Quem é
Hippolit Kiríllovitch é o promotor adjunto da cidade, um homem de uns trinta e cinco anos, doente do peito, casado com uma mulher gorda e sem filhos, ambicioso e irritadiço, que se julga psicólogo e injustiçado na carreira (capítulo II do Livro IX). O jovem juiz de instrução, Nikolai Parfiónovitch, o venera, e ele, em troca, ama o rapaz como a única pessoa que o admira (capítulo IV do Livro IX). Magoado desde Petersburgo por ter sido pouco reconhecido, vê no caso de Mítia a chance de ressuscitar a carreira e teme encontrar o mestre da defesa, Fietiukóvitch, velho inimigo dos tempos de Petersburgo (capítulo I do Livro XII). Quer ser reconhecido como psicólogo e como talento que a carreira não premiou. No julgamento faz a fala que considera a sua obra-prima e o seu canto do cisne, nove meses antes de morrer de tuberculose (capítulo VI do Livro XII). O traço que o define é a sinceridade posta a serviço de uma versão: crê de verdade na culpa de Mítia, e é isso que torna perigoso o que diz.
Trajetória
No capítulo II do Livro IX, na casa do isprávnik, onde está por acaso quando Pierkhótin chega com a notícia, ouve que Mítia carregou a pistola e escreveu um bilhete, e fecha o raciocínio com a imagem do rapaz que rouba mil e quinhentos rublos e vai às moças:
это точь-в-точь у подобных сорванцов так и делается: завтра убью себя, а пред смертью кутеж, é exatamente assim que fazem esses desordeiros: amanhã me mato, e antes da morte, farra.
No capítulo III do Livro IX, na primeira provação, interrompe Mítia para dizer que não se aflija por Grigori, que está vivo, e Mítia, em êxtase, agradece a Deus. No capítulo IV do Livro IX, com o juiz, que combinara com ele na viagem o plano do caso, leem um ao outro no olhar o que querem de Mítia. Quando o interrogatório o encurrala, Mítia compara o inquérito ao sonho de ser caçado por alguém que finge não saber onde ele se esconde:
Теперь уж не сон! Реализм, господа, реализм действительной жизни! Я волк, а вы охотники, ну и травите волка., Agora não é sonho! O realismo, senhores, o realismo da vida real! Eu sou o lobo, e vocês os caçadores, então cacem o lobo.
No capítulo V do Livro IX, na terceira provação, pergunta, como que sem notar, se a porta do jardim, na outra ponta da casa, estava aberta, e lê o salto de volta ao jardim, depois de ferir Grigori, como frieza, porque o relato de Mítia não traz o que o explicaria:
Увы, Мите и в голову не пришло рассказать, хотя он и помнил это, что соскочил он из жалости и, став над убитым, произнес даже несколько жалких слов: «Попался старик, нечего делать, ну и лежи»., Ai, a Mítia nem passou pela cabeça contar, embora se lembrasse, que saltou por pena e, de pé sobre o que julgava morto, disse até algumas palavras lastimáveis: «Deu-se mal o velho, não há o que fazer, pois fique aí deitado».
No capítulo VI do Livro IX, enquanto Mítia está despido atrás das cortinas, informa-o de que Grigori, ao recobrar a consciência, jura ter visto a porta escancarada. Mítia reage com a única palavra de que dispõe:
Дверь, дверь [...] Это фантом! Бог против меня!, A porta, a porta [...] É um fantasma! Deus está contra mim!
O juiz, enternecido, ia prometer que uma confissão completa pode aliviar a sorte dele, e o promotor o toca por baixo da mesa, e ele cala. No capítulo VII do Livro IX Mítia revela o segredo dos mil e quinhentos, e o promotor acha a vergonha pouca para um segredo tão custoso, e Mítia responde:
Не в полутора тысячах заключался позор, а в том, что эти полторы тысячи я отделил от тех трех тысяч, A vergonha não estava nos mil e quinhentos, mas em ter separado esses mil e quinhentos dos três mil.
