Quem é
Catierina Ivánovna, Kátia, é a noiva nobre de Dmitri Fiódorovitch Karamázov, filha do tenente-coronel que comandava o batalhão em que Mítia serviu, e a mulher que Aliócha descreve como bela, altiva e dominadora, com fins nobres e um orgulho que não cede (capítulo III do Livro III, capítulo X do Livro III). Quando o pai dela ficou em apuros por falta de dinheiro na caixa do batalhão, foi a Mítia em segredo, ajoelhou-se até o chão e voltou com o dinheiro sem ter sido tocada, o que cria entre os dois uma dívida de gratidão que ela, depois, transforma em missão (capítulo IV do Livro III). Em Moscou, adotada por uma parenta rica, recebe um dote de oitenta mil rublos e escreve a Mítia oferecendo-se em casamento (capítulo V do Livro III). O romance a usa para testar uma forma de fidelidade que se declara como virtude e que Ivan Fiódorovitch Karamázov diagnostica como amor pela própria ofensa (capítulo V do Livro IV). Termina o livro entregando ao tribunal a carta que condena Mítia, desfazendo-se em remorso e pondo o plano de fuga de Ivan nas mãos de Aliócha (capítulo V do Livro XII, capítulo I do Epílogo).
Trajetória
No capítulo IV do Livro III, contada por Mítia, nasce a dívida: o tenente-coronel está em apuros, falta dinheiro na caixa do batalhão, e a moça do instituto, informada pela irmã, vem em segredo ao alojamento do jovem alferes. Mítia diz o que ela era naquele momento:
Красива была она тем в ту минуту, что она благородная, а я подлец, что она в величии своего великодушия и жертвы своей за отца, а я клоп., Bela, naquele momento, ela o era porque era nobre e eu um canalha, porque estava na grandeza da sua generosidade e do seu sacrifício pelo pai, e eu um percevejo.
Ela se curva até o chão, à russa, e sai com o dinheiro, sem ter sido tocada:
склонилась вся и прямо мне в ноги — лбом до земли, не по-институтски, по-русски!, inclinou-se inteira e direto aos meus pés, com a testa no chão, não à maneira das moças do instituto, mas à russa!
No capítulo V do Livro III, quando o pai morre e ela vai a Moscou, escreve a Mítia um bilhete a lápis e depois uma carta em que se oferece em casamento:
буду ваша мебель, буду тот ковер, по которому вы ходите…, serei a sua mobília, serei o tapete em que o senhor pisa…
Mítia, que a descreve como noiva formal e abençoada, diz a Aliócha, quando ele lhe garante que ela o ama e não a Ivan, o que pensa dela:
Она свою добродетель любит, а не меня, Ela ama a sua própria virtude, não a mim.
Foi ela quem lhe confiou três mil rublos para remeter à irmã em Moscou, e é por essa soma que Mítia se tem por ladrão. No capítulo X do Livro III, na casa dela, o recado de Mítia, que manda cumprimentá-la e que não voltará, ela o lê como bravata de quem se decidiu e se assustou:
Но если он особенно настаивал на этом слове, если особенно поручал вам не забыть передать мне этот поклон, — то, стало быть, он был в возбуждении, вне себя, может быть? Решился и решения своего испугался! Не ушел от меня твердым шагом, а полетел с горы. Подчеркивание этого слова может означать одну браваду…, Mas se ele insistiu especialmente nessa palavra, se encarregou especialmente o senhor de não esquecer de me transmitir essa reverência, então estava excitado, fora de si, talvez? Decidiu-se e se assustou com a própria decisão! Não se afastou de mim com passo firme, mas despencou da montanha. O destaque dessa palavra pode significar apenas bravata…
Faz Grúchenka sair de trás da cortina e a beija nas mãos, mas Grúchenka, a pedir a mãozinha para ficar quites, a leva aos lábios e não a beija:
А так и оставайтесь с тем на память, что вы-то у меня ручку целовали, а я у вас нет., Pois fique com isto de lembrança: que a senhorita beijou a minha mãozinha, e eu a sua não.
Catierina grita e Aliócha a segura, e ela, de repente, entende que Mítia contou à outra o que se passou no dia fatal. Pede a Aliócha que volte, e que não a condene. No capítulo IV do Livro IV, a senhora Khokhlakova cochicha a Aliócha que ela ama Ivan e se convence de que ama Mítia:
она любит вашего брата Ивана Федоровича и уверяет себя изо всех сил, что любит вашего брата Дмитрия Федоровича. Это ужасно!, ela ama o seu irmão Ivan Fiódorovitch e se convence com todas as forças de que ama o seu irmão Dmitri Fiódorovitch. É terrível!
No capítulo V do Livro IV, no salão, diante de Aliócha e de Ivan, declara que nunca abandonará Mítia, mesmo que ele se case com a outra:
От этих пор я уже никогда, никогда не оставлю его! [...] Я буду богом его, которому он будет молиться, de agora em diante nunca, nunca o deixarei! [...] Serei o deus dele, a quem ele rezará.
