Clavis Libri

Símbolo

A cebola

O que é

A cebola é uma fábula popular que Grúchenka conta a Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov no dia em que o corpo do stáriets começa a cheirar, e que ela ouvira na infância da cozinheira Matriona: uma mulher malvada morre sem nenhuma virtude além de uma cebola arrancada na horta e dada a uma mendiga, e o anjo da guarda estende essa cebola ao lago de fogo para puxá-la para fora. Os outros pecadores se agarram a ela, a mulher os escoiceia por achar que a cebola é só sua, e a cebola arrebenta. A fábula acaba mal, mas o livro não a deixa parar aí: a palavra passa de Grúchenka a Aliócha, de Aliócha ao sonho em que Stáriets Zossima a devolve como razão de estar na festa, e volta à boca de Grúchenka na noite de Mókroie. É a medida de bondade do romance: um gesto mínimo, sem cálculo, que não prova virtude e ainda assim pesa.

Onde aparece

No capítulo III do Livro VII, Rakítin leva Aliócha à casa de Grúchenka atrás de dois ganhos, os vinte e cinco rublos que ela lhe prometera por trazê-lo e a queda do justo. Ela espera, de seda preta, o recado do oficial que a abandonou há cinco anos, e planejava devorar o rapaz. A cena sai do roteiro quando Rakítin conta que o stáriets morreu: ela salta do colo de Aliócha e se benze, e ele, em vez de a julgar, lhe diz o que acaba de achar.

нашел сестру искреннюю, нашел сокровище — душу любящую… [...] Ты мою душу сейчас восстановила., encontrei uma irmã sincera, encontrei um tesouro, uma alma que ama… [...] Você restaurou a minha alma agora mesmo.

Grúchenka manda os dois calarem, diz que é má e que ainda assim deu uma cebola, e conta a fábula a Aliócha, e não a Rakítin.

Жила-была одна баба злющая-презлющая и померла. И не осталось после нее ни одной добродетели. Схватили ее черти и кинули в огненное озеро. А ангел-хранитель ее стоит да и думает: какую бы мне такую добродетель ее припомнить, чтобы богу сказать. Вспомнил и говорит богу: она, говорит, в огороде луковку выдернула и нищенке подала. И отвечает ему бог: возьми ж ты, говорит, эту самую луковку, протяни ей в озеро, пусть ухватится и тянется, и коли вытянешь ее вон из озера, то пусть в рай идет, а оборвется луковка, то там и оставаться бабе, где теперь. Побежал ангел к бабе, протянул ей луковку: на, говорит, баба, схватись и тянись. И стал он ее осторожно тянуть и уж всю было вытянул, да грешники прочие в озере, как увидали, что ее тянут вон, и стали все за нее хвататься, чтоб и их вместе с нею вытянули. А баба-то была злющая-презлющая, и почала она их ногами брыкать: „Меня тянут, а не вас, моя луковка, а не ваша“. Только что она это выговорила, луковка-то и порвалась. И упала баба в озеро и горит по сей день. А ангел заплакал и отошел, Era uma vez uma mulher malvada, malvadíssima, e ela morreu. E não ficou dela nenhuma virtude. Os diabos a agarraram e a jogaram no lago de fogo. E o anjo da guarda dela ali parado, pensando: que virtude dela eu poderia lembrar, para dizer a Deus? Lembrou-se e diz a Deus: ela, diz, arrancou uma cebola na horta e deu a uma mendiga. E Deus lhe responde: pega, diz, essa mesma cebola, estende-a a ela no lago, que se agarre e se puxe; e se a tirares de lá, que vá para o paraíso, mas se a cebola arrebentar, que a mulher fique onde está agora. O anjo correu até a mulher, estendeu-lhe a cebola: toma, diz, mulher, agarra e puxa. E começou a puxá-la com cuidado e já a tinha quase toda fora, mas os outros pecadores no lago, quando viram que a puxavam para fora, agarraram-se todos a ela, para que os tirassem junto. E a mulher era malvada, malvadíssima, e pôs-se a escoiceá-los: «Estão puxando a mim, e não a vocês, minha cebola, não a de vocês». Mal ela disse isso, a cebola arrebentou. E a mulher caiu no lago e queima até hoje. E o anjo chorou e foi embora.

