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Personagem

Kólia Krassótkin

Quem é

Kólia Krassótkin é um menino de treze anos, quase catorze, filho de uma viúva de funcionário, Anna Fiódorovna, que se dedicou inteira a ele desde os dezoito anos e a quem ele aprendeu a mandar quase como um déspota (capítulo I do Livro X). É pequeno e forte, estudioso, atrevido, e tem fama de valente e de desesperado: no verão, para ser contado como igual entre meninos de doze a quinze anos, apostou dois rublos que se deitaria de bruços entre os trilhos com o trem das onze por cima (capítulo I do Livro X). Aparece de relance no capítulo III do Livro IV, como o colega que Iliúcha Snieguiriov feriu com um canivete na coxa, e o Livro X inteiro lhe é dedicado. É o único amigo e protetor de Iliúcha na escola, a quem abandonou por orgulho semanas antes e a quem só volta a ver quando o menino está morrendo (capítulo IV do Livro X). O traço que o define é o medo de parecer pequeno: mede-se na parede de casa, evita ser interrogado sobre a idade e cobre com ideias de adulto, ouvidas e não examinadas, o que ainda não sabe sentir (capítulo VI do Livro X).

Trajetória

No capítulo I do Livro X o narrador o apresenta numa manhã gelada de começo de novembro, e a mãe, que de tanto cercar os professores para que não o maltratassem o fez ser chamado de filhinho da mamãe, serve de chave ao resto. O narrador afasta o engano dela numa frase:

Мать ошибалась: маму свою он очень любил, а не любил только «телячьих нежностей», как выражался он на своем школьническом языке, a mãe se enganava: ele amava muito a mãe e só não gostava das ternuras de bezerro, como dizia na língua de colégio.
Livro X: Morte de Iliúcha

Na ocasião mais famosa, a dos trilhos, o motivo vem em duas versões que o narrador deixa valer:

Коля, почти изо всех младший, а потому несколько презираемый старшими, из самолюбия или из беспардонной отваги, предложил, что он, ночью, когда придет одиннадцатичасовой поезд, ляжет между рельсами ничком, Kólia, o mais novo de quase todos e por isso um tanto desprezado pelos mais velhos, propôs, por amor-próprio ou por ousadia sem freio, que na noite do trem das onze se deitaria de bruços entre os trilhos.
Livro X: Morte de Iliúcha

O capítulo conta ainda que perguntou a Dardanelov, professor apaixonado pela viúva, quem fundou Troia, e que já sabia a resposta, tirada de Smaragdov na estante do pai, e a guardava como segredo. Tem há um mês um cão felpudo e sarnento, Pérezvon, que treina às escondidas.

No capítulo II do Livro X fica de guarda dos dois filhos da inquilina, Kóstia e Nástia, e rebate a gozação dos colegas, que o chamam de cavalinho dos pequenos:

что он делает это для «пузырей», потому что их любит, а в чувствах его никто не смеет у него спрашивать отчета, que fazia aquilo pelos pequenos, porque gostava deles, e que ninguém tinha o direito de lhe pedir contas dos seus sentimentos.
Livro X: Morte de Iliúcha

No capítulo III do Livro X encontra Smúrov na esquina e dá-lhe lições de espírito livre: diz que é socialista, repetindo uma ideia do seminarista Rakítin, mente a um mujique que na escola se apanha e inventa uma charada para ver as vendedoras brigarem. Quando Smúrov nomeia o que ele vai fazer, fazer as pazes com Iliúcha, ele recusa a expressão:

Мириться? Смешное выражение. Я, впрочем, никому не позволяю анализировать мои поступки, fazer as pazes? Expressão ridícula. Aliás, não permito a ninguém que analise os meus atos.
Livro X: Morte de Iliúcha

No capítulo IV do Livro X, encostado na cerca da casa do capitão, conta a Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov como cortou o trato com Iliúcha. Soube que o menino, instruído por Smierdiakóv, espetara um alfinete num miolo de pão e o atirara a um cão de quintal, a Júchka, e, para endurecê-lo, fingiu uma indignação maior do que sentia:

чем он нежнее, тем становлюсь еще хладнокровнее, нарочно так поступаю, таково мое убеждение, quanto mais terno ele é, mais frio eu me torno, faço isso de propósito, é a minha convicção.
Livro X: Morte de Iliúcha

Veio depois a humilhação do pai de Iliúcha, chamado de esfregão pelos colegas; Kólia viu de dez passos, quase interveio e levou o canivete na coxa sem se mexer. Não contou a ninguém e, quando Iliúcha adoeceu, não foi perdoá-lo porque tinha, diz, intenções particulares.