Quando Ivan diz que talvez parta amanhã para Moscou, grita que está contente e, logo depois, explica por que, e Aliócha, como quem se joga do telhado, lhe diz o que vê:
Он едет в Москву, а вы вскрикнули, что рады, — это вы нарочно вскрикнули! А потом тотчас стали объяснять, что вы не тому рады, а что, напротив, жалеете, что… теряете друга, — но и это вы нарочно сыграли… как на театре в комедии сыграли!.., ele vai a Moscou e a senhora gritou que estava contente, e gritou de propósito! E logo depois passou a explicar que não é disso que está contente, que, ao contrário, lamenta... perde um amigo, mas isso também a senhora encenou de propósito... encenou como numa comédia, no teatro!...
позовите сейчас Дмитрия [...] вы мучаете Ивана, потому только, что его любите… а мучите потому, что Дмитрия надрывом любите… внеправду любите… потому что уверили себя так, mande chamar agora Dmitri [...] a senhora atormenta Ivan só porque o ama... e o atormenta porque ama Dmitri num nadryv... ama fora da verdade... porque se convenceu de que é assim...
Ela o chama de pequeno louco de Deus, e Ivan, que lhe responde com uma sinceridade que Aliócha nunca vira nele, diz que ela o manteve ao lado dela para uma vingança sem fim, e que só ama Mítia, e cada vez mais, à medida das ofensas dele:
Она держала меня при себе для беспрерывного мщения. Она мстила мне и на мне за все оскорбления, которые постоянно и всякую минуту выносила во весь этот срок от Дмитрия, оскорбления с первой встречи их, ela me manteve a seu lado para uma vingança sem fim. Vingava-se de mim e em mim de todas as ofensas que suportava a todo instante, durante todo esse tempo, da parte de Dmitri, ofensas desde o primeiro encontro deles.
вы действительно любите только его. И по мере оскорблений его всё больше и больше. Вот это и есть ваш надрыв. Вы именно любите его таким, каким он есть, вас оскорбляющим его любите. Если б он исправился, вы его тотчас забросили бы и разлюбили вовсе, a senhora de fato só ama a ele. E cada vez mais, à medida das ofensas dele. Esse é o seu nadryv. A senhora o ama justamente como ele é, ofendendo a senhora. Se ele se corrigisse, a senhora o largaria na hora e deixaria de amá-lo por completo.
Volta com duas cédulas de cem rublos e pede a Aliócha que as leve, de parte da noiva de Mítia e não dele, ao capitão Snieguiriov, a quem Mítia puxou pela barba na rua. No capítulo V do Livro XI, na véspera do julgamento, perde o controle diante de Ivan e de Aliócha e diz que uma hora antes tocar em Mítia lhe parecia como tocar num réptil, e que ele ainda é, para ela, um homem. No capítulo VII do Livro XI, abre uma gaveta e põe diante de Ivan o documento, a carta que Mítia escreveu bêbado numa taverna, prometendo devolver os três mil rublos e, se ninguém os der, rachar a cabeça do pai.
No capítulo IV do Livro XII, no tribunal, depõe primeiro a favor de Mítia: conta a visita ao jovem oficial, a reverência até o chão, os cinco mil rublos. No capítulo V do Livro XII, depois da cena de Ivan, estende ao presidente a carta, grita que o monstro é Mítia e que Ivan está doente, diz que Mítia só quis casar por causa da herança e que ela tem a honra de ser a única amiga de Ivan:
Я имею честь быть его единственным другом!, tenho a honra de ser a sua única amiga!
O narrador intervém para dizer que ela não mentiu, acreditou no que disse, e que o ódio de anos vazou numa hora:
Она предала Митю, но предала и себя!, ela traiu Mítia, mas traiu também a si mesma!
No capítulo XIV do Livro XII, quando o júri responde culpado, Mítia se levanta, de braços abertos, e é a ela que grita:
Катя, прощаю тебе! Братья, други, пощадите другую!, Kátia, eu te perdoo! Irmãos, amigos, poupem a outra!
No capítulo I do Epílogo, cinco dias depois, abriga Ivan em febre em sua casa, pálida, e diz a Aliócha o que sente:
О, всему, всему причиною мое бешенство! Это я, я и приготовила эту проклятую сцену в суде! [...] Я всему причиною, я одна виновата!, ah, de tudo, de tudo a causa é a minha fúria! Fui eu, eu mesma que preparei aquela maldita cena no tribunal! [...] Eu sou a causa de tudo, só eu sou culpada!
Aliócha lhe diz que Mítia a chama, que não pede reconciliação, só que ela apareça à porta:
Ваши глаза должны встретиться. Как вы будете жить всю жизнь, если теперь не решитесь?, os olhos dos senhores precisam se encontrar. Como a senhora vai viver a vida inteira, se agora não se decidir?
