Quem é
Iliúcha Snieguiriov é o filho de nove anos do capitão reformado Nikolai Ilitch Snieguiriov, um menino pálido, doentio, de olhos pretos faiscantes, de casaco velho do qual cresceu e sapato furado (capítulo III do Livro IV). Vive numa isbá atulhada com a mãe, Arina Petrovna, a irmã Varvara e a caçula Nina, corcunda e de pernas secas (capítulo VI do Livro IV). Na escola os colegas chamam o pai dele de esfregão, depois que Dmitri Fiódorovitch Karamázov o arrastou pela barba do botequim à praça, e Iliúcha, que viu tudo, passou a defendê-lo contra todos (capítulo VII do Livro IV). O que ele quer é proteger o pai e vingar a humilhação, e o que o consome depois é a culpa por ter atirado a um cão um pão com alfinete (capítulo IV do Livro X). Tísico, segundo Smúrov (capítulo III do Livro X), morre dois dias depois da sentença de Mítia (capítulo III do Epílogo). O traço que o define é o amor que não sabe falar senão em gesto: morde, apunhala, chora, pede.
Trajetória
No capítulo III do Livro IV está do outro lado da valeta, sozinho, com os bolsos cheios de pedras, contra seis colegas que atiram nele, e acerta uma em Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov quando os meninos gritam que é um Karamázov. Aliócha se põe na frente das pedras e vai falar com ele, e o menino o chama de monge de calças, lhe atira nas costas a maior pedra que tinha e, vendo que Aliócha não revida, pula em cima dele e lhe crava os dentes no dedo médio durante dez segundos. Aliócha pergunta em que é culpado diante dele, e o menino rompe em choro e foge sem responder.
No capítulo V do Livro IV Catierina Ivánovna conta a Aliócha a cena da praça, em que o filho do capitão corria ao lado chorando e pedindo a todos que o defendessem, e todos riam. No capítulo VI do Livro IV, deitado em febre atrás da cortina, Iliúcha grita ao pai que não se engane, que Aliócha veio se queixar, e foi ele quem lhe mordeu o dedo. Aliócha entende tudo: o menino é bom, ama o pai e se lançou sobre ele como sobre o irmão do ofensor.
No capítulo VII do Livro IV o pai conta o que se passou depois. Iliúcha se levantou sozinho contra os colegas, pela honra do pai e pela verdade, e nos passeios até a pedra grande no começo do pasto lhe pediu que não fizesse as pazes:
все-таки не мирись: я вырасту, я вызову его сам и убью его!, mesmo assim não faça as pazes: eu vou crescer, eu mesmo o desafio e o mato!
Quando o pai lhe falou de outra cidade, de um cavalo e de uma carroça, o menino se encantou, e depois, voltando da escola sombrio, enlaçou-lhe o pescoço junto à pedra e chorou:
Теплыми-то брызгами этими так вдруг и обмочил он мне всё лицо [...] Никто-то нас тогда не видел-с, бог один видел, com esses respingos mornos ele de repente me molhou o rosto inteiro [...] Ninguém nos viu então, só Deus viu.
Quando o pai pisoteia as cédulas de Catierina Ivánovna, é a ele que se refere, em lágrimas:
А что ж бы я моему мальчику-то сказал, если б у вас деньги за позор наш взял?, e o que eu diria ao meu menino, se tivesse tomado de vocês o dinheiro pela nossa vergonha?
Pelo que Kólia conta a Aliócha no capítulo IV do Livro X, Iliúcha, instruído por Smierdiakóv, espetara um alfinete num miolo de pão e o atirara a um cão de quintal, a Júchka, que o engoliu, ganiu e fugiu. Iliúcha confessou chorando, repetindo que ela corria e gania. Quando Kólia Krassótkin cortou o trato, Iliúcha disse que atiraria pão com alfinete a todos os cães, e quando os colegas se jogaram sobre ele por causa do esfregão cruzou o olhar de Kólia, que assistia, e o espetou com um canivete na coxa. Adoeceu delirando que matara Júchka e que Deus o castigava.
No capítulo V do Livro X está de cama havia duas semanas, junto ao canto dos ícones, e Aliócha reconciliou com ele os meninos um a um, sem ternuras de bezerro. Falta Kólia, e é a falta que mais pesa. Quando Kólia chega e assobia, Pérezvon entra nas patas traseiras:
Это… Жучка!, é... a Júchka!
No capítulo VII do Livro X, depois do prognóstico do médico, que só vê salvação no clima de Siracusa, agarra Kólia pela mão e abraça o pai e o amigo juntos. Pede ao pai o que o pai não pode dar:
Папа, не плачь… а как я умру, то возьми ты хорошего мальчика, другого… сам выбери из них из всех, хорошего, назови его Илюшей и люби его вместо меня…, papai, não chore... e quando eu morrer, pegue um bom menino, outro... escolha você mesmo, entre todos eles, um bom, chame-o de Iliúcha e ame-o no meu lugar...
E faz o pedido que o livro vai cumprir:
похорони ты меня у нашего большого камня, к которому мы с тобой гулять ходили, и ходи ко мне туда с Красоткиным, вечером… И Перезвон… А я буду вас ждать…, enterre-me junto da nossa pedra grande, onde íamos passear, e venha me ver lá com Krassótkin, à tardinha... E o Pérezvon... E eu estarei esperando por vocês...
O pai, longe do filho, em sussurro selvagem, responde que não quer outro menino:
Не хочу хорошего мальчика! Не хочу другого мальчика!, não quero um bom menino! Não quero outro menino!
