Quem é
Dmitri Fiódorovitch Karamázov, Mítia, é o filho mais velho de Fiódor Pávlovitch Karamázov, ex-oficial de vinte e oito anos que parece mais velho, musculoso, de passo militar e de olhar que não acompanha o humor (capítulo VI do Livro II). Esquecido pelo pai aos três anos e passado de mão em mão, criado primeiro pelo criado Grigori, chega à maioridade convencido de ter uma fortuna e descobre, ao acertar contas com o pai, que não resta nada (capítulo II do Livro I). A vida adulta dele gira em torno de duas mulheres que o livro põe em lados opostos, Catierina Ivánovna, a noiva nobre a quem deve três mil rublos, e Grúchenka, a mulher que o enlouquece e que o pai também deseja (capítulo IV do Livro III, capítulo V do Livro III). Entre as duas, o dinheiro e o velho, arma-se a noite em que o pai é morto, e Mítia é preso, interrogado e condenado por um crime que não cometeu (capítulo IX do Livro IX, capítulo XIV do Livro XII). O traço que o define é sentir a honra como vergonha no corpo e confessar em voz alta até o que o incrimina, e é por isso que o inquérito o lê como culpado e quem o conhece, como inocente.
Trajetória
No capítulo II do Livro I o narrador conta a juventude desordenada: não termina o ginásio, passa por uma escola militar, vai ao Cáucaso, bate-se em duelo, é rebaixado, serve de novo, farreia e faz dívidas. Quando perde a paciência e volta para acabar de vez com a disputa da herança, descobre que o pai, por adiantamentos e acordos que ele mesmo quis assinar, gastou tudo, e o narrador chama a isso a catástrofe do primeiro romance:
Вот это-то обстоятельство и привело к катастрофе, изложение которой и составит предмет моего первого вступительного романа, foi justamente essa circunstância que levou à catástrofe, cuja exposição constituirá o assunto do meu primeiro romance, o introdutório.
No capítulo VI do Livro II chega atrasado à cela do stáriets (o criado Smierdiakóv lhe garantira duas vezes que a reunião era à uma hora), beija a mão de Zossima, faz ao pai uma reverência funda e diz ter vindo disposto a perdoar e a pedir perdão. Acusado diante dos monges de dever milhares e de ter trocado a noiva nobre por uma sedutora, pergunta, devagar, apontando o velho:
Зачем живет такой человек!, Para que vive um homem assim!
O stáriets se ajoelha diante dele e toca o chão com a testa, e Mítia exclama por Deus e foge com o rosto nas mãos. No capítulo III do Livro III, no jardim vizinho ao do pai, é ele quem espera Aliócha para a confissão que o livro tem por mais longa. Começa pelo hino à alegria de Schiller e se dá o nome de família:
Потому что я Карамазов. Потому что если уж полечу в бездну, то так-таки прямо, головой вниз и вверх пятами, и даже доволен, что именно в унизительном таком положении падаю и считаю это для себя красотой., Porque sou um Karamázov. Porque, se for voar para o abismo, é direto, de cabeça para baixo e pés para cima, e até fico contente de cair justamente nessa posição humilhante e considero isso, para mim, beleza.
в тебе, ангеле, это насекомое живет и в крови твоей бури родит. Это — бури, потому что сладострастье буря, больше бури! Красота — это страшная и ужасная вещь!, em você, anjo, esse inseto vive e gera tempestades no seu sangue. São tempestades, porque a sensualidade é uma tempestade, mais do que uma tempestade! A beleza é uma coisa terrível e assustadora!
Diz que o ideal da Madona e o de Sodoma moram no mesmo coração, e que é nele que as duas forças se batem:
иной, высший даже сердцем человек и с умом высоким, начинает с идеала Мадонны, а кончает идеалом содомским, um homem até de coração elevado e de espírito alto começa pelo ideal da Madona e acaba no ideal de Sodoma.