No capítulo IX do Livro IX o auto de prisão fecha a armadilha de linguagem: o inquérito só processa fato verificável, e Mítia só sabe falar da consciência. É o ponto em que o psicólogo mais erra: lê como cálculo frio justamente os momentos em que Mítia é mais transparente.
No capítulo IV do Livro XII pergunta a Aliócha se Mítia lhe disse que mataria o pai, e o obriga a admitir, depois de uma resposta franca, que não tem prova senão o rosto do irmão. No capítulo VI do Livro XII abre o discurso trêmulo, com suor frio e calafrios, e vence porque é sincero. Começa pelo horror de já não se horrorizar:
В том и ужас наш, что такие мрачные дела почти перестали для нас быть ужасными!, o nosso horror está em que casos sombrios como este quase deixaram de nos parecer horríveis!
Apresenta a família como espelho, e Mítia como a Rússia imediata, de bem e mal misturados:
способные вмещать всевозможные противоположности и разом созерцать обе бездны, бездну над нами, бездну высших идеалов, и бездну под нами, бездну самого низшего и зловонного падения, capazes de abarcar todos os contrários e de contemplar ao mesmo tempo os dois abismos, o abismo acima de nós, dos ideais mais altos, e o abismo abaixo de nós, da queda mais baixa e fétida.
Aplica a tese aos três mil rublos e descarta o amuleto, que Mítia dizia ter guardado por um mês:
Легенда же об ладонке — это такое противоречие с действительностью, какого более и представить нельзя., e a lenda do amuleto é uma contradição com a realidade tal que não se pode imaginar maior.
No capítulo VII do Livro XII troca a explicação do perito, mania, por outra, ciúme:
не в трех тысячах, не в сумме собственно заключался предмет постоянного и исступленного озлобления подсудимого, а в том, что была тут особая причина, возбуждавшая его гнев. Причина эта — ревность!, o objeto da constante e exaltada irritação do réu não estava nos três mil, nem na soma em si, mas no fato de haver ali uma causa especial que lhe excitava a ira. Essa causa era o ciúme!
E desfaz a defesa do foi na bebedeira pela carta que Catierina Ivánovna apresentou:
в пьяном виде написал то, что задумал в трезвом. Не было бы задумано в трезвом, не написалось бы в пьяном., bêbado escreveu o que planejara sóbrio. Se não estivesse pensado sóbrio, não se escreveria bêbado.
No capítulo VIII do Livro XII examina a suspeita sobre Smierdiakóv: o primeiro a gritar que fora ele foi o próprio réu, na prisão, sem apresentar um fato, e só os dois irmãos e Grúchenka o apoiam, todos por laços. Conclui que a acusação ao morto nasce de não haver outro nome:
Именно только по тому одному, что другого некого подобрать!, justamente só por isto: porque não se pode achar outro!
Lê o bilhete do suicida como silêncio que o inocenta:
Ну что б ему прибавить в записке: убийца я, а не Карамазов. Но этого он не прибавил: на одно совести хватило, а на другое нет?, que lhe custava acrescentar no bilhete: o assassino sou eu, e não Karamázov? Mas isso não acrescentou: para uma coisa a consciência bastou, e para a outra não?
E lê o pulo de Mítia para ver se Grigori vivia como o desejo de saber se o único testemunho estava morto.
No capítulo IX do Livro XII fecha a análise do suicídio planejado:
Нет, господа присяжные, у тех Гамлеты, а у нас еще пока Карамазовы!, não, senhores jurados, os outros têm Hamlets, e nós por ora ainda temos Karamázovs!
Pede um fato em favor do réu:
Что же мы, шакалы, жаждущие крови человеческой? Дайте, укажите нам хоть один факт в пользу подсудимого, и мы обрадуемся, que somos nós, chacais sedentos de sangue humano? Deem-nos, mostrem-nos um fato só em favor do réu, e ficaremos contentes.
E conclui, febril, que os jurados representam a Rússia e que a tróica fatal pode ir ao desastre, e quase desmaia na sala ao lado. No capítulo XIV do Livro XII, depois do discurso do advogado, levanta-se para réplica, odiado pela sala, pálido e trêmulo, e leva a tese do outro até onde ela dá medo:
Но если отцеубийство есть предрассудок и если каждый ребенок будет допрашивать своего отца: „Отец, зачем я должен любить тебя?“ — то что станется с нами, что станется с основами общества, куда денется семья?, mas se o parricídio é um preconceito, e se cada criança passar a interrogar o pai: "Pai, para que devo amar-te?", o que será de nós, o que será dos fundamentos da sociedade, para onde irá a família?
