é ele quem ouve a confissão de Mítia, e no capítulo IV do Livro III, quando o irmão conta uma de suas aventuras, é ele quem cora, e não pelos atos, e sim por ser igual:

Всё одни и те же ступеньки., São sempre os mesmos degraus.
Livro III: Os sensuais

No capítulo VIII do Livro III, à mesa do pai, quando o velho lhe pergunta se ele crê que não é só bufão, responde:

Верю, что не всего только шут., Creio que não é só bufão.
Livro III: Os sensuais

Mais adiante o pai lhe pergunta, como a Ivan, se há Deus e imortalidade, e Aliócha responde:

Есть бог., Deus existe.
Livro III: Os sensuais
И бог, и бессмертие. В боге и бессмертие., Deus e imortalidade. Em Deus está também a imortalidade.
Livro III: Os sensuais

Quando o pai lhe pede perdão por ter ofendido o abade, diz que conhece os pensamentos dele e que o coração é melhor que a cabeça.

No capítulo X do Livro III segura Catierina Ivánovna quando ela se atira sobre Grúchenka, e pede à segunda que se vá. No capítulo XI do Livro III ouve de Mítia que ali, no peito, se prepara uma desonra.

No capítulo III do Livro IV, defendendo um menino cercado por colegiais, leva uma mordida no dedo do menino, que lhe pergunta o que fez para ser atormentado, e que o livro revelará ser Iliúcha:

не может быть, чтоб я вам ничего не сделал, — не стали бы вы меня так мучить даром. Так что же я сделал и чем я виноват пред вами, скажите?, não pode ser que eu não tenha feito nada a você; você não me atormentaria assim, de graça. Então o que foi que eu fiz, em que sou culpado diante de você, diga?
Livro IV: Os tumultos

No capítulo IV do Livro IV, Lise lhe cobra a carta de brincadeira da véspera, e ele responde sem rodeios o que pensa de casar com ela:

Я как прочел, то тотчас и подумал, что этак всё и будет, потому что я, как только умрет старец Зосима, сейчас должен буду выйти из монастыря. Затем я буду продолжать курс и сдам экзамен, а как придет законный срок, мы и женимся. Я вас буду любить. Хоть мне и некогда было еще думать, но я подумал, что лучше вас жены не найду, а мне старец велит жениться…, quando li, logo pensei que tudo seria assim, porque, assim que o stáriets Zossima morrer, tenho de sair do mosteiro. Depois vou continuar o curso, prestar exame, e quando chegar o prazo legal nós nos casaremos. Eu vou amar você. Ainda não tive tempo de pensar, mas pensei que não vou achar esposa melhor que você, e o stáriets me manda casar...
Livro IV: Os tumultos

No capítulo V do Livro IV, no salão de Catierina Ivánovna, diz, como quem se joga do telhado, a verdade que ninguém queria ouvir, e a cena acaba em rompimento:

позовите сейчас Дмитрия [...] вы мучаете Ивана, потому только, что его любите… а мучите потому, что Дмитрия надрывом любите… внеправду любите… потому что уверили себя так, mande chamar agora Dmitri [...] a senhora atormenta Ivan só porque o ama... e o atormenta porque ama Dmitri num nadryv... ama fora da verdade... porque se convenceu de que é assim...
Livro IV: Os tumultos

No capítulo VII do Livro IV leva ao capitão Snieguiriov duzentos rublos que Catierina manda, e vê o homem pisoteá-los. No capítulo I do Livro V, ao contar a Lise, diz que o fracasso foi o melhor possível e, quando ela lhe pergunta se há desprezo no capitão, responde:

Нет, Lise, нет презрения [...] я уж об этом сам думал, идя сюда. Рассудите, какое уж тут презрение, когда мы сами такие же, как он, когда все такие же, как он, não, Lise, não há desprezo [...] eu mesmo já pensei nisso, vindo para cá. Pense só, que desprezo pode haver quando nós mesmos somos iguais a ele, quando todos são iguais a ele?
Livro V: Pró e contra

Diz da família que ela é uma força da terra, terrosa e furiosa, e confessa, a respeito de si, uma dúvida:

Тут «земляная карамазовская сила», как отец Паисий намедни выразился, — земляная и неистовая, необделанная, é a "força da terra dos Karamázov", como o padre Paíssi disse outro dia, terrosa e furiosa, bruta.
Livro V: Pró e contra
А я в бога-то вот, может быть, и не верую., e eu em Deus, quem sabe, talvez nem creia.
Livro V: Pró e contra