Тут дьявол с богом борется, а поле битвы — сердца людей., Aqui o diabo luta com Deus, e o campo de batalha são os corações dos homens.
No capítulo IV do Livro III ouve de Aliócha a escada do vício, que se sobe inteira uma vez pisado o primeiro degrau:
Кто ступил на нижнюю ступеньку, тот всё равно непременно вступит и на верхнюю., Quem pisou no degrau mais baixo, de qualquer modo pisará sem falta também no mais alto.
e conta a história de Catierina Ivánovna, sem se poupar. Alferes no batalhão, soube que o comandante, pai dela, estava em apuros por falta de quatro mil e quinhentos rublos na caixa do batalhão, e mandou dizer à filha mais velha que a irmã, a moça do instituto, viesse em segredo buscar o dinheiro. Ela veio, e o primeiro pensamento dele, diz, foi de Karamázov:
Красива была она тем в ту минуту, что она благородная, а я подлец, что она в величии своего великодушия и жертвы своей за отца, а я клоп., Bela, naquele momento, ela o era porque era nobre e eu um canalha, porque estava na grandeza da sua generosidade e do seu sacrifício pelo pai, e eu um percevejo.
Ela se curva até o chão, à russa, e ele, que podia ter-se aproveitado, beija a lâmina da espada e a deixa ir com o dinheiro:
склонилась вся и прямо мне в ноги — лбом до земли, не по-институтски, по-русски!, inclinou-se inteira e direto aos meus pés, com a testa no chão, não à maneira das moças do instituto, mas à russa!
No capítulo V do Livro III explica a Aliócha a segunda metade, que chama de tragédia: Catierina lhe confia três mil rublos para enviar à irmã em Moscou, e ele os gasta com Grúchenka e diz que enviou, e por isso se tem por ladrão. Do que sente por Grúchenka diz:
Грянула гроза, ударила чума, заразился и заражен доселе, и знаю, что уж всё кончено, что ничего другого и никогда не будет. Цикл времен совершен., Estourou a tempestade, caiu a peste, contagiei-me e estou contagiado até hoje, e sei que tudo já acabou, que nada mais e nunca mais haverá. O ciclo dos tempos se cumpriu.
Sabe que o pai separou três mil rublos num envelope para ela, e monta guarda no jardim. Pede a Aliócha que vá ao velho buscar o dinheiro, pede a Deus um milagre e, se o pai a levar, avisa:
Чуду промысла божьего. Богу известно мое сердце, он видит всё мое отчаяние. Он всю эту картину видит. Неужели он попустит совершиться ужасу? Алеша, я чуду верю, иди!, No milagre da providência de Deus. Deus conhece o meu coração, vê todo o meu desespero. Vê todo este quadro. Será que permitirá que se cumpra o horror? Aliócha, eu creio no milagre, vai!
А коль если, так убью. Так не переживу., E se acontecer, mato. Não sobreviverei a isso.
Старика. Ее не убью., O velho. Ela eu não mato.
No capítulo IX do Livro III invade a casa do pai à procura de Grúchenka, derruba Grigori com um soco e espanca o velho, pisando-lhe o rosto, e sai gritando que não se arrepende do sangue. No capítulo XI do Livro III, sob um salgueiro no caminho do mosteiro, brinca de bandido com Aliócha, fala em se enforcar e, depois de rir às gargalhadas com a cena das duas mulheres, bate no peito e diz que ali se prepara uma desonra:
вот тут, вот тут — готовится страшное бесчестие., aqui, aqui, está se preparando uma desonra terrível.
Ну так знай же, что я его совершу, а не остановлю., Então fique sabendo que eu o vou cometer, e não detê-lo.
No capítulo VII do Livro IV o capitão Snieguiriov conta a Aliócha que Mítia o arrastou da taverna até a praça pela barba, diante do filho, o menino Iliúcha, que corria ao lado, e que o ofensor ainda lhe propôs o duelo de oficiais:
Ты, говорит, офицер, и я офицер, если можешь найти секунданта, порядочного человека, то присылай — дам удовлетворение, хотя бы ты и мерзавец!, você é oficial, diz ele, e eu também; se você achar um padrinho, um homem decente, mande-o, que eu darei satisfação, ainda que você seja um crápula!