Ela a volta contra si: a mulher que escoiceia os outros para ficar com a cebola é ela. Em seguida faz a Aliócha a confissão inteira do plano que o olhar dele desfez.

Хотела я тебя погубить, Алеша, правда это великая, совсем положила [...] Но на тебя глядя, положила: его проглочу. Проглочу и смеяться буду., Queria te destruir, Aliócha, é uma grande verdade, estava decidida [...] Mas, olhando para você, decidi: vou devorá-lo. Devoro e depois rio.

Quando ela lhe pergunta o que fez por ela, Aliócha responde com a palavra dela, chorando.

луковку я тебе подал, одну самую малую луковку, только, только!.., uma cebola, foi o que eu te dei, uma só, a menor de todas, só isso, só isso!..

No capítulo IV do Livro VII, de volta ao caixão, Aliócha adormece ouvindo o Evangelho de Caná e vê Zossima na festa, pequeno e rindo, que o chama à mesa com a palavra de Grúchenka.

Я луковку подал, вот и я здесь. И многие здесь только по луковке подали, по одной только маленькой луковке…, Dei uma cebola, e aqui estou. E muitos aqui deram só uma cebola, uma só, pequena…
Livro VII: Aliócha

O mestre continua, e faz da cebola uma tarefa.

И ты, тихий, и ты, кроткий мой мальчик, и ты сегодня луковку сумел подать алчущей. Начинай, милый, начинай, кроткий, дело свое!.., E você, meu rapaz calado, manso, também soube hoje dar uma cebola a uma faminta. Comece, querido, comece, manso, a sua obra!..
Livro VII: Aliócha

No capítulo VIII do Livro VIII, em Mókroie, já embriagada na festa, Grúchenka diz a Dmitri Fiódorovitch Karamázov que um dia irá para o mosteiro, porque Aliócha lhe disse naquele dia uma palavra para a vida inteira, e que hoje quer dançar. Volta à cebola sem precisar contá-la de novo.

Я луковку подала. Злодейке такой, как я, молиться хочется!, Eu dei uma cebola. Uma malfeitora como eu também sente vontade de rezar!

O que significa

A fábula mede o que salva pelo piso: não pede santidade, pede um gesto, e a escassez do gesto é o ponto. Na boca de Grúchenka serve para se condenar, porque a mulher é ela, que tem uma cebola só e a defende a pontapés. Na de Aliócha serve para recusar o mérito: ele deu a menor de todas, e só. Na de Zossima serve para tirar de quem ouve o peso de merecer: na festa de Caná todos deram uma cebola. A imagem é a mesma e muda de efeito conforme quem a diz e a quem, condenação num caso e convite no outro, e o que a fábula tem de duro, o fecho em que a mulher grita «minha cebola, não a de vocês», nunca é desmentido.

Duas leituras da fábula, e o texto sustenta as duas. Numa, a cebola arrebenta porque a mulher a retém, e o gesto de Aliócha, que dá sem reter nada e sem esperar salvação, é a cebola que não rompe: Grúchenka se levanta justamente por não ter sido cobrada. Na outra, a cebola é só o piso, e a fábula termina no pior ponto, com o anjo chorando e indo embora, sem que o sonho de Zossima diga se a mulher foi salva. Em Mókroie, no capítulo VIII do Livro VIII, Grúchenka volta à cebola como quem ainda não sabe em qual das duas está: diz que deu uma, pede para rezar e, logo depois, pergunta a todos por que é tão boa, sem esperar resposta.

Relações