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Tema em Os Irmãos Karamázov

Família

Pais e filhos, irmãos, gerações, linhagem e herança, o conflito entre gerações.

O tema na obra

A família é a matéria do romance antes de ser o seu crime. O Livro I conta, em cinco capítulos, como Fiódor Pávlovitch Karamázov casa duas vezes, tem três filhos e não cria nenhum: Dmitri Fiódorovitch Karamázov é esquecido numa isbá de criado e passa de mão em mão; Ivan Fiódorovitch Karamázov e Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov são recolhidos por uma generala vingativa e por um benfeitor honrado. O pai reaparece na vida de cada um já adulto, por dinheiro ou por tédio, e a casa de que os três voltam a se aproximar é um lugar onde ninguém sabe ser pai nem filho. O sobrenome funciona como destino, e Rakítin o resume numa lista de apetites. O livro faz desse arranjo uma pergunta de tribunal, o que é um pai, que o promotor e o advogado respondem de modos contrários diante do júri, e a pergunta se estende às outras casas que o romance visita: a do capitão Snieguiriov, em que o filho de nove anos consola o pai humilhado, e a das crianças de Aliócha, que no Epílogo ganham uma fraternidade que a família de sangue nunca teve.

No capítulo II do Livro I, o narrador separa o abandono do ódio no modo como o pai trata o primeiro filho.

не по злобе к нему или не из каких-нибудь оскорбленно-супружеских чувств, а просто потому, что забыл о нем совершенно, não por maldade contra ele nem por algum sentimento de marido ofendido, mas simplesmente porque se esqueceu dele por completo.
Livro I: História de uma família

No capítulo VII do Livro II, Rakítin resume a natureza dos Karamázov em uma lista.

сладострастники, стяжатели и юродивые!, sensuais, cobiçosos e loucos de Deus!
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo VIII do Livro III, depois de o pai falar da mãe de Aliócha como de coisa só dele, Ivan o interrompe.

Да ведь и моя, я думаю, мать его мать была, как вы полагаете?, Mas a minha, eu acho, também foi a mãe dele, o que o senhor pensa?
Livro III: Os sensuais

No capítulo IX do Livro III, Mítia derruba o criado Grigori e bate no pai, e Grigori, de pé à mesa, diz o que sente.

Я его в корыте мыл… он меня дерзнул!, Eu o lavei na gamela… ele se atreveu comigo!
Livro III: Os sensuais

Fiódor, com o rosto inchado, confessa a Aliócha de quem tem medo.

я Ивана боюсь; я Ивана больше, чем того, боюсь. Я только тебя одного не боюсь…, tenho medo de Ivan; tenho mais medo de Ivan do que do outro. Só de você eu não tenho medo…
Livro III: Os sensuais

No capítulo II do Livro IV, Aliócha, que o pai trata com a única brandura que tem, responde-lhe com um diagnóstico.

Не злой вы человек, а исковерканный, o senhor não é um homem mau, é um homem estropiado.
Livro IV: Os tumultos

No capítulo VII do Livro IV, o capitão Snieguiriov conta a Aliócha o que o filho fez depois da humilhação na praça, e a cena da pedra mostra uma outra casa em que pai e filho se protegem.

Теплыми-то брызгами этими так вдруг и обмочил он мне всё лицо [...] Никто-то нас тогда не видел-с, бог один видел, com esses respingos mornos ele de repente me molhou o rosto inteiro [...] Ninguém nos viu então, só Deus viu.
Livro IV: Os tumultos

No capítulo VIII do Livro XI, Smierdiakóv, o filho que ninguém reconhece, diz a Ivan de quem ele é filho.

Вы как Федор Павлович, наиболее-с, изо всех детей наиболее на него похожи вышли, с одною с ними душой-с., o senhor é como Fiódor Pávlovitch, mais do que todos; de todos os filhos é o que mais saiu a ele, com a mesma alma.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo XIII do Livro XII, Fietiukóvitch define o pai em plena sala do tribunal.

родивший не есть еще отец, а отец есть — родивший и заслуживший, quem gerou ainda não é pai; pai é quem gerou e mereceu.
Livro XII: Um erro judiciário

Dá voz ao filho que cobra do pai uma razão para amá-lo.