No capítulo I do Livro VIII a dívida com Catierina é o que o impede de começar a vida nova com Grúchenka, e ele a diz com a franqueza de sempre:
я карманный вор, я подлец, а новую жизнь я не хочу начинать подлецом, sou um ladrão de bolso, sou um canalha, e não quero começar a vida nova como canalha.
лучше даже «убить и ограбить кого-нибудь, но долг Кате возвратить», é melhor até «matar e roubar alguém, mas devolver a dívida a Kátia».
Os três mil que procura não aparecem: Samsónov o recusa e o manda a Liagávi, o mercador que compra o bosque do pai (capítulo I do Livro VIII), e em Ilínskoie Mítia só encontra o homem bêbado, quase morre intoxicado de carvão e suspeita de que o mandaram ali de propósito (capítulo II do Livro VIII); a senhora Khokhlakova lhe oferece as minas de ouro em vez do dinheiro, e ele, depois de empenhar as pistolas de duelo, soca a mesa e sai chorando na rua (capítulo III do Livro VIII). No capítulo IV do Livro VIII, sem saber onde está Grúchenka, rodeia a casa do pai, pula a cerca, agacha-se atrás das moitas e olha pela janela iluminada. O que sente diante do velho, ele o diz mais tarde:
Ненавижу я его кадык, его нос, его глаза, его бесстыжую насмешку. Личное омерзение чувствую., Odeio o pomo de adão dele, o nariz, os olhos, o escárnio sem-vergonha. Sinto um nojo pessoal.
Dá o sinal combinado que faz o pai abrir a janela, tira o pilão do bolso e o romance corta a cena, deixando só a frase que ele repetirá depois. O que se vê em seguida é Grigori caído e Mítia sobre ele, julgando-o morto:
Бог, — как сам Митя говорил потом, — сторожил меня тогда, Deus, como dizia depois o próprio Mítia, me guardava naquela hora.
убил так убил… Попался старик и лежи!, matou, matou... O velho se deu mal, que fique aí deitado!
No capítulo V do Livro VIII descobre por Fénia que Grúchenka foi a Mókroie ao encontro do oficial de cinco anos atrás, e corre à casa de Pierkhótin com as mãos sujas de sangue e um maço de notas. Perguntado de quem é o sangue, desvia com uma piada:
Это я старушонку одну на площади сейчас раздавил. [...] Старика!, Foi uma velhinha que acabei de esmagar na praça. [...] Velho!
Em seguida diz o que pretende fazer consigo:
Казню себя за всю жизнь, всю жизнь мою наказую!, Eu me executo pela minha vida inteira, castigo toda a minha vida!
No capítulo VI do Livro VIII, na troica de Andriéi, pede perdão a todos e reza:
Господи, прими меня во всем моем беззаконии, но не суди меня. Пропусти мимо без суда твоего… Не суди, потому что я сам осудил себя; не суди, потому что люблю тебя, господи!, Senhor, recebe-me com toda a minha iniquidade, mas não me julgues. Deixa-me passar sem o teu juízo… Não me julgues, porque eu mesmo me condenei; não me julgues, porque te amo, Senhor!
No capítulo VII do Livro VIII, em Mókroie, pede para ficar até de manhã na sala em que Grúchenka está com os poloneses e oferece ao pan três mil rublos para que vá embora, o que ele denuncia a ela, que se sente vendida e se volta contra os dois:
хочешь три тысячи, бери и уезжай куда знаешь. [...] Бери три тысячи и убирайся ко всем чертям, Quer três mil? Pegue e vá embora para onde quiser. [...] Pegue os três mil e vá para o diabo.