No capítulo IV do Livro V, na Revolta, diante da pergunta de Ivan sobre quem teria o direito de perdoar, responde, de olhos brilhando:

Но существо это есть, и оно может всё простить, всех и вся и за всё, потому что само отдало неповинную кровь свою за всех и за всё., mas esse ser existe, e pode perdoar tudo, a todos e por tudo, porque ele mesmo deu o seu sangue inocente por todos e por tudo.
Livro V: Pró e contra

No capítulo V do Livro V, ao fim do poema d'O Grande Inquisidor, levanta-se, aproxima-se em silêncio e beija o irmão na boca. No capítulo I do Livro VI, na cela, Zossima o recebe e, antes de lhe contar a história do irmão Márkel, diz o que vê nele:

Здравствуй, тихий, здравствуй, милый, вот и ты. И знал, что прибудешь., olá, meu quieto, olá, querido, aí está você. E eu sabia que viria.
Livro VI: Um monge russo
изыдешь из стен сих, а в миру пребудешь как инок. Много будешь иметь противников, но и самые враги твои будут любить тебя. Много несчастий принесет тебе жизнь, но ими-то ты и счастлив будешь, и жизнь благословишь, и других благословить заставишь — что важнее всего., sairá destes muros, mas no mundo permanecerá como monge. Terá muitos adversários, mas até os seus inimigos o amarão. A vida lhe trará muitas desgraças, mas é por elas que será feliz, e abençoará a vida, e fará os outros a abençoarem, o que é mais importante de tudo.
Livro VI: Um monge russo
Алексей казался мне до того схожим с тем духовно, что много раз считал я его как бы прямо за того юношу, брата моего, пришедшего ко мне на конце пути моего таинственно, для некоего воспоминания и проникновения, Aleksiéi me pareceu tão semelhante a ele em espírito que muitas vezes o tomei quase pelo próprio rapaz, meu irmão, que veio a mim no fim do meu caminho, misteriosamente, para alguma lembrança e compreensão.
Livro VI: Um monge russo

No capítulo I do Livro VII, com o odor deletério no ataúde, Paíssi o encontra no meio da turba e o repreende por ter se deixado seduzir:

Или и ты соблазнился? [...] да неужто же и ты с маловерными!, Será que você também se deixou seduzir? [...] Será que também você está com os de pouca fé!
Livro VII: Aliócha

No capítulo II do Livro VII, o narrador explica a crise: ele não precisava de milagres, precisava da justiça suprema, e a recusa que a seguir diz a Rakítin é a de Ivan:

Но не чудес опять-таки ему нужно было, а лишь «высшей справедливости», которая была, по верованию его, нарушена и чем так жестоко и внезапно было поранено сердце его., Mas não era de milagres, outra vez, que ele precisava, e sim apenas da «justiça suprema», que fora, a seu ver, violada, e com isso o seu coração foi ferido tão cruel e subitamente.
Livro VII: Aliócha
Я против бога моего не бунтуюсь, я только «мира его не принимаю», Não me rebelo contra o meu Deus, apenas «não aceito o mundo dele».
Livro VII: Aliócha

No capítulo III do Livro VII vai à casa de Grúchenka com Rakítin, que o leva para vê-lo cair, e, com ela sentada no colo dele, diz a Rakítin o que encontrou nela:

нашел сестру искреннюю, нашел сокровище — душу любящую… [...] Ты мою душу сейчас восстановила., encontrei uma irmã sincera, encontrei um tesouro, uma alma que ama… [...] Você restaurou a minha alma agora mesmo.
Livro VII: Aliócha

Grúchenka lhe conta a fábula de a cebola, a única virtude que diz ter, e cai de joelhos aos pés dele, esperando que alguém a ame, vil como é. Aliócha lhe responde:

луковку я тебе подал, одну самую малую луковку, только, только!.., uma cebola, foi o que eu te dei, uma só, a menor de todas, só isso, só isso!..
Livro VII: Aliócha

No capítulo IV do Livro VII, velando o caixão de Zossima, adormece e sonha com as bodas de Caná, onde o stáriets, vivo e rindo, lhe diz que ele também deu a sua cebola a uma mulher faminta e que comece a obra:

Я луковку подал, вот и я здесь. И многие здесь только по луковке подали, по одной только маленькой луковке…, Dei uma cebola, e aqui estou. E muitos aqui deram só uma cebola, uma só, pequena…
Livro VII: Aliócha
И ты, тихий, и ты, кроткий мой мальчик, и ты сегодня луковку сумел подать алчущей. Начинай, милый, начинай, кроткий, дело свое!.., E você, meu rapaz calado, manso, também soube hoje dar uma cebola a uma faminta. Comece, querido, comece, manso, a sua obra!..
Livro VII: Aliócha

Sai à noite, cai por terra como ceifado e quer perdoar e pedir perdão por tudo, e o narrador diz o que se passou:

Простить хотелось ему всех и за всё и просить прощения, о! не себе, а за всех, за всё и за вся, а «за меня и другие просят», Queria perdoar a todos e por tudo, e pedir perdão, ah, não para si, mas por todos, por tudo e por todas as coisas, pois «por mim outros também pedem».
Livro VII: Aliócha
Пал он на землю слабым юношей, а встал твердым на всю жизнь бойцом, Caiu por terra um jovem fraco e se levantou um lutador firme para a vida inteira.
Livro VII: Aliócha
«Кто-то посетил мою душу в тот час», «Alguém visitou a minha alma naquela hora».
Livro VII: Aliócha

Três dias depois deixa o mosteiro, como o mestre ordenara. No capítulo IV do Livro X, já no mundo, quando Kólia lhe pergunta se o pai de Iliúcha é bufão, diz o que pensa do capitão, e, quando o menino confessa que o acusam de brincar de bandido com os pequenos, responde:

есть люди глубоко чувствующие, но как-то придавленные. Шутовство у них вроде злобной иронии на тех, которым в глаза они не смеют сказать правды от долговременной унизительной робости пред ними. Поверьте, Красоткин, что такое шутовство чрезвычайно иногда трагично, há pessoas de sentimento profundo, mas de certo modo esmagadas. Neles a bufonaria é uma espécie de ironia rancorosa contra aqueles a quem, por longa e humilhante timidez diante deles, não ousam dizer a verdade na cara. Acredite, Krassótkin, essa bufonaria às vezes é extremamente trágica.
Livro X: Morte de Iliúcha
это ведь тоже зарождающееся искусство, зарождающаяся потребность искусства в юной душе, isso também é uma arte que nasce, uma necessidade de arte que nasce na alma jovem.
Livro X: Morte de Iliúcha

No capítulo VI do Livro X, conduzindo Kólia sem doutrina, diz que o amor-próprio é o diabo que se enfiou em toda a geração, e lhe propõe a única coisa que tem:

В это самолюбие воплотился черт и залез во всё поколение, именно черт, nesse amor-próprio encarnou-se o diabo, que se enfiou em toda a geração, o diabo mesmo.
Livro X: Morte de Iliúcha
Будьте же не такой, как все; хотя бы только вы один оставались не такой, seja então diferente dos outros, ainda que só você continuasse diferente.
Livro X: Morte de Iliúcha

No capítulo V do Livro XI diz a Ivan, sem prova, na rua escura, a frase que o obceca até o fim do livro:

Не ты убил отца, не ты!, não foi você quem matou nosso pai, não foi você!
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo IV do Livro XII, no tribunal, depõe sem juramento, tratado com simpatia, e diz do irmão:

я всегда был убежден, что некоторое высшее чувство всегда спасет его в роковую минуту, как и спасло в самом деле, потому что не он убил отца моего, eu sempre estive convencido de que um sentimento superior o salvaria na hora fatal, como de fato o salvou, porque não foi ele quem matou meu pai.
Livro XII: Um erro judiciário

No capítulo III do Epílogo, diante da pedra de Iliúcha, oferece aos meninos, no lugar de doutrina, uma boa recordação como fundamento para a vida inteira:

Знайте же, что ничего нет выше, и сильнее, и здоровее, и полезнее впредь для жизни, как хорошее какое-нибудь воспоминание, и особенно вынесенное еще из детства, из родительского дома, saibam, pois, que não há nada mais alto, mais forte, mais sadio e mais útil para a vida daqui por diante do que alguma boa lembrança, sobretudo a trazida desde a infância, da casa paterna.
Epílogo: O enterro de Iliúcha
не бойтесь жизни! Как хороша жизнь, когда что-нибудь сделаешь хорошее и правдивое!, não tenham medo da vida! Como a vida é boa quando se faz alguma coisa boa e verdadeira!
Epílogo: O enterro de Iliúcha

A pergunta de Kólia, se é verdade que todos ressuscitarão e se verão de novo, e a resposta de Aliócha, meio rindo, meio exaltado:

неужели и взаправду религия говорит, что мы все встанем из мертвых, и оживем, и увидим опять друг друга, и всех, и Илюшечку?, será mesmo verdade que a religião diz que todos nós nos levantaremos dos mortos, reviveremos e nos veremos de novo uns aos outros, e a todos, e a Iliúchetchka?
Epílogo: O enterro de Iliúcha
Непременно восстанем, непременно увидим и весело, радостно расскажем друг другу всё, что было, sem dúvida nos levantaremos, sem dúvida nos veremos e contaremos uns aos outros, alegres, felizes, tudo o que aconteceu.
Epílogo: O enterro de Iliúcha

Temas que encarna

Aliócha é o amor que age, encarnado em ação e não em discurso: o mesmo amor que Zossima distingue do amor contemplativo que só quer ser visto (capítulo IV do Livro II). É a terceira resposta do romance ao poder que decide pela liberdade alheia, depois do silêncio de Cristo ao Inquisidor (capítulo V do Livro V) e da doutrina de Zossima: Aliócha responde com um gesto sem cálculo, o beijo que devolve a Ivan sem argumento, a cebola que dá sem esperar troco (capítulo III do Livro VII, capítulo IV do Livro VII). O Epílogo nomeia essa resposta: onde o Inquisidor oferece milagre, mistério e autoridade, porque julga a liberdade um fardo, Aliócha oferece uma memória concreta e boa, sem doutrina que decida por ninguém (capítulo III do Epílogo). O tema que carrega é o de Fé, medido contra o Sofrimento que Ivan não aceita.

O que ele quer é fé inteira e ser útil, e o que ele teme é perder o mestre (capítulo I do Livro IV, capítulo I do Livro V). O que sabe é pouco, mas sabe amar sem exigir pureza: segura Catierina (capítulo X do Livro III), recebe Grúchenka (capítulo III do Livro VII), ouve Kólia (capítulo VI do Livro X). Onde se engana é em achar que a verdade dita de uma vez reconcilia: no salão de Catierina Ivánovna ele diz o que ninguém queria ouvir e sai achando que errou (capítulo V do Livro IV, capítulo VI do Livro IV); e em esperar do mestre uma justiça que o mundo não dá (capítulo II do Livro VII). A fé dele não é a ausência dessas quedas, é o gesto de se levantar delas.

Leituras divergentes

Dentro do livro, Rakítin lê Aliócha como mais um Karamázov, sensual por parte de pai e louco de Deus por parte de mãe, e resume a família numa frase:

сладострастники, стяжатели и юродивые!, sensuais, cobiçosos e loucos de Deus!
Livro II: Uma reunião intempestiva

O stáriets lê nele um monge que permanecerá no mundo (capítulo I do Livro VI), e o narrador, um realista em quem o milagre nasce da fé, e não a fé do milagre (capítulo V do Livro I). As leituras não se anulam: a de Rakítin acerta que a energia é da família, e a do mestre e a do narrador, que ela se volta para outro lado (capítulo III do Livro VII, capítulo IV do Livro VII).

Na Frank - 07 - Karamazov e a morte, o relato de Suvórin diz que Dostoiévski planejava para a continuação nunca escrita um Aliócha que sairia do mosteiro, tornar-se-ia anarquista e mataria o tsar:

Aliócha Karamázov seria o herói da continuação do romance, um herói a partir do qual [Dostoiévski] queria criar um tipo de socialista russo [...] Nela Aliócha sairá do mosteiro e se tornará anarquista. E meu puro Aliócha matará o tsar
Joseph Frank

As leituras divergem sobre o que Aliócha é para o livro. Para uma leitura simbólica, a do espírito, é a única saída que ainda pode dar certo; para o relato de Suvórin que Frank recolhe, é o herói de uma continuação em que viraria anarquista; para o texto que existe, é um jovem que se levanta de cada queda sem prometer mais do que isso. A leitura do espírito é a mais generosa, e o livro a sustenta no sonho de Caná e no discurso à beira da pedra (capítulo IV do Livro VII, capítulo III do Epílogo); a do anarquista é a mais inquietante, porque faria do herói que o narrador pediu desculpas por escolher (prefácio do Livro I) o contrário do que o livro mostra. Contra a primeira, vale lembrar que ele também falha, ao tentar reconciliar e ao se abalar com o cheiro (capítulo V do Livro IV, capítulo I do Livro VII); contra a segunda, que é um plano relatado por terceiro e nunca escrito.

Relações