Отец, скажи мне: для чего я должен любить тебя? Отец, докажи мне, что я должен любить тебя?, pai, diga-me: para que devo te amar? Pai, prove-me que devo te amar?
Livro XII: Um erro judiciário

No capítulo XIV do Livro XII, o promotor, na réplica, leva a tese até onde ela assusta.

Но если отцеубийство есть предрассудок и если каждый ребенок будет допрашивать своего отца: „Отец, зачем я должен любить тебя?“ — то что станется с нами, что станется с основами общества, куда денется семья?, mas se o parricídio é um preconceito, e se cada criança passar a interrogar o pai: "Pai, para que devo amar-te?", o que será de nós, o que será dos fundamentos da sociedade, para onde irá a família?
Livro XII: Um erro judiciário

No capítulo III do Epílogo, os meninos a quem Iliúcha pediu, ao morrer, que ficassem com o pai dele vêm ao enterro, e o livro termina com o grito de Kólia, que usa o sobrenome da família de um jeito novo.

Папа плакать будет, будьте с папой, papai vai chorar, fiquem com papai.
Epílogo: O enterro de Iliúcha
И вечно так, всю жизнь рука в руку! Ура Карамазову!, e que seja sempre assim, a vida inteira, mão na mão! Hurra para Karamázov!
Epílogo: O enterro de Iliúcha

Quem o encarna

Fiódor é o pai que não é, e o livro o mostra sem a pressa da caricatura. Mítia é o filho que cresce sem ninguém e reclama o que lhe devem. Ivan é o filho que se envergonha do pai e que o pai teme mais do que o violento, e Aliócha, o único que o velho não teme. Smierdiakóv, o quarto, é o filho que o pai nega e que a casa usa. O capitão Snieguiriov e Iliúcha são o outro modelo, uma família pobre em que o filho se faz homem para defender o pai, e Kólia é o menino que, no fim, herda a fraternidade de Aliócha.

Onde aparece

  • Livro I, capítulo II: Fiódor esquece Mítia, que passa a viver com os criados e depois de mão em mão.
  • Livro I, capítulo III: Os dois filhos do segundo casamento acabam na isbá de Grigori e depois com a generala.
  • Livro II, capítulo VII: Rakítin descreve os Karamázov a Aliócha como sensuais, cobiçosos e loucos de Deus, e diz que a questão da família inteira cabe nessas três palavras.
  • Livro III, capítulo VIII: Ivan lembra ao pai que a mãe de Aliócha também foi a dele.
  • Livro III, capítulo IX: Mítia bate no pai, e Fiódor diz que tem mais medo de Ivan do que dele.
  • Livro IV, capítulo II: Aliócha responde ao pai, que se diz mau com todos menos com ele, que Fiódor não é um homem mau, e sim estropiado.
  • Livro IV, capítulo VII: O capitão Snieguiriov conta a cena do filho que chorou junto à pedra.
  • Livro XI, capítulo VIII: Smierdiakóv diz a Ivan que ele é o filho que mais saiu a Fiódor.
  • Livro XII, capítulo XIII: Fietiukóvitch diz aos jurados que quem gerou ainda não é pai, pois pai é quem gerou e mereceu o nome.
  • Livro XII, capítulo XIV: O promotor pergunta o que será da família se cada filho cobrar do pai uma razão para amá-lo.
  • Epílogo, capítulo III: Os meninos, como Iliúcha pediu, ficam com o pai dele, prometem não esquecê-lo e gritam hurra para Karamázov.

Onde as leituras divergem

O romance admite duas leituras do que faz de alguém um pai. Numa, é um dado do sangue e do destino: o sobrenome, a mesma alma, a herança de apetite que Smierdiakóv aponta em Ivan. Na outra, é uma conquista: pai é quem gerou e mereceu, e a família que o Epílogo mostra, feita de meninos que escolhem ficar com um velho, não depende do sangue.

A mesma palavra que carrega a herança ruim, Karamázov, fecha o livro como grito de amizade, e o texto não diz que uma coisa apaga a outra. No capítulo IX do Livro XII, o promotor usa o sobrenome para acusar, e no capítulo III do Epílogo, Kólia o usa para saudar Aliócha. A família do livro é, assim, o lugar em que se herda e o lugar em que se escolhe, e o filho que mais se aproxima de uma paternidade, Aliócha, a exerce sobre crianças que não são suas. A pergunta do advogado, se o pai merece o amor do filho, fica sem veredito: o júri condena sem responder a ela.