No capítulo VIII do Livro VIII, sozinho no escuro do balcão, entende que o oficial que o perseguia virou algo pequeno e cômico, reza para que o cálice passe e tem um raio de esperança: se o velho viver, ele devolve o dinheiro. Volta e encontra Grúchenka atrás da cortina, chorando e dizendo a si mesma:
Его ли любила али только злобу мою? Нет, его! Ох, его!, Era a ele que eu amava, ou só a minha raiva? Não, a ele! Ah, a ele!
Ela lhe diz que vai arar a terra com ele, e Mítia, de joelhos, só consegue pensar em uma coisa:
Груша, ты хочешь, чтобы честно, а я вор. Я у Катьки деньги украл… Позор, позор!, Grucha, você quer que seja honesto, e eu sou ladrão. Roubei o dinheiro da Katka… Que vergonha, que vergonha!
Quando a cortina se abre e entram o isprávnik, o promotor adjunto e o juiz de instrução, ouve a acusação sem entendê-la de imediato:
Старик! [...] старик и его кровь!.. По-ни-маю!, Velho! [...] o velho e o sangue dele!.. Com-pre-en-do!
No capítulo III do Livro IX, na primeira provação, grita que não é culpado do sangue do pai, mas que quis matar, e a seus interrogadores, aliviado, fala de Grigori como de um pai de verdade:
Не повинен! В этой крови не повинен! В крови отца моего не повинен… Хотел убить, но не повинен! Не я!, Não sou culpado! Desse sangue não sou culpado! Do sangue do meu pai não sou culpado… Quis matar, mas não sou culpado! Não fui eu!
Этот старик — ведь он носил меня на руках, господа, мыл меня в корыте, когда меня трехлетнего ребенка все покинули, был отцом родным!.., Esse velho me carregava nos braços, senhores, me lavava na tina quando todos me abandonaram, aos três anos, era um pai de verdade!..
No capítulo IV do Livro IX manda escrever que pegou o pilão para matar o pai e conta o sonho em que alguém o procura no escuro e finge não saber onde ele está; agora, diz ao promotor e ao juiz, o sonho é real, ele é o lobo e eles os caçadores:
Теперь уж не сон! Реализм, господа, реализм действительной жизни! Я волк, а вы охотники, ну и травите волка., Agora não é sonho! O realismo, senhores, o realismo da vida real! Eu sou o lobo, e vocês os caçadores, então cacem o lobo.
No capítulo V do Livro IX, na terceira provação, conta com precisão o que sentiu à janela e como fugiu, e se recusa a dizer de onde veio o dinheiro que levava, porque a vergonha de dizer é, afirma, maior do que a de ter matado e roubado o pai:
Потому, господа, умалчиваю, что тут для меня позор. В ответе на вопрос: откуда взял эти деньги, заключен для меня такой позор, с которым не могло бы сравняться даже и убийство, и ограбление отца, если б я его убил и ограбил., Porque se calo, senhores, é que há aqui uma vergonha para mim. Na resposta à pergunta de onde tirei esse dinheiro está encerrada para mim uma vergonha com que nem o assassinato e o roubo do meu pai se poderiam comparar, se eu o tivesse matado e roubado.
No capítulo VI do Livro IX, despido diante de camponeses e examinado como prova, diz que quem abriu a porta ao pai e entrou por ela foi o assassino, e que esse não é ele, mesmo quando o promotor lhe diz que Grigori, ao recobrar a consciência, jura ter visto a porta aberta:
Тот, который отпер к отцу дверь и вошел этою дверью, тот и убил его, тот и обокрал. Кто он — я теряюсь и мучаюсь, но это не Дмитрий Карамазов, Aquele que abriu a porta ao meu pai e entrou por essa porta, esse foi quem o matou, esse foi quem o roubou. Quem é, eu me perco e me atormento, mas não é Dmitri Karamázov.
