O que é
O pão da primeira tentação do deserto, no poema de Ivan Fiódorovitch Karamázov: o espírito do deserto mostra pedras a Cristo e propõe que as transforme em pães, e o Grande Inquisidor lê aí a oferta de uma obediência comprada, a humanidade que correria atrás de quem a alimenta, grata e dócil. O livro faz o pão reaparecer fora do poema, em três versões que se respondem: o pão do asceta Ferapont, que o mede para se afirmar, o pão com alfinete que um menino atira a um cão, e as migalhas que o mesmo menino, morto, pede para os pardais. O pão que compra, o pão que fere e o pão que se dá, e entre eles as pedras, que num lado são o cenário da tentação e no outro o lugar do menino.
Onde aparece
No capítulo I do Livro IV, o padre Ferapont, grande jejuador e adversário do stáriets, come só duas libras de pão em três dias, trazidas pelo apicultor que mora com ele. Quando um monge elogia o rigor dele, que passa a pão e água o ano todo, até na Páscoa, Ferapont diz que sairia do pão dos outros sem precisar dele, comendo cogumelos e frutas no bosque, e que os que ficam no mosteiro estão presos ao seu pão, e portanto ao demônio. O pão é aí medida de orgulho espiritual.
No capítulo V do Livro V, o Inquisidor diz a Cristo que a primeira pergunta do espírito do deserto reunia a história humana, e a reconstitui. Começa pela liberdade, que nada foi mais insuportável.
ничего и никогда не было для человека и для человеческого общества невыносимее свободы!, nada, em tempo algum, foi para o homem e para a sociedade humana mais insuportável do que a liberdade!
Em seguida vem a oferta, que ele conta como proposta do tentador, e que Cristo recusou.
Обрати их в хлебы, и за тобой побежит человечество как стадо, благодарное и послушное, transforme-as em pães, e atrás de você correrá a humanidade como um rebanho, grato e dócil.
O Inquisidor acrescenta que o pão, sozinho, não basta: o homem precisa de uma razão para viver mais do que de comida.
Без твердого представления себе, для чего ему жить, человек не согласится жить и скорей истребит себя, чем останется на земле, хотя бы кругом его всё были хлебы., sem uma firme representação de para que viver, o homem não consentirá em viver e antes se exterminará do que ficará na terra, ainda que em volta dele só houvesse pães.
No capítulo IV do Livro X, Kólia conta a Aliócha o que Iliúcha fez: instruído por Smierdiakóv, o criado do velho Karamázov, espetou um alfinete num miolo de pão e o atirou a um cão de quintal, Júchka, que o engoliu, ganiu e fugiu. É a mesma matéria do pão do Inquisidor, desta vez posta ao serviço de uma piada cruel, e por ela Iliúcha se crê assassino do cão e adoece de remorso. Kólia só vai dizer, no capítulo V, que a cadela não engolira o pão e apenas picara a língua.
No capítulo V do Livro XII, Ivan, no tribunal, acusando a sala de desejar a morte do pai, devolve a fórmula antiga ao público.
Убили отца, а притворяются, что испугались, — проскрежетал он с яростным презрением. [...] Друг пред другом кривляются. Лгуны! Все желают смерти отца. Один гад съедает другую гадину… Не будь отцеубийства — все бы они рассердились и разошлись злые… Зрелищ! «Хлеба и зрелищ!», mataram o pai e fingem que se assustaram, rangeu ele, com furioso desprezo [...] Fazem caretas uns para os outros. Mentirosos! Todos desejam a morte do pai. Um réptil devora o outro... Se não houvesse parricídio, todos ficariam zangados e iriam embora de mau humor... Espetáculos! "Pão e espetáculos!"
No capítulo III do Epílogo, a caminho da igreja, o capitão Snieguiriov se apavora com o que esqueceu: a casquinha de pão que o filho mandou esmigalhar na cova.
Папочка, когда засыплют мою могилку, покроши на ней корочку хлебца, чтоб воробушки прилетали, я услышу, что они прилетели, и мне весело будет, что я не один лежу, papaizinho, quando cobrirem a minha sepultura, esmigalhe nela uma casquinha de pão, para os pardais virem; vou ouvir que vieram, e vai ser alegre eu saber que não estou deitado sozinho.
Na cova, quando lhe lembram, ele esmigalha o pão murmurando que venham os passarinhos. Na volta, Smúrov, chorando, apanha um caco de tijolo e o lança, sem acertar, num bando de pardais.
O que significa
O pão do poema é uma moeda de poder: quem dá o pão recebe a liberdade, e o Inquisidor se orgulha de ter feito a troca em nome da felicidade dos fracos. Ferapont lhe dá outro sentido, o de recusa, mas por orgulho, e sua austeridade se mede contra os outros. O pão com alfinete mostra o que sucede quando um gesto de dar é usado para ferir, e deixa a marca no menino que o fez. As migalhas de Iliúcha são o oposto de cada uma: não compram obediência, não afirmam jejum, não escondem alfinete, e destinam-se a quem nada pode devolver, os pardais, para que o menino, na cova, ouça que não está só.
Duas leituras. Numa, o Epílogo responde ao Inquisidor com um pão sem cálculo: o que o velho acha impossível, um dom que não prende, cabe na mão de um menino pobre e no pedido de uma criança doente, e o gesto do capitão ao esmigalhá-lo, entre lágrimas, é o contrário da fome comprada. Na outra, a resposta é pequena demais para o poema: o pão dos pardais não alimenta ninguém, e o lance de Smúrov, que atira o tijolo no mesmo bando, mostra que a pedra continua ao alcance da mão de qualquer menino. O livro põe as duas coisas na mesma página, o pão e a pedra, e não escolhe, e o fato de a pedra do pedido de Iliúcha, a do capítulo VII do Livro X, ficar sem túmulo, enquanto o pão chega ao túmulo, faz pensar que pelo menos o pão se pode cumprir.
Relações
- Temas-padrão: Liberdade e opressão, Fé, Sofrimento.
- Temas da obra: Liberdade e opressão, Fé, Sofrimento.
- Personagens: Ivan Fiódorovitch Karamázov, Iliúcha Snieguiriov, Kólia Krassótkin, Smierdiakóv.
- Símbolos vizinhos: a pedra de Iliúcha, o outro pedido do mesmo menino, e o odor deletério, o milagre que o Inquisidor diz que a multidão exige.