O presidente o interrompe por excesso, Fietiukóvitch responde com um provérbio, e as damas o consideram esmagado para sempre.
Temas que encarna
Hippolit Kiríllovitch é a justiça que lê o homem como tipo. O fanfarrão que se mata depois da farra (capítulo II do Livro IX), o calculista frio que premedita (capítulo XIV do Livro XII), o ciumento que decide matar (capítulo VII do Livro XII) são versões em que o dinheiro, a porta e o pilão cabem, e cada uma dispensa de ler o réu como pessoa. O tema que carrega é o de Justiça e lei, e o de Razão tomada como psicologia, no sentido de quem usa o conhecimento do coração para fechar um caso.
O que o move não é maldade, e o texto o diz de várias formas: crê na culpa, vê no caso uma doença da sociedade e pede, com a franqueza de quem treme, que lhe mostrem um fato em favor do réu (capítulo IX do Livro XII). O que o cega é o método. A tese dos dois abismos, que serve para explicar que Mítia seja nobre diante de Catierina e vil ao gastar o dinheiro dela, serve igualmente à defesa (capítulo VI do Livro XII, capítulo XI do Livro XII), e o raciocínio de que a acusação ao morto nasce de não haver outro nome vale também para ele (capítulo VIII do Livro XII). Quem lê Mítia como tipo já não precisa lê-lo como pessoa, e a ambição de Hippolit Kiríllovitch faz o resto (capítulo II do Livro IX).
Leituras divergentes
O livro põe em cena duas respostas ao método dele, ambas do advogado. A primeira diz que a psicologia é uma vara que se pega por qualquer ponta:
Но ведь психология, господа, хоть и глубокая вещь, а все-таки похожа на палку о двух концах, mas a psicologia, senhores, ainda que coisa profunda, se parece com uma vara de duas pontas.
A segunda acusa a construção de ser romance:
И такими-то романами мы готовы погубить жизнь человеческую!, e com romances assim estamos prontos a destruir uma vida humana!
Pela leitura do advogado, o promotor é um romancista que faz de um homem a personagem que lhe convém, e a psicologia é o instrumento da fantasia (capítulo XI do Livro XII). Pela leitura do narrador, ele é um homem sincero, doente e ambicioso, que acredita no que diz, e que guarda no discurso sobre Ivan uma vingança pessoal por antigos choques em debates (capítulo VI do Livro XII). O texto sustenta as duas e acrescenta uma terceira, a mais dura: o promotor erra pela mesma razão que o advogado, porque cada um precisa que Mítia seja simples para fechar a própria tese (capítulo XIV do Livro XII). O erro, no caso dele, não é de má-fé, e é isso que o torna perigoso (capítulo VIII do Livro XII).
Relações
- Dmitri Fiódorovitch Karamázov: o réu que ele interroga na noite da prisão, despe, ouve e acusa; Mítia o chama de caçador, a ele e ao juiz (capítulo IV do Livro IX), e ele lê o salto de volta ao jardim como frieza (capítulo V do Livro IX).
- Fietiukóvitch: o mestre da defesa que ele teme (capítulo I do Livro XII) e que lhe devolve a psicologia como vara de duas pontas (capítulo X do Livro XII, capítulo XI do Livro XII).
- Grigori: a testemunha da porta aberta, cuja palavra ele usa como prova decisiva (capítulo VI do Livro IX).
- Smierdiakóv: o morto a quem ele examina e exclui por falta de outro nome (capítulo VIII do Livro XII).
- Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov: o irmão a quem ele pergunta se Mítia ameaçou o pai (capítulo IV do Livro XII).
- Ivan Fiódorovitch Karamázov: o retrato que ele faz de Ivan, de inteligência forte e sem fé, guarda uma vingança pessoal (capítulo VI do Livro XII).