No capítulo VII do Livro IX revela o segredo dos mil e quinhentos rublos que trazia costurados ao pescoço, metade do dinheiro de Catierina, guardada para fugir com Grúchenka. A vergonha não está na soma, mas em ter separado metade da outra:
Не в полутора тысячах заключался позор, а в том, что эти полторы тысячи я отделил от тех трех тысяч, A vergonha não estava nos mil e quinhentos, mas em ter separado esses mil e quinhentos dos três mil.
E fixa a diferença que o move:
Подлецом может быть всякий, да и есть, пожалуй, всякий, но вором может быть не всякий, а только архиподлец., Canalha pode ser qualquer um, e talvez todo mundo seja, mas ladrão nem todo mundo pode ser, só o arquicanalha.
No capítulo VIII do Livro IX, depois de ouvir Grúchenka jurar que ele não engana contra a consciência, dorme e sonha com uma estepe de neve molhada, uma aldeia meio queimada e uma mulher magra, de braços nus e roxos, com uma criança chorando nos braços:
почему не кормят дитё?, por que não alimentam a criancinha?
Acorda com um travesseiro sob a cabeça e a alegria de quem foi tratado como gente:
Я хороший сон видел, господа, Tive um bom sonho, senhores.
No capítulo IX do Livro IX, ao ser levado para a cadeia, formula a culpa que aceita, que não é a do inquérito:
Господа, все мы жестоки, все мы изверги, все плакать заставляем людей, матерей и грудных детей, но из всех — пусть уж так будет решено теперь — из всех я самый подлый гад!, Senhores, somos todos cruéis, somos todos monstros, todos fazemos as pessoas chorarem, as mães e as crianças de peito, mas de todos, que se decida assim agora, sou eu o mais vil dos vermes!
No capítulo IV do Livro XI, dois meses depois, ainda na cadeia, o que antes era vergonha virou desejo de cantar um hino, e Mítia diz a Aliócha que irá à mina por todos, e por um menino:
За «дитё» и пойду. Потому что все за всех виноваты. За всех «дитё», потому что есть малые дети и большие дети. Все — «дитё». За всех и пойду, потому что надобно же кому-нибудь и за всех пойти. Я не убил отца, но мне надо пойти. Принимаю!, pelo menino é que irei. Porque todos são culpados por todos. Por todos o menino, porque há crianças pequenas e crianças grandes. Todos são menino. Irei por todos, porque é preciso que alguém vá por todos. Não matei meu pai, mas preciso ir. Aceito!
Да здравствует бог и его радость! Люблю его!, viva Deus e a sua alegria! Eu o amo!
No mesmo capítulo conta o plano de Ivan, a fuga para a América com Grúchenka, e hesita: onde ficaria o hino se ele fugisse da cruz? No capítulo I do Livro XII, ao abrir o julgamento, confessa-se culpado de embriaguez e devassidão e recusa o roubo:
Признаю себя виновным в пьянстве и разврате, confesso-me culpado de embriaguez e de devassidão.
Дмитрий Карамазов подлец, но не вор!, Dmitri Karamázov é um canalha, mas não é ladrão!
No capítulo III do Livro XII, o doutor Herzenstube conta que levou uma libra de nozes ao menino sem botinas do quintal do pai, e que vinte e três anos depois o rapaz entrou no consultório para agradecer o presente:
Я сейчас приехал и пришел вас благодарить за фунт орехов; ибо мне никто никогда не покупал тогда фунт орехов, а вы один купили мне фунт орехов, acabo de chegar e vim agradecer pela libra de nozes; porque ninguém nunca me comprou naquele tempo uma libra de nozes, e o senhor foi o único que me comprou uma libra de nozes.
Do banco dos réus, Mítia responde ao velho:
И теперь плачу, немец, и теперь плачу, божий ты человек!, ainda hoje choro, alemão, ainda hoje choro, homem de Deus!
No capítulo IV do Livro XII, quando Catierina depõe a favor dele e conta a visita ao jovem oficial, a reverência até o chão e os cinco mil rublos, Mítia se levanta e exclama de braços estendidos:
Катя, зачем меня погубила!, Kátia, por que me perdeu!
