Clavis Libri

Símbolo

O odor deletério

O que é

O mau cheiro de decomposição que sobe do caixão de Stáriets Zossima antes das três da tarde do dia seguinte à sua morte, cedo demais para o que o mosteiro esperava de um santo. Em si, é o cheiro natural de qualquer cadáver, e o narrador lembra que outros stáriets justos já tinham morrido e exalado o mesmo sem que ninguém se abalasse. Com Zossima vira sinal, porque o mosteiro guardava a tradição de dois antigos stáriets dados por incorruptos e porque ele fora amado e odiado em vida por razões que o cheiro agora autoriza a dizer. O símbolo funciona como teste: o que cada um fez do cheiro mostra o que esperava do morto.

Onde aparece

No capítulo I do Livro VII, o corpo é exposto para a leitura do Evangelho, com fiéis chegando em multidão, alguns com crianças doentes nos braços, à espera da cura. Quando o cheiro aparece, o narrador cita o que o próprio Zossima dissera da cidade que se virou contra ele no capítulo II do Livro VI, depois da morte do visitante misterioso.

«любят люди падение праведного и позор его», as pessoas amam a queda do justo e a sua desonra.

Os monges trazem o argumento que lhes parece irrefutável: o cheiro veio antes da hora natural, e a hora errada seria o dedo de Deus.

«этот естество предупредил», стало быть, тут никто как бог и нарочитый перст его. Указать хотел., «este se adiantou à natureza», logo aí não há ninguém senão Deus e o seu dedo posto de propósito. Quis mostrar.

O padre Iósif objeta que a incorruptibilidade não é dogma, e ninguém o ouve. Entra então o padre Ferapont, tolerado no mosteiro como louco de Deus, que odiava o morto, e benze as paredes.

Извергая извергну!, Expulsando, expulsarei!

O padre Paíssi lhe responde que não são os homens que julgam.

не человеки судят, а бог. Может, здесь «указание» видим такое, коего не в силах понять ни ты, ни я и никто., não são os homens que julgam, é Deus. Talvez estejamos vendo aqui um «sinal» que nem você, nem eu, nem ninguém tem força de compreender.
Livro VII: Aliócha

Ao sair, Ferapont se joga por terra diante do poente, e a multidão o aclama como o próximo stáriets.

Мой господь победил! Христос победил заходящу солнцу!, Meu Senhor venceu! Cristo venceu o sol poente!

No fim do capítulo, Paíssi cruza com Aliócha, que sai do eremitério sem pedir a bênção.

Или и ты соблазнился? [...] да неужто же и ты с маловерными!, Será que você também se deixou seduzir? [...] Será que também você está com os de pouca fé!

No capítulo II do Livro VII, o narrador explica a ferida de Aliócha, e Rakítin, que não vê mais que o cheiro, pergunta se é só porque o velho dele fedeu que ele se zanga com Deus.

Но не чудес опять-таки ему нужно было, а лишь «высшей справедливости», которая была, по верованию его, нарушена и чем так жестоко и внезапно было поранено сердце его., Mas não era de milagres, outra vez, que ele precisava, e sim apenas da «justiça suprema», que fora, a seu ver, violada, e com isso o seu coração foi ferido tão cruel e subitamente.
Livro VII: Aliócha

A resposta que Aliócha dá a Rakítin tira o cheiro do centro: o que ele recusa é o mundo, e não o Deus.

Я против бога моего не бунтуюсь, я только «мира его не принимаю», Não me rebelo contra o meu Deus, apenas «não aceito o mundo dele».
Livro VII: Aliócha

No capítulo IV do Livro VII, de volta à cela, com uma janela aberta e o ar fresco, Aliócha já não sente a pena chorosa da manhã e a ideia do cheiro não o inquieta. O corpo segue no caixão, e a mudança está só em quem o olha.

«Кто-то посетил мою душу в тот час», «Alguém visitou a minha alma naquela hora».
Livro VII: Aliócha

O que significa

O cheiro não prova nada, nem contra nem a favor da santidade de Zossima, e o capítulo é construído para que ninguém consiga tratá-lo como irrelevante. Para os monges inimigos do starietsvo é um veredito, e a alegria deles mostra a inveja que o santo despertava. Para os devotos que o amavam é um escândalo, e a pressa com que se calam mostra que a fé deles dependia de um sinal. Para Ferapont é uma consagração às avessas, que o põe no lugar do morto. O padre Paíssi recusa as duas leituras, e ele mesmo confessou a si que esperava um milagre.

O símbolo mostra o que o mosteiro e Aliócha esperavam de Zossima, e por isso a decomposição cumpre no livro o papel que o milagre cumpriria. Duas leituras. Numa, o cheiro é o fato banal que desmascara a fé de quem exigia prova, e Aliócha aprende no capítulo IV do Livro VII uma fé que dura sem ela. Na outra, é uma provação deixada de propósito, o «sinal» que Paíssi diz que ninguém tem força de compreender, e o sonho de Caná seria a resposta sem prova. O texto não decide. O fedor tem ainda outro endereço no livro: o sobrenome de Smierdiakóv vem do apelido da mãe, Lisavieta Smierdiáchtchaia, a Fedorenta, que Fiódor Pávlovitch lhe dá no capítulo II do Livro III.

Relações