No capítulo II do Epílogo, no hospital, diante de Mítia, diz que o amor passou, mas que o que passou lhe é caro até doer:
Любовь прошла, Митя! [...] но дорого до боли мне то, что прошло. Это узнай навек. Но теперь, на одну минутку, пусть будет то, что могло бы быть [...] И ты теперь любишь другую, и я другого люблю, а все-таки тебя вечно буду любить, o amor passou, Mítia! [...] mas o que passou me é caro até doer. Fique sabendo para sempre. Mas agora, por um minutinho, que seja o que poderia ter sido [...] Você agora ama outra, e eu amo outro, e ainda assim sempre amarei você.
Quando Grúchenka entra no quarto, Catierina lhe sussurra que a perdoe, e Grúchenka, com voz envenenada de rancor, responde:
Злы мы, мать, с тобой! Обе злы! Где уж нам простить, тебе да мне? Вот спаси его, и всю жизнь молиться на тебя буду., somos más, minha cara, você e eu! As duas! Como é que a gente poderia perdoar, você e eu? Salve-o, e a vida inteira rezarei por você.
Promete salvá-lo, sai correndo, diz depois a Aliócha que disse perdoe-me porque queria punir-se até o fim, e que não irá ao enterro de Iliúcha, mas mandou flores e o dinheiro dos Snieguiriov não faltará.
Temas que encarna
Catierina encena o orgulho que se disfarça de virtude: a fidelidade a Mítia nasce da dívida de honra do episódio dos cinco mil rublos, não de um amor espontâneo (capítulo IV do Livro III), e ela mesma parece precisar da ofensa dele para sustentar o papel de mártir (capítulo V do Livro IV). O diagnóstico de Ivan, de que ela ama Mítia na proporção das ofensas dele, é a chave que o romance usa para diferenciá-la de Grúchenka: Grúchenka se desarma diante de quem não a julga (capítulo III do Livro VII), e Catierina guarda a carta que condena o próprio noivo e a usa quando o orgulho cede ao ódio (capítulo VII do Livro XI, capítulo V do Livro XII). O tema que carrega é o de Culpa, medido contra o orgulho que a esconde.
O que ela quer é ser o deus de Mítia, e o livro lhe oferece o mesmo papel invertido, ser o carrasco (capítulo V do Livro IV, capítulo V do Livro XII). O que teme é perder a virtude que se deu, e é isso que a faz gritar que está contente quando Ivan fala em partir (capítulo V do Livro IV). O que sabe é exato sobre os outros e inexato sobre si, e o momento em que aprende é o Epílogo, quando diz que foi ela quem preparou a cena do tribunal (capítulo I do Epílogo). Onde se engana é em tomar o dever por amor, e o amor por dever. A cena da carta no tribunal é o espelho invertido da cebola de Grúchenka: o gesto calculado que condena contra o gesto mínimo que salva.
Leituras divergentes
O livro põe dentro de si três diagnósticos opostos do amor dela. Mítia a lê como quem ama a própria virtude (capítulo V do Livro III). Aliócha, como quem ama Ivan e se convence de que ama Mítia num nadryv (capítulo V do Livro IV), e a senhora Khokhlakova, como quem faz um complô para que escolha o irmão certo (capítulo V do Livro IV). Ivan, o mais interessado, diz que ela o manteve ao lado para uma vingança sem fim das ofensas de Mítia, e que de fato só ama Mítia. Nenhum é desmentido, e a cena do Epílogo, em que ela diz que o amor passou e que o que passou lhe é caro, deixa os três de pé (capítulo II do Epílogo).
As leituras divergem sobre se Catierina é vítima ou algoz. Para quem lê o amor dela como virtude, ela se sacrifica e é traída; para quem o lê como vingança, usa Mítia e Ivan para se punir e punir. O livro sustenta as duas, e é por isso que a cena do tribunal é narrada de modo que o leitor não saiba onde um começa e o outro termina (capítulo V do Livro XII). Contra a leitura da vítima, vale notar que ela escolhe o que cala no primeiro depoimento (capítulo IV do Livro XII); contra a do algoz, que depois do tribunal ela cuida de Ivan e promete salvar Mítia (capítulo I do Epílogo, capítulo II do Epílogo).
Relações
- Dmitri Fiódorovitch Karamázov: o noivo por dívida de honra, que ela entrega no tribunal e ainda assim visita antes de partir (capítulo IV do Livro III, capítulo V do Livro XII, capítulo II do Epílogo).
- Ivan Fiódorovitch Karamázov: o homem que a ama sem dizer e a quem ela chama de seu único amigo, que acolhe em casa quando ele cai (capítulo V do Livro IV, capítulo V do Livro XII, capítulo I do Epílogo).
- Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov: o confidente a quem manda os duzentos rublos para o capitão e a quem diz a verdade do tribunal (capítulo V do Livro IV, capítulo I do Epílogo).
- Grúchenka: a rival, que a humilha em sua própria sala e a quem pede perdão no hospital (capítulo X do Livro III, capítulo II do Epílogo).