No capítulo XIV do Livro XII, depois dos dois discursos, fala pouco, com voz fraca e humilde:
„В крови отца моего — нет, не виновен!“ В последний раз повторяю: „Не я убил“, "no sangue de meu pai, não, não sou culpado!" Pela última vez repito: "não fui eu quem matou".
Pede aos jurados que não o privem do seu Deus, porque, conhecendo-se, se revoltaria. Quando ouve o veredicto, culpado em todos os pontos e sem atenuante, grita de braços abertos o perdão à mulher que o perdeu:
Но пощадите, не лишите меня бога моего, знаю себя: возропщу!, mas poupem-me, não me privem do meu Deus; conheço-me: vou me revoltar!
И потом по всем пунктам пошло всё то же: виновен да виновен, и это без малейшего снисхождения!, e depois, em todos os pontos, seguiu-se o mesmo: culpado e culpado, e isso sem a menor indulgência!
Катя, прощаю тебе! Братья, други, пощадите другую!, Kátia, eu te perdoo! Irmãos, amigos, poupem a outra!
No capítulo II do Epílogo, no hospital, com febre nervosa, diz a Aliócha que fugirá com Grúchenka para a América e voltará disfarçado para morrer na Rússia, e o que o prende ao país é isto:
Россию люблю, Алексей, русского бога люблю, хоть я сам и подлец!, amo a Rússia, Alieksiéi, amo o Deus russo, ainda que eu mesmo seja um canalha!
Quando confessa que ama Grúchenka terrivelmente e que passou a noite a se julgar, e que a cruz o espanta, Aliócha lhe responde:
ты не готов, и не для тебя такой крест, você não está pronto, e uma cruz assim não é para você.
No mesmo capítulo Catierina vem vê-lo e Grúchenka entra no quarto, e o livro não diz se ele foge.
Temas que encarna
Mítia é a energia bruta da família, a que abre o poço do crime e a possibilidade da beleza, sem que o romance aceite separar as duas coisas. A herança do pai está no apetite, mas nele o apetite se confessa: nomeia o inseto, o percevejo, e ouve de Aliócha a escada do vício (capítulo III do Livro III, capítulo IV do Livro III), e é por isso que a dívida com Catierina o pesa mais do que a morte do pai, que não cometeu (capítulo VII do Livro IX). O tema que carrega é o de Culpa, medido em três vozes: a do inquérito, que só sabe de fatos, a dele, que só sabe de vergonha, e a do sonho do menino faminto, onde a culpa deixa de ser de alguém e vira de todos (capítulo IX do Livro IX). O promotor o lê como alguém que contempla os dois abismos ao mesmo tempo, o ideal mais alto e a queda mais fétida (capítulo VI do Livro XII):
способные вмещать всевозможные противоположности и разом созерцать обе бездны, бездну над нами, бездну высших идеалов, и бездну под нами, бездну самого низшего и зловонного падения, capazes de abarcar todos os contrários e de contemplar ao mesmo tempo os dois abismos, o abismo acima de nós, dos ideais mais altos, e o abismo abaixo de nós, da queda mais baixa e fétida.
O que ele quer é Grúchenka e a honra, e o livro mostra que as duas coisas se cruzam no mesmo objeto, o dinheiro de Catierina (capítulo I do Livro VIII, capítulo VII do Livro IX). O que teme é ser, aos próprios olhos, um ladrão, e não um assassino, e a escala de culpas que o inquérito lhe impõe é a inversa da dele (capítulo V do Livro IX). O que sabe é que o sangue de Grigori está nas mãos dele, e o que ignora é que o pai está morto até o instante da prisão (capítulo VIII do Livro VIII). Onde se engana é em acreditar que a vergonha se resolve com um ato, pagar a dívida, matar-se, fugir, e é o sofrimento que não escolheu que o muda (capítulo IV do Livro XI). A cruz que Aliócha diz que ele ainda não está pronto para carregar (capítulo II do Epílogo) é a mesma que o hino já aceitava (capítulo IV do Livro XI).
