Clavis Libri

Símbolo

A pedra de Iliúcha

O que é

A pedra grande no começo do pasto, nos arredores da cidade, a que o capitão Snieguiriov levava o filho Iliúcha Snieguiriov para passear toda tarde, onde o menino chorou abraçado ao pai depois da humilhação na praça e junto da qual pediu, antes de morrer, para ser enterrado. A palavra pedra faz no livro um arco entre duas imagens: as pedras que seis colegiais atiram em Iliúcha e que Iliúcha atira em Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov no Livro IV, e a pedra única, de pasto, que vira o lugar do menino e dos que o amaram no Epílogo. É um símbolo de lugar, e a mesma palavra nomeia o ataque e a despedida.

Onde aparece

No capítulo III do Livro IV, Aliócha vê seis colegiais de pedra na mão do lado de cá de uma valeta e, do outro, um menino pálido de bolsos cheios delas. Uma pedra o acerta, e os meninos explicam rindo por quê.

Это он в вас, в вас, он нарочно в вас метил. Ведь вы Карамазов, Карамазов?, é em você, é em você que ele joga, de propósito mirou em você. Ora, você é um Karamázov, um Karamázov?
Livro IV: Os tumultos

O menino, depois de atirar-lhe outras nas costas e no cotovelo, morde-lhe o dedo até o osso e só então fala.

не может быть, чтоб я вам ничего не сделал, — не стали бы вы меня так мучить даром. Так что же я сделал и чем я виноват пред вами, скажите?, não pode ser que eu não tenha feito nada a você; você não me atormentaria assim, de graça. Então o que foi que eu fiz, em que sou culpado diante de você, diga?
Livro IV: Os tumultos

No capítulo VII do Livro IV, na rua, o capitão conta a Aliócha que o pai e o filho iam toda tarde até uma pedra grande no começo do pasto, e que numa dessas tardes o menino se abraçou a ele e chorou.

Теплыми-то брызгами этими так вдруг и обмочил он мне всё лицо [...] Никто-то нас тогда не видел-с, бог один видел, com esses respingos mornos ele de repente me molhou o rosto inteiro [...] Ninguém nos viu então, só Deus viu.
Livro IV: Os tumultos

No capítulo VII do Livro X, na isbá, Iliúcha, que entendeu o que o médico disse, faz o pedido.

похорони ты меня у нашего большого камня, к которому мы с тобой гулять ходили, и ходи ко мне туда с Красоткиным, вечером… И Перезвон… А я буду вас ждать…, enterre-me junto da nossa pedra grande, onde íamos passear, e venha me ver lá com Krassótkin, à tardinha... E o Pérezvon... E eu estarei esperando por vocês...
Livro X: Morte de Iliúcha

No capítulo III do Epílogo, quando os meninos erguem o caixão, o capitão grita que o enterrará junto da pedra e não deixará levá-lo.

у камня похороню, у нашего камушка! Так Илюша велел., enterro junto da pedra, da nossa pedrinha! Foi assim que Iliúcha mandou.
Epílogo: O enterro de Iliúcha

Aliócha, Kólia, a senhoria e os meninos o dissuadem. A velha senhoria estranha que se queira enterrar o menino junto de uma pedra suja, como se fosse um enforcado, quando no adro há terra consagrada e canto da igreja. O menino é enterrado no cercado da igreja. Na volta, é Smúrov, um dos que atiravam pedras, quem avisa que ali está a pedra de Iliúcha. Aliócha para junto dela e fala aos meninos.

Знайте же, что ничего нет выше, и сильнее, и здоровее, и полезнее впредь для жизни, как хорошее какое-нибудь воспоминание, и особенно вынесенное еще из детства, из родительского дома, saibam, pois, que não há nada mais alto, mais forte, mais sadio e mais útil para a vida daqui por diante do que alguma boa lembrança, sobretudo a trazida desde a infância, da casa paterna.
Epílogo: O enterro de Iliúcha

No discurso, lembra que enterraram o pobre menino em quem antes atiravam pedras, lá na pontezinha, e que depois todos passaram a amá-lo. Mais adiante, Kólia pergunta se é verdade que todos ressuscitarão e se verão de novo, e Aliócha responde.

Непременно восстанем, непременно увидим и весело, радостно расскажем друг другу всё, что было, sem dúvida nos levantaremos, sem dúvida nos veremos e contaremos uns aos outros, alegres, felizes, tudo o que aconteceu.
Epílogo: O enterro de Iliúcha

O que significa

A pedra muda de função sem mudar de nome. No Livro IV é projétil de um grupo contra um só, e o alvo é escolhido pelo sobrenome, como quem repete uma piada de cidade. No Livro X é o lugar mais íntimo do menino, escolhido por ele para ficar esperando os que ele ama. No Epílogo, o pai não consegue levá-la ao enterro, e o chão que o menino pediu fica sem corpo; a roda de meninos se forma ali, junto da pedra e longe do túmulo, que não é o pedido, e a pedra vira palanque de um discurso sobre a memória. O pedido de Iliúcha, que cabia a um túmulo, é cumprido como lugar de um compromisso.

Duas leituras. Numa, a pedra reconcilia: os que atiravam são os que se juntam em volta dela, o alvo de ontem fala do alto, e o mesmo objeto que feriu serve de altar. Na outra, a pedra marca o que não pôde ser feito: Iliúcha pede um enterro e o pai grita pelo pedido diante de um caixão que os outros levam para a igreja, de modo que o discurso de Aliócha ocupa o lugar de um desejo negado, e o consolo vem de quem não era o destinatário do pedido. O texto sustenta as duas, e dá a favor da segunda um dado material: a senhoria diz que a terra do adro é consagrada e a da pedra não é. Em ambas, a pedra é onde o livro põe, no capítulo III do Epílogo, a pergunta pela ressurreição, junto da pedra, e não junto do túmulo.

Relações