No capítulo V do Livro X volta ao amigo moribundo com Pérezvon, que é a Júchka perdida, achada por ele pelos sinais que Iliúcha lhe descrevera, e a cena junta o que ele tem de mais verdadeiro e de mais exibido. Aliócha lhe pergunta, com reprovação, se foi só para adestrar o cão que ficou semanas sem aparecer:

Я хотел показать его во всем блеске!, queria mostrá-lo em todo o seu esplendor!
Livro X: Morte de Iliúcha

Na mesma cena conta a história do ganso, em que levou um rapaz a mover a carroça sobre o pescoço da ave e, diante do juiz de paz, se defendeu como quem só lança a ideia:

я только выразил основную мысль и говорил лишь в проекте, eu apenas expus a ideia fundamental e só falei em projeto.
Livro X: Morte de Iliúcha

No capítulo VI do Livro X, a sós com Aliócha no vestíbulo, despeja o que ensaiou: a medicina é uma safadeza, Deus é uma hipótese necessária para a ordem do mundo, Cristo se juntaria aos revolucionários.

бог есть только гипотеза… но… я признаю, что он нужен, для порядка… для мирового порядка и так далее… и если б его не было, то надо бы его выдумать, Deus é apenas uma hipótese... mas... reconheço que ele é necessário, para a ordem... para a ordem do mundo e assim por diante... e se ele não existisse, seria preciso inventá-lo.
Livro X: Morte de Iliúcha
я не против Христа. Это была вполне гуманная личность, и живи он в наше время, он бы прямо примкнул к революционерам и, может быть, играл бы видную роль… Это даже непременно, não sou contra Cristo. Era uma personalidade plenamente humana e, vivendo hoje, se juntaria direto aos revolucionários e talvez tivesse um papel de destaque... Isso até é certo.
Livro X: Morte de Iliúcha

Aliócha pergunta com que tolo ele andou, e o nome que vem é o de Rakítin, e a atribuição a Bielínski, que Kólia não leu direito. Kólia pergunta de repente se Aliócha o despreza; Aliócha responde que só lhe dói ver uma natureza encantadora já pervertida por tanta grosseria, e o menino confessa o mecanismo:

О Карамазов, я глубоко несчастен. Я воображаю иногда бог знает что, что надо мной все смеются, весь мир, и я тогда, я просто готов тогда уничтожить весь порядок вещей, ó Karamázov, sou profundamente infeliz. Às vezes imagino sabe-se lá o quê, que todos riem de mim, o mundo inteiro, e então fico pronto para destruir toda a ordem das coisas.
Livro X: Morte de Iliúcha

Aliócha dá ao mal o nome de amor-próprio, sem rir, e Kólia, comovido, diz que a conversa deles parece uma declaração de amor e pergunta se é ridículo:

Знаете, Карамазов, наше объяснение похоже на объяснение в любви, — каким-то расслабленным и стыдливым голосом проговорил Коля. — Это не смешно, не смешно?, sabe, Karamázov, a nossa conversa parece uma declaração de amor [...] Não é ridículo, não é?
Livro X: Morte de Iliúcha

No capítulo VII do Livro X insulta o médico de Moscou, chamando-o de curandeiro, em nome de Iliúcha e do capitão humilhados, e só se detém quando Aliócha ameaça romper com ele:

Лекарь, есть только одно существо в целом мире, которое может приказывать Николаю Красоткину, это вот этот человек [...] ему повинуюсь, curandeiro, só existe um ser em todo o mundo que pode dar ordens a Nikolai Krassótkin, e é este homem [...] a ele eu obedeço.
Livro X: Morte de Iliúcha

No mesmo capítulo fica ao lado de Iliúcha quando o menino pede ao pai que o enterre junto da pedra e que venha vê-lo lá com Kólia e com Pérezvon, e foge para a rua chorando sem se importar mais.