Leituras divergentes
O livro põe em cena duas leituras do crime de Mítia que se fecham sobre ele. O promotor precisa de um homem que premedita e interpreta a carta bêbada como plano, e a defesa precisa de um homem que nunca quis matar, e cada uma quer Mítia simples para fechar a própria tese. Para a defesa, o culpado é o criado, e a prova é a distinção que ela faz ao ler o bilhete do suicida:
Отчаяние и раскаяние — две вещи совершенно различные., desespero e remorso são duas coisas completamente diferentes.
A frase do próprio Mítia fica entre as duas:
Принимаю казнь не за то, что убил его, а за то, что хотел убить и, может быть, в самом деле убил бы…, Aceito a execução, não porque o matei, mas porque quis matá-lo, e talvez de fato o tivesse feito…
O mesmo gesto, ter voltado ao jardim para ver o velho, tem duas descrições: ele diz que pulou por pena, e o promotor lê a frieza de quem confirma que a única testemunha está morta.
Увы, Мите и в голову не пришло рассказать, хотя он и помнил это, что соскочил он из жалости и, став над убитым, произнес даже несколько жалких слов: «Попался старик, нечего делать, ну и лежи»., Ai, a Mítia nem passou pela cabeça contar, embora se lembrasse, que saltou por pena e, de pé sobre o que julgava morto, disse até algumas palavras lastimáveis: «Deu-se mal o velho, não há o que fazer, pois fique aí deitado».
As leituras divergem sobre o que Mítia carrega. Para o promotor, o excesso é indício de crime; para a defesa, é prova de inocência; para uma leitura simbólica, a do corpo, é a limitação de um caminho que se esgota nos sentidos; para uma leitura biográfica, é o ciúme que o autor conhecia; para outra, é a palavra de honra, critério de verdade que o inquérito, de tipo ocidental, deixou de aceitar. O livro dá razão a todas em parte, e a nenhuma por inteiro: ele é capaz do crime e não o comete, e é no intervalo entre as duas coisas que mora o que o romance chama de culpa (capítulo IX do Livro IX, capítulo XIV do Livro XII). Contra a leitura do corpo, vale notar que é de Mítia, e não de Ivan, o hino do capítulo IV do Livro XI.
Relações
- Fiódor Pávlovitch Karamázov: o pai que o esqueceu e o explorou (capítulo II do Livro I), de quem herda o apetite sem freio e a quem quase mata de ódio, sem chegar a matar (capítulo IX do Livro III, capítulo IV do Livro VIII).
- Ivan Fiódorovitch Karamázov: o irmão que lhe propõe a fuga, ainda que, na opinião de Mítia, creia que foi ele quem matou, e a quem Mítia perguntou se então tudo é permitido (capítulo IV do Livro XI).
- Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov: o irmão a quem faz a confissão mais longa do romance (capítulo III do Livro III, capítulo IV do Livro III, capítulo V do Livro III) e a quem o hino é dito na cadeia (capítulo IV do Livro XI).
- Catierina Ivánovna: a noiva a quem deve três mil rublos e de quem se considera ladrão (capítulo V do Livro III, capítulo VII do Livro IX); no Epílogo, o último encontro dos dois (capítulo II do Epílogo).
- Grúchenka: a mulher por quem estava disposto a matar o pai (capítulo V do Livro III), que ele reencontra em Mókroie e de quem se despede na prisão (capítulo VIII do Livro VIII, capítulo IX do Livro IX).
- Smierdiakóv: o criado que lhe garantiu a hora errada da reunião (capítulo VI do Livro II), conhece os sinais combinados (capítulo V do Livro III) e é o verdadeiro assassino (capítulo VIII do Livro XI).
- Grigori: o criado que o cria e a quem fere no jardim (capítulo II do Livro I, capítulo IV do Livro VIII, capítulo III do Livro IX).