No capítulo II do Livro XII, no tribunal, o capitão chega esfarrapado e bêbado e se recusa a descrever a humilhação, porque o filho moribundo lhe pediu que não o fizesse:
Бог с ними-с. Илюшечка не велел. Мне бог там заплатит-с. [...] Илюшечка, сыночек мой: «Папочка, папочка, как он тебя унизил!» У камушка произнес. Теперь помирает-с…, que Deus os guarde. Iliúchetchka não quis. Deus me pagará lá [...] Iliúchetchka, meu filhinho: "Papai, papai, como ele te humilhou!" Falou junto à pedrinha. Agora está morrendo...
No capítulo III do Epílogo Iliúcha morreu dois dias depois da sentença. Ao morrer, pediu aos amigos o que não conseguia pedir ao pai:
Папа плакать будет, будьте с папой, papai vai chorar, fiquem com papai.
No caixão azul de babados brancos, cheio de flores, o menino está de mãozinhas cruzadas. O pai quer enterrá-lo junto à pedra:
у камня похороню, у нашего камушка! Так Илюша велел., enterro junto da pedra, da nossa pedrinha! Foi assim que Iliúcha mandou.
Cede ao ouvir que no adro da igreja se escuta o canto, mas esmigalha sobre a cova o pão que o filho pediu:
Папочка, когда засыплют мою могилку, покроши на ней корочку хлебца, чтоб воробушки прилетали, я услышу, что они прилетели, и мне весело будет, что я не один лежу, papaizinho, quando cobrirem a minha sepultura, esmigalhe nela uma casquinha de pão, para os pardais virem; vou ouvir que vieram, e vai ser alegre eu saber que não estou deitado sozinho.
Temas que encarna
Iliúcha é o menino de verdade que sofre, no ponto onde o romance tira de Sofrimento a abstração da revolta de Ivan. O sofrimento dele tem pai, tem pedra e tem pão, e o que o livro mostra dele não é o horror dos jornais que Ivan coleciona, é a sequência de gestos de quem ama e não tem como proteger: morde o dedo de Aliócha, apunhala Kólia, pede ao pai que ame outro menino e o enterre junto à pedra. É também o menino que se atribui a morte de Júchka, e a culpa aparece no seu delírio como o oposto da inocência que Ivan reclama para as crianças (capítulo IV do Livro X); o tema é o de Culpa, vivida de baixo. O pedido de enterro, a pedra e o pão dos pardais ligam-no a pedra de Iliúcha e a pão e as pedras (capítulo VII do Livro X, capítulo III do Epílogo).
Cada gesto de Iliúcha é uma tentativa de proteger um pai que não pode ser protegido: reage à praça (capítulo VII do Livro IV), morde Aliócha tomando-o pelo irmão do ofensor (capítulo VI do Livro IV) e, ao morrer, pede aos amigos que fiquem com o pai (capítulo III do Epílogo). Com isso, Iliúcha organiza os outros em torno de uma ausência: Kólia, Aliócha, os meninos e o próprio pai ganham uma tarefa, a de guardar a pedra, e é essa tarefa que fecha o romance. O texto não diz que ele entende o que faz; mostra o que os gestos produzem.
Leituras divergentes
O livro põe em cena duas maneiras de ler o sofrimento de uma criança, e Iliúcha cabe nas duas. Ivan, em A Revolta, diz que as criancinhas ainda não comeram do fruto e que não têm culpa:
деточки ничего не съели и пока еще ни в чем не виновны, as criancinhas não comeram nada e ainda não são culpadas de coisa alguma.
Zossima, ao despedir-se dos monges, diz que cada um é culpado por todos:
каждый единый из нас виновен за всех и за вся на земле несомненно, не только по общей мировой вине, а единолично каждый за всех людей и за всякого человека на сей земле, cada um de nós é, sem dúvida, culpado por todos e por tudo na terra, não só pela culpa comum do mundo, mas cada um, sozinho, por todos os homens e por cada homem desta terra.
Pela leitura de Ivan, Iliúcha é o caso: uma criança humilhada, doente, que sofre sem ter feito o que o pune, e a morte dela não seria compensada por nenhuma harmonia futura. Pela leitura de Zossima, o menino se reconhece culpado, do cão e da humilhação que o pai sofreu (capítulo IV do Livro X), e o delírio mostra que a culpa de todos por todos pode caber no corpo de um menino. O romance não escolhe: o enterro (capítulo III do Epílogo) responde com um acordo entre meninos, e não com uma tese, e o pão para os pardais é uma resposta de outra natureza ao pão do Grande Inquisidor, que compra obediência.
Relações
- Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov: o adulto que ele morde (capítulo III do Livro IV), que o reconcilia com os colegas (capítulo V do Livro X) e que fala junto à pedra (capítulo III do Epílogo).
- Kólia Krassótkin: o único amigo e protetor, que ele esfaqueou, que o abandona e que volta com Pérezvon (capítulo IV do Livro X, capítulo V do Livro X).
- Smierdiakóv: o criado que lhe ensina a esconder o alfinete no pão (capítulo IV do Livro X).
- Dmitri Fiódorovitch Karamázov: o ofensor do pai, cuja humilhação ele viu da praça (capítulo VII do Livro IV).
- Catierina Ivánovna: a noiva de Mítia que manda os duzentos rublos, paga o médico de Moscou e a cova no adro (capítulo V do Livro IV, capítulo V do Livro X, capítulo III do Epílogo).
- Lise Khokhlakova: a menina que chora ao ouvir a história dele de Aliócha (capítulo I do Livro V) e manda flores ao caixão (capítulo III do Epílogo).