No capítulo III do Epílogo, à frente de uns doze meninos ao portão, faz a Aliócha a pergunta que o consome há quatro noites: Mítia é inocente. Diz que o invejaria se ele perecesse como vítima inocente da verdade e que queria morrer por toda a humanidade. Junto à pedra de Iliúcha, depois do discurso de Aliócha sobre a boa lembrança, pergunta, sem pose:

неужели и взаправду религия говорит, что мы все встанем из мертвых, и оживем, и увидим опять друг друга, и всех, и Илюшечку?, será mesmo verdade que a religião diz que todos nós nos levantaremos dos mortos, reviveremos e nos veremos de novo uns aos outros, e a todos, e a Iliúchetchka?
Epílogo: O enterro de Iliúcha

E é ele quem fecha o romance com o grito dos meninos:

И вечно так, всю жизнь рука в руку! Ура Карамазову!, e que seja sempre assim, a vida inteira, mão na mão! Hurra para Karamázov!
Epílogo: O enterro de Iliúcha

Temas que encarna

Kólia é o caso de uma Razão de segunda mão: Deus como hipótese, socialismo, Voltaire e Bielínski lhe servem de armadura contra o medo de ser ridículo (capítulo VI do Livro X), e a mesma armadura o faz maltratar quem ama, porque o leva a deixar Iliúcha semanas na dor para ter uma volta gloriosa (capítulo V do Livro X), a insultar o médico num gesto que se lê como lealdade a Iliúcha e como pose de defensor (capítulo VII do Livro X) e a treinar o cão em vez de visitar o amigo (capítulo V do Livro X). O livro o põe ao lado de Sofrimento de verdade, o do menino que morre e o do capitão, e deixa a distância à vista.

O que Kólia quer é plateia, e o que teme é a plateia rir. A cena do cão mostra os dois lados: o amor por Iliúcha é real e o efeito é verdadeiro, o menino grita de felicidade, mas Kólia só chega a ele pelo espetáculo e não vê o que as semanas de espera custaram (capítulo V do Livro X). Aliócha não rebate nenhuma tese dele; trata-o de igual e deixa a confissão sair, e é esse tratamento que o desarma (capítulo VI do Livro X). A obediência que Kólia declara a ele no capítulo VII do Livro X é o primeiro momento em que aceita ser comandado, coisa que a mãe nunca obteve (capítulo I do Livro X).

Leituras divergentes

O livro põe em cena duas leituras de Kólia, e nenhuma é desmentida. Aliócha o lê como uma natureza encantadora cuja doença é o amor-próprio, que se enfiou numa geração inteira:

В это самолюбие воплотился черт и залез во всё поколение, именно черт, nesse amor-próprio encarnou-se o diabo, que se enfiou em toda a geração, o diabo mesmo.
Livro X: Morte de Iliúcha

O próprio Kólia, na confissão do capítulo VI do Livro X, se lê como alguém que imagina o mundo rindo dele e ficaria pronto a destruir a ordem das coisas.

Pela primeira, o que Kólia faz de ruim, o ganso, o cão, o médico, é sintoma de uma doença comum, e o que aprende com Aliócha o cura, ou começa a curar: a pergunta sem pose junto à pedra seria o resultado (capítulo III do Epílogo). Pela segunda, a defesa do ganso, a de quem lança a tese e recusa o efeito (capítulo V do Livro X), é a que Ivan terá diante de Smierdiakóv (capítulo VIII do Livro XI), e a destruição que Kólia imagina na confissão só ainda não tem o poder do ganso para crescer. A favor da primeira, o Epílogo mostra uma pergunta que ele não faria no Livro X. A favor da segunda, no mesmo Epílogo ele ainda diz que queria morrer por toda a humanidade e que pereçam os nossos nomes, e Aliócha se espanta com tanta vergonha.

Relações